A consciência renovada daquilo que surgir… é suficiente.

9º Gyalwang Karmapa

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Trecho I – Just an ordinary day

Marais Roberto Rocco Grain Vert

Acordei com o som da chuva intensificando e pensando no Marais, onde jamais havia estado. E lembrando-me da primeira canção de Perry Blake que havia escutado, anos atrás: If I let you in, I’ll never let you out… If I let you in, I’ll never let you out… If I let you in, I’ll never let you out… Never let you out… – é verdade, as composições dele são basicamente uma coletânea de refrões — Blessed are the few who live and die… for love… I can see their footsteps in the sand… If I let you in… – anos depois, minha conclusão era a de que aquela era uma meta-canção. Uma vez que deixei-a entrar em mim, nunca mais a tinha podido tirar. E era também uma ameaça, uma advertência… sobre o meu apego, a minha carência por baixo de uma aparência de independência. Pareceu-me uma boa introdução ao dia que começava.

Bastou sentar-me sobre o zafu por um instante para saber: se eu tivesse sentado também à noite, antes de dormir, não teria sequer chorado. Mas estivera por demais cansado, e irritado – havia sempre alguma razão para não sentar. Mais alguns instantes sentado e soube: o primeiro pensamento pela manhã não havia sido sobre o Marais nem a lembrança da canção. Tinha sido a presença do rapaz recém-chegado à minha vida, e a tremenda impressão que me havia causado sua beleza e suas palavras. O sonho belo de ontem adentrava também o de hoje, perdurando na luz do dia. Ao lembrar-me do que ele havia dito sobre milagres, sorri. A aparição dele naquela manhã fora um milagre, o retorno dele à noite fora outro. Se aparecesse hoje de novo, como havia prometido, milagre seria a palavra consagrada.

Curiosamente, a imagem que tinha do garoto era já uma recriação: na lembrança que me vinha dele não o via num determinado momento, mas em vários, sorrindo e encarando-me sobreposto àquele desviando o olhar para o lado e de perfil, e inclinando a cabeça parecendo duvidar da existência de tudo e… Mal o tinha conhecido e já o idealizava, já tinha dele uma percepção altamente emocional, e cultivava expectativas… Mal havia começado, e eu percebia claramente como já começara a relacionar-me com uma imagem mental, a minha própria percepção limitada e falível do rapaz. O que quer que ele realmente fosse, eu já o tinha perdido, menos de 24 horas depois de tê-lo conhecido, e em meus julgamentos e classificações, passava a me relacionar com uma imagem. A moldura podia ser de ouro – e a dele era, reluzindo como seus cabelos loiros –, a imagem podia até ser uma holografia – mas a vida inteira, parecia-me, eu tinha me relacionado com simulacros, com a imagem das pessoas segundo meu próprio sistema classificatório. Perdendo as pessoas em si, suas constantes mudanças e surpresas, seu insondável nada. Tinha sido assim, e ao que parece, continuava a ser assim. Tinha uma imagem antes mesmo de poder dar um nome àquela imagem – lembrei-me de que ainda não sabia o nome do meu novo amigo.

Minha mente é um caos, meu coração um tumulto, e minha vida um turbilhão. Encerrei a meditação matinal sorrindo diante dessa constatação. Poderia ter sido uma descoberta tenebrosa que me deprimisse, mas encarei-a com bom humor. Provavelmente tinha sido sempre assim, mas só agora, com um pouco mais da clareza mental e do espaço neutro para olhar-me e conhecer-me, frutos da meditação, eu me dava conta disso. Um dia de folga — a perspectiva era ler e escrever, colocar em dia a minha correspondência eletrônica com amigos ao redor do mundo, e ouvir música, talvez pintar. Em meio a esses planos, eu olhava no relógio e me perguntava a que horas o telefone tocaria e o meu amigo iria se manifestar, e como ele se encaixaria no meu dia… How can the knower be known? If it rains everyday… If it rains everyday… If it rains everyday… Will you sink? Will you swim? Will you sink?

