Trecho VI- Where do you start?
agosto 15, 2009
…não há nada para agarrar. Sou feito e refeito continuamente.
Pessoas diferentes tiram diferentes palavras de mim.
Virginia Wolf
Leia O diário dos dias extraordinários completo:
Trecho I – Just an ordinary day
Trecho II – If I let you in, I’ll never let you out
Trecho V – Als das Kind Kind war

A caminho da porta, fui iluminando o apartamento, grato ao Noguchi, ao Castiglioni. Um pouco brusco, havia de um pulo no susto deixado sozinho sobre a esteira o meu amigo. Ponderei que não havia dito quem iria chegar, se é que era quem eu imaginava. Pensei em voltar e dizer, mas não havia nada a dizer, e acendi a Nebula.
Olhando e julgando as sandálias ao lado da porta, divertida, surpreendida. Lissa.
– Você não está sozinho? Quem é o gigante? – e com um prurido de perfume e o ruído de atrito da seda adentrou confiante no apartamento que por ser meu era tanto mais dela – Para você – um intricado embrulho rústico que continha uma polpuda, vertiginosa magnólia – Filha única, preciosa.
Enquanto nos beijávamos, contou-me rapidamente: almoço com o Basil e depois às compras. Vi um homem alto de terno, gravata e sapatos de couro impecáveis comprados na Bond Street, o cabelo loiro pálido que continuava sendo regiamente bem cortado do outro lado do Atlântico, em vôos mensais rituais. Para ser escoltada por um homem desses numa tarde pelos Jardins, com tanto glamour quanto nos trópicos podia haver, Lissa tinha colocado um belo costume de corte escandinavo e padronagem japonesa, tendo prendido os cabelos ruivos e longos numa escultura de estrutura improvável que entretecia os fios de cobre e ouro ao alto da cabeça. Estava elegante sem mais, para encontrar, envolver e mistificar o namorado executivo num dia de expediente. Linda, a Lissa.
Vi-a então arregalar os olhos para o panorama por detrás, e em tempo virei-me para ver o meu amigo erguendo-se na outra ponta da sala, a figura branca e cálida contra o paredão negro da cidade fria. Acho que tivemos a mesma impressão — minha sócia e eu dividíamos muitas impressões, com o passar dos anos nosso olhar tinha se irmanado: a de que um homem se levantava e não acabava mais, de tanto homem que havia para se erguer, e como era belo, e forte, e vigoroso, desdobrando o peito amplo e os ombros vastos, metros de braços. O menino, visto à distância, parecia colossal, poderoso, e no entanto…
– Pode deixar que eu mesma me apresento – disse, depois de olhar-me com os olhos apertados onde li lascívia – enquanto você cuida da florzinha – e assim despachou-me, parecendo divertir-se com a surpresa, quando eu havia imaginado que iria aborrecer-se. A caminho da cozinha, vi-a encaminhar-se como se uma nuvem de tempestade a levasse para o outro lado da sala, em rota de colisão com o rapaz. O que quer que fosse acontecer, eu tinha sido enviado para fora de cena, ainda que aquela fosse a minha casa. Ao menos, pensei, não teria de passar o constrangimento de apresentar Lissa ao meu novo amigo, do qual ainda não sabia o nome.
Ouvia-os conversar, enquanto no corredor buscava pelo pequeno vaso sírio que tinha encontrado num antiquário em Estocolmo, de um tom azul esverdeado. E quando voltei à sala, com a magnólia mergulhada nele, a florzinha no vasinho, como diria Lissa, encontrei-os sorrindo, mas não um para o outro – ilhados em seus sorrisos, pois não poderia haver sorrisos mais distintos, mais discrepantes. O rapaz parecia sorrir para proteger-se, como se exibisse sua inocência, e Lissa sorria para agredir, para desafiar. Eu bem conhecia aquele sorriso! Como excelente mestre zen que era sem desconfiar, minha amiga não se fazia fácil nem amável à primeira vista, e muitos desistiam dela na pressa e por covardia. Sorri também, defendendo-me, quando os sorrisos de ambos viraram-se na minha direção, florzinha na mão.
– Bom, eu vou embora.
Acompanhei meu amigo até a porta. No meio do trajeto ele parou, olhou ao redor, para o apartamento cheio de sombras lançadas ao teto e penduradas pelas paredes.
