Trecho XIII – Nothing is real/ Love is real

outubro 25, 2009

Onde não há amor
coloca o amor
e receberá o amor.

San Juan de la Cruz

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acessando o índice disponível no cabeçalho acima.

Obrigado, desfrute!

Presente. Ainda que preenchido por percepções de perda, pela agonia do abandono, surpreendia-me praticando a plena presença. Descendo pausadamente, pé ante pé, pesava-me o coração – sendo o coração este pedaço de pensamento que penso amar, esta parte da mente que pretendo sempre privilegiar.

Pressentia uma noite sem poder dormir, e preferiria não passa-la sozinho. Mas não pretendia evadir-me em chats, ou pornografia – antes agüentar a pressão. Aguardava-me o zafu, ou nada, eu me auto-ameaçava.

Pura pretensão e quase desespero, pensar que podia prende-lo. Pois pensei pedir para ele não ir, quando o vi pronto, vestido de negro, um perfeito anjo noturno em luto profundo – chovia, como eu previra, e parecia que não ia mais parar, aquela noite. Na verdade, pretendia apenas prolongar a nossa permanência juntos, e desfrutar a presença preciosa dele.

Diante da porta do elevador ele parecia hesitar e pensar, mas só por um momento, dissipado pela performance potente dos quatro rapazes em celerado alvoroço dentro do elevador. Esperou-me aparecer no hall, já que eu viera descendo os degraus desde a cobertura lentamente, a cada pé perdendo o paraíso sem saber nem como nem porque e padecendo sem poder reconquista-lo — e quando eu apareci, com um sorriso ele partiu. De seu presente apressado eu já não fazia mais parte.

Desde que dera com a alta algazarra dos quatro amigos no hall, deixando o meu lado ele disparara degraus abaixo e num instante fora engolfado pela onda jovem de enorme excitação e abraços e confraternização que o dragou em direção ao elevador.

Antes de mergulharmos da noite fresca e úmida para as entranhas do prédio, sentira nosso abraço separar-nos, mais do que nos unir, esgarçando ao invés de encurtar a distância entre nós, como comumente — e antes de a porta do apartamento abrir-se para a escadaria, respondendo à campainha.

Em sua atitude, a paz e a pureza pareciam enterrados no passado. Observara sua troca de pele, a metamorfose num predador de streetwear preto satinado provavelmente proposto por alguma grife londrina alternativa, passando pela apoteose do corpo esplêndido despido sem pudor, os trajes brancos de príncipe do Yoga pendendo já da borda da cama, onde eu permanecera estendido. Ele não precisava de perfume nem de se pentear para parecer perfeitamente bonito, bastando agitar a basta cabeleira loira para por em movimento as constelações cintilantes e os pensamentos para viajar.

De um pulo ele pusera a vestir-se. Como a salva de tiros não põe fim à corrida – a não ser que seja este um fugitivo, ao invés do contendor — o silêncio acolhedor em que mergulháramos ao final do filme tinha sido sacrificado pelo toque do celular. Premeditado da minha parte, já que tinha me passado pelo pensamento pronunciar algum tipo de palestra, e eu preferira silenciar — pensava ter escolhido os vídeos para o meu amigo, mas de repente parecia-me mais que explorara as possibilidades de conformar-me ao papel de cover de mestre zen no qual me punha Theo.

O filme excelente terminava por uma redenção, a grua propulsionada para o espaço, as personagens impressas contra o planeta, apaziguadas na estrada. Era tudo o que eu podia desejar para o próprio Theo. Percebera suas lágrimas pacificando ao longo da história, e uma nova paz, crença e percepção da prática pareciam ter se manifestado, proporcionadas pelas muitas falas inspiradas do mestre zen, e pela trajetória das duas personagens principais, dois irmãos – razão pela qual eu tentara dissuadi-lo dessa escolha, propondo ao invés o minimalista japonês Depois da Vida, tendo já descartado A Vida é Iluminada, arrepiando-me só de pensar na pavorosa cena final passada com a personagem do velho sobrevivente de guerra.

