E se desejar uma frase para ler durante a madrugada ou no meio da noite,
que sirva tanto para os momentos de prazer quanto para os de sofrimento,
escreva nas paredes de sua casa,
com letras que o sol possa dourar e a lua pratear, a frase:
“tudo que acontece ao outro, acontece também comigo”.

Oscar Wilde

Leia O diário dos dias extraordinários completo:

Trecho I – Just an ordinary day

Trecho II – If I let you in, I’ll never let you out

Trecho III – Tea for two

Trecho IV – Last flowers

Trecho V – Als das Kind Kind war

Trecho VI – Where do you start?

Trecho VII – Will you sink, will you swim?

Trecho VIII – In the Upper Room



– Theo… – ele virou o rosto na minha direção, mas não abriu os olhos, como se me desse ainda uma outra chance – Theo… – eu insisti, e quando os abriu, verdes e belos, meu coração começou enfim a sangrar – No dia em que nos conhecemos você disse uma coisa que me impressionou muito… Logo no início da nossa conversa… Que as pessoas nunca usufruem em paz da beleza. Simplesmente não a enxergam, ou quando enxergam, destroem-na com seu desejo – senti a garganta fechada, mas não foi um gole de chá, descendo dolorido, a resolver a angústia – Sem me conhecer ainda, você estava falando de mim… Pois essa é a tragédia da minha vida – sorri, e dei de ombros – …e essa agora é a minha tendência a fazer drama – levei a mão à testa, buscando concentrar-me e com clareza identificar cada pensamento, cada estado emocional – e está acontecendo nesse momentoAqui, e com você, estou desejando e estou destruindo… – dei um passo atrás, mentalmente, criando coragem – Essa poltrona… eu a desfruto, mas eu também a julgo e classifico, boa, confortável, bela, excelente e já me excito, quero conhecer o nome dela, quem foi o designer… Quero ter uma igual. E é exatamente quando eu a perco, quando a torno um mero objeto de consumo… É só um exemplo. Você viu minha casa. Tudo tem de ser assinado. É pretensioso… É tanto esforço… Tão cansativo, morar com uma multidão de designers, arquitetos, artistas, desconhecidos. Mas eu sempre vivi assim, consumindo aparências, com avidez. Melhor dizendo, consumido pelas aparências. Com as pessoas também… Não sou como um amigo meu, que costuma dizer que até se for perguntar as horas ele escolhe a pessoa mais bonita, mesmo que ela não esteja de relógio… Mas eu também… Homens e mulheres, desejei pela beleza, pelo aspecto estético, fazendo subir ao pódio ou eliminando da fila. Quando criança, lembro de um tio meu que dizia: desconfie das pessoas feias. Acho que essa frase me impressionou menos do que se encaixou numa maneira de pensar que eu já tinha. Uma sede, um desejo de beleza. Acho que não houve nenhum dia da minha vida, da minha vida adulta pelo menos, e pelo menos até bem recentemente, nenhum dia em que eu não pratiquei esse desejo… – olhei a comida com estranheza, tendo perdido o apetite — Olha que tesão… Que gato… Que linda… Fiz isso mesmo, agora há pouco, com a sua namorada, a Fedora. Julguei-a, classifiquei-a, despi-a de uma história para vesti-la pelo avesso, na aparência. Como se eu esvaziasse um recipiente, vertendo fora o que é vital, para ficar com o invólucro. É muito triste. Sei que muita gente vive assim, muitas almejam viver assim, de aparência. E é muito triste. Como um abajur que nunca dá luz, porque só se preocupa com seu aspecto exterior, e nem sabe que foi feito para dar luz, que pode acender. A maior parte das pessoas vive de remendar a cúpula e reformar o pé do abajur, sem jamais se dar conta do interruptor, do fio, da lâmpada, e… de onde vem a energia… As pessoas perdem a humanidade, tornam-se objetos, sem mais interesse que não uma coxa ou um peito… Um objeto de design… Mas um objeto sem outra função que não a de ser exposto-consumido-descartado. E se agem assim, é porque alguém as estimula, alguém dá valor ao aspecto exterior delas, alguém as consome — senti-me exausto, e envergonhado — Eu. E um monte de gente, eu sei, mas agora preciso falar de mim… Sempre consumi e descartei as pessoas, Theo, desfilei-as como a um grande prêmio, um adorno, medalhas no meu currículo… Sempre foi assim, mas agora sinto-me triste, porque… – olhei para Theo, que me mirava tranqüilo, interessado, reclinado na poltrona – …continua a ser assim. Agora mesmo. Olho você. Sua beleza quase me