Trecho XIV – Há Amor (Sirènes)
novembro 5, 2009
Pensar que hemos de entrar en el cielo,
y no entrar en nosotros… es desatino.
Santa Teresa D’Ávila
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Obrigado, desfrute!
Como amar mais?
Como amar tudo?
Como amar por completo?
Como amar o bastante?
Como amar até o que não consigo amar?
Com estas perguntas, sentei-me para meditar, colocando o zafu no corredor, entre a porta do escritório e ali onde Theo dormia sobre a colchonete.
Na superfície do lago havia marulhas, agitadas por um vento leve. Inspirando, expirando. Encontrava-me num estado bastante distinto daquela manhã. Inspirando, expirando. Apesar de ter meditado antes de dormir, ainda acordara com alguma angústia pelo aparente abandono a que Theo me relegara, sem jamais ter me convidado para sair com ele e os amigos à noite, nem que fosse por educação – mas a educação de quem, do meu avô quatrocentão ou de um jovem cool francês? – pois afinal eu não cogitava passar pelo ridículo de sair com a trupe adolescente…Pensamento, reconheci – mas não fui capaz de larga-los. Inspirando, expirando. Ainda acalentara a percepção de perda – agora anulada por seu pedido de refúgio, como passara a interpretar, seguindo o raciocínio de Verena, tendo vindo dormir à minha porta, mesmo que fosse para não se esborrachar na escadaria rumo à cobertura, e a um pedido de Fedora. Parecia-me surpreendente que desse menos importância à inclusão cada vez mais intensa que eu ia tendo na história dele, a participação da morte do irmão amado e sua tentativa de suicídio, do que uma balada… seria por ter sabido através do Joshua que ele tinha saído com outro cara? Pensamento, reconheci, e quebrei esta cadeia. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Ocorreu-me que Lissa estaria decepcionada comigo, e como compensa-la? Como desculpar-me com ela? Pensamento. Inspirando, expirando – recomecei. Verena tinha muito mais razões para estar verdadeiramente ofendida comigo, o meu sumiço por meses. E no entanto, diversamente de Lissa, ela parecia relevar isso… Pensamento. Julgamento – deslindei, liberando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Como um rádio – a Rádio Mente — a que tinha de desligar muitas e muitas vezes, já que ele ligava automaticamente. Automática Mente. E surgindo como se fosse um espetáculo inédito, o tema nunca suficientemente explorado, tragando-me mais fundo — a culpa. Suficiente Mente? Como ainda podia querer assisti-lo? Como ainda encontrava interesse? Desta vez, inovado o espetáculo sempre repetido, vi Gustavo sorrindo. Ocorreu-me que me lembrara diversas vezes dele no mosteiro, pois entre meus amigos mais queridos estava um polonês que era discípulo (póstumo) de Osho. Ele já havia estado em diversos centro de prática, inclusive no de Pune, que era o sonho de Gustavo. E apesar de não ter conseguido sentir qualquer apreço ou aceitação por este afamado senhor a quem eu sequer reputava mestre, através do amor e admiração que sentira por meu amigo tinha ao menos reduzido o asco e aversão ao indiano, o que me trouxera certa liberação. Na companhia do polonês recordava do meu afilhado, assim fundindo a afeição que por ambos sentia, e cultivando-a numa escalada que só se interrompeu com a partida do meu amigo. E a morte de Gustavo? Como interrompia o afeto que eu sentia por ele? Pensamento. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Então ocorreu-me tocar aquele sentimento novamente, mergulhando em águas mais profundas – ou finalmente emergindo, não sei descrever a sensação — afilhado e afeto eram sinônimos, e no mesmo espaço onde navegara a culpa, agora surfava na afeição, no amor verdadeiro — espaçoso, inclusivo.