– Podemos assistir o japonês?
– É o seu preferido? – Theo tinha minha seleção de três filmes nas mãos.
– Não por isso. Gosto dos três, mas… como esse foi um dia difícil de se viver, de verdade… – fui sincero em minhas razões – Este tem uma cena de suicídio… E este é a história de dois irmãos – fechei os olhos, e suspirei fundo — Eu não podia prever. Errei completamente nas minhas escolhas. Me perdoa? – assumindo que tinha escolhido os filmes para exibir-me, pobre pretensioso.

– Mas não… Você foi clarividente! – Theo encarou-me, seriamente, absorvendo-me e absolvendo-me com seu triste olhar líquido e verde – Você adivinhou que dia é hoje, para mim, antes mesmo de eu te contar qualquer coisa… Vamos assistir este – e ele escolheu o argentino Un Buda.

Nem para nos contorcermos de rir durante as cenas da mãe em visita ao centro de retiro, eu largara a mão de Theo, que havia tomado desde as primeiras cenas mostrando os dois irmãos ainda crianças, quando ele tranqüilamente deixara as lágrimas novamente escorrerem. Diferentemente do táxi ensolarado quando também tínhamos estado de mãos dadas, desta vez, ao invés de enxergar o antebraço poderoso, os pelos loiros penteados como um campo sob sol e vento, meu olhar fixava-se no fino traço ao longo do pulso, distinguindo-o mesmo na penumbra em que nos encontrávamos — ele estivera lá, antes, em tantas outras ocasiões, mesmo na primeira vez em que no jardim eu o encontrara e com avidez acompanhara a linha do seu braço apontando para o céu — mas que com os olhos turvos de desejo, insensível, bronco, eu nunca pudera reparar.

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– Obrigado. Obrigado por estar aqui comigo.
– Obrigado você, Obrigado por estar aqui comigo.

Assim tínhamos encerrado o nosso abraço, selando a dolorida confissão de Theo — foi a primeira coisa que recordei, ao acordar pela manhã, e depois repassei o restante da noite, até nossa separação com a chegada dos amigos.

Era domingo, e prolonguei minha permanência na cama, observando a magnólia de Lissa que já perdia o viço mas não a destacada glória de estrela do dormitório. Em lugar do zazen matinal, simplesmente perambulei pelo apartamento, abrindo os janelões e desfrutando dos gêmeos e cachorro e bola e tamancos e helicópteros adormecidos, ou pelo menos silenciados. Café ao invés de chá, naquele domingo. Animou-me a descoberta do mat de Yoga abandonado há muitos dias, e ao invés do silêncio habitual ou de alguma coletânea de mantras, deu-me vontade adentrar tanto mais a playlist E.S.T. do Theo. Mesmo ouvindo-a pela terceira vez, a primeira faixa permanecia divina, From Gagarin’s point of view, e eu simplesmente fiquei junto ao computador, imóvel, embevecido. A segunda faixa também não era menos que divina – como era Divino o meu encanador –, uma versão com delicada orquestra do clássico Round Midnight, e na terceira faixa, explorando o território desconhecido e maravilhoso de Viaticum, finalmente percebi que Perry Blake encontrara o seu usurpador como trilha sonora dos meus dias. Graças a Theo.

Foi a concentração com a qual executei a série de Saudações ao Sol que me fez distinguir — um dos sons que eu ouvia não era parte das inacreditáveis habilidades musicais do E.S.T. Completei a série e, intrigado, fui caminhando pelo corredor em direção à porta principal do apartamento, e quando estive certo de que o toque do celular vinha mesmo do hall do elevador, sem nem checar pelo olho mágico abri a porta e o encontrei.