– Não sei porquê, mas lembrei do mito da caverna de Platão, agora – encarei-o em dúvida, e surpreendi-me inclinando a cabeça de lado, como se fora o espelho dele… E como que de repente consciente da presença de Lissa entre nós, baixou a voz e mudou de assunto – A sua casa é linda — ele sorriu, uma outra qualidade de sorriso, que eu queria crer reservada apenas a mim… And all that wasted time, I just waited for a smile… All my wasted time, and all I needed was a smile… – E tanto mais a atmosfera daqui… – e inclinou-se sobre mim e abraçou-me, mantendo o abraço como se sustentasse uma proposta ou uma promessa – Obrigado.
‘Cause you’re free… And you’re alive… You’re free and you’re alive… You’re free… Quando nos separamos daquele abraço, quando quase triste deixei o conforto daquele espaço sagrado, tive vontade de olhar Lissa para ver sua reação àquele desafio à sua perene e longeva hegemonia – eu pressentia o início de uma cansativa competição de provocações e reações, que na verdade já tinha se estabelecido, desde o primeiro encontro entre eles.
– Desculpe o fim brusco… Eu gostaria de ouvir sua história até o fim… É linda…
– Quando você quiser – ele mantinha as mãos nos meus ombros, como se também hesitasse encerrar o abraço – Eu… estou no céu… – ele falava num sussurro, como se não quisesse ser ouvido a não ser por mim, ou talvez simplesmente para ter de se inclinar sobre mim e se aproximar tanto que dividíamos o mesmo ar, no mesmo fôlego. Havia algum enredo encaminhado do qual eu ainda não entendia a trama, e não sabia por onde puxar o fio — Como vai ser o seu dia, amanhã? – ele riu da própria pergunta – Quero dizer, você vai ter algum tempo livre?
– Amanhã… Eu devo ir trabalhar. Não sei até que horas…
E no vestíbulo, trocamos ainda um outro abraço, de despedida – e por um momento meu coração encolheu e senti-me oprimido, vendo-o sair pela porta rumo às escadas, e descalço dando-me as costas, degrau após degrau rumo ao céu, com as sandálias na mão. Como se nunca mais fosse vê-lo, como se de fato nos despedíssemos.
Lissa me aguardava, aparentando contemplar a exuberante magnólia em sua nova morada.
– Uau, que gato… – ela riu, como se me felicitasse — Desta vez você foi rápido! — havia desmoronado o penteado; tinha finalmente chegado em casa — Achei que ontem você tinha dito que não se importava se visse ou não esse garoto de novo. Quantos anos ele tem? Dezenove, vinte?
– Ele apareceu aqui em casa – dei de ombros. Os cálculos de Lissa eram diferentes dos meus, e preferíveis, pensei.
– Sei. Assim, do nada.
– Ele tocou a campainha.
– Que bonitinho! Como ele descobriu onde você morava? E veio sem ser convidado? – soava sarcástica, ou talvez menos, só irônica, ao considerar-se excluída.
– Da primeira vez sim… – recordei dele sentado no meu vestíbulo, na noite anterior — E da segunda também… – revi o Joshua, e o uniforme esportivo de tecido brilhante daquela manhã — Na terceira, ele avisou antes que estava vindo – de cabelos molhados, tendo tomado um banho.
– Achei que vocês tinham se conhecido ontem, no jardim?
– E foi.
– E desde ontem vocês já se viram três vezes! E quando trocaram telefones? Você quer que eu acredite que ficaram só bebendo chazinho? – ela apontou para a esteira, que parecia tão ordeira, quase um cenário, como se ali ninguém houvesse sentado. Será que meu amigo teria arrumado o nosso espaço antes de levantar-se? Ou tínhamos estado em tão perfeita harmonia que transparecia?
– Não quero nada, Lissa – sorri, provocativo – E você está certa. Não ficamos só bebendo chazinho. Também meditamos, e conversamos – ri, pois ela pareceu irritar-se, como se esperasse outra coisa, que eu estivesse ocultando dela – Você quer um chazinho? Foi ele quem trouxe… Tè bianco dall’ Darjeeling. Da agricoltura biologica. Equo e solidale – recitei.