Quando foi que comecei a visualizar o meu prédio? Quando foi que novamente senti o milagre de estar ali sentado não somente sobre o zafu lindamente confeccionado mas no meio do céu, pendurado muitos andares acima do solo graças à engenhosidade humana, e a muito trabalho árduo? A gratidão dominou-me. E me vi mentalmente visitando as fundações do prédio, e não sei bem como nem porquê visualizando-as feitas de Amor, reconhecendo o trabalho nelas, a sabedoria nelas, a solidez, a confiança… Percebi aquela outra cadeia de pensamentos, mas como não me pareceu nociva, deixei que se desenvolvesse para ver a que lugares me levaria… Senti que havia uma forte energia de Amor, da qual eu não era o centro mas da qual participava como… dínamo? Das fundações do Amor parti para a garagem do subsolo, com as dependências para funcionários, todos os carros estacionados, as bicicletas, os armários, fechaduras, cadeados… Madeira como Amor, borracha como Amor, metal como Amor… Minha visita inundou a garagem de uma água aerada, dourada, cintilante, levíssima… Amor. Havia uma família chegando de carro — assim vi ou visualizei –, e envolvi-os em bem estar, delicadeza, harmonia. Amor. Depois de ter percorrido todos os cantos da garagem, subi ao andar térreo… Ou não fui eu, pois não havia eu, mas a onda de Amor na qual me encontrava, diluído, cintilante, vaporizado naquela espécie de ar aquoso e dourado como um nevoeiro mais denso atravessado por um esplendoroso nascente, que se estabelecia desde as fundações do prédio e os poços dos elevadores, preenchendo toda a garagem e agora espalhando-se pelo térreo, inundando os jardins, a guarita dos seguranças, a casa do zelador e de novo, quando cada canto encontrava-se pleno de luz dourada, e as próprias paredes não eram feitas de outra essência que não fosse Amor, a escalada prosseguiu para os dois apartamentos do primeiro andar, que a onda visitou desde a frente até os fundos, de uma ponta a outra, envolvendo todos os objetos e seres com Amor, Amor, Amor… Pleno e satisfeito o primeiro andar, a onda subiu para o segundo, e uma vez preenchido, para o terceiro, e assim por diante, cada vez mais densa, mais brilhante e intensa – passou pelo meu andar, pelo meu próprio apartamento e o do vizinho, e em seguida o dos gêmeos acima, e depois ainda para o alto, até a cobertura da família de Theo, e o próprio salão de festas onde ele morava… Amor. Das fundações ao topo o prédio estava inteiramente preenchido todos os cantos em todos os aspectos todos os materiais e elementos visíveis e invisíveis manifestando Amor a onda era tão forte encontrando tanto espaço e avançando tão naturalmente e sem resistência que uma vez tendo inundado todo o prédio senti que ela vertia por sobre os muros dos jardins suspensos de Theo e como uma vertiginosa cascata luminosa para a avenida a água dourada não apenas lavando todos os transeuntes e carros que por ali passavam mas repintando-os da cor do Amor da matéria do amor de tal forma que os carros correndo com seus motoristas e passageiros iam levando o Amor para outros cantos da cidade eles próprios mensageiros e arautos do Amor tornados Amor e quanto mais carros passavam e alguns deles entravam no prédio uns saiam outros estacionavam e os elevadores funcionavam para cima e para baixo e quanto mais as pessoas e os cães e os gatos se movimentavam por quartos e corredores quanto mais me dava conta de toda a miríade de insetos as formigas e seus caminhos silenciosos os cupins e suas moradas secretas e tanto mais o Amor se intensificava tanto mais ele se expandia não mais somente como uma majestosa e poderosa cascata dourada desde a cobertura mas a partir de todas as janelas do meu prédio que como centenas de faróis emitiam fachos de luz dourada em todas as direções fachos cada vez mais fortes o Amor alcançando os outros edifícios também pelo poços dos elevadores pelas fundações o Amor tendo se infiltrado no subsolo da cidade e pelas tubulações pelo lençol freático fluindo e espalhando-se mais rapidamente…
Não estive cochilando.
Nem estava alucinando.