Até as dez e meia eu nada tinha feito – com uma caneca de café e pensando em tomar um desjejum decente depois, tinha checado alguns e-mails sem no entanto responde-los, baixado algumas músicas sem no entanto tê-las ouvido, estendido o mat de Yoga sem no entanto ter dado seqüência aos exercícios iniciados, pois o telefone tinha tocado – quem seria, quem seria, e era engano… – e em seguida eu tinha sentido vontade de ir ao banheiro e então resolvido tomar um banho sem no entanto me decidir entre barbear-me ou deixar crescer um cavanhaque, e depois tinha sentido fome – tentava fazer o Yoga em jejum (embora uma caneca de café não seja exatamente jejum, e àquela altura eu já nem me lembrava mais de que havia iniciado uma seqüência de exercícios; só fui achar o mat de Yoga horas mais tarde) — e então na cozinha deparei-me com e comecei a abrir a pilha de cartas acumuladas, e a caminho do escritório onde iria terminar de abri-las vi a cama desfeita e resolvi arruma-la, com o travesseiro na mão reencontrei no canto do quarto a mala da viagem do início da semana, a qual finalmente abri e comecei a empilhar as roupas para lavar, e ocorreu-me o pensamento de que há tempos vinha querendo doar algumas de minhas roupas – lembrei-me do depoimento de um amigo que havia feito isso há pouco tempo, e abandonei a mala em favor do armário por ser uma tarefa muito maior e mais digna, começando a abrir gavetas com a intenção de… de repente, lembrei-me: Jean Marais. Belo, loiro, clássico, francês. Mas em nada parecido com o menino. Teria de pesquisar mais, em minha mente, lembranças e livre associação de idéias – ou, o que era melhor, na internet.

jeanmarais1938-GrainVert

Eram as dez e meia desse caos quando a campainha tocou. Primeiro pensei em Donita, minha ajudante há anos, e que havia me avisado não viria trabalhar — talvez tivesse mudado de idéia e assim chegasse no meio da manhã, ao invés das madrugadas de costume? Em seguida, cogitei Lissa – ela tinha a chave da minha casa e era conhecida de todos os empregados do edifício, nunca a anunciavam – mas ela ainda não teria se recuperado da enxaqueca do dia anterior… Ou estaria já com o Basil… Então poderia ser algum funcionário entregando o condomínio – em que dia estávamos, mesmo? – ou uma ata de reunião ou…

A primeira reação foi sair apressado em direção à porta, quando a campainha tocou de maneira um pouco mais forte e longa do que o normal. Não era o toque da Lissa, e era insistente demais, quase deseducado, para ser alguém do condomínio. Um extraviado entregador de café-da-manhã? Meu coração acelerado, meus pensamentos disparados, foi difícil recordar-me de parar por alguns instantes – e quando o fiz, no meio do corredor, fechando os olhos, voltando-me à minha respiração, de repente vi-me no centro daquele caos matinal de tarefas apenas iniciadas que me conduziam a outras que também ficavam inconclusas, e quando sai na direção da porta quase tive medo de tropeçar naqueles fios soltos que vinha constantemente largando ao longo dos dias da minha vida… Por isso, caminhei devagar e com cuidado. A campainha soou de novo, insistente e forte, estimulando a pressa e a urgência em mim, e observei o mau-humor e a indignação girarem a chave e a maçaneta e abrirem a porta…

Para minha surpresa, era ele. O rapaz, meu novo amigo, buzinando a minha campainha de uma maneira que não combinava com a imagem mental principesca e impecável que tinha feito dele.