Lembro-me de um amigo meu que, cansado de São Paulo, decidiu ir morar num sítio, no meio do mato – ou assim achavam seus amigos urbanos, pois na verdade a propriedade dele estava cercada de fazendas de gado, plantações de eucalipto e café. Durante anos ele se dedicara a refazer a vegetação original, e agora sim morava em meio a uma pequena floresta em que transformara o que outrora haviam sido pastos degradados. Além de estudar as espécies nativas, ele privilegiara o plantio de árvores frutíferas e das que floresciam, de tal forma que o jardim bem cuidado cercando sua casa parecia espalhar-se pelas matas também. Os animais haviam correspondido, agradecidos, e ele vivia em meio a um santuário de seres silvestres, tucanos, macacos, siriemas. Lembrava-me que ele me contara de, muitas vezes, encontrar animais mortos em alguma parte de sua propriedade – veados, pacas, tatus, animais feridos por outros animais, muitos deles por cães, que ele decidira não ter, ou até mesmo por tiros –, os animais que escolhiam seu terreno para vir morrer em paz, muitas vezes a céu aberto, dentro da clareira aberta ao redor de sua casa… Animais menores, como coelhos, gambás e porcos-espinho, ele já os tinha encontrado à porta de casa, aninhados sobre as boas-vindas do tapete de entrada, enrodilhados. Seu relato me emocionara e comovera, pois trata-se de um amigo que vem longamente dedicando-se a um caminho espiritual de simplicidade e contemplação, e seu sítio constitui para mim uma espécie de refúgio, quase um solo sagrado, com sua atmosfera de paz – parecia-me que não só eu o sinto assim, mas também todos aqueles animais que vinham buscar ali o derradeiro refúgio para seu último suspiro, a paz da passagem, o acolhimento delicado para o momento talvez de maior dor e medo – ou um tratamento e recuperação, como ocorria às vezes, se em tempo acorriam.

Não que ele fosse morrer — em plena manhã, as vestes negras amarfanhadas, Theo dormia esparramado e desfeito no chão de granito, a cabeça pousada no agasalho, sobre o meu tapete de entrada. Estranhei, e querendo acorda-lo ajoelhei-me junto dele, e tive de expirar longamente para não ser tomado pela náusea provocada em mim pela mistura de fumaça de cigarros, o cheiro intenso do álcool e o azedo do vômito seco, na mancha que identifiquei sobre sua camiseta, içada até quase a metade expondo seu ventre cinzelado, o umbigo como um vórtice macio para músculos agudos e pelos esparsos. Os cabelos desalinhados e grudados de suor, a pele gordurosa – e mesmo assim ele parecia lindo, entregue a um sono infantil, profundo e pacífico, que nem o toque insistente do celular lograva interromper. Mirei-o imóvel, esperando o tinido morrer, como se só depois disso eu pudesse tomar uma decisão sobre o que fazer com o deus adolescente arriado, fedorento e desgrenhado, ou decidir-me a não fazer nada. Fechar a porta, esquecer-me – em algum momento ele acordaria, e iria para casa. A única coisa que pensei foi por bem desligar a música soando lá dentro, que de repente estava sendo desperdiçada, tão milagrosa em situação tão grosseira.
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Foi como se ouvisse o telefone tocar, antes de soar de fato, e levantei-o do bocal ainda mudo — embora minha prática, como aprendida com os monges, normalmente fosse esperar tocar três vezes, concentrando-em em minha respiração –, para ouvir:

– Você estava do lado do telefone? Acho que nem chegou a tocar… – Verena queria confirmar que havíamos conversado ontem, e o quê havíamos falado – Hoje estou de ressaca… Você acredita que o Olaf estava me envenenando? – como jamais tomava remédios alopáticos, o calmante que o ex-marido estivera secretamente ministrando a ela era reputado veneno – Eu devia ter desconfiado! Estava me sentindo muito lesada… – ela tinha descoberto através da cunhada, que não tinha concordado quando Olaf pedira-lhe para continuar administrando o calmante – Coitado. Ele achou que assim me ajudava. Apagando-me… Ele nunca me conheceu. É essa a impressão que tenho agora. Nunca fez o esforço. Nunca quis – apenas ouvi, feliz, enquanto observava minha amiga de volta a seu modulo energético e bem disposto, sem os longos silêncios de ontem – Nós falamos de Deus? — ela queria repassar nossa conversa, pois apesar de lembrar-se da maior parte das próprias coisas que havia dito, a impressão que hoje tinha era de que eu estivera falando com ela desde o fundo do mar.
– Deus? Não… – então dei-me conta — Mas nós falamos do Theo…
– O seu Deus… – ouvi Verena sorrir – Agora me lembro. Convidei vocês para virem aqui, não foi? – olhando em direção ao corredor, disse a Verena que hoje não seria possível – Melhor, eu gostaria que vocês fossem para a praia comigo neste feriado, que tal?
– Posso pensar sobre isso, Verena? E tenho de perguntar ao Theo… – desconversei, sem vontade nem certeza de que o faria, aos poucos acessando a forte contrariedade que me invadia.

