Trecho XVII – Schubert ao fundo
dezembro 5, 2009
O espírito está tão próximo
que não o vês.
Evita ser o cântaro cheio de água
cuja boca está sempre seca!
Mevlana Rumi
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Obrigado, desfrute!
Desde criança sempre ouviu sua tia Sônia dizer vezes sem fim que cada um deve se sentir feliz com a parte que lhe coube. Por cada coisinha devemos agradecer. Agora ele se encontra, por fim, bem próximo a essa maneira de pensar. Tudo o que está aqui, a lua e a brisa, a taça de vinho, a caneta, palavras, ventilador, a lâmpada de mesa, Schubert ao fundo, e a própria mesa: um carpinteiro que morreu há nove anos trabalhou muito e fez essa mesa para você, e isso para te lembrar de que as coisas já existiam quando você chegou. Desde a luz das estrelas até as azeitonas ou o sabonete, desde um barbante até um cadarço, desde o lençol até o outono. Não seria nada mal deixar, em troca, algumas linhas dignas do nome. Tudo isso está diminuindo. Desintegra-se. Esvanece-se. O que existiu vai aos poucos se descolorindo — quando escolhi O mesmo mar, de Amós Oz, para ler na seqüência de Todos os belos cavalos, poderia ter percebido ter já tomado uma decisão íntima, sensível e tranqüila quanto a meu rumo para o feriado que se aproximava.
Mas tive de passar por todo o triste processo egóico, trabalhoso e cansativo, de ainda repensar nas propostas de Lissa, Verena e Aquiles, e de sentir-me culpado recusando duas delas. Talvez desde o início eu tenha me inclinado para as que incluíam Theo, embora não mais houvesse tocado com ele na possibilidade de viajarmos juntos no feriado, aventada pelo convite veemente de Aquiles para acompanha-lo à fazenda, feito à porta de saída – nem Theo havia voltado ao assunto, o que me dava uma certa tranqüilidade triste de poder decidir apenas por mim mesmo — e assim a cabana de praia que eu alugava com Lissa foi a primeira a ser descartada. Demorei a entender que ela voltasse a fazer-me o convite, talvez cogitando eu ter mudado de idéia — a reação dela à minha reiterada recusa, no entanto, foi tão extrema que parecia nunca termos antes tocado no assunto, e só então percebi que Lissa não tinha clareza para chegar ao cerne de si própria, ficando nas bordas dos próprios pensamentos, na fimbria dos próprios sentimentos, como era típico de todo processo de terapia e análise, no qual ela chafurdava semanalmente, há anos. E, como eu, tendo dificuldade em ser direta, o feriado era só uma introdução.
Talvez tivesse já aprendido algumas coisas em minha breve e recente — porém tão intensa — convivência com Theo, e diante das lágrimas de maxilares contraídos e ombros caídos de Lissa, fui objetivo — Você vai me contar o que está acontecendo, de verdade? – e como ela havia adentrado o meu escritório, senti-me à vontade de fechar a porta, que era o código para não ser interrompido sequer por telefonemas, e a instalei numa poltrona, sentando-me a seu lado ao invés de voltar para trás de minha mesa. Inspirando, expirando, inspirando, expirando.
– Você desapareceu da minha vida…
– Não é isso o que quero ouvir, Lissa – fui bastante seco, cortando com uma espada a torrente de suas lágrimas – Você está proibida de falar de mim – disse-lhe com afeto, um sorriso – Fale de você mesma.
Um ovo se pega com cuidado, para não esmaga-lo, e com atenção o manuseamos, para não deixa-lo cair e o vermos inutilizado. Não podia culpar minha amiga por não saber acessar as próprias emoções dessa forma inteligente e cuidadosa, pois eu mesmo não sabia faze-lo antes da prática, e ao vê-la de mãos lambuzadas, quase gritando e de imediato respondendo minha pergunta, como se finalmente tocasse o cerne da questão e dissesse coisa muito densa e profunda — Estou me sentindo sem apoio! – apenas internamente a critiquei e me ressenti de que não se desse o tempo de consultar a si própria, em silêncio e sem pressa, de resto como a maioria das pessoas, cuspindo a primeira coisa que lhe vinha à língua, misturando casca e baba de ovo.