– Desculpe ter vindo sem avisar – o príncipe reassumiu e abrandou minha raiva, reforçando minha imagem mental… Que em seguida teve de reajustar-se de novo – ao invés dos trajes franciscanos de príncipe do Yoga do dia anterior, ele vestia um agasalho esportivo de grife e sapatilhas de corrida, tudo num tom levemente brilhante. Tive vontade de rir do cabelo penteado que havia assumido o despenteado de ontem, pois era como se toda a figura do meu amigo tivesse sido penteada e escovada – os cachos loiros continuavam lá, domados com gel, mas a impressão era a de que a figura dele inteira tinha feito chapinha — e foi o penteado impecável a primeira coisa que notei no rapaz ao lado dele, um outro jovem príncipe, daqueles que fazem questão de usar todo o tipo de artifício para por em evidência a figura do bem-nascido e indicar alta posição social.

– Este é o Joshua – informou-me, quando reparou meu olhar sobre o outro rapaz, que murmurou um impecável bom dia sem levantar os olhos do celular no qual digitava incansavelmente. Olhei para um e outro, minha mente um pouco entorpecida. Sentia ter menos consciência de mim do que dos dois rapazes à minha frente, enfeitando o meu vestíbulo – Vou jogar Playstation na casa dele… E queria saber se posso vir aqui à tarde?

Playstation, pensei. E ontem ele me falava em milagre… Sentia-me frustrado e mal-humorado diante daquela conspiração jovem, e quando ia dar uma resposta dispensando-o – de repente sobrevinha-me a vontade de passar o dia inteiro fora de casa, de fugir dele – percebi o quanto a situação parecia incômoda para o rapaz, e como ele de alguma maneira parecia estar envergonhado. E Playstation tinha soado como uma condenação.

– Claro. Eu devo estar em casa, à tarde. Você me liga para confirmar? – disse isso e arrependi-me, sabendo que passaria o restante da manhã e tarde na mesma agoniante expectativa de um telefonema que me salvasse de mim mesmo e modificasse o rumo do meu dia, quem sabe da minha vida…

– Eu ligo, sim. Desculpe… ter vindo sem ligar… Obrigado – falávamos, sem no entanto dizer o que importava. E o sorriso que ele me deu foi o mais triste que eu já havia visto até então; normalmente seus olhos eram essencialmente tristes além de verdes, líquidos e luminosos e lindos, mas naquela manhã estava triste o sorriso também, e o amor e carinho e empatia que senti por ele suplantaram de imediato a raiva e a frustração que estivera sentindo ainda há pouco. Para mim, havia uma grande injustiça no fato de um menino tão belo e intenso, capaz de discorrer sobre a beleza e o milagre da vida, parecer tão infeliz.

Valeu, Belê, ou alguma coisa do gênero foi a maneira nada impecável como o tal Joshua se despediu, sem ter-me olhado uma vez sequer. E quando se foi, desta vez tomando o elevador rumo ao térreo, ele pareceu-me muito sozinho, apesar de estar na companhia do outro jovem, e ao contrário de estar no centro do mundo, como ontem à noite, parecia estar na borda de um precipício e a ponto de cair. Nas críticas que me fazem, sou normalmente taxado como indulgente e paternalista – e foi um impulso paternal o que senti naquele momento, de tentar entender e ajudar o meu jovem amigo transtornado.

velo PB Grainvert

A tristeza dele, que eu podia reconhecer mas não compreender, junto ao pensamento de que minha sócia estaria naquele instante – em que sentia o impulso de ligar para ela — sofrendo de enxaqueca ou padecendo do namorado ciumento, somado à lembrança de um amigo meu que havia recentemente perdido a avó que o havia criado e agora não tinha mais nenhuma família e sim muitas propriedades, junto à de outro que havia descoberto estar com um tipo raro de câncer, e as imagens de uma menina assassinada e esquartejada enviadas por um amigo árabe… … If it rains everyday… Will you sink? Will you swim? Will you sink?