– Ele ainda está dormindo?
Percebi que o imaginava na minha cama, e decidi contar a ela brevemente sobre o rapaz, antes que imaginasse estarmos juntos além do quanto estávamos juntos de fato. E por fim contei sobre a situação atual, Theo estendido à porta da minha casa, arriado de bêbado.
– Que lindo! – Verena enterneceu-se.
– Lindo o quê? – não escondi a ironia.
– Você não está bravo com ele, está? – Verena soava maternal.

Tive de ficar em silêncio e ponderar, observar meus sentimentos, antes de responder – É, um pouco estou sim – não esperava aquela situação no meu domingo, os compromissos marcados com Lissa e Aquiles, com os quais eu costumava ser pontual — Mas só um pouco. Acho que entendo essa molecagem – consegui sorrir, e percebi que estivera com as sombrancelhas contraídas — Eu mesmo dormi diante da minha própria porta mais de uma vez, nos nossos tempos de faculdade… Lembro-me que quando ficava naquele estado, tinha sempre o mesmo pensamento confuso… o de que a porta tinha de abrir por si mesma… sem me lembrar de que eu tinha de usar a chave… Se ela abria para mim todos os dias, era só esperar, que alguma hora ela iria abrir de novo. Então, esperando, eu dormia sobre o meu próprio capacho… – ri das lembranças da minha juventude, de um Andante no qual não pensava há muito tempo.

– Só que o Theo não dormiu diante da própria porta. Ele veio dormir diante da sua… O que você acha disso?
– Acho que ele pode ter se confundido – evadi-me, inclusive das minhas próprias expectativas.
– Acha mesmo?! – Verena riu – Com vinte andares de apartamentos! Ele confundiu a casa dele justamente com a sua!

Ouvi novamente o celular tocando, e pedi para encerrar com Verena, antes que ela entrasse em suas interpretações que incluíam boas doses de karma e predestinação, garantindo-lhe que iria conversar com Theo sobre o feriado, quando ela achava que ia precisar de mais apoio, pois deveria receber a primeira visita de toda a turma da praia depois de, você já sabe… – Será que o Olaf deixou algum pouquinho de calmante? – Verena encerrou, rindo de si mesma.

Caminhei vagarosamente até a porta, a paz a cada passo, concentrando-me, esforçando-me — há paz a cada passo. Torcia que o celular parasse de tocar antes de eu chegar lá. Mas ele continuou, mesmo enquanto eu tentava tira-lo do bolso da frente da calça de Theo, que incomodado virou-se e esparramou-se ainda mais sobre o chão, dando-me livre acesso.

Eh, ciao. Onde você estava? – foi o que entendi, em Italiano. Depois de hesitar mais um tempo, tendo identificado o nome de Fedora, e uma bonita foto dela — na verdade, deslumbrante –, decidira atender. Não queria envolver-me daquela forma, mas também não podia deixar o celular tocando a manhã inteira, imaginando-a do outro lado, tentando e tentando novamente. Fechar a porta e largar Theo ali, como havia a princípio cogitado, já não era uma possibilidade. Como o samurai sentindo-se irado não pode matar o oponente, minha própria ética da prática dizia que, encontrando-me sinceramente aborrecido, não me restava alternativa senão desvelar-me em acolher o rapaz. Em Inglês, identifiquei-me dizendo meu nome e ser vizinho do Theo, e por um instante ela fez silêncio antes de pedir para falar com o amigo — Ele não está exatamente em condições… – contei do estado em que o havia encontrado à minha porta, todo o tempo só preocupado em dividir minha contrariedade — Então ele me obedeceu! – Fedora riu, exuberante, segura, cheia de si. Contou-me que Theo havia enviado um vídeo do novo apartamento, e quando ela vira a escadaria, tinha feito ele prometer a ela que jamais tentaria subi-la se tivesse bebido demais – Um amigo nosso morreu subindo as escadas bêbado… Quer, dizer, ele morreu caindo – ela riu, e sua risada pareceu-me imprópria, e acho que comuniquei essa energia de crítica a ela, que se calou, antes de voltar a dizer — Obrigado por acolhe-lo – por um instante, achei que Fedora não soubesse quem eu era, já que tinha me identificado somente como um vizinho, e troquei por amigo – Sim, eu sei quem você é. O Theo já me falou de você… Obrigado por cuidar dele. Posso te pedir para não deixa-lo sozinho? – Fedora riu, e na verdade não parecia se importar com o que eu julgava da risada dela – Estou parecendo a maman dele! Mas se você pudesse ficar com ele. Não só hoje, você me entende? – lembrei de sua expressão desafiadora e de seu olhar de catapulta na foto do porta-retrato na casa de Theo, e senti-me instado a obedecer um comando, mais do que a atender um pedido – Ele dá muita importância a você – soou condescendente, e eu me senti tolo, naquele enredo de filme adolescente; observei a raiva surgir, e tentei permanecer em silêncio, como já ocorrera durante a maior parte da ligação – Você pode pedir para ele me ligar, quando acordar? – tão certa ela estava de que eu a obedeceria também, e ela estava certa – Grazie mille