Mais lágrimas. Enquanto me punha calmo, tive de perceber meu próprio ressentimento – pois interpretei o desabafo de Lissa como uma nova acusação à minha participação cada vez menor no escritório – o que me levou a acessar a culpa que vinha sentindo em relação a ela, percebendo o quanto sua frase sobre meu sumiço repercutia em mim, e finalmente percebi que a estava julgando por não saber o que não podia saber. Preferia que ela — e todas as demais pessoas, se possível, e digo sinceramente, aprendessem a respirar antes de, na pressa, jogarem-se ansiosamente nas respostas, nas reações, antes de amassarem os ovos, realmente. Com certa melancolia lembrava-me de uma de minhas práticas preferidas no mosteiro — informal e quase secreta, pois não havia uma orientação direta quanto a isso – a pergunta tão corriqueira de Como você está, hoje? era uma outra espécie de sino da plena consciência, a oportunidade de nos darmos conta do momento, da presença do amigo à nossa frente e da paisagem ao redor, de voltarmos à nossa respiração, identificando a direção de nossos pensamentos, consultando nossos sentimentos e sensações – enfim, passeando pelos cinco skandhas, observando-os fluírem como rios que eram, mas à margem, não imerso neles, não mais afogando-se. Era uma prática informal, digo, pois como não continha a fumaçinha do incenso nem o tim-tim do sininho nem o conforto da almofadinha nem a vizinhança do altar, muita gente não se dava conta dela, e a resposta podia ser a rasteira Tudo bem, e você? Mas se esse diálogo tão simples acontecia entre dois praticantes, ele ocorria de outra maneira – e a essa tomada de consciência, os dois saiam liberados, tendo tido a chance cada qual de observar a passagem do fluxo de sensações, emoções, pensamentos – preocupações, medo, ansiedade, pressa, tensão — e não perder o momento. A pergunta não era apenas por formalidade social, mas revestia-se de uma inédita sinceridade, estendida também à resposta, muitas vezes ocasião de consideráveis insights. Era ainda uma situação um tanto delicada, pois pergunta e resposta tinham por premissa não só o interesse sincero, mas também o tempo para esta troca de papéis entre escuta amorosa e fala honesta – e nas atribuições diárias do mosteiro, nem sempre sobrava-nos este elemento tempo, e portanto algumas vezes tínhamos de lidar com a frustração de não podermos alongar conversas tão íntimas ensejadas pela pergunta tão simples, Como você está, hoje? Com um sorriso de compreensão, muitas vezes nos despedíamos, agradecidos pelo breve encontro, talvez propondo um reencontro para enfim podermos aprofundar. Tive muitos encontros assim, com meus amigos mais queridos. E como a pergunta repetia-se muitas vezes ao longo do dia, muitas eram as chances de ser sincero e atencioso – consigo mesmo, basicamente, o que é tão libertador.
No espaço aberto em minha mente, borbulhou a lembrança de Theo cantando And if I’m gonna talk… I just wanna talk… Please don’t interrupt… Just sit back and listen… Cause I can’t face the evening straight… And you can offer me escape… Houses move and houses speak… If you take me then you’ll get relief… relief, relief, relief, relief… Um senhor passeando com o cachorro olhando-nos com curiosidade (o cão), quase desconfiança (o dono), e enquanto Theo ainda cantava, um carro cheio de meninas passou em velocidade e elas gritaram Lindo!, nós dois simplesmente desfrutando de nosso jogo curativo reparador e da companhia dedicada um do outro, sob a árvore frondosa à esquina. Também esse lembrança da noite anterior, que me fez sorrir internamente, convidei a dissipar-se. Inspirando, expirando, inspirando,eu sei que estou inspirando, expirando, eu sei que estou expirando. Tendo passado por esse processo de limpeza e esvaziamento enquanto assistia as lágrimas de Lissa, pude finalmente ouvi-la de coração aberto, sem julgamentos, sem meu próprio ressentimento, a culpa, a melancolia, a frustração, as expectativas – de tudo isso procurei limpar-me, antes de ouvi-la.