Permanecia imóvel no zafu, consciente da minha respiração, e de uma certa expansão… Houve enfim o momento em que algo me fez compreender que eu não estava criando uma onda de Amor e com ela inundando todas as coisas… Pois não havia nenhum criador. Havia um mero observador, que de repente se deu conta – ao reconhecer que todas as coisas já eram Amor, quer se dessem conta disso ou não. Foi o refluxo da onda. Num instante, o caminho que seguia espalhando-se pela cidade e por todos os seres, para fora, expandindo-se, percebeu que era o mesmo e um só caminho de volta… O caminho se deu conta, não o caminhante, de que ele era de ida e volta. O Amor se deu conta. Vou e volto sem ter de ir nem voltar, pois sou o próprio caminho, o caminho inteiro. Estou no começo, estou no fim, estou em todo e cada lugar. O rio não precisa chegar ao mar. A nascente não precisa correr, pois lá na outra ponta ela já toca o mar – apenas que recebe um outro nome, o de estuário… Mas o rio é um só, da nascente ao estuário, o caminho unindo as pontas, e não separando-as. Constituindo o próprio rio. O caminho também, subindo ou descendo, indo ou vindo – é só uma impressão, a de direção. E a onda que refluiu não precisou de fato refluir – ainda assim, senti o Amor de todas as coisas confluindo em mim, como uma retribuição, um reconhecimento… Não era preciso colocar Amor em todas as coisas, posto que Amor elas já eram, ainda que não soubessem disso, ainda que não se reconhecem Amor… A tremenda violência do filme exibido na televisão – quando quem assistia se desse conta do milagre que era ter olhos, e poder enxergar naquele momento… O casal que se agredia, sem dar-se conta da maravilha de manifestar palavras, da energia que os animava a gritarem, talvez até a se baterem – se tivessem consciência do milagre das próprias vozes, tão mal empregadas, da energia em seus movimentos, tão mal conduzida… Apenas porque não reconheciam o Amor, não o viviam. Mas ele estava lá sempre, sustentando o momento, a vida de cada ser. Sendo Amor só um nome. Assim como a camiseta que eu usava – linha, tecido, algodão, camponeses, tecelães, patrões e operários, famílias, alimento, agricultura, chuva, sol, transporte, poeira, telhados, vento, joaninhas, petróleo, cimento, foguetes, injeções – abrigando todos os elementos, camiseta era só um outro nome para o Amor que me envolvia naquele momento. O zafu debaixo de mim. Os tacos do corredor. O ar, dentro e fora de mim, sem que dentro nem fora fossem possíveis de distinguir. A buzina da moto, à distância – e no entanto, bem dentro de mim assim como o zumbido do elevador, o vento na janela, o ressonar de Theo – dentro de mim, todos. Um cheiro úmido no ar – dentro de mim. A coceira em minha coxa esquerda, entre tantas coisas que constituíam a minha existência naquele momento – não só a minha experiência, mas a própria existência, naquele momento. E o coração, súbito tão alto, tão próximo, tão vivo, tão presente… Tantas condições permitindo a minha existência naquele momento, tão maravilhosas, tão infinitas, tão misteriosas, sem poderem estar próximas nem distantes, sem poderem estar dentro nem fora — o ar em meus ouvidos e em minhas narinas ilimitado com o ar de todo o universo, os cometas e estrelas cintilando no universo da minha consciência –, as coisas perdiam seus nomes particulares para se reunirem sob Amor…
Era uma vivência, não era uma idéia; uma experiência, não uma teoria; não uma descoberta, mas uma confirmação – e portanto, a verdade que no instinto e na intuição há, inexplicáveis, irredutíveis à pobre razão.
Era uma libertação, aquela nova experiência de Amor. Não havia mais que pensar nele como o amorzinho que tinha de vir de papai senão seria um muxoxo, a afeição de mamãe senão seria um chorinho, o reconhecimento do namoradinho senão seria uma ofensa, a estima da namoradinha senão seria a insegurança, a aceitação do patrão senão seria o medo, a aprovação do vizinho senão seria a antipatia – que por sua vez estavam esperando o amorzinho de papai e mamãe que por sua vez estavam esperando-o de… Basta. Amor está presente e disponível em todas as coisas… Todas? Assassinatos, estupros, guerras… Naquele instante, pareceu-me que bastava o caçador reconhecer a maravilha do momento — ainda que fosse o momento de puxar o gatilho, o olhar na mira –, ao entrar em contato com seus próprios olhos, ouvidos, a imensa destreza nos dedos, braços, mãos, e os pulmões, o coração – se ele pudesse se dar conta das condições infindas e maravilhosas que se reuniam naquele momento para torna-lo possível, e também ao outro ser que ele pretendia matar, se por um segundo se deparasse com o milagre não menos do que grandioso, poderoso, intenso, avassalador, da vida presente em cada mínimo, ínfimo, prosaico segundo – ele não mataria, ele não estupraria, ele evitaria todo o mal, e provavelmente se poria de joelhos. Pensamento. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Percebi que já havia deixado o reino onde há pouco estivera, onde tudo era Amor, porque assim eu queria a tudo chamar, sem distinções. Amor? Já distinguia – morte, vida, começo, fim, bom, ruim, caçador, caça, arma, e eu não era nenhum deles, mas um outro ainda. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando.
