Trecho XV – Tread softly (Sarabande)
Novembro 15, 2009
Neste mundo,
quando não nos queremos mal,
amamo-nos todos
Italo Svevo
– Nossa! A Noviça Rebelde está de volta!
Mesmo de costas para a porta de entrada, reconheci o sarcasmo endereçado a mim na voz rouca de Ralph recém-chegado, e observei a formação mental que me impedia de esperar qualquer gentileza sua aumentando um tanto mais, no que julguei ser outra grosseria da parte dele… Mas com Theo a meu lado, sentia-me fortalecido, e a exclamação com que me saudava depois de mais de um ano sem ver-me não me melindrou.
Theo havia voltado a ligar, perguntando se poderia ver-me àquela noite, tendo se dado conta de que eu iria trabalhar no dia seguinte e um simples telefonema não era agradecimento suficiente por meu cuidado e acolhida – Fico feliz se puder te dar um abraço – então combinei de encontra-lo quando ele chegasse ao prédio de Aquiles, o que seria minha deixa para ir-me embora da festa espontânea onde me encontrara como numa câmara de tortura – mas ao contrário, Aquiles insistiu para que Theo subisse quando este tocou o interfone avisando-me para descer. Só ao deparar-se com Theo percebi o quanto Aquiles estava com a vista realmente reduzida, pois como um cego aproximou-se tanto do rosto do rapaz que parecia ia lambe-lo, e depois pediu permissão para tateá-lo, meu jovem amigo rendendo-se com boa vontade e gentileza a nosso anfitrião, que afinal e surpreendentemente sussurrou – Meus queridos… Enxergar tão pouco neste mundo atualmente tão feio tem sido uma benção, mas às vezes ainda me ocorre de lamentar por ter perdido a vista, como agora… – não esperava tamanha sinceridade de Aquiles, dirigida somente a mim e meu jovem amigo, mas depois voltando-se para todos os presentes — Antínoo renasceu, e está entre nós! – ao anúncio retumbante, Theo fez sua entrada triunfal nos braços de Aquiles em nossa reunião de domingo. Permaneceu sempre ao meu lado. Lembrei-me da igreja, e de novo senti que ele parecia não se importar com todos os olhares voltados na sua direção, ainda que o alvejassem com uma confusão de energias, avidez, lascívia, curiosidade, talvez inveja, uma boa dose de agressividade, desconfiança – Theo parecia encapado e protegido, muito centrado e certo de si mesmo nessas ocasiões. Como ele me diria depois, percebia que as pessoas o olhavam com uma carga emocional e de julgamento tão grande, mas sem ultrapassarem sua superfície e aparência, que ele se sentia afinal invisível, intangível, inviolável, sereno e secreto no olho do furacão.
– Como você está? – retruquei a Ralph, que estava lá para nos desafiar e testar, o antepenúltimo conviva a chegar do total de doze homens que perfariam aquela reunião. Tentei ser educado sem parecer condescendente, seco sem ser brusco, mas os olhos de Ralph já tinham recaído sobre Theo, e sem poder com palavras ou outros sinais precaver daquilo que certamente se abateria sobre o meu jovem amigo, dei-lhe um inacreditável e intencionalmente dolorido beliscão, que então olhou-me completamente surpreso, bufando, murchando a meio caminho o sorriso encantador e inocente que ia desfechar desavisado sobre Ralph, enquanto ouvia:
– Me Jane… – Ralph estendeu a mão para Theo beijar, com a atitude de uma drag queen que imitasse a rainha da Inglaterra — You Tarzan. Mas também posso ser o Boy… O que você quiser! – Senti Theo rapidamente retesar-se a meu lado, passando da postura relaxada, aberta e delicada que normalmente tinha, como se o mundo lhe sorrisse sempre, para estar em guarda, como eu tinha pretendido com o beliscão. Talvez com isso tenha tirado a Theo suas melhores armas, a imensa doçura, sinceridade de atenção e perfeita educação que desarmavam qualquer um, quem sabe até Ralph, que no entanto viu-se diante de uma banca examinadora hostil e procurou esmerar-se em sua ironia – A medalha de ouro olímpica é sua, né? – dirigia-se a mim, com perspicácia e muita propriedade criticando minha longa e conhecida carreira de pavão branco e consumidor exibicionista de belos homens e mulheres, enquanto ao mesmo tempo menosprezava Theo, em sua exímia maldade – É o que as garotas bem comportadas recebem lá no convento? Oh! A Erin Brockovich também veio! – exclamou, afastando-se na direção de Helio, que devia levar essa pecha por ser presidente de uma ONG.