– How appropriate of him! Ele já te conhece assim tão bem? – com um pouco mais de irritação e bastante ciúmes, Lissa referia-se à minha nova etapa de vida, em que os vinhos tinham dado lugar aos chás, uma das coisas que nos distanciava, atualmente — Eu prefiro café, pode ser?
Na cozinha, vi-a aproximar-se de Todos os belos cavalos, sem no entanto abri-lo. Bastava com um olhar agudo examinar a capa. Lissa tinha intimidade com as artes visuais, ela própria uma obra de arte, mas nenhuma proximidade com a literatura.
– É seu?
– Claro. De quem mais seria?
Lissa fez uma cara engraçada, de fastio diante da obviedade da minha pergunta.
– Ele podia ter esquecido aqui…
– Lissa… No meu banheiro continua tendo só a minha escova de dentes, ok? E a sua, dentro do armário.
– Eu não imaginei outra coisa… Você sempre me faz sentir suja…
– Eu faço isso, agora?! Sempre? Mas se eu te amo… Como eu poderia? – pretendi soar ofendido, de propósito.
– Desculpe, não é que você faça isso… Mas eu acabo me sentindo assim… Sinto-me maliciosa, quando você está nessa fase tão… pura! – ela revirou os olhos, e também o lindo anel de platina e micro rubis dado por Basil – Ele é modelo? Ator?
– Quem?
– O Theo. Quem mais?
Enrubesci, ao descobrir… ao ouvir o nome dele pela primeira vez… Deus… O deus adolescente… E Lissa percebeu.
– Não acredito que você não sabia o nome dele! Como, se vocês trocaram telefone?
– Ele tem o meu número, mas eu não tenho o dele. E é verdade, eu não sabia ainda o nome dele. Obrigado por contar-me – percebi que estava ficando cansado, súbito apanhado de novo num vórtice de emoções e opiniões, quando investira toda a tarde em acalma-las — Você venceu, Lissa. Eu não sei nada dele.
– E põe ele pra dentro da sua casa! Sem ter a mínima idéia de quem ele é!
– Nós dois sabemos que fizemos isso muitas vezes, no passado, você tanto quanto eu – suspirei. O cheiro do pó de café machucava-me o estômago – Talvez eu não esteja numa fase assim tão pura quanto você quer crer – curiosamente, pensei na luminária Nebula, que havia sido minha última aquisição de impulso, uma aposta no talento do jovem Joris Laarman, comprada uns poucos dias após ter saído do mosteiro, como prova de que ainda não tinha sido imunizado do meu consumismo.
– Agora é diferente! Você parece ter perdido, intencionalmente, a sua malícia… Você está mais crédulo… — Lissa estava me chamando de tonto, com a sutileza recém-aprendida da escola britânica — E esse rapaz… Você não sabe quem ele é, de onde vem, onde mora… sabe o que eu acho dele? – ela parecia transtornada, a respiração um pouco acelerada, como a água em ebulição.
– O quê, Lissa?
– Primeiro, foi tolice você ter dado sua máquina de expresso… Coador de pano, meu querido! Sinceramente… Acho que esse menino é garoto de programa. E está tentando te fisgar…
Derramei sobre o pó de café mais água fervente do que pretendia, e algumas gotas espirraram sobre minha mão e a pia com um chiado, queimando-me. Não reagi, mas ri.
– Que idéia! – e já percebia-me inquieto, com aquela semente de dúvida agora plantada em mim, tanto mais porque os alertas de Lissa nunca eram completamente infundados. E porque, sem confessar a mim mesmo, vinha buscando uma razão para o interesse do meu jovem amigo por meditação, e consequentemente por mim. Rápida, mentalmente repassei nossos encontros, as palavras que havia me dirigido, as histórias que havia me contado… Revi Joshua, tentei imagina-los como uma dupla de garotos de programa de luxo ao invés de primos, coloquei-me na posição de potencial cliente que viria a sustentá-los – e a não ser pela persistência dele em reencontrar-me, nada parecia encaixar-se. Mas era a primeira resposta que tinha à indagação que eu ainda não havia clarificado – minha experiência e minha convivência no mosteiro me diziam que só uma aguda consciência do sofrimento, o que conduzia à firme intenção de sair dele e à busca pela meditação, e nenhuma destas coisas parecia ser comum entre as pessoas comuns, que preferiam continuar a enganar-se e distrair-se e perpetuar o próprio sofrimento ou no máximo encontrar meios de mistifica-lo ou de adocica-lo, mas nunca o suave porém real confronto que a meditação propunha… Por que, afinal, alguém tão jovem – e tão belo; via-me enredado por meus julgamentos e classificações — teria interesse nesse caminho? O sofrimento leva ao caminho da cessação do sofrimento, tinha ouvido do Dalai Lama em uma palestra. Não seria por mera curiosidade nem passatempo… – E se for isso, Lissa, não muda nada. Eu não deixaria de ser amigo dele, se fosse como você diz. O seu café está pronto. Vamos para a sala? – a cozinha havia sido inundada pelo aroma seco e queimado, e eu me sentia oprimido.