Abri os olhos. Começava a escurecer. Encontrava-me novamente naquele módulo de alta definição de sensação e percepção, e em todas as coisas havia uma espécie de halo. Todas as coisas são iluminadas, e nos iluminam de volta. E apesar de escuro, ficou claro — não há iluminação nenhuma a obter. Apenas reconhecer. Não há que criar. Apenas experienciar. Ainda que seja por um momento, tocar o que está sempre lá, disponível.
Aquiles aguardando-me. Aproximei-me de Theo. Nem esparramado nem encolhido. Nem entorpecido nem retraído. Pareceu-me pacífico. Liguei para meu amigo. A voz muita baixa. Ele baixou a voz também. Desculpe, estou atrasado. Mas você vem? Posso deixar o seu telefone com meu vizinho que está passando mal? O que aconteceu com ele? Posso? Lógico que sim! Então daqui a pouco estou de saída. Escrevi um bilhete para Theo. Espero que você esteja bem ao acordar. Obrigado por confiar em mim. A Fedora e o Joshua ligaram. Falei com eles. Desliguei seu celular antes de a bateria acabar. Eles querem que você ligue quando acordar. Sua mãe também. Eu também. Vou estar na casa de um amigo, e o telefone de lá é. Não pude esperar você acordar. Passamos o dia inteiro juntos. Embora você não vá se lembrar. Obrigado por estar aqui. Fique com as chaves do meu apartamento para você. Com Amor. Andante.
If we meet again… I´ll tell you how I feel… I´ll tell you from the start… I´ll tell you love is real… How everything we say… And everything we do… Has been preordained… To bring true love to you… — diante da luz do computador redivivo dei-me conta do meu estado; quando a tela ofuscou-me, pisquei e senti vertigem e surpresa, pois com sua luz trazia-me as usinas hidroelétricas, rios, reservatórios, relâmpagos, chuvas, tempestades, cabos, postes, engenharia, engenhosidade, estudos, empenho, toda a história, memória e sobrevivência da humanidade. Nothing else is pure… Nothing else is right… You will know for sure… Once you´ve seen the light… — a luz elétrica atingiu-me como a um cometa, explodindo em minha consciência. Alcançaram-me milhares de trabalhadores, a noção de um contínuo empenho, cuidado e esforço através da corrente elétrica, como uma comunicação de Amor – e percebi-me emocionado com coisa tão cotidiana, lágrimas nos olhos diante de um aparelho eletrônico… Pensei que seria impossível viver assim, naquele estado de Amor confirmado até pela canção — ou por aquela voz que saindo do computador adentrava minha mente e me comunicava Amor só porque eu havia aprendido um outro idioma, graças a meus pais, professores, escritores, cineastas, e meu próprio interesse e empenho –, mas que talvez eu tivesse de aprender a viver assim, já que aquele passava a ser o meu caminho, irreversível. Amor. If we meet again… I´ll tell you how I feel… I´ll tell you love is real… — cantarolei, fechando a porta com um último olhar na direção de Theo.