E havia muito. A começar pela mãe, com quem Lissa se relacionava atravessando bolsões de aceitação e recusa, de aproximação e afastamento, de gratidão e revolta – e assim vinha sendo desde que eu a conhecia, desde o tempo da faculdade. Certa vez, havia dito à minha amiga que ela era uma versão aperfeiçoada da mãe, o que para mim era muito, pois julgava Irene uma mulher lindíssima, elegante, cheia de atitudes e opiniões, sofisticada nos gostos, muito viajada, independente – o que para outras pessoas, incluindo Lissa, equivalia dizer que era uma mulher difícil, arrogante, pretensiosa, cheia de exigências que continuamente causavam problemas, e fria. Parecia-me que Lissa se revoltava simplesmente por ser ótima maçã caída de uma boa macieira, fazendo esforço por se tornar uma fruta do conde ou qualquer coisa mais original e distante – sem logra-lo, logicamente.
É verdade que, desde o início havíamos nos dado bem, e achava que Lissa tinha às vezes ciúmes de nosso relacionamento – mas Lissa podia ter ciúmes de um amigo com um cachorro, fosse pelo cachorro ou pelo amigo… Também é verdade que em todos aqueles anos tivera pouquíssimas conversas íntimas com Irene, e quase todas tinham partido de confissões minhas, de pedidos de ajuda nos problemas em meus relacionamentos pessoais, especialmente na época de grande confusão quando conhecera Felipe – Se é por amor, não deveria importar quem está na cama com você – e depois ela havia emendado — Pensando bem, meu querido, é principalmente na fase da falta de amor que não deveria importar quem está com você na cama! – e era com grande tristeza que ouvia a confirmação de um diagnóstico de câncer para Irene, e com maior susto a descoberta de um caroço na axila direita de Lissa – Era o que eu pretendia te contar neste fim de semana , mas no Sábado foi o encanador, e no Domingo o menino bêbado – e ao lembrar-se de como fora preterida, mais lágrimas, enquanto que por meu lado, maior culpa. Talvez para livrar-me em parte dela, perguntei se o Basil estava sabendo, refletindo que eu talvez pudesse estar menos presente na vizinhança daquele namorado com tantas características de marido.
– Contei para ele a caminho do aeroporto. Na verdade, foi um teste. Desde que comecei os exames, relutei contar a ele – por medo de parecer menos perfeita, ela não disse mas entendi, sabendo que Basil não aceitaria menos do que a mulher perfeita, da qual Lissa era o protótipo, inclusive quanto à saúde — Sabe qual foi o comentário dele? Why couldn’t you wait until Monday to tell me this? Why burden me over the weekend? – e sabia do esforço que ela fazia por não chorar diante de Basil, não só para não borrar a maquiagem, mas sobretudo para conservar a própria imagem – O que você espera de mim? — ele perguntara, desconfiado — Não se preocupe. Não esperaria jamais que você cancelasse esta viagem para ficar comigo… Imagina se você vai ficar sem o seu proper haircut ou pedir a benção mensal da mamãe! – tentei imaginar o tom de Lissa ao dizer isso a Basil – Mas esperava que você me desse apoio ao menos neste momento, em que te conto isso, enquanto você ainda não foi viajar, enquanto você está aqui do meu lado, neste carro. Só até chegarmos ao aeroporto. Depois, não espero mais nada.
A réplica de Basil surpreendeu-me – Apoiar o quê? O seu medo? A sua preocupação? Dar apoio para você passar o final de semana remoendo expectativas negativas? Espero sinceramente que você tenha um bom fim de semana, sem pensar nisso. Quando você tiver o resultado dos exames, então você tem razões para tomar alguma providência, ou nenhuma. Até lá, todo o sofrimento é inútil. O seu amigo te diria a mesma coisa – podia não simpatizar com Basil, mas confesso que eu não teria manejado a espada melhor, embora talvez com mais delicadeza, e com o intuito do mesmo corte, desautorizando um estado neurótico em Lissa. Nunca imaginei que aquilo que eu dizia a minha amiga chegasse até Basil, e que ele prestasse atenção e compreendesse – sem desmerecer suas incríveis qualidades que o tornavam um executivo internacional de capa de revistas –, nem que pudéssemos ter alguma opinião em comum – e era sobre Lissa!
