Trecho XVI – O sonho de Theo (Infidèle)
novembro 25, 2009
O artista tende a ver o que pinta
ao invés de pintar o que vê.
E. H. Gombrich
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acessando o índice disponível no cabeçalho acima.
Obrigado, desfrute!
Uma amiga – dentre muitos talvez que aqui vêm e dão só uma olhadinha — está decepcionada com O diário dos dias extraordinários. Por conta deste nome, estava certa de que iria encontrar em Oddde os relatos de minhas viagens à Islândia ou à Polinésia, as semanas nos vales dos Himalaias percorrendo a antiga rota das caravanas da seda, visitando templos milenares e oásis, os dias numa aldeota em que pude crer estar na mítica Macondo, preso ali por conta de repetidas avalanches, meu acidente no Deserto do Atacama ou a travessia pela Patagônia. Nada disso está aqui, embora nada disso deixe de estar, pois não há um Andante sem todo o seu caminho, todo o percurso, todas as memórias de viagens. Em mim estão Dalsnibba e Uzungöl, as Grenadines e o Nubra Valley – e portanto, em cada uma destas linhas está a Índia e o Peru, a Rússia e o Alaska, embora poucas vezes eu mencione anedotas de viagem ao longo desta narrativa.
Porque aconteceu o meu encontro com Theo, e conviver com ele equivale a viajar – não só em sua extraordinária beleza, nem tanto pelo sotaque estrangeiro. Lembro que o Trecho I deste diário leva ironicamente o nome da canção de Perry Blake – It’s just an ordinary day… Nothing much to laugh about, nothing much to cry about… –, pois nunca pretendi outra coisa que não relatar o meu cotidiano de prática e minha convivência com Theo, de meditação e amor, o que para mim é suficientemente extraordinário – passar meus dias cultivando paz e não mais ansiedade, procurando a compreensão no mesmo lugar onde antes havia a impaciência, a compaixão no lugar da raiva, a alegria ao invés da angústia, a prática da liberdade onde antes praticava preferências, apego e aversão. Para mim, é suficientemente extraordinário beber chá e ao mesmo tempo beber nuvens e paz, e poder cultivar gratidão e desapego bebendo chá. E afinal beber chá, simplesmente. Como ensina o meu mestre, as pessoas dizem que é milagre andar sobre a água; mas para mim o verdadeiro milagre está em andar pacificamente sobre a terra.
Parece-me extraordinário ter alguém no meu cotidiano com quem compartilhar a prática – que consiste basicamente em viver com plena consciência, todos os momentos, em todo lugar, caminhando até o banheiro, lavando a louça, falando com cuidado e ouvindo profundamente, ao telefone, pela internet ou pessoalmente. Assistir nesta tela de computador estas manchinhas pretas tornando-se letrinhas, tornando-se uma voz que na minha mente, enquanto escrevo e crio, seria a minha voz, mas que na verdade neste momento é a sua voz, na sua mente, compartilhando esta narrativa… Não me interessa acender velas e incenso ou recitar mantras – ressinto-me da prática formal, quando é superficial. Ela me constrange, desestimula, enfraquece, traz-me dúvidas e até embrutece. Como não sou obrigado a ela, a não ser no mosteiro quando posso pratica-la observando minha própria prisão, a partir dos meus julgamentos e aversão, tenho sido feliz, diligente e pacientemente praticando – e ao final do dia, ou mesmo ao final de um percurso de carro ou a pé, quando dou-me o tempo para relembrar todos os momentos do trajeto, e lembro-me inclusive dos meus estados de espírito, de mudanças de luz e temperatura, do meu fluxo de pensamentos, de uma coceira, da buzina ou do canto do pássaro – como um exercício de passar em revista a minha atenção e a concentração, e como a mantive e desenvolvi ou perdi a cada momento – e de repente dou-me conta do instante presente, no qual realizo tal exercício, e de que em minutos revivo o dia, e ao estar consciente da consciência alguma coisa se desliga e não mais há observador nem observado nem observação… Isso parece-me extraordinário!