Foi uma sensação que eu chamaria de “A Tristeza do Mundo”, tornada real de diversas maneiras, que me tocou – mas não abateu-se sobre mim, ao contrário, despertou-me para o milagre de estar vivo que o menino apontara na noite anterior… Viver é o milagre. E em homenagem a todos os seres, felizes e infelizes — ou felizes só de serem infelizes, como escreveu Cecília Meireles – dediquei o restante da minha manhã a terminar pacificamente cada uma das tarefas iniciadas, antes de começar qualquer outra ou de voltar a enfiar-me na internet. Pacificamente, dediquei-me a fazer as coisas simples por poder faze-las, e desfrutar disso. Dediquei-me a estar tranqüilo por poder estar tranqüilo — desfrutando. E quando está tranqüilo este que escreve pensa também que está feliz, pois a paz é o tipo de felicidade que conhece – e então, apesar de toda A Tristeza do Mundo, dediquei-me à minha tranqüila felicidade, simplesmente porque podia estar tranquilamente feliz, ou felizmente tranqüilo. Apesar de todo o sofrimento do mundo, naquela manhã pude dedicar a minha felicidade ao mundo, cuidando de cultivar paz no canto que me coube, e assim sabedor de que, pelo menos naquele canto, o mundo estava em paz.

O nome Joshua volteava em minha mente, entre enrolar o mat de Yoga e colocar roupas sujas no cesto ou embalar as roupas que tinha selecionado para doar e fazer um cappuccino. Sabia o nome do bonito rapaz impecável e endinheirado que acompanhava o outro bonito rapaz do qual não sabia o nome, ainda. Pensava no tipo de relacionamento que teriam, onde estariam, o que estariam fazendo, se Playstation era um tipo de código para alguma outra coisa que estariam fazendo… Via o meu novo amiguinho em sua roupa esportiva e cara, transformado — para mim vulgarizado — nesse tipo de gente jockey club ou clube de campo com a qual eu já não convivia bem…

– Alô? – o telefone tocou durante uma dessas longas expedições de embrenhar-me em meus pensamentos, volteando em torno de um nome que eu sabia e outro que não, os dois juntos dando-me a exata noção de quanto eu não sabia sobre nenhum deles, sobre nada, ninguém – apenas uma imagem e algumas expectativas.

Era ele. Explicando-me que estava na casa da tia, que iriam almoçar à 13 horas, e que ele voltaria a me ligar depois para vir me ver.

– Mande um abraço pro Joshua – não sei porquê, mas eu disse isso.

Ele riu.

– O meu primo acabou de sair chutando da sala – ele riu alto, a risada um pouco estridente, nervosa – Ele perdeu feio pra mim, no Playstation. É um segredo, não é? Que as pessoas competitivas parecem não entender… A gente sempre ganha quando não está nem aí para ganhar… E quando quer perder, então… Até mesmo perdendo, a gente ganha… Obrigado por me escutar. Agora eu tenho que ir. Até mais tarde.

Joshua, primo, Playstation, casa da tia, almoço em família, Obrigado – e mais tarde, aqui… Nem Perry Blake conseguia compor nada assim tão bonito, pensei.

– Alô?

Era Lissa. Tinha melhorado da enxaqueca, e queria convidar-me para almoçar com ela e o Basil – gentilmente declinei, dizendo que preferia ficar em casa durante o nosso dia de folga.

– Posso te ver mais tarde? Preciso conversar com você…
Gostaria de ter dito não ao pedido, mas senti que ela estava precisando, e eu me sentia em paz, generoso e amoroso, pronto para o tema da conversa que ela queria ter, e que eu já conhecia sem ela precisar me adiantar.

– Mas venha à noite, está bem?

– Você não vai nadar hoje, então?

– Acho que não… Estou com preguiça.