No entanto, Basil havia ligado de Londres mais de uma vez, e à sua maneira desculpando-se, para contar a ela sobre duas casas que tinha ido ver – Até então, ele tinha sido reprovado no teste. Mas com esses telefonemas, foi como se dissesse que me quer junto dele, mesmo com os meus atuais problemas – à sua maneira complicada e velada, Basil tinha dado a entender que aceitaria qualquer coisa de Lissa como esposa, mesmo as que tinha dificuldade de aceitar enquanto namorada. Seu contrato no Brasil estava prestes a vencer, e apesar de viver por aqui como um príncipe, recebendo em reais o equivalente a seu régio salário em libras, não desejava renova-lo pela terceira vez, e assim cuidava do retorno ao Reino Unido, providenciando um endereço para ele e Lissa – a quem tinha finalmente pedido em casamento. Nada disso eu sabia – e de repente compreendia a situação complexa de minha amiga, entre considerar um casamento em oposição à doença, a da mãe e a possível própria, a tão sonhada possibilidade de uma vida londrina contra o abandono de tudo o que tinha no Brasil…
Dei-me conta de ter perdido minha chance de saber tudo em primeira mão e de dar os parabéns quando Lissa aparecera lá em casa na quinta-feira, impecável e deslumbrante, egressa do almoço com Basil, provavelmente quando ele fizera o pedido de casamento, querendo compartilhar sua alegria comigo através do In the Upper Room que me trouxera de presente – ou talvez fora aquele um agradecimento por eu tão sabiamente não ter ido àquele almoço, no qual reservava-se para ela uma surpresa que a minha presença teria impedido? Outros homens teriam marcado um jantar formal, mas contra todas as inglesices, Basil tinha um bizarro senso de humor que se comprazia em colocar pessoas em situações inesperadas, nas quais só ele pretendia ter o controle. Mas naquela tarde, Lissa se deparara com Theo instalado em minha vida, e fora só o começo de minha dedicação a ele, e depois a missa de sétimo dia, e de novo Theo, e de repente percebia como por circunstâncias várias eu de fato havia me distanciado dela, enquanto aconteciam a proposta de casamento, o diagnóstico da mãe, a descoberta do caroço… Ou talvez, conhecendo Lissa, filha de Irene e o contrário de Basil, ela quisesse fazer o anúncio do casamento para mim durante o feriado, com a devida e especial formalidade que nossa longeva intimidade suporia numa ocasião dessas – dias passados en petit comité, aos quais eu me havia furtado. Todas aquelas notícias, represadas desde a última quinta-feira, vindo aos borbotões, eram expressão da frustração mas também da vingança de Lissa, castigando-me, já que há dias eu a preteria. Agora, não havia mais como dar parabéns diante dos problemas surgidos depois, nem como mostrar-me verdadeiramente triste por Irene ou preocupado ou feliz com minha amiga. Nada era puro nem adequado nem pleno, e a própria Lissa devia estar se sentindo assim.
Só pude desculpar-me, sem tentar me justificar, diante de minha falta de atenção e sensibilidade – Ele já fixou o valor do resgate? – foi assim que Lissa havia adentrado meu escritório horas atrás, eu soube imediatamente, referindo-se a Theo e a meu sumiço, que ela chamava de “seqüestro” – o qual pareceu ficar encerrado, ao menos para ela, pois eu bem sabia que estava disposto a continuar entregando-me a um tal seqüestrador. Diante da intensidade dos acontecimentos, podia enfim compreender a reação de minha amiga diante de minha ausência naqueles dias – mas compreendia também que, somada à viagem de Basil justamente naquele fim de semana, teria indicado a ela alguma necessidade de debruçar-se sozinha sobre as próprias lições de casa, o que aparentemente não desejara fazer, indo buscar companhia até mesmo nas Irmãs Cajazeiras, as colegas de faculdade de quem não gostávamos.