Sempre vivi a vida extraordinária que nos é dada, mas a não ser em minhas viagens, raras vezes dando-me conta disso. Neste sentido, minha amiga tem razão – um diário dos dias extraordinários deveria ser um diário das minhas viagens: comer olhos e cérebro de carneiro na Grécia ou carne apodrecida de tubarão na Islândia, iguarias oferecidas ao estrangeiro e convidado de honra, este mesmo que no restante do tempo está vegetariano. Colocou-me porém numa nova trilha, que afinal desembocou na prática da plena consciência, a mãe de uma outra amiga, quando depois de ouvir meus relatos e ver as fotografias de uma viagem de alguns meses pela Capadócia, adentrando o território da antiga Babilônia ao longo das margens dos rios Tigres e Eufrates – você viaja num estado de graça, disse-me, referindo-se aos inúmeros perigos por que passava sem mazelas, os contratempos que ocorriam e quase magicamente se deslindavam, sem mais da minha participação nas soluções do que paciência e contemplação — relativamente poucos, em se pesando minha exposição durante essas viagens de expedição –, muitos deles corrigindo meu caminho em direção a rumos mais maravilhosos e ao encontro das pessoas mais extraordinárias… A mãe de minha amiga tinha razão, e ao me dar conta disso, resolvi viver o meu cotidiano também em estado de graça, e não mais aguardando pelas viagens. Desisti de ficar ansiando o ano inteiro pelo mês de férias, e a experiência de viver num estado de graça que me proporcionavam as viagens. Desisti de ficar esperando pela admissão no Paraíso pela porta dos fundos, e após um breve passeio pela ante-sala de novo ver-me despachado para o Inferno… Decidi viver no Paraíso todos os dias – e um dos primeiros degraus da prática foi libertar-me de conceitos de Paraíso e Inferno… Nem um nem outro extremo, há um estado de paz e alegria que suplanta os dois – coisa parecida com o que sentia na liberdade das minha viagens, mas mais constante, estável, e cotidiano. Decidi ser feliz, aqui e agora, e não mais esperar por um outro lugar melhor para ser feliz, o Monte Athos ou o Deserto de Gobi, e independer das condições ideais – das minhas idéias sobre felicidade — , para desfrutar isto… Cansei de esperar e depender de condições ideais de clima e temperatura e situação e pessoas e etcetera para ser feliz – um longo processo de liberação que ainda está em curso, e que já se associou ao percurso deste cadáver a caminho que sou.

Isto dito à minha querida amiga e leitora, que espero possa lidar bem com a frustração, foi o caminho do Inferno ao Paraíso que retracei, no elevador com Theo. Foi durante aquele breve percurso descendente que consegui resgatar o contato com meu centro, the island whithin, inspirando, expirando, inspirando, expirando – tive inclusive de fechar os olhos à beleza extraordinária de Theo, e talvez por isso ele não tenha feito outro comentário que não o elogio a Aquiles; também fechou os olhos e, creio, voltou-se à própria respiração. Quando saímos do elevador e atravessamos o hall em direção à noite fresca, envolvia-nos um renovador e aconchegante silêncio, no qual novamente eu podia ouvir as batidas do meu coração, vendo Ralph e Il Rigoletto, minha contrariedade e sentimentos de humilhação e vingança, todos, dissolvendo-se no espaço amplo da consciência; a temperatura de meu corpo arrefecendo e a rigidez dos músculos suavizada, à medida que eu deixava o Inferno onde me colocara. Teria sido excelente fazer este mesmo processo in loco, abandonar o próprio Inferno sem ter de abandonar o Inferno, deixar de estar no Inferno estando ainda no Inferno – mas daquela vez eu não conseguira, e tivera de deixar a festa para poder acalmar-me. Ao menos, sentia que nada daqueles sentimentos negativos e emoções aflitivas me acompanhariam por muito tempo, e se eu praticasse, se eu persistisse na prática, dissolvendo-os, provavelmente nenhum deles chegaria em casa comigo – não porque deles me esquecesse ou distraísse, mas porque os transformava. Theo, silencioso e pacífico a meu lado, parecia também disposto a isto, o que provocou-me um agradável contentamento e impeliu a convida-lo — O que você acha de fazermos meditação caminhando até em casa?
Vivemos uma fantasia. A minha, naquela noite, incluía os exuberantes jardins do prédio de Aquiles, com quase quarenta anos de existência – oposto do zen do meu edifício, estes eram luxuriantes, o pequeno bosque que se tinha de atravessar a partir do portão de entrada – um canto dele tendo sido desmatado nos anos recentes para a construção de uma guarita externa; por medidas de segurança e valorização do edifício, típicas da classe média entre apavorada e ávida, tinha morrido uma frondosa paineira –, tendo-se inclusive de cruzar uma pequena ponte sobre espelhos d’água, onde nadavam carpas e viviam rãzinhas que agora mesmo escutava. Tão alegre e satisfeito estava, na breve vitória sobre minha contrariedade, na companhia doce do deus adolescente, que voltou a invadir-me a mesma delícia de caminhar nos bosques outonais de Leh, no ar rarefeito que me deixava tanto mais alerta e impulsionava meu módulo de alta definição de percepção, por entre regatos da água límpida de desgelo do Himalaia, enquanto o suave marulhar nos pequenos espelhos d’água enviou-me de volta à Patagônia chilena e as caminhadas circundando seus grandes lagos, às vezes cruzando-os em botes infláveis para nos aproximarmos das geleiras… E eu nem tinha deixado o meu bairro…
A prática é todo o tempo, em todo lugar, e quando não se mantém o insight, há que sempre recomeçar. Percebi a precariedade de meu contentamento, que não era muito mais do que a pobre euforia de ver-me livre da contrariedade experimentada durante a festa improvisada, achando-me enfim a sós e em paz com meu adorado amigo – percebi que havia confundido a constância da vela em relação ao esplendor dos fogos de artifício, e de novo vi-me em meio à fumaceira depois que o espetáculo colorido e ruidoso da minha falsa paz e do meu pífio silêncio foram interrompidos pelo celular de Theo. Por sua expressão percebi que não reconhecera o número que o chamava, e não se afastou de mim para falar, assim acompanhei um dos lados da conversa – Ah…. Oi, Philippe. É mesmo? Que bom! Não, eu não estou em casa. Você poderia deixar na portaria do meu prédio para mim? Hoje à noite? Estou de saída da casa de… um amigo – final da conversa, ouvi Theo dar o endereço do prédio de Aquiles ao tal Philippe, combinando de encontra-lo à frente – O cara de ontem… – esclareceu-me em seguida — Encontrou minhas chaves na casa dele, e quer devolver-me.