O porteiro retribuiu-me o cumprimento, sorridente, e à saída o segurança somente acenou, sempre precavido, profissionalmente retraído. A primeira quadra que caminhei, das sete ou oito que me separavam do edifício de Aquiles, foi um tremendo susto. Aos primeiros passos na calçada seqüestrou-me o ruído e a visão do vôo iridiscente de um besouro cruzando o espaço à minha frente em câmera lenta até pousar na borda de cimento coberta de lima do canteiro do prédio vizinho onde amarílis e agapantos explodiram em cores brilhantes intricados recortes arranjos exuberantes diante dos meus olhos no módulo de alta definição em que me encontrava as nuvens de chuva que escureciam o céu foram se dissipando e o final de tarde repentinamente revelou-se ensolarado os pássaros pareciam dispostos a comemorar a desistência da tormenta ouvi um trinado vigoroso e virtuoso logo acima da minha cabeça e enxerguei o passarinho pousado no resedá junto a mim ti-tiu… ti-tiu-tiu cantou mais uma vez resolvi responder com Amor… Amor-Amor… e logo em seguida me arrependendo imaginando que o passarinho iria voar assustado diante do meu canto tão desafinado e em nada parecido com o dele a não ser na tentativa de tom e melodia para minha surpresa ele girou a cabecinha e voltou a piar ti-tiu-tiu… ti-ti-ti-tiu… e eu insisti no meu piado de Amor-Amor-Amor talvez um pouco mais delicado descobri que o passarinho desejava brincar e respondeu-me… ti-ti-ti-tiu… por um instante somente escutei para ter certeza de que não havia algum outro pássaro ao qual ele estivesse correspondendo e que eu ainda não houvesse identificado ti-tiu ele pareceu-me perguntar e Amor-amor eu respondi assim ficamos ao resedá conversando animadamente até lembrar-me que já estava atrasado para a casa de Aquiles despedi-me agradecido com um Amor-Amor-Amor doce e sorridente e sai caminhando pelo canto do olho enxerguei o passarinho voar até o resedá seguinte dois metros à minha frente e de lá de novo endereçar-me ti-ti-ti-tiu… fiquei imaginando se o passarinho teria me identificado como a origem do canto que respondia e por isso me seguira Amor-amor… A-mor… A-mor… cantei lentamente mais suavemente e me aproximei da arvorezinha o passarinho animou-se e discursou Ti-tiu… ti-tiu-tiu… Ti-ti-ti-tiu… Ti-tiu! A-mor… A-mor… A-mor… A-mor… empolguei-me e assim continuamos — só nos separamos quando um carro encostou ao portão da garagem mais próxima e buzinou, espantando o passarinho num vôo espavorido, acelerando meu coração. Será possível, pensei, ou estou ficando louco?
Na esquina, esperei o semáforo para pedestres abrir mais porque aquilo me dava a chance de parar e voltar-me à minha respiração, tentando acalmar um pouco o estado inebriado e emocional no qual que encontrava. Mas meu olhar em alta definição não se pacificou diante do vento do fim de tarde agitando os galhos da verdíssima figueira do outro lado da calçada, como um maestro em pleno allegro molto vivace, apassionato e con brio, enquanto por entre a copa abrindo e fechando-se eu entrevia as nuvens afastando-se no mesmo ritmo vigoroso… Todos os movimentos claramente perceptíveis, as folhas intensamente brilhantes, os galhos agitados estalando como que espreguiçando-se, e as folhas lambendo-se umas às outras com um chiado voluptuoso. Pensei que era impossível viver daquela maneira, tocado por todas as coisas continuamente, e procurei fechar os olhos. Com isso perdi o semáforo para pedestres, que voltou a ficar vermelho – embora, de fato, não houvesse carro algum naquela tarde de domingo, àquela esquina. Procurei manter o olhar baixo, concentrando-me na minha respiração, buscando vigiar os sentidos. Mas fui assaltado pela visão surpreendentemente gloriosa da passagem de um avião refletido no vidro traseiro do carro estacionado bem ao meu lado – e enfim soltei uma risada.
Lembrei-me do conselho que no mosteiro havia recebido do Venerável, quando até um pouco assustado havia lhe contado sobre aquele módulo de percepção em alta definição no qual incorria algumas vezes. Os super-sentidos, siddhis como ele os chamara, ocorriam a algumas pessoas logo no início da prática. E não deviam tornar-se um problema, a não ser que eu escolhesse torna-los um problema – apegando-me a eles, dando-lhes importância, desenvolvendo-os, e assim retardando meu progresso verdadeiro, na clareza mental que de fato importava. Se ficava atordoado por ouvir os sons vindos de todos os cantos dos dois andares da casa onde residia no mosteiro, se me incomodava ouvir claramente as confidências não dirigidas a mim, compartilhadas em sussurros no fim do corredor — eu podia escolher ouvir mas não entender, prestando atenção ao som porém não ao sentido. Não havia um problema se eu não criasse um problema.
Soltei outra risada – e o cachorrinho que viera cheirar minha perna latiu, mirando-me com olhinhos desconfiados. Os mesmos olhos miúdos e um pouco úmidos de sua dona, a senhorinha que chegou alguns segundos depois, vinda da outra ponta da coleira, e que olhou-me igualmente desconfiada – mas não latiu, apesar de ser do clã da gente cã. Além da coleira, segurava as abas de um casaquinho de tricô azul que o vento tentava abrir, e o cabelo branquíssimo cuidadosamente armado que o mesmo vento tentava despentear. Convidei-a a atravessar, quando o semáforo mudou para verde, e mostrando-se muito surpresa com o meu gesto de porteiro da rua, apressou o passo.