Não tive tempo de conversar com Theo para justificar meu beliscão, pois o celular dele tocou e vi-o afastar-se para o canto escuro e vazio do terraço, falando em Italiano. Abençoei Fedora pelo timing perfeito. Fiquei algum tempo no bardo da falta de companhia e assunto, tendo perdido Theo e virando-me para o grupo mais próximo, sem na verdade querer participar da conversa sobre os diversos filmes assistidos naquele final de semana, nenhum deles digno de receber mais de um ou dois minutos de comentários, somente observando meu amigo ao telefone, para quem me encaminhei quando o vi desligar.

Theo voltara-se para a noite, dando as costas à festa improvisada. Aproximei-me dele com um arrepio de prazer, confesso, vendo-o vestido com minhas roupas. Encostado à grade, ele tinha fechado os olhos, e decidi fazer o mesmo, imobilizando-me a seu lado, retornando à minha respiração. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Era sempre bom, como era bom! Prestei atenção à batida do meu coração, que foi desacelerando, aos pensamentos e emoções em ebulição arrefecendo – mas não fui muito longe, e comecei a rir quando senti Theo retribuir-me o beliscão.
– Por que você fez isso? – ele ria também. Expliquei minha intenção, ao que Theo perguntou – O seu amigo é sempre assim?
Sai-me com um horrendo – Coitado… — e ao invés de tentar esclarecer que, com exceção de Aquiles ninguém mais ali era meu amigo, embora conhecesse a maioria há muitos anos, contei-lhe de uma ocasião lá no mosteiro, poucos dias antes da minha partida, quando ao entrar numa sala, um monge conhecido meu, coordenador de trabalho à época, tinha caminhado na minha direção, mirando-me nos olhos, e desferido um tapa tão forte no meu ombro que quase perdi o equilíbrio. Não mais o vi depois disso, e nunca pude esclarecer sua intenção, mas pareceu-me que com aquele tapa ele colocou-me numa postura alerta e defensiva para o que iria em seguida ocorrer – os monges seniores estavam reunidos naquela sala, e passaram a criticar-me duramente por não ter dado conta de atribuições que sequer sabia serem minhas, no tempo em que eu fizera parte do chamado Guest Team, do qual era já o último remanescente, também eu de partida. Não posso afirmar que o monge coordenador do trabalho, tendo antes sido duramente criticado por minhas supostas faltas, desse-me um tapa para vingar-se de mim, pois isso era impensável em nossa prática monástica — então ocorreu-me que, ao ver-me adentrar a sala com um enorme sorriso franco, sentindo-me doce e sereno depois de um passeio de despedida em companhia de um dos meus melhores amigos para assistir a um poente magnífico, encontrava-me num estado de suave contentamento e abertura — e no meu entendimento, o monge que muitas vezes me apoiara e até protegera, tinha com o tapa tentado despertar-me e pôr-me em guarda para o massacre da serra elétrica zen que se seguiria. Ao fim, surpreendeu-me a pergunta de Theo, que parecia seguir raciocínios muito próprios que serviam para me desarmar:
– Você pensou a mesma coisa quando me viu à sua porta? Coitado…
Como a pergunta viesse do meu mestre de honestidade, relatei todas as emoções por que passara ao encontra-lo dormindo sobre o meu capacho, sem esconder minha contrariedade, meu asco, a culpa por ter cancelado o almoço com Lissa, sem ocultar nada da minha vivência da onda de Amor, embora não mencionando minha conversa com o passarinho, nem com a senhorinha e seu cachorrinho. Todo o tempo, às nossas costas, identificava claramente a voz contraditoriamente rouquenha porém estridente de Ralph, competindo com o ribombar constante de Aquiles – entretanto, a atenção dedicada de Theo às minhas palavras colocou-me não só num estado de concentração e relaxamento, mas permitiu que um pouco daquela bondade amorosa voltasse a me envolver, sem poder distinguir se era uma reminiscência ou se emanava da presença do deus adolescente à minha frente, que abria um “buraco cósmico” para uma partilha amorosa em plena festa barulhenta.