Ponderei de novo a situação. Não pretendia passar o dia no hall do elevador. Tentei acordar Theo para que entrasse em casa, e depois de tê-lo chamado quase umas dez vezes, cada vez mais alto e menos delicado e mais impaciente e menos divertido, tive renovada ajuda do tinido do celular, que encostei ao ouvido dele. Theo por fim acordou e olhou-me – e tive certeza, sem reconhecer-me. Dei um comando um pouco ríspido — pois não imaginava lidar com um menino bêbado de outra forma — de que ele entrasse porta adentro, e enquanto observava-o arrastar-se só com o braços, calcando os cotovelos no piso, parecendo um soldado numa trincheira – apesar dessa demonstração tão clara não percebi a guerra e a violência dentro de mim mesmo — arrastando consigo o capacho que o fazia deslizar, atendi o Joshua, já explicando quem era e o que tinha acontecido, logo de saída um pouco melhor do que fizera com Fedora, e que Theo não estava em condições de falar.

– Valeu. Pelo menos agora eu sei onde ele tá. Tem um monte de gente preocupada – achei por bem avisa-lo que já havia conversado com Fedora – Mesmo? Ela já me ligou, e a tia também, um monte de vezes – Joshua parecia contrariado; talvez pretendesse também atravessar a manhã dormindo, como o primo, e ao invés tinha recebido e feito ligações por várias horas — O cara com quem ele saiu teve de ligar para o meu amigo para saber o endereço do Theo, que tava malzão, nem podia falar direito – depois de uma certa rispidez e antipatia de início, mútuas devo dizer, o rapaz parecia disposto a falar comigo, embora eu mesmo nada dissesse, só tentando entender a história da noitada de Theo – O cara deixou o Theo aí e foi embora dormir – a isso, observei meu coração inchar, súbito sanguinolento, cheio de ciúmes — Tive de acordar todos os meus amigos até um saber quem era o cara com quem o Theo tinha saído da boate – Joshua bocejou, tão exuberante quanto fora antes a risada de Fedora – A tia deve ligar aí, ela estava preocupada… – imediatamente entendi que ele se referia à mãe de Theo, e novamente evadi-me, quase rispidamente mandando Joshua desincumbir-se dos assuntos familiares, até porque o celular está com pouca bateria e pode cair a qualquer momento – Tá bom… eu… ligo pra… ela – foram tantos os bocejos naquela última frase, com a qual Joshua desligou sem dizer mais nada.
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– Era só o que me faltava! – exclamei. Esse menino não tem pai?! Agora sentia-me mal por ter mentido em relação ao celular, só por não desejar atender a mãe. Na verdade, sentia-me culpado, de várias maneiras – e começara a seguir essa nova pista do meu sofrimento, dada por Theo, para quem o meu problema não era o desejo, mas a culpa de senti-lo, e através da qual tentava me livrar dele. E sentia-me frustrado, já ciente de que teria de cancelar meu almoço com Lissa, o que naquele momento em especial geraria tanto desconforto entre nós… Desanimado, olhei Theo, que desabara após ter deslizado não mais de um metro, o que ainda deixava quase metade do seu corpo do lado de fora do apartamento.