Foi assim que terminou minha fantasia de bosques nos vales dos Himalaias junto a lagos da Patagônia sob uma lua cheia que jamais vi tão forte quanto no deserto do Atacama ou do convés de um pequeno barco cruzando o Mediterrâneo… Vi nossa meditação caminhando descartada, não só porque Theo viera de bicicleta, mas porque vinha até ele o tal Philippe, o cara de ontem – Uau, veja o que minha mente é capaz de produzir!, havia-me ensinado a praticar um outro mestre, observando os fenômenos da mente e suas intricadas conexões, não me surpreendendo ao ouvir o nome Felipe manifestar-se mais uma vez naquele jardim, sendo que em muitas outras ocasiões havia sido eu mesmo a pronuncia-lo. Felipe era o nome do meu primeiro namorado, sobrinho de Aquiles. Não o via há alguns anos, pois atualmente mora no Canadá, e no entanto estava de novo aqui, neste jardim – nunca tendo deixado o espaço da minha consciência. Meu desconforto aumentou diante do eminente abandono por Theo, e a toda contrariedade da noite somava-se agora o fantasma de um amor interrompido, ou dois, ou mais, e de novo via-me afundar no pântano do meu Inferno da rejeição, por causa do Felipe e de Philippe.
Theo, no entanto, não se encontrava no mesmo lugar que eu, embora estivéssemos os dois nos jardins do prédio de Aquiles – O que tem ali? – perguntou, e antes que eu advertisse ser território proibido, a casa fantasma, vi-o desaparecer aos pulos, galgando os largos degraus que levavam ao primeiro cubo de concreto dos Jardins Suspensos da Babylonia, como Felipe e eu havíamos apelidado aquele canto do terreno – uma série de espaçosos cubos de concreto cercados de largas floreiras cheias de vegetação e onde até árvores cresciam, os cubos em diferentes alturas criando desníveis de patamares e abrindo clareiras em meio à vegetação. De dia, pelas rampas e não pelos degraus, algumas mães escalaram ali com seus bebês – atualmente, só se viam babás com os bebês das mães ausentes –, por isso o apelido de Babylonia. À noite, no entanto, nunca avistava-se ali nenhum morador, e assim nós descobríramos mais um lugar para namorar… Era portanto um terreno mal-assombrado para mim, aqueles cubos de concreto em meio ao bosque, e quase não tive coragem de sair no encalço de Theo – ainda não tendo percebido a chance que o deus adolescente me dava de fazer as pazes com meu próprio passado, nem tanto renovando as lembranças mas acrescentando uma outra, que eu ainda não imaginava qual seria… Algumas vezes, esquecia do poder curativo de Theo sobre mim, ou desacreditava dele.
Não diria que Theo tivesse escolhido o canto mais querido e dolorido das minhas memórias, pois não havia nenhum sítio naqueles cubos que Felipe e eu não tivéssemos desfrutado ao longo dos anos — Este lugar é mágico! – Theo exclamou, abrindo os seus metros de braços e ombros, acolhendo o universo, girando nos calcanhares como às vezes fazia, tendo escolhido dos patamares o mais alto e central, na vizinhança de um pau ferro, completamente envolto pela vegetação e longe da vista de quaisquer passantes. Ele estava tão feliz e exuberante que, se fosse alguém de quem eu gostasse menos, teria reagido com mágoa e rispidez para faze-lo dar-se conta e compartilhar do meu sofrimento. Em sendo Theo, desarmei-me, e tentei compartilhar de sua alegria radiante que o tornava formidavelmente belo.