Sem nenhum comentário nem conselho, sem nenhuma notícia ou palavra da minha parte durante todo o tempo que não a minha desculpa, somente com minha escuta atenta, Lissa foi-se, parecendo aliviada. Fiquei em silêncio, inspirando, expirando, inspirando, expirando, tentando concentrar-me na respiração, esvaziando minha mente e meu coração e meu corpo, reconhecendo e deixando sensações, emoções e pensamentos passarem. Era minha prática cotidiana no trabalho. Entre um telefonema e outro, ao final de uma reunião, ao ter encerrado um texto – ou exatamente da maneira como encerrava um texto, tentava colocar um ponto final, ou talvez de exclamação ou interrogação ao final de cada atividade, e abrir espaço para iniciar o novo parágrafo, a próxima atividade. Antes disso minha impressão era a de que vinha escrevendo um texto único ao longo de toda a vida sem bem usar as linhas e muito menos vírgulas ou pontos finais ou mudanças de parágrafos de tal forma que a narrativa constituinte do Andante era uma confusão de frases não terminadas emendando-se em outras mal iniciadas umas sobrepostas às outras os pensamentos todos atrapalhados as emoções misturadas tive esse insight quando ainda tinha meu carro e dirigia numa tarde em poucas quadras antes de chegar em casa atento a uma dor de barriga que me tornava apressado senti meus ombros contraindo diante do pavor ao quase atropelar um cachorro que saiu correndo para o meio da rua e uma criança veio atrás e depois meu coração inchou e senti o calor da raiva e da indignação com o adulto que surgiu aos berros para resgatar a ambos e foi nessa confusão que na quadra seguinte parado ao semáforo tentando acalmar-me inspirando expirando inspirando expirando vi um rapaz que julguei tremendamente bonito atravessar a faixa de pedestres encarando-me e observei meu desejo brotar em meio ao discurso sobre a falta de educação e responsabilidade no calor da minha raiva sendo que o medo de há pouco ainda nem arrefecera dentro da contrariedade de um almoço que me esforçava por não julgar péssimo em companhia que havia tanto me frustrado apenas porque estava com o farol da plena consciência volteando por sobre a paisagem pudera identificar todas aquelas emoções sobrepostas em outros tempos jamais teria identificado minha própria confusão incapaz de qualquer clareza mental inclusive para discernir o que fosse confusão vivia nesse estado de confusão e caos permanente embora como as demais e normais pessoas não julgasse aquele um estado de especial confusão ou caos crendo que a vida fosse assim mesmo e que isso se chamasse só stress e fosse uma parte importante do ser brioso ter personalidade certezas opiniões.
Havia aquela anedota descrevendo esse estado corriqueiro da mente, do homem que perguntava ao outro que via passar montado a cavalo em desabalada corrida – Onde você vai com tanta pressa? Ao que o cavaleiro respondia, sumindo na poeira – Não sei! Pergunte ao cavalo! Assim eu tinha vivido a vida inteira descontrolado conduzido por meus pensamentos minhas emoções minhas vontades e desejos minhas preferências minhas aversões minhas compulsões ou medos – até aprender a usar o freio e passar a manejar o cavalo. Desde então, usava de todo o tipo de sino da plena consciência que me aparecia – Como você está, hoje? — para parar inúmeras vezes ao longo do dia, abrindo espaço entre uma atividade e outra, mesmo que fosse de um único minuto, mesmo que para isso tivesse de ir ao banheiro para encontrar algum isolamento, e tentar dar espaço também entre minhas emoções e pensamentos, e renovado recomeçando. Tinha aprendido com um monge a trabalhar assim, investindo alguns poucos esparsos minutos preciosos em acalmar-me, e tendo o fabuloso resultado de energizar-me nas atividades em que outrora me esgotava. A prática de abrir espaço era a prática de gerar clareza – ponto final, mudando de parágrafo.
Diante da lista de ligações que não haviam sido passadas, descartei clientes e fornecedores, pois não me pareceu que nenhuma daquelas obras ou projetos ou egos fosse ruir durante o horário de almoço – ou talvez sim, em relação aos últimos, e era essa toda a cansativa sordidez do negócio no qual eu estava metido e queria abandonar –, e entre Aquiles e Theo, achei natural primeiro fazer a pergunta para depois comunicar a resposta.