Theo fez silêncio ao final do meu relato das horas que tínhamos passado juntos porém separados, como ele definira, e de novo virou o corpo, que estivera voltado e inclinado para mim, em direção à noite lá fora. Senti-me valorizado, tão feliz de estar em sua companhia, quando o observei pensativo, absorvendo minha vivência e pesando minhas palavras enquanto olhava a lua cheia. Sem voltar-se na minha direção, pois eu mesmo me pusera a assistir o ballet da lua e alguns fiapos de nuvens pelo céu, ele perguntou:
– O que você acha que possa ser o amor para a lua?
Morro de susto mas não morro de tédio na tua companhia, pensei mas não disse — Você tem razão, Theo. Não tem nenhum amor, para a lua. Amor é só um nome, uma idéia, um conceito para expressar uma vivência. O que é a compaixão, para a vastidão de estrelas? Acontece que amor e compaixão talvez sejam os sentimentos mais nobres que possamos cultivar como seres humanos, e é isso o que o amor é. Um presente para a nossa consciência, embora não só. Uma idéia nobilíssima que talvez te inspire a uma prática tanto mais nobre porque, se efetiva, vai beneficiar-te e a todos os demais seres, inclusive a lua, que talvez fique isenta de tentarmos explodi-la, passando a realizar nossos testes atômicos lá, ou por avidez e desespero coloniza-la e fazer dela o lixo que fizemos da Terra. Ou talvez, através do amor, possamos um dia coloniza-la pacificamente, ordenadamente, beneficamente… Mas você tem razão, tudo isso são idéias ideais. Será que o amor pode ser comunicado ao universo? Eu tenho a impressão que sim, de que o universo é amor, então não há nada a comunicar, somente por escutar… Mas a lua não deve sentir nenhum amor… porque não há um pensamento de amor que a lua possa ter… até porque a lua não passa de uma idéia também…
– Você está dizendo que a lua não existe? Que ela é só uma idéia?
– Estou dizendo as duas coisas que você disse, mas numa só: A lua só existe como idéia.
– Então eu estou olhando para uma idéia? Aquilo não é a lua?
– Theo… Aquilo que você enxerga como lua não é por si mesma a lua. Nesse sentido, não há nenhuma lua. É a sua idéia de lua que torna aquele pedaço de rocha flutuando lá no espaço a lua. A lua não é lua em si mesma. Ou você acha que ela tem uma certidão de nascimento que diz: lua… – em meio à balburdia da festa, naquele instante ouvi claramente, lá do outro lado do terraço, um cubo de gelo partir-se, dentro de um copo de uísque e da minha consciência — Nem podemos dizer que ela é um pedaço de rocha flutuando no espaço, pois pedaço, rocha, flutuar e espaço são um encadeamento de idéias somente…
– A lua é só uma idéia… – Theo estava incrédulo.
– Não, Theo. Ela é o que é. É o que é. Ponto. Olhe bem… Você acha que ela está cheia hoje? Mas quando foi que ela esteve vazia?
– Ela está cheia de luz! – ele parecia desapontado comigo.
Olhei ao redor em busca de socorro, descobrindo em Theo um bom argumentador, que não oprimia, não brigava, não era agressivo – ao contrário, cedia-me o espaço.
– Aquilo ali, Theo, o que é?
– Andante, você não vai me convencer que aquilo ali não é uma mesa… Ou que mesa é somente uma idéia…
– Porque chamamos aquilo de mesa não significa que aquilo seja mesa por si mesma.
– É claro que sim! Ela foi criada para ser mesa, e não pode ser nenhuma coisa além de mesa.
– Você pode usar uma mesa com funções que não sejam de mesa…
— Claro, você pode se sentar sobre ela, mas isso não faz dela uma cadeira.