Alguns dos cubos eram totalmente circundados por canteiros, com vegetação típica dos anos setenta, avencas e aspargos ornamentais, samambaias taludas que havia atingido o porte de árvores, enquanto nuns outros havia bancos de madeira em nichos – e Theo havia se instalado neles, tendo tirado as sandálias e com elas coberto a luminária rente ao chão que lhe pareceu dar-nos iluminação excessiva, estirado sobre o banco, e instando-me a fazer o mesmo no banco do lado oposto. Eu estava pregado nos degraus que subiam até esse último cubo, vendo-o tão à vontade naquele espaço, desfrutando-o tão imediatamente – era uma de suas qualidades principescas com as quais iria me acostumar, uma imediata e natural intimidade e posse de tudo que gostasse e desejasse desfrutar –, e como num sonho sem clemência, metido em roupas minhas. Veja o que minha mente é capaz de produzir…
Demorei a apaziguar-me, e não colaborou a visão de Theo esparramado no banco, metro e meio distante de mim, na noite sensualmente agradável, envoltos pelo cicio de grilos, cigarras e alguns pássaros tardios, a escuridão assinalada pelo vôo iridescente dos insetos noturnos, o improvável coaxar de uma ou duas rãs em plena metrópole. Finalmente, fiquei descalço como Theo, e acomodei-me no banco, deitando de lado, na direção oposta à que ele havia escolhido, e como o meu amigo com o cotovelo dobrado sustentando a cabeça apoiada a uma mão, para que pudéssemos nos mirar confortavelmente. Theo encarou-me, sem esconder nada de sua satisfação com aquele lugar e momento, e em sua expressão deixando clara sua gratidão e a apreciação de minha companhia – e finalmente libertei-me, ao entender que Felipe tinha vindo em outro momento, antes para mim, e que retornaria depois como Philippe, então para Theo, mas agora havia só Theo e Andante, se eu não deixasse entrar mais ninguém. Então também para mim seria somente satisfação, gratidão e apreciação, que era o que de fato contava e existia – uma jaca podia despencar na minha cabeça a qualquer momento, ou poderia ter um infarto fulminante como geralmente ocorre com os homens em minha família, e diante desse pensamento sobre a minha própria brevidade afastaram-se o Felipe que cruzava o continente americano para assombrar-me na perspectiva do Philippe que cruzava a cidade para vir ao encontro de Theo – que, por sua vez, parecia perfeitamente instalado dentro da noite, só à espera da minha completa presença, pois ele já parecia identificar quando tinha em mim platéia que retribuísse, para criar um momento mágico.
– Posso te contar o sonho que tive, dormindo lá no seu apartamento? – Theo sorriu, secreto – Gostaria de acreditar que foi por causa da sua meditação… a sua onda amorosa que me invadiu… – percebi que no início de cada compartilhar, Theo sempre me incluía neles, o que era irresistível — Foi assim… Eu estava dentro de uma caverna da qual não podia divisar nenhuma parede, de tão longe que estavam, tão enorme era a caverna. E escura. Muito escura. Mas não completamente escura, pois de algum lugar vinha luz, que era a minha motivação para caminhar, buscando-a. Encontrava-me perdido, e estava completamente nu, sujo, faminto, exausto naquela busca. De repente, ouvi você me chamando. Você não dizia meu nome. Você me chamava diretamente. Eu não tinha um nome, eu não era alguém, então você me chamava diretamente, sem dizer nenhuma palavra. O seu chamado partia de mim mesmo, ecoando em mim, a partir de som nenhum. É difícil de descrever, como sempre, nos sonhos. Mas foi o chamado mais direto que já recebi. Não podia me equivocar. Fui seguindo na direção desse chamado silencioso. Descobri-me indo na direção da luz, que se intensificava. De repente enxerguei no meio da caverna uma enorme coluna de luz. A luz parecia irradiar-se do solo para cima, mas também do teto para baixo, de forma que era muito densa. Tive medo de me aproximar, mas o seu chamado sem palavras instigava-me. Não podia te enxergar, pois você estava dentro da coluna de luz, e eu ainda me encontrava na escuridão da caverna. Tive medo de adentrar, e então a sua mão alcançou-me no escuro e convidou-me a entrar… Dentro da luz, eu já não tinha mais a sensação de estar nu, talvez porque você estivesse nu também, então isso não era um problema… Ainda não te enxergava, pois a luz era muito intensa. Agora vamos subir a escada, você dizia, sem palavras, mas eu não enxergava escada nenhuma, só luz. Aqui é o primeiro degrau, e você tomava o meu braço e me ajudava a subir. Eu tinha medo, porque não conseguia enxergar a tal escada, e me parecia estar subindo no ar. Era aflitivo. Cada degrau era invisível, aquele onde eu estava e o próximo que devíamos galgar, então tinha medo de estar pisando num buraco. Só a sua presença me inspirava confiança, ainda que eu não pudesse te enxergar a meu lado. Podia sentir a sua presença. E assim fomos subindo degrau após degrau, os patamares invisíveis, vencendo o medo, galgando o ar, dependurados cada vez mais alto, escalando dentro da torre de luz… então comecei a ter receio de batermos contra o teto da caverna, do qual nos aproximávamos. Você seguia confiante, e eu tentava ter a mesma desenvoltura que você, e não demonstrar medo, embora me encolhesse. Finalmente, senti que estávamos atravessando o teto da caverna, que era só muito escuro mas afinal não era sólido.