Lissa costumava sentar-se na PK 22, seu lugar preferido de estar na minha casa, junto à qual eu já havia instalado a magnólia. Ela pareceu acalmar-se, e logo em seguida de novo irritar-se, quando me viu sentar no chão, sobre uma almofada – um resquício do mosteiro, como ela chamava todos os meus novos hábitos, chá, zafu, chão – e, de certa forma, ela tinha razão.
– Ele foi totalmente evasivo… Desconversou o tempo todo… Como se fugisse…
Tínhamos assuntos delicados a tratar, sobre os novos rumos que nossas múltiplas sociedades formadas desde os tempos da faculdade iriam tomar, pessoal, profissional, emocional, domiciliar… Vinte anos de relacionamento estavam em vias de se transformar, e eu podia compreender que Lissa o evitasse, apegando-se a um assunto sem passado algum, e que o prolongasse. Ao mesmo tempo, eu sentia curiosidade em saber o que ela havia descoberto sobre o rapaz – Theo, eu ainda experimentava o nome dele como a uma fruta desconhecida, em pequenos bocados, e devagar o sobrepunha à sua figura.
– Sobre o que vocês conversaram?
– Não teve conversa. Eu perguntava, e ele respondia com outras perguntas. Eu queria saber dele, e ele queria saber de você, como se investigasse – entre satisfeito e lisonjeado pelo interesse do rapaz, percebi também o ciúmes na voz dela, claramente.
– Como o quê, por exemplo?
– Quis saber qual era o nosso relacionamento.
– Ele perguntou sobre isso? Se éramos sócios ou casados ou meio margherita-meio mussarela…
— Não assim. Daquele jeito meio francês, por evasivas, por frases inacabadas… Vocês são…? – ela me fez rir, forçando um sotaque que soou caricato como ele não o tinha, e esmerando-se na inclinação de cabeça dele, reproduzida fielmente.
– E o que você respondeu?
– Respondi que nós somos.
– Somos o quê?
– Só isso. Eu disse, oui, mon cher, nós somos… Deixei ele imaginar o que quiser.
Eu ri de novo. O que será que Theo iria imaginar, tendo nos visto beijar? O que mais Lissa teria dito a ele, para afugenta-lo? De repente, entendi a sensação de partida definitiva que havia tido quando nos despedíramos no vestíbulo. Não era apenas não termos marcado o próximo encontro. Minha sócia já havia enxotado muita gente da minha vida, e talvez eu tivesse feito o mesmo com relação à vida dela… Sorri, e varri o deus adolescente — ou nem tão adolescente assim, de acordo com Lissa — dos meus pensamentos. Os ventos ventavam, passavam e continuavam a passar. Somente Lissa permanecia. Como eu nunca estivera num local onde os ventos se iniciavam, eles pareciam estar sempre de passagem, ventando de lá para lá ou de lá para lá, mas nunca se iniciando aqui… pensei que talvez Lissa estivesse no princípio de todos os ventos.

– Você quer conversar agora?
Lissa tomou um gole do café, e eu aprontava uma nova chávena com a água quente que trouxera da cozinha. Lissa engatou a primeira marcha, enquanto minha memória musical punha para tocar na Rádio Mente a canção Where do you start… How do you separate the present from the past… How do you deal with all the things you thought would last… That didn’t last… With bits of memories scattered here and there… I look around and don’t know where to start… Ouvia a versão com Shirley Horn, e era quase surpreendente que alguém abrisse uma brecha na seleção de Perry Blake.