dói. Julgo você. O homem mais lindo que já encontrei. Desejo você, essa é a dor… Dos pelos loiros e das veias salientes dos teus antebraços às tuas coxas fortes desenhadas nessa calça de algodão, o bico do teu mamilo que às vezes observo crescer contra a camisa… – vi Theo baixar os olhos, esfregando a testa e as sombrancelhas com uma das mãos, e soube que o dano estava feito, quando a mão dele cobriu o rosto inteiro, escondendo a beleza que eu profanava, ou protegendo sua inocência, ao dar-se conta do tipo de olhar que eu vinha lançando sobre ele – E assim perco você… Eu sei. Desprezo o que há de mais lindo em busca do grosseiro — tivera seu afeto sincero, a companhia dedicada, e querer mais e possuir punha tudo a perder — Ainda há pouco pensei que ser assim, tão bonito quanto você é, seria razão suficiente para não querer ir à balada. Lembro-me dos meus dias de balada – a festa no prédio vizinho chegava ao auge, a música, o vozerio, os gritos e as gargalhadas, todas as formas de histeria sendo celebradas e vazando pelas janelas, o apartamento como um recorte horizontal de desperdício de luz — A não ser que fosse uma das festas do Fashion Week, cheia de lindos, de modelos… Quando em outra ocasião, numa boate, entra um homem ou uma mulher com beleza acima do comum… Assim como você… Tudo passa a gravitar em torno dele ou dela. Os mais afoitos em sua grosseria se aproximam, os mais tímidos se assustam e se afastam. Você já deve ter passado por isso…? Medo ou cobiça, como você disse. Os gregos antigos diziam que quando os deuses amam um mortal eles dão elegância, como uma benção, e quando odeiam eles dão a beleza física, como uma… – finalmente Theo encarou-me, como se eu tivesse ultrapassado todos os limites, e a tempo dei-me conta de que estava para pronunciar a palavra maldição – …questão, um desafio. Para quem a tem, para quem não a tem. Para quem a teme, para quem a deseja… É como você disse… E é assim comigo. Pensamos el mayor pero vivimos el detalle… Queremos amar, e só conseguimos desejar possuir. Não, estou falando de todo mundo, quando preciso falar de mim… Quero amar, e só me vejo desejando possuir, ainda… e voltando à boate, se a pessoa tiver beleza verdadeira, vai sentir-se incomodada por atrair e por afastar, sem que participe a vontade dela, simplesmente a partir daquilo que ela aparenta, e não por aquilo que é… Theo… As melhores horas dos últimos dias eu passei com você. O seu olhar, o seu sorriso, o jeito como você inclina a cabeça, ou ergue os ombros, quando diz “tá bom”, quando rodopia… tudo, em você, foi para mim poesia. As tuas palavras, as tuas histórias, teu aperto de mão, tua companhia… A tua tranqüilidade, a tua empolgação, o teu choro, a tua alegria… Tudo intenso, tudo sincero, tudo puro – percebi que minha voz começava a tremer, em parte de emoção, mas também porque esfriara muito – E o teu abraço… Tem sido o olho do furacão, para mim, nestes últimos dias. Onde eu encontro refúgio, onde tudo parece estar certo quando está tão errado. Encontro silêncio contra o teu peito, e nele ouço o meu próprio coração – fechei os olhos, para não mais encara-lo, buscando um pouco esconder minha culpa. Devia ser bem tarde, pois a festa passara do auge – Encontro paz, contra teu peito… mas preciso dizer que prendo a respiração, mesmo, para evitar de sentir o teu cheiro – minha voz estava trêmula, e sentia meu corpo também começar a tremer – Desejo e paz. Faz dias que venho sentido isso, na sua presença. Desde o primeiro momento, e estou em luta. Sentindo culpa. Sentindo que estou te perdendo, traindo tua verdadeira beleza… E me traindo também. Você já teve esse dilema? Adorar uma pessoa, ter tudo de bom com ela, e no entanto querer o que não se pode ter, juntos? E acabar com uma amizade por conta disso? Isso eu não gostaria que acontecesse entre nós, nunca. O que eu compartilho com você, não divido com mais ninguém, aqui no Brasil. É precioso, para mim. Mas às vezes levanta-se o meu desejo, e não sei se você o percebe, e como ele pode nos atrapalhar e apartar… Não sei, talvez eu esteja perdendo nossa amizade por conta da minha sinceridade. Mas se ela for continuar, eu precisava esclarecer o que sinto. Sinto-me bem, sinto-me aliviado, apesar de também estar sentindo medo… Obrigado por me ouvir… Acho que estou com frio.