Theo parou por um momento, e olhou-me, inclinando a cabeça de lado, para ver se eu prestava a atenção – e deve ter me encontrado fascinado, e também enternecido como sempre ocorria quando o via inclinar a cabeça em dúvida, e continuou, estimulado:
– Estávamos numa catedral. Tipo gótica, com colunas muito compridas e delgadas. Mas não havia bancos, e não me lembro do altar. Por toda parte o que havia era mesas, longas mesas de banquete, cobertas de todos os tipos de comida. Só então me lembrava que estava faminto, e me atirava à comida. Na catedral, perdi-me de você. Havia lá outras pessoas, comendo também, passeando por entre as mesas de banquete, mas era uma catedral tão enorme que as pessoas não encontravam umas às outras, e como havia comida em abundância, tampouco havia o quê disputar. De repente, me lembrava de você, e te chamava. Assim como eu, você não tinha nome, então não precisei dizer nada, simplesmente chamar diretamente. Você vinha imediatamente. Na verdade, você nunca tinha deixado o meu lado. Embora ainda não conseguisse enxergar você, mesmo que na catedral a luz fosse normal, filtrada pelas altas janelas. Comecei a entender que você e eu não éramos tão distintos, nem estávamos separados. Talvez você não estivesse a meu lado, mas dentro de mim, e por isso não conseguia te enxergar, porque estava procurando enxergar fora o que estava dentro… Não sei bem porque te chamei, talvez por não ter mais o que fazer ali naquela catedral de comidas, tendo me fartado. Você me convidava a prosseguir, e quando começávamos a caminhar o chão da catedral sob nossos pés, que parecia de pedra, dissipava-se como um nevoeiro, e nós estávamos descendo pela escada novamente, para dentro da caverna. Eu hesitava, com medo de deixar a catedral e a comida para trás, lembrando como era horrível sentir-me faminto. Você me encorajava a seguir, com um sorriso, que eu sentia mais do que enxergava, já que você permanecia invisível. Era impressionante descer dentro do ar, pisando nos degraus invisíveis. Tinha medo de cair, sentia vertigem. E você me acalmava. Quando chegávamos ao solo da caverna, você se encaminhava para fora da coluna de luz, e eu gritava que não, que era um erro, que não devíamos voltar para a escuridão! Você tomava minha mão e me conduzia. Que pavor senti, ao reentrar na escuridão. Olhe lá, ouvi, mesmo sem você dizer. E enxergava uma outra coluna de luz, majestosa, uns cem metros à nossa frente, e para lá nos encaminhávamos. Com aquelas duas colunas de luz, a caverna já não era tão escura, embora continuasse vastíssima, sem limites visíveis. E parecia que tínhamos ficado molhados da primeira coluna de luz, pois nós mesmos passáramos a emitir um tanto de luminosidade, de tal forma que caminhar na caverna já não era tão assustador. Deixamos uma torre de luz em direção à outra, caminhando muito devagar, mas sem hesitação. Adentramos o segundo espaço de luz, e de novo você nos conduziu escada acima, embora eu não enxergasse escada alguma. Eu tinha de vencer o medo a cada degrau, e esta escada parecia bem mais alta do que a outra… Uma vez mais, o teto da caverna abriu-se sobre nossas cabeças, e desta entramos num jardim maravilhoso, com árvores frutíferas e muitas flores, regatos, pássaros, muito sol… Eu já não sentia fome, mas as frutas pareciam se oferecer a mim, de tão coloridas, superfícies brilhantes como se tivessem sido polidas, refletindo a luz, adoráveis, macias, sedutoras. Tive a impressão de que todas as frutas estavam plenamente maduras e as flores todas completamente abertas. Estava inebriado pelos perfumes, pelas cores. Sentia o conforto do sol acariciando minha pele, e com um arrepio também uma brisa a envolver-me. Ouvia com perfeita clareza, como se usasse fones de ouvido, o som dos galhos agitando-se, do vôo dos pássaros e seus cantos, o regato murmurando…
Theo fez uma pausa longa. Talvez, como eu, desse conta do jardim em que nós estávamos, não muito distinto e menos distante do que seu jardim de sonhos, e da poça de luz em meio às sombras na qual nos encontrávamos, nos cubos de concreto por entre a vegetação como antes na caverna. Encarei-o, esperando pela continuação do sonho. Ele sorriu — Então o seu telefone tocou, e eu acordei – e finalmente riu, esparramando-se sobre o banco.
Theo queria a minha interpretação do sonho, já que sentia que eu era co-criador por diversas razões – além de estar nele, tinha acontecido em minha casa e “sob os eflúvios da minha meditação”.
– Sabe o que me lembrou? Ainda durante a sua narração… The teachings on the Four Nutriments of the Mind. A catedral dos alimentos, o jardim das impressões dos sentidos, e se o meu telefone não tivesse tocado, quem sabe onde você encontraria a sua volição, e ao fim ter algum insight de acesso à sua consciência… – mas Theo não conhecia estes ensinamentos do qual Thây havia falado tantas vezes em nossos retiros, e preferi assegurar que lhe enviaria o link para uma palestra a tentar dar algum outro esclarecimento, sempre precários da minha parte.