– Theo… Como você acha que um cupim enxerga a mesa? Como mesa ou um delicioso banquete? Na verdade, nem mesmo como comida, e gostosa ou não, pois não acredito que um cupim tenha esse conceito de alimento… Ele simplesmente a come, como é da sua natureza. Para uma galinha, aquela mesa é um poleiro, embora poleiro seja um conceito também, outra idéia, assim como a de galinha… Para uma mosca, é um campo de pouso, embora não haja campo nenhum, nem o pousar, nem mosca ou a classificação de inseto… — via a impaciência de Theo aumentar, mas como nas regras do compartilhar que eu tanto prezava, ele me esperava terminar — Para uma criança, a mesa seria uma cabana…
– Nós não somos cupins nem galinhas nem crianças…
– Eu sei, Theo, embora uma parte de nós contenha galinhas, crianças e até mesmo cupins… Os cupins não são cupins, nem as galinhas são galinhas, nem crianças são crianças, portanto cada coisa pode ser o que é, e receber os nomes que lhes damos. Alguma vez na vida você já se deparou com algum objeto que não tinha a menor idéia do que era?
– Un dé à coudre – Theo lembrou-se, depois de ter refletido com uma seriedade que me comoveu — Como se diz em Português? Um dedal… Achei que fosse um copinho minúsculo para se tomar algum remédio muito poderoso…
– E como você ficou sabendo que era um dedal?
– Minha avó. Estava remexendo nas coisas dela.
– E quando ela te disse dedal, você entendeu de imediato do que se tratava ou ela precisou demonstrar para você? — Theo confirmou, e com um gesto me fez imaginar a avó dele costurando — E no entanto, como você disse valer para a mesa, o dedal tinha sido fabricado com a intenção de ser dedal desde o início, então como é que você não percebeu o que ele era logo de saída?
– Porque um dedal não é um dedal? — Theo experimentou — Porque o dedal só existe como idéia de dedal?
– O que é muito importante, fundamental mesmo, para podermos nos comunicar. Se você me dissesse un dé à coudre fora deste contexto, porque falo pouco Francês eu não teria idéia do que é. Ter idéia do que é, é só o que temos. Mas não podemos, ou não precisamos, nos deixar aprisionar pelas idéias. Nem pelas idéias de amor ou de lua. Muita gente vive infeliz e insatisfeita por conta da sua própria idéia estreita do que seja amor. E o amor, seja como idéia ou prática, é tão vasto e todo inclusivo… Todas as coisas são iluminadas e nos iluminam de volta… Todas as coisas são livres em sua natureza, e existem para nos libertar… A liberação vem de todos os lados… A iluminação nos é dada por todas as coisas… A vida, Theo, é uma celebração da liberdade, não um réquiem na prisão… Eu acho isso, eu quero viver assim… – e ao coro altíssimo de gargalhadas a comando de Ralph, convidei Theo – O que você acha de nos libertarmos disto aqui?
Talvez tenha sido o momento errado para bater em retirada, tendo falado a Theo sobre a liberdade que havia em todas as coisas, e a possibilidade de encontrar-se livre nelas, inclusive numa situação como aquela festa barulhenta — o que constituía a verdadeira liberdade a meu entender, e não a liberdade apenas relativa que há em se livrar das coisas, como ao afastar-se de uma situação ou pessoa desagradável. A popularidade de Ralph estava no auge, a qual viemos interromper e diminuir com o anúncio de nossa partida. Houve um pequeno coro de decepção em resposta a nossa ida, talvez mais em relação a Theo do que a mim, pensei, e dentro do espírito leviano do momento um amigo exclamou que ainda queria saber da vida no convento, se havia sexo às escondidas, e outro, maliciosamente compreensivo comentou que no meu caso não sairia mais de casa — nem da cama mais ele sairia – referindo-se à companhia de Theo.