– Podemos começar pela casa na Justa – era uma cabana, menos do que uma casa de praia, que juntos havíamos alugado, anos atrás, e que se tornara nosso refúgio, a qual porém eu não visitava há quase um ano – Temos de decidir para esta semana, ainda. Você quer renovar o aluguel por mais três anos ou vamos finalmente construir a nossa e… – tomou outro gole de café, para engolir o choro.
– Lissa… – eu sussurrei, com toda a doçura, e toquei o joelho dela, que a saia descobrira… Where do you start? Our lives are tangled like the branches of a vine… That intertwine… So many habits that we’ll have to break… And yesterdays we’ll have to take apart… – Eu acho que está na hora de você fazer planos com o Basil, e não mais comigo… – da mesma maneira como ela se apoiara em Theo, eu pretendia apoiar-me no namorado dela como estratégia – E o Basil não gosta da nossa cabaninha – sorri. Da única vez em que estivéramos os três juntos lá, o namorado da Lissa tinha atravessado os dias contrariado com a luz incerta dos lampiões intoxicantes, incomodado com o parco chuveiro acionado por um gerador barulhento, agoniado com os insetos deliciando-se com sangue britânico nunca dantes provado, e sobretudo, desgostoso com a minha companhia e presença – E nem me quer lá com vocês…
– Pelo contrário! Ele me pediu para te convidar para ir conosco no próximo feriado…
– Pediu mesmo? – parecia-me improvável.
– Sim. Deixou claro que não faz a menor objeção à sua presença lá.
– Objeção! – ri, imaginando o quanto poderia ser engraçado namorar com um britânico, e o quanto eu me sentiria desgraçado – Ele também não faz objeção a eu dividir e pagar o aluguel da casa com você, faz?
– Não foi isso o que ele disse – Lissa ofendeu-se – Você não está sendo razoável…
– Desculpe. Ser razoável? Se ele ainda me convidasse, à minha própria casa, dizendo que seria um prazer ter a minha companhia… Mas dizer que não faz nenhuma objeção…! – eu podia imaginar a expressão régia do Basil, e a entonação condescendente com que o teria dito – Bom, pelo menos ele é sincero… Essa casa já não faz mais parte da nossa história, Lissa. Foi uma época linda, mas acabou – e então, ficou claro para mim que eu mesmo tinha provocado aquela desagradável confusão envolvendo o namorado de Lissa, ao não ser sincero e direto desde o princípio – Não quero mais alugar a casa. Nem acho que vamos construir outra.
– Você está abrindo mão das suas coisas com muita facilidade – ela disse, com mágoa. Olhava para dentro da caneca de café, a que era reservada somente a ela, e desta vez não estava falando sobre eu ter dado a máquina de expresso — Cuidado para não se arrepender, depois. Nem tudo tem volta.
Há tempos eu vinha ponderando sobre a cabana, imaginando o efeito que minha desistência teria em Lissa. Nossa futura casa conjunta ruía antes mesmo de erguer-se. Não desejava por nada magoá-la, mas em verdade postergar minha decisão provocava nela uma mágoa prolongada. Ela sabia também da minha vontade de sair do escritório, desmanchando nossa sociedade ou pelo menos modificando minha participação, embora ainda não tivéssemos conversado claramente sobre isso. Era o final de um casamento estável e duradouro, e portanto mais triste, mais difícil.
– Eu te contei do insight que tive com um monge, quando estávamos bebendo chá juntos? Sobre o despedir-se e o desapegar-se…
– Por favor, não me conte. Hoje não – Lissa levou a mão ao lado direito da testa, num gesto que indicava que a enxaqueca se manifestava… Naquela noite, eu tive uma impressão diferente, a de que na verdade ela apertava ali um botão que dava início à dor, naquele momento, e assim ela se retirava de cena… Where do you start… Do you allow yourself a little time to cry… Or do you close your eyes and kiss it all goodbye… I guess you try… Se fosse chorar, Lissa o faria em casa, sozinha.