– Desculpe ter ligado aí no seu escritório… – já não me lembrava de ter lhe passado o número, mas de fato tinha feito dali uma ligação para combinar de nos encontrarmos na sexta; por aqueles dias ainda me surpreendia com tal principesca educação num adolescente, desculpando-se por usar o número do meu trabalho, quando tantas outras pessoas antes dele haviam sido completamente inconvenientes sem jamais perceber ou intencionalmente espertas e interesseiras; ainda me acostumaria com a perfeita educação da qual jamais descuidava e na qual não precisava esforçar-se, pois era o ponto zero de que partia, estava nas raízes que o nutriam, assim como a objetividade – Queria saber se o convite do Aquiles para o feriado está de pé. O Joshua vai para Trancoso com os amigos, e está me convidando. Preciso dar uma resposta a ele ainda hoje.
Com a mesma clareza, disse a Theo que não pretendia ir para a fazenda, o que não o impedia de aceitar o convite de Aquiles e ir mesmo assim – isso o fez rir como se tivesse ouvido de mim uma piada, deixando-me sem graça.
– O que foi que você não entendeu? – perguntou, quando terminou de rir – Você acha que estou em dúvida entre Joshua e os amigos ou Aquiles e os amigos? – Theo riu novamente – Vou ser mais claro… o que é que você vai fazer no feriado? E se for alguma coisa que eu possa estar junto…
Lisonjeado, contei do convite de Verena a nós, e que já decidira aceita-lo.
– Por nós? Você aceitou por nós? – falou com pressa, e perdeu o ímpeto ao refletir — Ou você pretendia ir sozinho?
Contei das circunstâncias daquela visita, e de um encontro promovido pelo grupo de amigos de praia do Gustavo, no sábado à noite, um luau pós-lua cheia, quando esta já teria perdido parte do seu brilho e a perfeição da forma – visto assim, muito apropriado como a homenagem póstuma que pretendiam fazer a meu afilhado. A tudo ele ouvia em silêncio, e imaginei se tinha a cabeça inclinada lá do outro lado da linha, atento ao cuidado com que eu falava, convidando-o sem convida-lo, tentando não soar ansioso quando na verdade meu coração já cantava sua melodia angustiante de dúvida, o que me levava a tentar evitar a possibilidade de rejeição, tornando-a uma dupla rejeição.
– Vou de qualquer maneira, Theo. É isso o que estou dizendo — evitava qualquer eventualidade de ser rejeitado, e assim rejeitava sequer a possibilidade de vir a ser aceito, rejeitando então a mim mesmo, podando minhas chances — Mas ainda não liguei para ela, confirmando, pois pretendia mesmo falar com você – e depois, para compensar a súbita lembrança de que, quando daquela conversa com Verena, encontrava-me contrariado com Theo bêbado estendido à minha porta, e que não estivera inclinado a desejar sua companhia ou jamais mencionar tal convite, entrei num relato um pouco eufórico sobre o carinho e a gratidão com que minha amiga falara dele, e o quanto os amigos de Gustavo eram bacanas, e como a praia estaria cheia de jovens, e o quanto a casa de Verena era…
– Então eu me decido pelos amigos do Gustavo, ao invés dos amigos do Joshua, ou do Aquiles – Theo riu, mas deve ter pensando ser inadequado rir ao mencionar Gustavo, e sua risada quebrou-se — Agradeça à Verena por mim, e diga que aceito o convite – a voz dele abrandou-se — Andante, você não existe… A minha intenção, quando te liguei, era saber se poderia acompanhar meu melhor amigo a algum lugar, nesse feriado… Mesmo que fosse para dentro da banheira dele… – Theo riu, suavizando o meu silêncio intenso, expectante – Meu melhor amigo é você – para encerrar, uma daquelas suas frases que não posso esquecer – E vou curar essa sua ferida, você vai ver.
E porque continua a pedir-me esta amiga para fazer as postagens mais curtas – ponto final.