No espaço aberto quando Theo em seguida recolheu-se a si mesmo, aproveitei para liberar a imagem de um sonho de muito tempo atrás, que súbito retornava. Vinha da época do início do namoro com Felipe, e portanto muito apropriado para este jardim. Depois de uma fila de mulheres, Felipe tinha sido o primeiro homem a vencer barreiras que eu reputava intransponíveis – até então, e com bastante agressividade, mandava embora qualquer carteiro, e à sua correspondência, acreditando que haviam errado de endereço – ou antes, de gênero. A insistência de Felipe, cuja aproximação e permanência a meu lado fora proporcionada por um projeto interdisciplinar entre nossas faculdades – eu em Arquitetura, ele em Engenharia –, tinha sido uma tremenda libertação, talvez a primeira e mais importante numa seqüência delas, quando eu ainda nem sonhava em manter qualquer prática espiritual. Ou melhor, à época eu só sonhava – e no meu sonho, calcado tanto numa cena de O céu que nos protege de Bertolucci, quanto numa semana em que percorrera a pé de mochila nas costas as rotas de Meteora, visitando cada um dos mosteiros impressionantemente construídos sobre os abismos das altas pedras, às vezes dormindo em bosques ao longo das estradas ou ao sopé dos dedos escarpados; no meu sonho encontrava-me à beira dum platô altíssimo, do qual podia enxergar uma planície desértica, vasta a perder de vista. A única coisa distinguindo-se de toda a areia era uma majestosa catedral, que eu sabia ser uma abadia cisterciense simplesmente por ser o meu estilo preferido, erguendo-se desafiadora e presunçosamente sólida e um tanto arrogante – como eu mesmo. Observava a Catedral no Deserto (assim aprendera a chamar aquele sonho) com grande contentamento – auto-enfatuação seria mais o sentimento – até que de repente ela ruía, ou implodia. Mas não havia estrondo, e não sobravam pedras quando desabava por completo – e no espaço que havia ocupado, erguendo-se no ar, continuava a distinguir-se o perfil perfeito da catedral, desenhado nos mínimos detalhes pela poeira que durante todos os anos havia assentado em suas superfícies, externas e internas. Divisava perfeitamente os pórticos, os frontões, os picos das torres, e também o altar, as colunatas – tudo finíssima e sutilmente desenhado no ar, mas sem densidade senão a da poeira, sem volume senão o traçado das linhas. A catedral de poeira e luz, onde antes estivera a de pedras. Não me lembro de susto ao assistir a catedral desabar, como se estivesse esperando por isso, nem me lembro de surpresa ao observa-la como um desenho de poeira suspenso no ar do deserto. Foi um sonho breve, e não me lembro se depois acrescentei detalhes, pois a ele voltei muitas vezes, tendo tornado a catedral de poeira praticamente indestrutível, sobrevivente de tempestades de vento e chuva, terremotos e incêndios que a lambiam mas não carcomiam, desafiavam mas não abalavam, cada vez mais sutil e portanto inatingível. Esse sonho representava a liberdade que conquistei através do meu relacionamento com Felipe, e de épocas em épocas retornava a ele como símbolo do meu perene processo de desconstrução.
O celular de Theo arrancou-nos de nossos bancos como ilhas de cismas – Tá bom, já vou sair – e numa seqüência aflitiva de sonho induzido por calmantes químicos ou dum torpor alcoólico, sem perceber bem como vi-me de repente na calçada em frente ao prédio de Aquiles – e simplesmente não agüentei a visão de Theo com o rapaz jovem e bonito com quem ele passara a noite anterior, o Philippe afinal. A eminência de meu amigo virar-se para mim e me dispensar para ir com o outro rapaz fez-me agir com brusquidão e quase rispidez, acreditando que, ao anunciar Já vou indo e me afastando pressuroso, estivesse agindo em legítima defesa. Dois minutos depois, passo após passo chafurdando no Inferno da minha rejeição, pisando em meus próprios calos com pés esfolados — uma chicotada em minha auto-comiseração, os freios da bicicleta de Theo estalaram junto a mim.
– Por que você fez isso?
– Fiz o quê?
– Saiu correndo assim… – Theo tinha razão, provavelmente eu me pusera a correr sem nem me dar conta, pois percebi-me ofegante quando respondi:
– Imaginei que você fosse querer ficar conversando mais tempo com o seu amigo…
De repente, Theo jogou a bicicleta à minha frente, barrando meu caminho.
– Quem foi que te machucou tanto para você agir assim? – ele procurava entender, e sua voz soava intencionalmente doce.
– Ah, Theo… – era uma percepção profunda para um rapaz dessa idade, e senti-me agradecido por ver-me assim percebido, mas por despeito não quis reconhecer, e com desânimo desconversei — …agora não…
– Você achou que eu ia sair com o Philippe e te largar sozinho? – meu amigo tinha a prática de ser direto, da qual eu tanto fugia.