- E você não quer mesmo ir almoçar conosco? Nem se formos no… – quando ela mencionou o nome do restaurante que outrora fora o meu preferido, pensei nas pessoas que lá estariam, na danosa multidão agressiva de carros como suntuosos tanques de guerra, pensei nos celulares que lá estariam, nas grifes que lá estariam, nas cirurgias estéticas que lá estariam, nas chapinhas e cabelos tingidos que lá estariam, nos corpos malhados que lá estariam, pensei em toda a exibição de futilidade, de artificialidade, de superficialidade, de falsidade, na arrogante ignorância, na imensa e horrenda pobreza que lá haveria – a verdadeira miséria, a pobreza de espírito. Pobres pessoas perdidas, pensei. Vivendo como bactérias no estômago fedido do monstro do shopping center que as havia devorado… Lembrei-me do fabuloso celular do meu novo amigo, e com um sorriso triste, respondi:

– Não, obrigado.

– Está bem – ouvi-a suspirar do outro lado, desanimada — Pelo menos te vejo mais tarde.

Pela casa ecoava It’s a dirty little world…Full of dirty little complications… And I’ve been kneeling at your feet… I’ve been holding up the cross for us now… And it’s a sad sad sad song… Yeah it’s a sad sad sad song… We’re all on the road to Hollywood… See you on the road to Hollywood… Tornei a pensar no Marais, onde jamais havia estado. Uma busca breve na internet e lembrei-me: o filme era Paris, je t’aime, e no episódio passado no Marais, dirigido por Gus Van Sant, atuava o belo Gaspard Ulliel escondido debaixo dum emo look– e era deste ator que eu lembrava ao olhar para o meu jovem amigo que ainda não tinha nome. A mesma beleza de traços generosos, embora um pouco suavizados, poderia dizer mais clássica, no meu anônimo amigo também francês. Gaspard?

– Alô?

Era ele, de novo. De saída da casa da tia.

– Vou com a bicicleta do Joshua. Pode demorar um pouco, tá bom?

Olhei para o céu lá fora.

– Acho que vai voltar a chover – soou paternal, e fiquei envergonhado. … If it rains everydayWill you sink? Will you swim? Will you sink?

– Pode ser… – minha preocupação pareceu alegra-lo ao invés de deixa-lo contrariado — Mas agora não está chovendo. Ainda. E eu vou agora mesmo.

Desligou, e eu fiquei olhando para o céu, nuvens imóveis da cor de chumbo rasgadas e esfiapadas, picadas como papel e jogadas umas contra as outras em desordem. Na verdade, olhando com cuidado e com tempo, via como elas se moviam vagarosamente, umas empurrando-se às outras, umas transformando-se nas outras, emaranhando-se. Era difícil falar de limites, dizer onde terminavam ou começavam, contorna-las. Somos assim, como as nuvens, mas como? As batatas e tomates e berinjelas que assei e que comi são agora eu, e deixam de ser batatas e tomates e berinjelas para tornarem-se atos, palavras, pensamentos… E assim a berinjela que não veio de mim mas que está em mim, tornando-se eu mesmo, alimenta-me e gera esta linha, que você agora lê – e é assim que a berinjela em mim está também em você, agora mesmo… Somos como nuvens, afinal, rasgados, picados e amontoados, sem limites nem contornos, embora aparentemente…

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Sempre dando voltas, minha mente criticava o trecho de Gus Van Sant que eu havia reassistido há pouco. Assim como ele escondera a beleza de Gaspard Ulliel atrás de uma cabeleira, estava também a Marianne Faithfull igualmente escondida atrás dos cabelos, usada como pano de fundo, uma presença fantasma. O que não se podia esconder dela jamais, no entanto, mesmo colocando-a de lado, de costas e de longe, era a inconfundível voz rascante – e por um instante cogitei trocar por ela o Perry Blake que com exclusividade vinha há alguns dias tocando na minha vida. Mas olhei o céu nublado, pesado, impiedoso, amedrontador, e senti medo da Faithfull conduzir-me a algum desastre depressivo… E como havia colocado as canções no shuffle, como se adivinhassem meus pensamentos e emoções – e às vezes eu achava mesmo que sim, que os acompanhavam – começou a tocar I’m free now, I’m free… Good morning, good morning… Blue sky, blue sky… Uhhhh, uhhh… – era uma canção tão linda, tão linda, o início com as cordas descortinando horizontes e ofertando vôos — I’m free now, good morning… Good morning, blue sky… Blue sky, it’s so blue…– abri os braços e comecei a cantar junto, sorrindo. Blue sky, it’s so blue? Claro! Naquele dia nublado ou em qualquer outro, de que cor seria o céu, para além das nuvens? And all that wasted time, I just waited for a smile… All my wasted time, and all I needed was a smile…