E então, não havia mais. A todas as perguntas práticas de Lissa eu tinha uma só resposta. Estava disposto e engajado em desfazer-me dos antigos hábitos, dos confortos desgastados, dos enredos viciados, dos caminhos mapeados e retrilhados. Isso incluía quase todas as circunstâncias de vida que compartilhava com Lissa, e eu podia compreender que ela se sentisse ameaçada. Assim como a cabana de praia, a nossa sociedade no escritório, e eu podia desfazer-me de carro, celular e máquina de expresso – mas não podia imaginar minha vida sem a Lissa. E ela não podia entender como podia desfazer-me de tantos detalhes que nos uniam sem no entanto desmanchar a nossa união. Estávamos os dois tentando preservar nosso relacionamento, mas com estratégias distintas. Ela buscava a manutenção e conservação de tudo, enquanto eu intentava desfazer-me, simplificar, desbastar, chegar à essência de tudo – que era o nosso amor, o único amor duradouro que eu havia experimentado fora da minha família. Eu podia perceber esse sutil descompasso, e via como estávamos tristes. Almejando o mesmo, porém buscando-o por vias opostas – e assim nos machucando. Estávamos de acordo, e no entanto discordávamos.
– E quanto à reunião da semana que vem?
– Como eu te disse, você tem o meu apoio, e o de meus assistentes, para todo o projeto. Mas eu não estarei presente em nenhuma reunião, nem quero ter nenhum trato com o cliente – da nova etapa pretendida por mim, em que eu teria cada vez menos participação, este era o primeiro projeto em que Lissa estaria trabalhando sozinha. Talvez ela devesse ter se acostumado, e até preferido, no ano em que eu estivera fora, mas agora era diferente e decisivo, comigo de volta ao escritório.
Durante todos aqueles anos, tive uma impressão de Lissa que finalmente, só naquele momento, iria se consolidar – a de que tristeza a desgostava, até a enojava. Ao sentir-se triste, Lissa ficava com raiva, ao ver sua exuberância compulsoriamente diminuída. E num gesto quase agressivo, abriu a bolsa. Jogou lá dentro as chaves do seu carro, que eu havia dirigido na noite anterior por conta de sua crise de enxaqueca. Encaminhando-se para a porta, tirou da bolsa um pacote.
– Encontrei isso, hoje à tarde – disse, com aparente desdém – Nem sei se você ainda gosta… Se não, pode trocar.
Imensamente generosa e atenciosa, sempre. Era uma edição especial de In the Upper Room, a inebriante, exuberante e das mais lindas coreografias que já havia visto de Twyla Tharp, a minha preferida – coreografia, coreógrafa. Vinha buscando uma gravação há anos, desde que assistira pela primeira vez no final dos 80 – na verdade, vinha buscando reviver o êxtase daquela experiência, do jovenzinho que em viagem com a família ao exterior tinha ido sozinho e desavisado assistir uma apresentação para satisfazer a curiosidade cultural – que, à época, em mim, era mesmo mais forte até do que a sexual — e vira sua vida ser mudada… Ainda me lembrava da sensação curativa de chorar, chorar ininterruptamente durante todo o espetáculo, e de descobrir que sabia o que eu queria ser e fazer da minha vida. Usava o termo “abduzido” para descrever aquela noite — abduzido pela beleza. E apesar da referência bíblica, o ballet era mais uma impressionante maratona virtuosística e nada tinha de sagrado ou espiritual, ao não ser sua intensa, extática e rigorosa beleza como obra de arte, os dançarinos rodopiando como dínamos divinos sob a luz usada como imanência, à música obsessiva de Philip Glass, que à época eu considerei sublime. Mas, curiosamente, parecia-me ser um sinal, em minha vida mundana pregressa, do caminho espiritual que eu agora tentava trilhar, como se este momento, este narrador, tivesse começado lá, nascido durante aquele espetáculo, in the upper room. Eu voltara a assisti-lo com o ABT no City Center em 2006, quase vinte anos depois da primeira, e desta vez junto de Lissa, com quem desejara muito compartilhar aquela experiência – e fora uma daquelas noites perfeitas, de uma miríade de noites perfeitas que ao longo dos anos havíamos tido, quando estávamos só os dois.
– Muito obrigado! Adorei! – emocionado, tocado pela recordação e gentileza dela, agradeci com um beijo, quase sem fôlego, manuseando a caixa como se fosse alguma preciosidade, mas apenas em parte excitado, pois uma outra parte de mim estava estranhamente consciente de que nas mãos segurava apenas papel e plástico. Iludido, desiludido.
Despedida, e diante do apartamento vazio, voltava-me o olhar marejado de Lissa, e o silêncio em que ela havia partido não era muito diferente do silêncio em que Theo havia partido, de ombros caídos.