Alcançou-me o estrondo de uma porta batendo, num andar acima. Foi o suficiente. Serviu-me de sino da plena consciência. Imobilizei-me. Fechei os olhos. Concentrei-me na minha respiração, que estava curta, ansiosa. Inspirando. Expirando. E a concentração tornou-a naturalmente mais profunda, mais calma. Inspirando. Expirando. Respirando com prazer, com prazer em ter atenção. Inspirando. Expirando. Observei a batida acelerada do meu coração, e acalmei-o junto com a respiração. Percebi que estava com calor, apesar do ar fresco que soprava pela janela da escadaria de serviço. Demasiada energia, esforço, confusão, raiva – muitas coisas queimavam em mim, naquele momento. A tudo observei, minhas próprias emoções e sentimentos, por um momento sem reagir a elas, sem me identificar, como se fossem as de um alienígena. Percebi meus ombros contraídos e relaxei-os; o cheiro de suor que não era o da Yoga, mas adivinha da contrariedade; meus pés um pouco levantados do chão, e espalmei-os, corrigindo minha postura torta – e com ela, a minha atitude errada. Ocorreu-me que estava com a atitude errada, se de fato e sinceramente pretendia acolher meu amigo. Inspirando. Expirando. Ainda observei meus pensamentos, esparsos, caóticos, numa melodia feia, que com a minha concentração na respiração foram diminuindo de volume e de freqüência, por fim quase silenciando. Era maravilhoso como funcionava essa técnica tão simples dada pelo Buda, como a aprendera do meu mestre – ou pelo menos como eu a compreendera e dela lançava mão. Inspirando. Expirando. Num instante, toda a balbúrdia se acalmava, quando eu não me identificava mais com ela. A fogueira enfraquecia, à medida que eu não mais a alimentava. E no espaço que se abriu, ao recesso das minha emoções, sensações, pensamentos, caindo como dominós em seqüência, retornando para o vazio de onde tinham vindo, naturalmente, assim que eu os liberava – nesse espaço, reencontrei o meu amor verdadeiro por Theo, e tive a idéia de estender uma colchonete alguns passos corredor adentro, e ajuda-lo a alcançar e deitar-se nele.

– Theo… – sussurrei bem junto ao seu ouvido, tocando-o muito de leve, com delicadeza, da maneira como eu mesmo gostava de ser despertado. Não mais ao adolescente bêbado com o qual eu estava contrariado, cujo cheiro um pouco me enojava, dirigi-me ao meu querido amigo, ao meu amor – Theo… – repeti, com doçura e um sorriso, imaginando que tentava acordar o bebê Buda nele, no lindo adolescente com nome de Deus… Tive certeza de que ele me responderia, quando senti que eu chamava docemente por Deus nele, que assim tentava despertar sua natura búdica – e foi o que aconteceu, claro. Theo abriu os olhos, os lindos olhos líquidos e verdes, piscando-os um pouco até focar-me, e desta vez reconheceu-me – pois afinal, desta vez era eu mesmo debruçado sobre ele, e não algum homem contrariado agindo com despeito para livrar-se quanto antes dum problema – através de um sorriso belo e entorpecido, infantil e sem defesa, que definitivamente me enterneceu e conquistou – Ali… – seu olhar, puro e interrogativo como o de um animal, seguiu o dedo com o qual indiquei a colchonete um pouco adiante – Vamos? Para você poder dormir… – era enfim a atitude certa, e apesar de mostrar-se cheio de um invencível torpor, arrastou-se até estar completamente sobre a colchonete, a cabeça no travesseiro, e de novo entregue ao sono.