08--Ryan-as-Theo-PB

Theo ergueu-se, calmamente, e expirou longamente, imóvel, à minha frente .
– Vou buscar um cobertor.
– Está ficando tarde. Acho que eu já vou.
– Então não tenho o direito de réplica? Eu volto rápido – disse, definitivo. E então surpreendeu-me ao tirar a camisa, e passa-la para mim – Veste isso, por enquanto. Está quente. E tem meu cheiro.

Ficou um instante parado à minha frente, de peito nu, os braços um pouco abertos numa atitude de quem nada tinha a esconder, não para exibir a própria beleza, mas antes para através dela acalmar-me, e depois vi-o afastar-se, pensativamente, com o bule de chá na mão. Costas poderosas, linha da cintura e das nádegas que a calça baixa deixava entrever… De repente, saiu correndo, gritando tá gelado!, sumindo dentro do apartamento. Em poucos segundos saiu de lá novamente, e ainda sem ter se vestido correu até mim, entregando-me um cobertor — mamilos pontudos e um pouco alongados como se fossem bocas, o abdômen ripado e trilhado pelo caminho de pelos loiros descendo do umbigo até a virilha, os pelos pubianos que a calça usada à moda baixa dos adolescentes revelava brotando da cueca, e o maravilhoso milagre grego dos músculos bem definidos acompanhando a crista ilíaca — e depois voltou para dentro, aos saltos, batendo os pés de encontro um ao outro em pleno ar. Quando pensava que poderia chorar, peguei-me rindo da coreografia do meu jovem amigo, que de novo me dava provas de ser mais corajoso e sincero do que eu, sem medo de expor-se — ao ridículo se fosse para gerar risadas, ou ao próprio corpo, desarmando sua beleza, como uma oferenda de paz.

Vesti a camisa de Theo, que era um ou dois números maior do que o meu, e senti seu cheiro e calor. Lembrei-me de Lissa, que dizia: você já reparou que onde há gente jovem, especialmente adolescentes, o ar é sempre mais quente, deve ser pelos hormônios em ebulição… Ao contrário deles, além da camisa quente do meu deus adolescente, precisei enrolar-me também no cobertor, de tecido rústico tingido de vermelho e laranja, as cores um pouco desbotadas típicas dos pigmentos naturais. Tive a sensação de que tinha sido comprado de gente das montanhas, talvez do Nepal – porque me sentia pendurado sobre o topo da metrópole – ou das estepes frias, talvez da Mongólia – porque queria tanto ir para lá –, fantasiando sobre aquele agasalho um pouco bruto, feito para abrigar, envolver e acolher, sem a sensação de conforto fácil dos sintéticos. Senti-me grato, pela gentileza de Theo, pelo trabalho dos tecelãos, dos cardadores, dos criadores de rebanho, por todas as virtudes da humanidade, por gerações de trabalho e esforço, pela sobrevivência da tradição e do conhecimento através dos milênios, permitindo agora proteger-me da friagem. Observei que as nuvens haviam se dissipado, e com exceção de uma ou outra gargalhada ou grito, a música e a festa silenciaram.

08- BruneiStormhard warm light

Despertou-me daquele sonho bom — irmanado na cadência de carroças, cavalos, teares e tendas das populações nômades — o retorno de Theo. Vestia uma malha leve e uma manta nos ombros, trazia duas toucas tricotadas no Tibet, o bule de chá fumegando, e uma caixa de chocolate Valrhona, que era o meu preferido. Aconchegamo-nos com os copos quentes, a massa espessa e amarga em combinações sofisticadas com frutas e castanhas, uma fonte de calor em cada coisa e todas, sobretudo a nossa companhia, passada a ameaça de tempestade. Rimo-nos desde debaixo de nossas toucas coloridas, baixadas sobre a testa, e que eu ainda amarrei sob o queixo como uma barbicha, Theo com trancinhas escorrendo coloridas, dois gnomos num jardim suspenso. Não pretendia, e quando percebi tinha já começado a falar, para compartilhar mais, momentaneamente apaziguado por não ter sido rechaçado nem agredido pelo meu novo amigo, que afinal era um desconhecido, e por ainda ter o receio de ser rejeitado, e querer aproveitar o que podia ser a última chance de ser completamente sincero e verdadeiro com ele, e comigo mesmo:

– Eu falei sobre o meu desejo, mas não era sobre ele que eu queria falar — minha boca amarga do chocolate e azeda do damasco, o coração inquieto — Era sobre a injustiça do meu desejo. Não sei se isso ficou claro. O meu desejo me faz agir de maneira injusta. Torna-me grosseiro diante de qualquer coisa, mesmo a mais pura. Eu agora, diante de você – e lembrei-me de Lissa dizendo-me uma linha parecida, que ela se sentia suja enquanto eu parecia tão puro, e então percebi meu próprio pensamento, o preconceito que ela tinha comigo era o preconceito que eu tinha para com ele e, finalmente, para comigo mesmo – Eu desconsidero você, Theo. É isso. Não é o desejo, o problema. É o dar importância ou atenção exagerada ao meu julgamento estético. Eu te acho lindo. Abençoado com uma beleza esplêndida. Julgando-te a partir disso, ficando só nisso, acho impensável você sofrer… Passo a te tratar como um anjo. Uma criatura perfeita, um privilegiado vivendo uma vida onde tudo são bênçãos e presentes – Theo baixou o olhar e sorriu tristemente – Eu sei. É essa a injustiça. Não é desejar-te, tornando-te um objeto. É tentar sair disso idealizando-te, tornando-te puro, imaculado, inacessível. Com uma e outra coisa eu te perco, te rejeito, te afasto de mim. Ou às vezes torno-me agressivo, para afastar você de mim, para afastar-me de você, só porque não sei lidar com o meu desejo, só porque ele pode te ferir, só porque ele pode botar tudo a perder. Eu te rejeito, e me rejeito. É isso. É não enxergar-te de verdade, o que me dói. Desejar-te puto ou fazer-te santo, mas sem pessoa nenhuma na embalagem, sem ser algum preenchendo — só imagem, só ideal, a partir de um julgamento estético que eu faço. O peito gostoso, ou então o coração de cristal – os dois combinam com um ideal de beleza que eu tenho, mas não o coração que sangra, que afinal e como o de todo mundo, sangra. Às vezes me vi pensando, como é que esse menino tão perfeito, talentoso, pode sofrer? Para quê, querer meditar? Para quê fechar estes olhos verdes tão lindos, senão para sonhar? – Theo balançava a cabeça levemente, confirmando, os ombros arriados, os longos braços pendendo, as mãos quase tocando a grama — Isso me dói. Isso me incomoda. O que quer que eu faça, é uma desmedida, um exagero, e sempre, eu perco você, Theo… o que você é, não o que você parece… e a partir do que você aparenta, aquilo que eu julgo ser você… Eu te esvazio… Isso é horrível. Para o bem ou para o mal, eu te esvazio. Essa é a injustiça. Parece difícil de entender? Acho que estou decepcionado comigo mesmo, por estar fazendo isso de novo, por estar perdendo você para uma imagem fantasiosa e pobre em minha cabeça, seja ela do gostoso ou do anjo. Gostaria tanto que, com você, o extremamente belo viesse a ser profundamente verdadeiro. Por isso estou sendo sincero com você. Só a verdade vai me redimir. A aparência sempre me danou, a vida inteira. Se você puder me entender. E ajudar. Se você quiser.

Depois de algum silêncio, estendi a mão na direção do meu amigo, dando a entender que ele podia falar, se quisesse — fazer uma reverência para encerrar minha fala, como era o código do mosteiro, pareceu-me excessivo. Observei Theo erguer-se da posição para a qual tinha escorrido, e de novo abrir peito, ombros, erguer o queixo, o olhar.