– Eu nem sei quem é o Philippe… – mas desisti de fazer-me de desentendido e continuar tentando contornar meu próprio sofrimento – É, foi isso mesmo! Achei que você fosse com ele – e de ímpeto, já que estava num jorro insincero e forçado de sinceridade – Posso saber o que vocês combinaram?
– Nada. Não pretendo mais vê-lo – Theo encarou-me – Parece que ele continua aí com você, mas eu já larguei dele faz tempo… Na verdade, desde ontem à noite não pensei mais nele. E foi só por conta das chaves que tornei a revê-lo.
Lembrei-me da expressão do outro rapaz ao descer do carro e caminhar numa nuvem de admiração, expectativa e desejo até Theo – Acho que ele ficou pensando em você…
– É. Ele me disse isso mesmo! Terá sido porque eu vomitei no quarto dele, depois que nós transamos? – Theo riu, e fez uma careta de nojo – Mas acho que ele se enganou comigo… – estava finalmente aborrecido – Ele devia ter ficado pensando em você, já que você fica pensando nele…
– Desculpe, Theo.
– Você se lembra do que te disse lá no meu apartamento, quando você falou do seu desejo por mim?
– Acho que sim.
– Acha? Quer que eu repita?
– Você disse que não sentia desejo por mim – e como com o olhar, aceso e verdíssimo sob a lâmpada de segurança do prédio junto ao qual havíamos parado, ele me desafiasse a continuar – mas que talvez sentisse amor por mim – ele continuou a me instigar – E admiração, respeito.
– E o que mais eu disse, ao nascente?
– Se quiser me amar, se puder… – tinha as palavras gravadas em mim — Você é bem-vindo e já é retribuído – falei com muita emoção, minha voz tremendo.
– Não foi um arroubo de poesia, Andante – ele encolheu os ombros, à sua maneira tímida, na tentativa de ser menor, menos denso, menos belo e menos desejável talvez – Não sei mais o que dizer. Se você sente muito desejo por mim… Se você quiser transar comigo, isso não é problema. Transar para mim não é problema – surpreendi-me diante daquela liberdade que eu não conseguia ter — Dizer que não sinto desejo por você foi… inábil. É que sinto mais do que isso. Também sinto desejo. Você é um homem bonito. Mas meu irmão e meu pai também eram bonitos e eu não sentia desejo por eles – em seguida, fez um gesto de desdém com a mão, tão característico de alguns países europeus — E mesmo sem desejo, podemos transar, se você quiser. Já transei com homens e mulheres só porque eles me desejavam – pensei em Lissa, e sua intuição de que Theo era garoto de programa. O deus adolescente descia do pedestal e encarnava como ator pornô, com enorme experiência, de longa carreira. Ou talvez fosse um mentiroso compulsivo. Em minha confusão, pensei se deveria ter receio dele? — Para mim não é complicado. E também não é importante.
Depois viria a saber que uma fase de voracidade e experimentação sexual – na qual ele se encontrava ainda, embora arrefecida – tinha se seguido à tentativa de suicídio. Nada surpreendente – após o doloroso fracasso em anular-se, tentava agora abusar do dom de sua beleza esplêndida, sacrificando-a levianamente, ainda manifestando a revolta pela morte do irmão, a incompreensão que o levava algumas vezes a sentir desprezo pela própria vida, imerso na dor. Mas àquela noite, ainda mal tocando Theo na superfície, apenas encarei-o desconfiado, julgando sua sinceridade pornográfica. A mente tem meandros, ou talvez sejam as tais sinapses, e das profundezas da minha brotou uma cena de Shirley Valentine, em que o amante grego esclarece à dona de casa britânica, numa demonstração de filosofia pós-moderna, que Love is love, f”ck is f”ck… – e pude finalmente rir de toda a nossa cena de rua. Meu jovem amigo não poderia ser mais claro, direto e seco – e nada poderia ser mais benéfico para mim.
– Desculpe, Theo.
Sem dizer nada, ele se debruçou desde o selim da bicicleta e abraçou-me, e retribui o abraço, longamente, sem defesas, sem mágoas, sem ressentimentos, e grato pelo enfrentamento proposto por ele, que trazia esclarecimento.
– Já te disse isso uma vez. Sinto que no Brasil as coisas não são às claras, e isso me angustia. Preciso que você esteja tranqüilo com a minha presença para eu poder estar bem na sua companhia.
– Obrigado, Theo. De verdade. A sua clareza é a minha clareza.
Empolgado com minha reação, Theo propôs um gioco para substituir nossa meditação caminhando, já que ele voltaria de bicicleta – pensou que poderíamos esclarecer o que mais houvesse emperrado ou estivesse obscuro na nossa amizade, e a forma como imaginou foi um de nós escolher um assunto difícil, conversarmos brevemente e então nos separaríamos, pois eu continuaria caminhando e ele faria o percurso de bicicleta ao redor da quadra, na direção inversa à qual eu estava indo, de maneira a vir ao meu encontro novamente.