Sentei-me ao lado de Theo, no corredor. Ouvia-o ressonar baixinho. Acariciei seus cabelos suados, sujos, emaranhados, menos belos — e senti meu desejo dominador ceder lugar ao amor. Mesmo o cheiro azedo pareceu enfraquecer, pois era este o cheiro dele naquele momento, o cheiro do meu querido amigo que, se não me ajudava a deseja-lo, também não mais o tornava repulsivo — e justamente me ajudava a somente ama-lo. Então lembrei-me de Gustavo. E senti dor ao lembrar de Gustavo, embora ao mesmo tempo pudesse sorrir à lembrança dele. Porque não pensara nele antes? Se fosse Gustavo a aparecer-me à porta, bêbado, eu jamais teria sentido contrariedade em acolhe-lo, em cuida-lo. Por que não me lembrara dele antes, sobrepondo- o a Theo, despertando todo o meu infindo amor e compreensão, desenvolvido ao longo de todos os anos do nosso relacionamento, desde que ele nascera… Gustavo, de quem eu tinha cuidado inúmeras vezes, nas febrinhas, nas dores de barriga, no susto do braço quebrado, depois dos acessos de raiva e das brigas na escola, e aconselhado nas confusões emocionais e mentais da adolescência… Sentia tanto amor por meu afilhado – e no entanto, tentara não pensar tanto nele desde que soubera de sua morte, por sentir-me culpado de não tê-lo procurado naqueles meses desde que retornara do mosteiro, nem a ele ou a Verena, e de resto a uma multidão de gente que me importava menos, escondido como estava na concha protetora em que me isolara, tentando com dificuldade e sem nenhuma vontade readaptar-me à minha antiga rotina metropolitana, o tempo todo cogitando retornar o mais rápido possível ao mosteiro. Agora sentia a dor, e ressentia a minha própria injustiça, sabendo que nunca mais iria vê-lo, de fato – mas sentia o amor, também, o amor de toda uma vida que era tão maior do que a dor daquele momento.
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Com a mão sobre a cabeça de Theo, mantendo Gustavo em minha mente, e juntando aos dois no meu coração, invocando por clareza que me permitisse encontrar as palavras mais hábeis, liguei para Lissa.

– Bom dia… Como você acordou hoje? – e pus-me a conversar com minha amiga, tentando harmonizar-me com ela, sentir sua disposição do momento. Em grande parte, estar bem para Lissa significava não ter enxaquecas, e vi nisso uma chance.
– Lembra-se de uma época em que você as tinha diariamente? – ainda não estava certo porque mencionara aquele assunto, mas ele simplesmente brotou – Você se refugiava lá em casa – referia-me a um outro apartamento –, eu trancava o quarto, deixava-o totalmente escuro para você, vedando a janela com cobertores e até o vão sob a porta, desligava o telefone, e ficava na sacada com uma bazuca para afugentar os helicópteros – tinha uma aversão antiga por esses aparelhos.
– Você tem a minha gratidão eterna! – Lissa riu – A sua paciência com o meu estado de mau-humor era… heróica! Eu te dei um tapa uma vez, não dei?
– Perdi um paquera nessa época, por conta de cancelar tantas vezes para ficar cuidando de você – e de repente ficou claro o meu raciocínio, buscando a empatia de Lissa – Espero não perder a minha amiga, hoje.
– Por quê? Eu não estou com enxaqueca! – acendeu-se o sinal vermelho, lá do outro lado – O que você quer me dizer? – contei a ela sobre Theo, pela quarta vez naquela manhã, mas pela primeira senti que falava da situação como se fosse minha, como se o sofrimento do meu amigo fosse meu – Entendi – Lissa pareceu refletir — Você não precisa cuidar dele, você sabe? Ele tem família aqui no Brasil, não tem?
– Tem. Mas se ele procurou por mim é porque quer um amigo, não a família – agora seguia o raciocínio de Verena, que há pouco tinha descartado — E o fato é que eu quero cuidar dele – meu olhar recaiu sobre os pulsos de Theo, que estavam unidos assim como as palmas das mãos, não longe dos meus joelhos, na posição em que ele dormia, sempre ressonando levemente. Não pude divisar os riscos sobre a pele, mas sabia que estavam lá, e voltei a sentir um arrepio só de pensar…
– Ou seja, não vamos almoçar hoje, correto? – Lissa mostrava-se contrariada, como eu estivera antes – Tudo bem! – mas não estava, como transparecia em sua voz – Você não se sente invadido por esse menino?
– Foi exatamente como eu me senti, hoje de manhã, quando abri a porta. Cogitei passar por cima dele e sair para almoçar com você.
– E porque você não faz isso agora?
Eu não tinha nenhuma boa resposta para isso – Talvez esteja embriagado, mas aquele que deixaram só, prostrado no chão, é meu irmão.