Quando os dias estavam ensolarados, o meu apartamento era ensolarado; quando os dias estavam nublados, o meu apartamento era nublado – toda a frente era só de janelas, do chão ao teto, o alto pé-direito, e nos cômodos bem amplos que eu tentara manter vazios ou ao menos não muito cheios, havia escolhido não colocar cortinas. O prédio onde morava ficava numa avenida que era como uma tremenda falésia de vidro e concreto, o paredão limite diante de uma zona residencial de casas somente – assim, do décimo primeiro andar onde eu morava, se me aproximasse da janela e olhasse para baixo via uma vasta extensão aberta e baixa de casas e árvores e ruas (See your face on every single street…) como o respiro verdejante que era, e lá na frente, onde o sol vinha se derramar, afundar e sumir, e só então de novo as silhuetas quase majestosas entre feiosas dos prédios. Mas de dentro do apartamento só o que se enxergava, sempre, era o céu — minha quarta parede. Algumas vezes havia meditado defronte às janelas, embora em nossa tradição meditássemos voltados para a parede – parede, janela, céu, tijolos, nuvens, concreto… Em tudo estando em tudo e em tudo estando a mente e a mente estando em tudo, que diferença havia, afinal? E meditando diante do vasto céu eu tinha tido a clara sensação de estar vivendo dentro do céu, onze andares suspenso do chão, o chão de apartamento sob meus pés uma idéia de chão mais do que um chão de verdade… Sentado no zafu, como se fosse um tapete mágico, eu sentia-me flutuando no céu, no meio das nuvens – e talvez isso não pudesse ser chamado de meditação, apenas sensação, imaginação, divagação… Eu mesmo, suspenso na mente, e bem mais alto do que onze andares, sem direção alguma, sem limite, sem noção, sem orientação, profundamente alto, vertiginosamente fundo, mas ainda diferenciando-a e diferenciando-me do céu…

E enquanto eu assim divagava, de olho nas nuvens, tendo observado em algum momento que recomeçara a chover, e que o meu amigo não chegava, não chegava, e se molhava, e se molhava? – mas adolescentes não derretiam, as gotas de chuva evaporando-se imediatamente ao entrarem em contato com a ebulição de hormônios e inquietude, e adolescentes não resfriavam, nunca esfriavam, somente que às vezes tossiam e espirravam — e a manhã já se esgotara e agora a tarde, e o dia avançava para dentro da noite, e eu estava suspenso no ar, e a minha vida em suspenso, em suspense o meu coração e… – a campainha tocou.

Foi também quando identifiquei os primeiro acordes de bateria e baixo: If I let you in, I’ll never let you out… – sorri. Era ele porque só tinha de ser ele — era o que estava Mr. Shuffle me dizendo.

Caminhando calmamente até a porta, sentindo-me afinal apaziguado, ainda cheguei a pensar o que ele iria pensar se fosse isso a primeira coisa a ouvir, entrando no meu apartamento… If I let you in, I’ll never let you out… A mim, pareceria uma armadilha, qualquer coisa assim vampiresca, talvez beatífica e vampiresca, mas mesmo assim… Eu teria medo?

If I let you in, I’ll never let you out… Never let you out… — ainda se lembra da direção em que caminha esta canção, a história? Eu sei que você pode ouvi-la, mas será que se dá conta, será que consegue distinguir, esta interna voz silenciosa que agora canta, que te sussurra Blessed are the few who live…

Abri a porta.

footsteps grainLeia o Trecho III – Tea for two

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