Na outra calçada, vi-me envolto pela figueira que já havia chamado minha atenção, a qual lançou um galho à minha frente, interceptando minha caminhada, e quando estanquei, baixou outro diretamente sobre a minha cabeça, a folhagem trêmula cutucando minha nuca. Ri de novo, envolto pelo verde, imerso em folhas e farfalhar de folhas, seiva e poeira. Esperei até a árvore – e o vento — me liberarem, erguendo novamente seus galhos, redemoinhos, silêncio, e segui em frente. Cumprimentei a senhorinha que me olhava ainda desconfiada.
– Boa tarde – minha voz saiu triunfante, e sorri com exagero. Esfuziante foi a palavra que me ocorreu quando observei o meu estado de espírito.
– Boa tarde…? – ela respondeu, hesitante, egressa de um mundo totalmente diferente do meu, e apesar de eu já ter me afastado, preocupado em não assusta-la ainda mais com meus modos exuberantes, acrescentou – O senhor parece muito feliz…
– Eu estou! – confirmei, permanecendo a alguns metros de distância. Vi um passarinho agitar-se dentro do arbusto de espirradeira a meu lado, e pensei, por favor não comece a conversar comigo na frente desta senhora…
– Que bom para o senhor! – e ao dizer isso ela soou inconformada, até indignada, como se minha atitude lhe fosse ofensiva – Num mundo como o nosso… – empertigou-se, para iniciar a tentativa de sabotagem – O senhor viu aquela menina de três anos lá do Rio que os ladrões mataram essa manhã?
– A senhora a conhecia? – indaguei, com cuidado.
– Claro que não. Só vi no jornal. Mas como o senhor consegue ser feliz com uma coisa dessas? E com tantos políticos corruptos lá em Brasília…
Ocorreu-me que não compartilhávamos a mesma tarde, não o mesmo bairro nem rua, nem a mesma calçada ou planeta, e numa súbita inspiração — A senhora ficou sabendo daquele bebê que um médico salvou da morte por asfixia… Aquele que nasceu com o cordão umbilical dando duas voltas no pescoço?
– Não. Ele está bem? Onde foi?
– Muito bem – assegurei-lhe, efusivamente – Ele sobreviveu, e está aqui diante da senhora – embora não pudesse afirmar que sem seqüelas, visto o meu estado atual.
Ela arregalou os olhos.
– Não vá até o Rio ou Brasília, senhora. Fique por aqui mesmo, e desfrute da sua tarde… – despedi-me e sai caminhando, mas não resisti a um impulso do qual depois me arrependi, por parecer-me doutrinador e excessivo, voltando-me para dizer-lhe — E se puder, desfrute desse seu casaquinho azul tão bonito, que protege a senhora do vento – empolguei-me – Desfrute até do vento, que ajuda a dissipar a poluição e está afastando a tempestade – apontei para o céu, como se ela não soubesse onde buscar a evolução das nuvens — Desfrute desta tarde através dos seus olhos, com os seus ouvidos, com as pernas que levam a senhora para caminhar – e não parei, mesmo diante da expressão de incredulidade da mulher – Desfrute da companhia do seu cachorrinho tão bem cuidado… E quando chegar em casa, agradeça pelas paredes, pela água encanada, pela energia elétrica – cãozinho e dona imóveis pareciam igualmente prestar atenção em mim, julgando-me, ou buscando fazer sentido –, pela comida… – abri os braços da maneira ampla como Theo fazia, abarcando o universo – Por que não estar contente, aqui, agora?
– Tome cuidado para a sua felicidade não ser atropelada na próxima esquina – exímia, a senhorinha desfechou o golpe mortal – Nem assaltada… – ministrou-me o antídoto fatal.