– Você soa como Madre Teresa.
– Essa frase é dela. Eu acho.
– Quando te conheci era Rimbaud e Cocteau que você tinha na ponta da língua – ela ironizou — Quem diria…
– Quando você me conheceu, como o Theo eu também caia de beber. Acho que quero ficar cuidando dele como teria gostado de cuidar de mim mesmo.

– Aceito isso. E antes que você me ofereça, não gostaria de ir almoçar aí no seu apartamento, enquanto velamos o ilustre cadáver – Lissa riu, mais ácida do que o cheiro de Theo, e citou os nomes de três amigas dos nossos tempos de faculdade – As Irmãs Cajazeiras, lembra delas? Vou encontra-las, então. E você, desfrute do seu babysitting, se puder.

acesse a seleção de jazz pelo E.S.T. feita pelo Theo

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Preparei o almoço lentamente, e com calma eu o comi, em silêncio. Todos os vizinhos pareciam ter saído de casa. Depois voltei para o lado de Theo, que tinha se virado para a parede, fugindo da claridade intensa vinda dos janelões da sala. Acariciei seus cabelos de um loiro tornado baço, compactos no crânio, amassados contra o travesseiro. Era sempre emocionante velar o sono de uma pessoa, especialmente de uma criança, e naquele instante pensava em Theo como uma criança grande. Sentia-me grato pela entrega, pela confiança. Com um copo de chá, sentei-me no chão e não me levantei até terminar Todos os belos cavalos, que há alguns dias jazia abandonado — Lembrou-se de Alejandra e da tristeza que vira pela primeira vez na curva de seus ombros e que pensara entender e da qual nada sabia já que era uma criança e sentia-se inteiramente estranho ao mundo embora ainda o amasse. Pensou que na beleza do mundo havia um segredo oculto. Pensou que o coração do mundo batia a um custo terrível e que a dor do mundo e sua beleza moviam-se numa relação de equidade divergente e que nesse déficit invertido o sangue das multidões podia em última análise ser cobrado pela visão de uma única flor – era maravilhoso, uma escrita milagrosa, e confirmei ter encontrado em Cormac McCarthy o meu escritor preferido da atualidade, talvez mais do que Cees Nooteboom.

Um pouco inquieto como sempre ficava ao fim de um bom livro, de um bom concerto ou de uma boa transa, sentindo emoções contraditórias, satisfeito porém frustrado a um só tempo, fui em busca de outro copo de chá, o verde intenso com toques cítricos que neste domingo escolhera beber, e como não foi isto a preencher o vazio que agora sentia, e não me dispondo a explora-lo no oceano do zafu, à deriva cheguei ao escritório onde aguardava-me a playlist de Theo, no pause há umas boas horas. Os nomes das composições do E.S.T. eram musicais em si mesmas, como Serenade for the Renegade e The Unstable Table & the Infamous Fable – mas foi em Belive, Beleft, Below que encontrei a minha paz, ao identificar na faixa, a única cantada em toda a seleção, o meu próprio momento… Aos poucos, ia fazendo da música uma outra espécie de meditação, ou pelo menos um apoio para identificar e aclarar minhas emoções e sentimentos que, ao buscarem expressão, eu tentava reconhecer. Já não ouvia músicas melancólicas para poder chorar ou perceber-me deprimido, nem precisava de música excitante para sentir-me expansivo ou extravasar uma energia com a qual não sabia lidar. If we meet again… I´ll tell you how I feel… I´ll tell you from the start… I´ll tell you love is real… Ouvia fora o que estava dentro – ou ouvia dentro o que estava fora, quase dava no mesmo. Claro, não havia dentro nem fora, a música tanto ao redor de mim quanto em mim, eu próprio música, a música na minha consciência, a música no ar, a música na minha respiração… How everything we say… And everything we do… Has been preordained… To bring true love to you… Nothing else is pure… Nothing else is right… You will know for sure… Once you´ve seen the light – cantei para mim mesmo a canção que poria no repeat e adentraria por muitos e muitos dos meus dias, A Balada da Iluminação, como eu a apelidei. If we meet again… I´ll tell you how I feel… I´ll tell you love is real… Graças a Theo.

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