– Se eu fosse ser monja, não sairia de casa na companhia do Tarzan por medo de parecer ridícula… – isso veio de Ralph – Ainda mais depois de velha…
Foi tolice reagir. Identifiquei a raiva quando era ainda um súbito inchar do coração, que se alastrou pelo corpo como um calor e tremor, depois identifiquei a agressão a Theo e a mim nas mesmas palavras, como era da habilidade de Ralph, e sem querer praticar com elas pensando que eram só um som, sem sentido se estivessem sendo ditas numa outra língua, un dé à coudre, e que não podiam nem deviam me atingir a não ser que eu desse poder e sentido a elas… Em seguida ao meu discurso sobre idéias, perdi todas as minhas chances de permanecer centrado, mesmo com todos os alarmes da plena consciência ligados, e disse, secretamente muito mais para mim mesmo do que para Ralph, mas para todos ouvirem:
– É muito conveniente enxergar o mundo como se fosse uma janela, e ficar atirando pedras nela. Acontece que o mundo é um espelho, e as pedras acertam você mesmo, e você está desfigurando a sua própria imagem…
– Nossa, eeeeeeu faço isso? Que coisa maaaaaais profunda! Eu não seria capaz! – e dirigindo-se a Theo, que tinha cochichado Vamos embora em meu ouvido, tomando-me o braço – Como é que o Tarzan chama a Madre Superiora? De tia?
Estava trêmulo e decepcionado comigo mesmo, no auge do meu inferno de identificar-me com a idéia do meu pobre ego atingido e manchado, machucado e danificado, e Theo pareceu sentir minha fraqueza, meu cansaço e desânimo, pois veio em meu socorro. Grudando às minhas costas, passou um braço pelo meu peito e outro pelo meu ventre, suave porém dominador, e retrucou desafiador — Chamo de meu amor… – senti-me enrubescer, não sem um enorme prazer, ao ouvir aquilo dito diante daquela audiência, enganchado naquele abraço de editorial de moda — Você sabe o que é isso? Você já teve isso? — em sucessivos recortes de realidade, Theo e Ralph encaravam-se, e a platéia encarava Theo ou Ralph, e eu encarava a platéia, na qual estava Ralph — Porque será que eu tenho a impressão de que você não conhece isso? Acho que porque você é tão incoveniente, e não tem respeito nenhum pelas pessoas – senti o coração acelerado de Theo contra meu ombro, e o calor do inferno da raiva e frustração em que ele ardia emanando de seu corpo, os músculos retesados, o ar quente de suas palavras ríspidas roçando meu ouvido. Era sofrido e era sensual. Fiz uma carícia lenta em seu antebraço poderoso, tentando acalma-lo, não sem desfrutar daquele nosso primeiro abraço mais íntimo, dentro do qual me sentia tão pequeno e dominado, um pouco envergonhado, mas também irmanado ao meu querido amigo — Desculpem se fui grosseiro… – Theo voltava a ser o príncipe que eu conhecia, dirigindo-se à dez pessoas ao nosso redor, porém reservando para o agressor, a quem encarou — Me sinto péssimo, rebaixando-me ao seu nível… – e como Ralph parecesse se preparar para retrucar, Theo sibilou – Se você me chamar de Tarzan de novo, eu te arrebento!
Ralph não disse nada, mas fez um trejeito como se estivesse excitado diante da possibilidade de Theo agredi-lo, e tive certeza de que procurava qualquer coisa horrenda para a provocação final, e o que achou foi — Eu só queria saber o tamanho… – por um instante, pareceu dar-se conta do estrago que pretendia, mas com uma careta descartou qualquer culpa, e apesar de estar por volta dos cinqüenta anos de idade como a maioria ali, comportando-se feito um adolescente e comprando a rinha — …e a grossura do cipó com que você vai me bater…
Começou como um som estranho, quase um soluço. Ainda em cima das palavras de Ralph, Guido murmurou alguma coisa confusa e praticamente inaudível, mas as três pessoas mais próximas viraram-se para ele diante da surpresa de ouvi-lo manifestar-se, e ele enfim ocupou o espaço — Cala essa boca, Ralph! Senão eu vou embora também – manifestava-se pela primeira vez durante toda a reunião, falando sem olhar ninguém – E não venho mais, quando souber que você vai estar aqui – Guido falava com calma, embora a voz dele tremesse, talvez pelo fato de que raramente fosse ouvida fora de sua própria mente, e soava mais volumosa e muito mais alta do que de costume, tornando-o inseguro. As palavras dele, apesar de mais educadas, tinham assim uma força inédita, e impuseram a toda a roda um silêncio mais pesado do que as palavras mais ríspidas de Theo. Ele foi direto – Quem tem que ir embora é você, Ralph.