Em outros tempos, teria ligado a televisão ou o aparelho de som, talvez saído para comprar alguma coisa ou encontrar alguém. Atualmente, podia invocar o Perry Blake e não muito mais, pois cinema e shopping center já não me iludiam. Minha mente é um caos, meu coração um tumulto, e minha vida um turbilhão. Nada podia me distrair disso, eu já não podia me enganar. Com o restante de chá bafejando os últimos vapores, sentei-me para meditar – a única coisa de que poderia me valer.
Não adiantou. Na cozinha, ainda incomodado, à luz da chama do fogão, esquentando a água do missoshiro, vasculhei Todos os belos cavalos até encontrar:
… mas disseram que um homem deixa muita coisa quando deixa seu país. Disseram que não era por acaso que um homem nascia em certo país e não em outro e que os climas e estações que formam uma terra formam também as fortunas interiores dos homens em suas gerações e são passadas para seus filhos e não alcançadas tão facilmente de outro modo.
Decidi levar o livro para a cama, insistindo em buscar um esconderijo de mim mesmo, sabendo que isso era impossível. Ainda o tinha fechado sobre meu peito e as cobertas, olhando minha sombra projetada na parede, quando o telefone tocou. Da PK 91 que me servia de mesa de cabeceira, mirava-me a maravilhosa magnólia, e imaginei que fosse Lissa — sempre ocupado em imaginar, supor, fantasiar alguma coisa.
Era uma amiga, ou menos, uma conhecida que forçava uma amizade. Não a via há bem mais de um ano, desde que fora viajar, e ainda não desde que retornara do mosteiro. E no entanto, ela começava nossa conversa reclamando da falta de celular e de secretária eletrônica. Rapidamente enraiveci-me, mas antes de ser ríspido com ela, de me ver tentado a reagir, contou-me a razão de sua ligação:
– O Gustavo, filho da Verena, morreu. Amanhã vai ser a missa de sétimo dia. Tenho certeza de que ela ia ficar muito feliz se você fosse – por um instante, pareceu ponderar as próprias palavras, e se era possível alguém ficar feliz numa missa de sétimo dia – Ninguém tinha certeza se você já tinha voltado ao Brasil…
Horário e endereço, ofereci carona e recordei-me de que já não tinha carro — felizmente ela não aceitou. Quando desliguei o telefone, cogitando ligar imediatamente para Verena, simplesmente fechei os olhos e chorei. Pelo Gustavo, pela Verena, pela Lissa, pelo Theo, por mim, por meu pai, por minha mãe, por Aquiles, por Agnes – e por que não, por Basil, por Joshua… Pela segunda noite seguida, encontrava-me chorando, antes de dormir… It’s just an ordinary day… Nothing much to laugh about, nothing much to cry about…
O telefone tocou novamente, e eu tive certeza de que era Lissa.
– Você pode falar?
– Claro – suspirei, aliviado — Que bom que você ligou – ao menos em parte, poderei dormir em paz, pensei — Fiquei preocupado em te ver sair daquele jeito.
– De que jeito?
– Você estava triste – e como se encontraria a Verena?
– Acho que não terminamos direito o nosso assunto, o nosso encontro… Foi um pouco brusco. Ficou faltando um fecho.
– Desculpe. Eu sabia que a Lissa viria, mas não sabia a que horas ela chegaria…
– Ela já foi?
– Claro que ela já foi. Ela não mora aqui, Theo.
– Agora você sabe o meu nome! – ele riu.
– E você, sabe o meu?
Andante — ele confirmou que tinha perguntado ao zelador, e sobre o andar em que eu morava, para poder esperar-me no vestíbulo.
– E você, em que andar mora?
– No último.
– Na cobertura?
– Sabe o salão de festas?
Em segundos, repassei uma breve conversa que havia tido com o Cirilo, síndico do prédio, pondo-me a par, como membro do conselho que era, dos acontecimentos do condomínio no ano em que eu estivera fora. No último semestre ele estivera contrariado com a reforma na cobertura, vendida para uma família francesa. A “família fantasma”, como ele a havia apelidado, pois jamais tinham vindo visitar o apartamento, não para compra-lo, e nunca para a reforma, nem para a mudança. Tudo tinha sido feito por um escritório de representação no Brasil – até mesmo o arquiteto responsável era um italiano com o qual tivera contato somente por e-mail, quando Cirilo cogitara seriamente em embargar a obra, e que continuamente o repassava ao escritório sub-contratado no Brasil apenas para a execução da obra – e para contemporizar e desconversar. De vez em quando, alguém do escritório escoltava a irmã da proprietária à obra, com uma trupe de seguranças. Apenas recentemente a família tinha dado as caras e se instalado, depois de uma procissão de containers, e de terem içado dois botes de alumínio até a cobertura — Para que é que alguém iria querer manter dois botes no topo de um edifício, me explica! – exaltava-se o Cirilo. E assim, com a história contada por ele, eu punha um fim à teoria conspiratória de Lissa. Tudo voltava a se encaixar.