Não vou relatar o restante da minha caminhada — a Rádio Mente tocando Here is the Pure Land, the Pure Land is here… I smile in mindfulness, and dwell in the present moment… The Buddha I see in an autumn leaf, the Dharma in a floating cloud… — até o prédio de Aquiles, em respeito a um amigo e leitor que pondera sobre os trechos estarem demasiado longos. De fato, ao contrário da maioria das pessoas que reclama que os dias estão cada vez mais curtos e que o tempo parece passar mais rápido, os meus parecem alongar-se, vividos intensamente, prestando atenção a cada momento, mesmo ao abrir a torneira, presente o tempo todo, inclusive escovando os dentes… Há quantas palavras atrás sai de casa? Quantas postagens está durando este domingo? Quantas mais vai durar? Não sei dizer, uma vez que a inundação do meu lavabo tem se repetido com esta narrativa, as palavras escorrendo-me dos dedos em jorros de frases e parágrafos inteiros. E não há nenhum Divino para reparar isso.
Afinal, pelo caminho minha felicidade não foi atropelada nem assaltada, pois eu mesmo já tinha sido atropelado e assaltado por ela, e portanto não chegou diminuída à cobertura do meu amigo, que estava à porta para receber-me. Antes de julga-lo abatido, envelhecido, emagrecido, deixei-me envolver por seu abraço, e procurei harmonizar-me com ele – o que não era difícil, se atentasse à trilha sonora proporcionada por Aquiles, sempre ouvindo música em alto volume, afinada com sua disposição de espírito.
– Debussy. Sirènes – foi o máximo que reconheci, apesar de saber que aquele movimento fazia parte de algum Noturno do qual não lembrava o número, mas mesmo assim foi o suficiente para faze-lo sorrir. Era o começo da peça, e fiquei imaginando se meu amigo a teria iniciado assim que o interfone tocara ou à aproximação do elevador, numa espécie de homenagem à minha chegada, como já o assistira fazer com outras pessoas.
Ele confirmou, exuberante, um Odisseu triunfante com sua voz tonitruante que teria vencido todas as sereias — Abbado. O seu preferido! – Aquiles referia-se à época em que eu vivera em Berlin, durante a qual tinha freqüentado a Filarmônica, economizando em outras coisas para poder comprar os ingressos, sempre que possível assistindo-a e ao Claudio Abbado que, por alguma razão incompreensível até para mim mesmo, tinha eleito como meu maestro preferido, a partir de uma ou duas interpretações de Brahms, também o meu compositor preferido à época, se ainda me lembro… Há anos não tocava minha coleção de eruditos, e só voltava a esse mundo na companhia de Aquiles – Vou só me despedir do Nils e sou todo seu… Você nos fez falta, aqui! – e retornou ao computador para o amigo, um sueco residente nos EUA. Depois iria descobrir que Aquiles já não subia ao segundo andar da cobertura, e que aquele canto da sala abrigava uma pequena estação de trabalho que era agora o seu escritório, o qual tinha se convertido em quarto de dormir, e que durante o tempo em que eu estivera fora, uma grande reforma ampliara o lavabo tornando-o propriamente um quarto de banhos, retirando espaço à cozinha – tudo por conta dos problemas de vista que o haviam deixado praticamente cego, embora não desse mostras disso em seu próprio apartamento, onde morava há mais de 20 anos e no qual movia-se até de olhos fechados, mesmo com a recente reforma.
Meu amigo ainda não tinha se desvencilhado do computador, tendo pedido licença para atender apenas brevemente a um outro amigo da Holanda que o chamava pelo Skype, quando Fátima, a fiel ajudante de Aquiles desde a Antiguidade, trouxe-me o telefone, e eu soube imediatamente tratar-se de Theo – agradecendo pelo meu cuidado e pedindo desculpas pelo transtorno, já tendo falado com Fedora, Joshua e a mãe – e não fiquei triste por ser o último da lista –, dizendo-me que em outros tempos não teria tanta gente atrás dele, mas desde que ele tinha tentado o suicídio – também não me surpreendi por ele mencionar o assunto tão diretamente – sentia que tinha um monte de gente seguindo cada passo que dava… — Perdi a chave do meu apartamento… – confessou, e era esta a razão de ter me pedido abrigo, e não a promessa feita a Fedora de não subir bêbado a escadaria – e como não queria pedir a cópia aos empregados lá de casa… – ele esclareceu – Na verdade, ainda não quero fazer isso, não nestas condições… Estou nojento! Como você me agüentou? – ele riu – Será que posso tomar banho aqui na sua casa, antes de subir, e pegar emprestada uma camiseta sua?