Algumas pessoas entreolharam-se, enquanto no silêncio fez-se perfeitamente reconhecível a frase La tisi non le accorda che poche ore, da La Traviata. Finalmente, Aquiles levantou-se e com sua voz impôs-se. Ele sabia o que ninguém mais naquela sala sabia ainda – que o pai de Ralph, com quem nosso amigo nervoso dividia uma vida atribulada e o mesmo e pequeno apartamento, tinha sido internado naquele fim-de-semana e seria submetido a uma cirurgia de alto risco na manhã seguinte. A mãe, com quem ao contrário do pai, Ralph tivera um relacionamento excelente, tinha falecido no ano passado – isto eu também não sabia, pois estivera viajando. Sem irmãos ou outros parentes no Brasil, era provavelmente demasiado para Ralph ver-se na eminência de perder todo o seu núcleo familiar, e sem saber como lidar com o próprio medo e desespero, a agressividade era sua reação impensada – e agora estou me justificando, pois gostaria de ter tido mais compaixão e empatia com ele do que simplesmente tratá-lo como um exercício de aceitação e paciência, no qual saíra derrotado. Mesmo Theo, depois, iria mudar de atitude em relação a ele, compadecido, compreensivo e irmanado em sua perda, envolvendo-o num abraço longo e sincero durante o velório do pai de Ralph – e em outra ocasião pedindo-lhe perdão, assim como quando o ofendera, em alto e bom som e diante de muitas pessoas.
Aquiles levantou-se e com sua voz impôs-se. Ele adorava declamar, e nunca mais ouvi o I Juca Pirama soar tão maravilhoso, vivaz, emocionante, como durante uma certa noite naquela cobertura – tendo se tornado Meninos, eu vi! um de seus bordões preferidos — mas o que improvisou, em meio a nosso silêncio incômodo, foi mais para suavizar-nos todos, sem a mesma carga trágica dos trechos escolhidos do Pirama, apenas expressando dúvida e desesperança, e como se pedisse clemência, com voz macia e intencionalmente trêmula, declamou o tratado de paz para todos os seres delicadíssimos que somos, vivendo com nossa pele pelo avesso e em carne viva, medos e expectativas como feridas expostas, humildemente contando para sobreviver com uma irrestrita gentileza alheia e talvez a sorte de uma crença ou fé, a gentil fantasia de um amor ideal correndo como sangue por nossas veias, pedindo para não ser machucado, Aquiles transfigurado declamou, em perfeito Inglês para quem pudesse entender, com tão perfeita emoção que tornava-se impraticável não sentir sua interpretação de Yeats:
Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
Menos de uma semana de convivência, mas já havia aprendido que os abraços de Theo eram loquazes — e vi que gostara sinceramente de Aquiles quando com enlevo o envolveu à despedida, como confirmou durante nossa descida no elevador – O seu amigo é maravilhoso! – disse, com a admiração veemente e sonhadora de quem se pegava diante de uma longa estrada rumo a um horizonte amplíssimo, os primeiros passos do menino de 19 anos referindo-se ao homem de setenta anos que já a tinha em grande parte percorrido – e onde Lissa talvez enxergasse um complô, a descoberta de um cliente premium para o garoto de programa ávido, pensei que Theo julgava Aquiles com olhos humanistas, e assim o coroava de êxito. Andante, Theo, Aquiles, Lissa – pareceu-me que o êxito ou fracasso de nossas histórias residia em nossos próprios julgamentos, em relação a nós mesmos, às outras pessoas e a todas as coisas. Tudo, todo o tempo, era uma encruzilhada, diante da qual fazíamos uma escolha, a cada segundo frente a uma nova encruzilhada, fosse outra pessoa ou situação, e a nós próprios, nossas emoções e pensamentos e sensações, encruzilhada após encruzilhada com a escolha correspondente encaminhando-nos para o paraíso ou o inferno, a todo momento, para serem vivenciados aqui e agora mesmo. De uma intricada rede de encruzilhadas diante das quais continuamente optávamos, constituía-se o caminho que percorríamos – e assim, de seu caminho como uma seqüência de encruzilhadas seguidas, constituía-se cada pessoa — Lissa, Aquiles, Andante e esse menino maravilhoso, a quem observava com gratidão e admiração pelo espelho do elevador, com nome de Deus.