– Obrigado. Nunca tinha me sentido tão… – massacrado, insultado, eu estava pronto para ouvir — reconhecido. Acho que ninguém nunca prestou tanta atenção em mim, com tanta dedicação. Tantos detalhes percebidos, e em tão poucos dias. Você é um virtuose, e agradeço a sua atenção. E coloca com tanta delicadeza, por mais cru que seja… Você me deu o insight… Pode alguém dar um insight para outra pessoa? Você me ajudou a compreender a maneira como uma multidão de gente se relaciona comigo, no aeroporto ou na cama, entre os íntimos e os desconhecidos, os amigos ou os transeuntes da minha vida… Ninguém nunca tinha me presenteado com seu olhar, com uma visão tão clara de seu olhar voltada sobre mim, da maneira como me enxerga… E isso abre para mim… O porquê das pessoas se afastarem antes mesmo de eu tentar uma aproximação, ou de me invadirem antes de eu querer qualquer proximidade. É verdade, eu disse algo assim quando conversamos pela primeira vez, mas era um pensamento em elaboração, um sentimento que ainda não estava claro. Você talvez discorde de mim, mas no Brasil as pessoas são mais veladas, ou menos francas, e as atitudes menos claras. Apesar do Sol, o Brasil não é um país claro; apesar da luz, tudo aqui é velado, obscuro. Falta franqueza, falta clareza, falta transparência. Talvez seja só uma sensação, a de que sou menos lúcido aqui. Obrigado, de verdade. Com a sua… luz… eu posso fazer as pazes com esse país. E de mais de uma maneira porque, como você disse, também não tenho outro amigo assim, no Brasil. Aqui, além do Josh, nunca fiz amigos – e agora, você. Mas um amigo como você eu não tenho… neste mundo – Theo fechou os olhos e inspirou, como se partisse para outro mundo, sua Pasárgada pessoal onde fosse amigo do rei — Para mim também as melhores horas dos últimos dias foram com você – fez uma pausa, organizando os pensamentos — Tenho que te responder… Não sinto desejo por você – senti enrubescer-me — É mais do que isso. Não sei se é amor, mas está bem próximo disso – e me dei conta de que eu não falara em amor com ele, só em desejo –, dentro da experiência que de amor eu tenho. Inclui admiração, respeito, interesse. Fique à vontade com os meus mamilos e músculos e pelos… Você não achou nenhum cabelo dentro do couscous, achou? Porque se tivesse encontrado, continuaria achando-os atraentes? Estou me lembrando de que ouvi alguém comparar nossa alma a um espelho. Quando a parte que reflete está virada para baixo, vemos o chão, vemos a matéria, tudo o que é denso, vemos a sombra. Quando a parte que reflete está voltada para cima, vemos o céu, vemos o espírito, o que é sutil, vemos a luz… Em vez de alma, os budistas diriam que assim é a mente… E ao pensar que nós somos esse espelho… Refletindo ora luz, ora sombras… Um amor sublime, um amor carnal… É bom pensar que temos a escolha de manejar esse espelho… O importante é termos no mínino uma alternância – a maior parte das pessoas não tem, como você disse, e o espelho fica continuamente voltado para baixo, para o chão… Meus olhos são como são. Se são belos, isso é a sua experiência deles. Você os vê, nesse momento, eu não – encarou-me, e pela primeira vez em todos aqueles dias bebi do olhar dele sem sentir culpa – O que você faz deles na verdade te pertence, não a mim. Então desfrute do que você puder criar. Beleza ou feiura é o teu julgamento, constituindo o teu mundo, não o meu.

08- Anton Antipov eyes pin light

–Sabe o que eu acho? – Theo riu – Se você me quer para amado… e eu te penso mestre… nunca vamos nos encontrar. Porque o amante necessita encontrar o amado; mestre e discípulo precisam se encontrar. Não sei citar de cor, mas Sócrates diz a um de seus guapos admiradores atenienses alguma coisa como: você está querendo trocar ferro por ouro, se enxerga em mim uma beleza que é superior à do teu corpo, se quer trocar comigo beleza por beleza, sabendo que uma é verdadeiramente bela, enquanto a outra só é vulgarmente bela… Você está querendo tirar vantagem de mim, diz Sócrates. Esse é o nosso caso, pois eu estou aqui tirando partido da beleza da sua alma e da sua prática… — foi minha vez de sorrir melancolicamente, incapaz de reconhecer essa beleza que ele dizia enxergar em mim — Isso está no Banquete, não está? Lembrei-me disso quando você falou sobre a verdade. Sócrates deixa claro que a única coisa que interessa é a verdade. Mesmo no amor. Palavras belas, palavras artísticas, palavras bem compostas, nada interessa tanto quanto a verdade, mesmo que seja crua, que seja miserável, ou dolorida. Como você fez, agora. O que você acabou de compartilhar é tão profundamente a sua verdade, que se torna uma verdade para mim também, embora a minha seja e venha à minha maneira. É quando compartilhamos um insight. De novo, obrigado.