Eu tinha previsto isso, e separara uma toalha e algumas roupas que o aguardavam no quarto de hóspedes, e que por receio de parecer tolo, paternal, excessivo ou desnecessário – a raiz estava em meu medo de rejeição, eu sabia melhor – não incluíra no bilhete, revelando-o somente agora, satisfeito — As chaves do apartamento também são suas. Da próxima vez você pode entrar direto… – ri, entre sentir-me magnânimo e generoso, satisfeito ao estreitar nossa intimidade e confiança – Não precisa ficar no capacho… — decepcionei-me quando em seguida ele não agradeceu efusivamente, mas foi até um pouco hesitante, e finalmente senti-me tolo, paternal, excessivo e desnecessário.
– Depois vou sair de bicicleta. Para queimar tudo o que bebi, e quem sabe espantar essa “lezadeira” – usou uma palavra estranha, talvez misturando lerdeza com bebedeira, e nossa conversa terminou bruscamente, quando ele precisou atender outra linha, deixando-me num estado indistinto de frustração e carência – que só iriam aumentar, quando em seguida chegaram Guido e Luciano, um casal habitué de Aquiles. Não fiquei surpreso, embora me sentisse decepcionado, tendo imaginado que meu amigo desejaria passar algum tempo a sós comigo, quando iríamos nos colocar a par do correr de nossas vidas durante o ano em que não nos víramos. Vendo-o abatido, envelhecido, emagrecido, esperava que ele me confidenciasse – mas também não era surpresa que preferisse a música alta, a casa cheia e a agitação de costume a encarar-me sozinho e em silêncio. Aquiles mantivera sua amizade por mim, mas a condição era que nós preservássemos uma prudente reserva de assuntos pessoais e à distância a sinceridade em relação a sentimentos, assim como ele fazia com relação a si próprio.
– O monge resolveu voltar para nós! Que bom! – Luciano sabia ser charmoso e sempre educado, o que a meus olhos aumentava sua beleza um pouco rude e muito masculina de tipo árabe – Nós precisamos da sua paz! Nós precisamos de pelo menos alguém em paz, né? – olhou na direção de Guido, que sempre tímido apenas sorriu, sem mostrar os dentes nem alterar a melancolia perene em seus olhos castanhos e grandes, ainda inocentes como os de um bezerro, apesar de estar beirando os cinqüenta, assim como seu companheiro.
Vi minha frustração aumentar à medida que começou a entrevista sobre minha vida no mosteiro. Ao contrário da prática meditativa de ouvir sem interromper, agora eu me dispunha a falar somente para ver até onde chegaria no relato que me pediam para fazer do cotidiano monástico – normalmente, não conseguia passar do sino que nos despertava às cinco da manhã… Depois de bastante polêmica e incompreensão sobre um tal horário para se iniciar o dia, a pergunta seguinte foi sobre disciplina, e antes mesmo que eu respondesse, começou-se a comentar da disciplina em um spa, que já era insuportável, imagina então num mosteiro, e o assunto derivou de spas para cirurgias estéticas e as correspondentes fofocas sobre os acréscimos ou decréscimos neste ou naquele amigo… Assisti minha frustração aumentar em meio à conversa caótica e errática – embora só eu a julgasse assim, pois de resto era normal e prosaica e estava dentro dos parâmetros de todas as conversas ansiosas, confusas, estupidificantes que normalmente era só o que se tinha ao longo dos dias e de toda uma vida – da qual só participaram Luciano e Aquiles, tendo eu me recolhido ao meu sorriso um pouco condescendente e Guido, de quem não conseguia sequer recordar-me do timbre de voz, ao seu habitual isolamento acústico. Quis crer que como eu, ele também se esforçava por assistir ao poente, para o qual toda a frente do apartamento estava voltada, inclusive o espaçoso terraço no qual nos encontrávamos. Mas talvez eu tenha sido o único a observar as nuances de cores e a mudança nas texturas das nuvens – pelo canto do olho, para não parecer totalmente desinteressado da conversa.
Amuadas como eu, as sereias já haviam se recolhido há muito tempo, tendo cedido a vez a um retumbante Il Rigoletto, ou coisa do gênero, e as bebidas alcoólicas começaram a brotar do bar quando chegaram mais dois amigos de Aquiles, num crescendo que galgaria a doze participantes naquela pequena reunião de domingo.