– Então você começa – convidei. Era um idéia criativa e não muito diferente do processo de Beginning Anew que tínhamos lá no mosteiro, que no entanto ele desconhecia. Preferi não palpitar para não impor regras – o importante, dentro do que eu tinha aprendido, era trazer às claras mal-entendidos e ressentimentos no intuito de resolve-los e ultrapassa-los, e não no de requentar e remoê-los e, acima de tudo, dentro de espírito de amorosidade, compreensão e abertura – o que sem dúvidas nós dois tínhamos.
Até hoje, conheci pouquíssimas pessoas – e adolescentes só outros dois, ambos de 19 anos e noviços lá no mosteiro — com a profundidade de penetração de Theo, e com tal comprometimento no chamado “caminho espiritual” — ou simplesmente com “a prática”, como eu preferia, sem os excessos interpretativos que normalmente se associam às tais “coisas espirituais”. A prática na prática – e a proposta de Theo era perfeitamente prática para ser posta imediatamente em prática.
Ele escolheu um assunto do qual já tínhamos tratado, mas que ainda o incomodava – a leviandade com que eu havia tratado sua sinceridade, interesse e empenho no caminho, da primeira vez em que havíamos nos encontrado. Você é tão jovem para querer ter um mestre espiritual… era um abismo que continuava a abrir-se entre nós, no coração de Theo, que se sentira e continuava a sentir desprezado, desdenhado. E finalmente compreendi – minha grosseria podia ter botado tudo a perder, se não fosse o rapaz maravilhoso à minha frente, e sua insistência e honestidade em querer minha companhia e assistência – se tivesse retribuído a arrogância e presunção com que o tratei de maneira equivalente, provavelmente os últimos dias não teriam decorrido e sem dúvida não estaríamos agora na companhia um do outro. Eu o teria abandonado – eu, que temia o abandono! As conseqüências nefandas das minhas palavras descuidadas – quantas, ao longo de toda a vida! — abateram-se sobre mim, e no abraço que se seguiu ao meu sincero pedido de desculpas que não era uma justificativa, senti que com Theo estava no caminho da compreensão e da cura em relação a toda a história Andante.
Em seguida, Theo desapareceu, e pus-me a caminhar sozinho. Inspirando, expirando, inspirando, expirando. Se for descrever minha caminhada, todos os pensamentos, emoções e sensações que surgiram, às quais identifiquei e liberei de volta no espaço da consciência, ao invés de agarra-las e desenvolve-las – bom, não chegaremos nunca ao fim deste domingo, nem ao fim desta quadra. Bem antes da esquina, Theo passou como um bólido com seu incrível sorriso arremessado na minha direção – com um pouco de incompreensão, pensara que ele bem poderia ir empurrando a bicicleta a meu lado, e eu mesmo me ofereceria para conduzi-la, já que tinha escolhido permanecer em minha companhia, mas demorei a perceber — ou ainda não o conhecia tão bem, nem convivesse amiúde com adolescentes –, que a um período de grande quietude como o que tivéramos no jardim, costumava-se seguir algum extravasamento da energia contida, e assim ele passou por mim voando de bicicleta, e acelerando, para voltar a encontrar-me à esquina, antes de cruzarmos para a próxima quadra e para outro tema.
– Agora é a sua vez – disse-me, ofegante. Aproveitei o tempo que ele levou para recuperar o fôlego e a concentração para ouvir-me, e deixei vir à tona qual seria o mal-entendido separando-me dele. Sem que fizesse qualquer pesquisa intelectual ou emocional, o que me veio foi Theo cantando, quando da primeira vez propus que compartilhássemos, após o chá, e foi o que mencionei. Para minha surpresa, ele próprio reagindo à surpresa de saber que um episódio ao qual não dera a menor relevância pudesse incomodar-me tanto, ali à esquina, cantou novamente a canção, talvez mais doce e tranquilamente, ou então por não ter minha carga emocional aposta, julguei-a enfim apropriada e mesmo bela, assim como a voz dele, num falsetto que viria a saber:
– And if I’m gonna talk… I just wanna talk… Please don’t interrupt… Just sit back and listen… Cause I can’t face the evening straight… And you can offer me escape… Houses move and houses speak… If you take me then you’ll get relief… relief, relief, relief, relief… – a canção era Last Flowers, e ele tentava cantar no mesmo tom do Thom Yorke, do Radiohead, e nesse esforço revelava-se muito afinado e quase se transfigurava, os olhos fechados ou olhando para dentro, tornado ainda mais belo cantando, coisa que eu não pudera perceber da primeira vez – Desculpe – e com outro abraço nos separamos, cada qual para desfrutar à sua maneira daquela quadra, da noite, dos passos, da bicicleta, do jogo, da cura, da amizade, do amor, do ar, da lua, da existência — da consciência.