– Você já leu Platão? – interrompi, incomodado. Recordei-me que ele havia mencionado o Mito da Caverna, mas poderia ser de só ter ouvido falar.
– Claro.
– E você já leu Harry Porter?
– Não – Theo riu por um instante, e depois encarou-me, tornado sério – Esse é outro ponto da imagem que você tem de mim. E que me incomoda muito mais do que você me achar bonito e ficar de olho nas minhas coxas – fiquei sem graça, como era a intenção dele – Como foi que você disse, naquele dia? Que eu era muito jovem para precisar de um mestre espiritual… Agora há pouco você disse que eu era muito bonito para precisar meditar… – Theo desafiou-me, com o queixo e o olhar – Isso é estúpido, você sabe? É preconceituoso – e então refez a pergunta de horas atrás – De verdade, por que você não crê em mim? Você acha que eu sou muito criança, não acha?

– Não é isso. Mas não é… normal… alguém na sua idade não ir para a balada para ficar tomando chá… e falar de Platão… e citar William Blake.
– Preconceito. E você – retrucou Theo — com que idade leu Platão?
– Não sei… Eu estava na faculdade, foi presente de uma amiga, Clássicos de Bolso… Entre os 17 e os 22 anos, é o melhor que posso dizer.
– Você acha que eu tenho menos de 17 anos!?! – Theo espantou-se.
– Que idade você tem, Theo?
– Fiz 19, agora em Março – desfeito o mistério, aliviado pensei que não mais corria o risco de ser preso, pronunciando desavisado um discurso que poderia vir a ser pedófilo. Theo prosseguiu — Sou muito jovem. Esse é seu real problema comigo. Quando você começou mencionando nossa primeira conversa, pensei que fosse tocar nisso, justamente… Essa conversa de beleza, de desejo… No que me toca, tá tudo bem para mim. Não me agride, não me ofende. Pelo contrário, vindo de você, é um elogio, e eu me sinto valorizado, com a sua atenção. Ficou claro para mim que é alguma questão de culpa interna, não tem nada a ver comigo. Você concorda? – Theo parecia agora estar decepcionado com o narrador.

– Não é isso. É só que ter interesse por meditação na sua idade… Li Platão bem jovem, é verdade, e agora me parece bem adequado para um certo tipo de inquietude que se tem nessa idade – olhando o pouco espaço físico que nos separava, não mais de meio metro, desde que nos debruçáramos pra fora das poltronas e na direção um do outro, para conversar mais baixo na noite subitamente silenciosa, dava-me conta dos quase exatos vinte anos que nos separavam — mas naquela época nem sonhava meditar… No máximo fui aprender Tai Chi e Yoga

– Tá vendo? Você percebe? – sentia a respiração doce e quente de Theo alcançar-me, quando ele se exaltava – Acontece que não tem idade nenhuma! Tem só a vida, e a vida de cada um. E cada um sabe onde dói, e quanto, e como pretende sair do sofrimento, ou não… Talvez, quando você tinha a minha idade, te doesse menos do que dói a mim. É isso, é assim. Não tem idade. Esquece a minha, esquece a sua. Tem esse momento, agora, em que nos encontramos, em que estamos aqui… – ele estendeu as mãos na minha direção – Me dá as tuas… Fecha os olhos… Sente… Agora… O planeta. Onde nós estamos… Gente morrendo. E nascendo. Aos montes, nesse exato momento… Gente que morre em todas as idades, velhos, jovens ou crianças, até bebês nascem mortos… O prédio debaixo de nós, os prédios ao nosso redor… Sente o gramado debaixo de nós. Tem centenas de insetos aqui, milhares, milhões de seres só nesse pedaço de jardim. Ou no teu intestino, as bactérias pelo teu corpo… Pessoas, animais e outros seres… vegetais, muitos mais, trilhões, zilhões deles… Nesse momento. Grandes ou pequenos, visíveis ou invisíveis… nascendo, morrendo… Sente… Por toda parte, por todo lado, acima, abaixo, dentro e fora… Morte, morte, morte, morte, morte, morte, nascimento, nascimento, nascimento, nascimento, nascimento, mortenascimento, nascimentomorte… Não dá nem para tocar a idéia do que está acontecendo, a cada momento, pois são muitos zilhões de mortes e nascimentos, a cada momento… Sente só… é impressionante, ter essa consciência… e então não há nada, não há ninguém, tem só esse momento, o seu, o meu, com uma sutil e tênue diferença entre vida e morte… que, no final, é a mesma coisa, um momento… minha vida agora, e a minha morte a qualquer momento… Momento, momento, momento, momento… Só agora percebo que esta palavra é composta de mo-rte e nasci-mento… Agora, você e eu, aqui, vivos, de mãos dadas, respirando o mesmo ar… Celebrando a vida… Sente… É uma explosão contínua, uma pulsação que nunca baixa, e da qual por um período participamos, para então retornar a esse silêncio que também é pulsação… A vida e a morte irmanadas, a todo momento, eu e você agora…

08- Sunset_by_Caspar_David_Friedrich

Fiquei em silêncio, celebrando os nossos corações pulsando unidos nas palmas de nossas mãos, e nossas respirações em circuito, inspirando o ar que Theo expirava, e que ele inspirava quando eu expirava… Ao nosso redor havia um silêncio pleno, profundo, no qual morte e vida continuavam indivisíveis a existirem em cada segundo, e na verdade não havia nem como aprisionar a idéia de um único segundo, pois aquela alternância de vida e morte punha em marcha todos os segundos por todo o universo, vida e morte tão rápido, morte e vida tão simultâneas que nada diferenciava os segundos, nada os aprisionava, nada os detinha, nada os retinha, nenhuma idéia, nenhum conceito, nenhum momento de nascimento e morte, pois todos sem exceção faziam a vida… Ficamos em silêncio, de olhos fechados, mãos unidas, silêncio dentro, silêncio fora, e não me lembro como adormeci, mas quando acordei Theo tinha encostado a poltrona dele na minha, de forma a dar apoio à minha cabeça contra seu ombro. Um carinho leve de sua mão em minha nuca despertou-me, quando ele disse:

Doucement… Tout doucement… O Sol já vai nascer…

Aproximamo-nos da mureta da frente. Eu ia um pouco zonzo, amparado por Theo. Desde o mosteiro que não assistia a um nascer do Sol, e há muitos, muitos anos, que não o fazia em São Paulo. Era coisa comum de acontecer, na minha juventude – quando tinha a idade do meu amigo. O ar estava gelado, tropecei uma vez no cobertor, ainda com sono e surpreso. As nuvens tinham sumido, o encanto do gramado estrelado esmorecia. A meu lado, Theo sacou o ipod, e refreei uma careta quando ele disse que queria ouvir uma música junto comigo. Preferiria o quase silêncio. Dividimos o mesmo fone de ouvido, minha orelha esquerda e a orelha direita dele — nas outras, pássaros cantavam e uns poucos carros rumorejavam, e para ficarmos mais próximos com aquele fio pendurado entre nós, Theo passou o braço por cima do meu ombro. Ele esperou até o Sol despontar para apertar o play, e ao vir junto com a marcação de uma bateria um incômodo chiado como se fosse de rádio, já me arrependi de ter concordado em ter trilha sonora — mas em seguida me surpreendi, com um sopro de piano, dos mais belos que já ouvi em minha vida. Estremeci. O baixo adentrou numa grave, profunda explosão, sublinhando o jorro do piano fluindo dos meus ouvidos direto para o coração. Música milagrosa, sublime e celeste, evoluindo lenta e misteriosa, subindo alto, tendo mergulhado fundo — como a própria trajetória do sol, ascendendo à nossa frente. Observei meu lindo amigo, que tinha lágrimas nos olhos, fixos no nascente, e que chorou lento, chorou doce — ele chorou delicado. Passei um braço às suas costas, estreitando-nos, até sua cabeça pender sobre a minha — depois descobriria ter sido aquela a música e E.S.T. o conjunto preferidos de Angelo, o irmão de Theo, que como eu adorava jazz. Era a oferta mais generosa, íntima e bela que ele poderia me ter feito, ao compartilhar a herança do irmão adorado comigo, mas naquela manhã pensei que o mais precioso fora ele dizer-me, num sussurro em seguida à música:

– Se quiser me amar, se você puder… Você é bem-vindo. E desde já, é retribuído.

(compartilho com você a nossa trilha sonora; recomendo ouvir com fones de ouvido, ao nascente, na companhia do seu Deus)

Leia o Trecho X – Travelling

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