– Você vive no céu! – In the Upper Room, e minha sócia tê-lo finalmente encontrado, e justamente hoje, parecia fazer todo o sentido. O salão de festas a que Theo se referia ficava no último andar, no teto da cobertura. Era uma área que sempre pertencera ao condomínio, mas como era de difícil manutenção e as raras festas que aconteciam lá em definitivo estorvavam o morador que arcava com a maior cota condominial, verdadeiramente exorbitante, depois de muitos anos de negociação, o tal salão de festas fora incorporado ao apartamento de cobertura.
– Eu queria te contar isso… Compartilhar… Posso? – hum-hum, fez o narrador, notando a empolgação e a ansiedade lindamente jovens do outro lado da linha – Quando a campainha tocou e você se levantou, alguma coisa me aconteceu… Senti meu coração inchar e disparar com o susto… E a história com a minha avó sumiu da minha mente por completo, como se você a tivesse levado embora com você… Como se sem você eu não pudesse mesmo conta-la… como se sem você ela não tivesse razão de existir, de estar ali… Eu te disse, foi a primeira vez que falei disso em Português… E o que ficou no lugar foi um vazio… Não sei descrever… Não havia mais pensamentos… Você vai achar estranho… Não havia nem eu… Como se você tivesse me levado embora, ao se levantar, como se você tivesse levado embora aquilo que eu podia significar, ao se afastar… E eu fiquei ali como nada… só uma presença… aberta… indefinida… livre… Era maravilhoso… Uma sensação indescritível de vastidão… E eu tive a exata noção, a sensação física mesmo, de que estava a muitos e muitos metros do chão… De que estava sentado no meio do céu. Eu sabia estar no décimo primeiro andar, e que isso era estar no céu… Como eu não tinha peso, também não tinha um corpo bem definido, e eu parecia flutuar… Eu estava no céu, como te disse depois… Sentado no céu! E olhando pelas vidraças, com uma percepção aguda de que eram tão perfeitamente transparentes, de que são um meio, um efeito, uma miragem, uma membrana como os meus próprios olhos… Consciente dos meus olhos e da vidraça, talvez pela primeira vez na vida consciente do meu próprio olhar, mirei as nuvens e a chuva e o raio laser… Observei as luzes que você acendeu através do reflexo delas nas vidraças, e tudo parecia tão irreal, tão impalpável… Eu estava olhando para o meu próprio olhar, e tudo confirmava minha sensação física de estar no céu, no céu de fato, pendurado a muitos metros do chão, pendurado e solto, seguro porém livre… Foi… maravilhoso… eu não sei como descrever, pois na verdade naquele momento eu não pensava com palavras, acho que não havia palavras, acho que não havia nem pensamentos… só espaço, muito espaço, mas que também não era um espaço no sentido de estar entre duas coisas, um intervalo, uma pausa, como costuma ser a nossa noção de espaço, um vão, uma brecha… Era espaço, espaço ilimitado… Era o próprio céu; o céu era eu e eu era o céu, e não havia diferença entre o céu fora da sala ou dentro da sala… Era maravilhoso… mas também era… ameaçador. Amedrontador. E eu senti medo. De continuar a dissolver-me – e de me perder. E com esse sentir, voltei a ter um corpo, julgamento, mente, e me ergui, acovardado… Você ainda está aí?
– Eu estou… no céu… você tem razão… o céu está no meu apartamento, o céu é aqui – ouvi o silêncio expectante do outro lado da linha, e sabia que o rapaz desejava algum reconhecimento e apreciação daquilo que havia compartilhado – Eu te entendo, Theo… Já senti isso uma vez, parecido… Estou dizendo que estou agora no céu porque você me ligar para compartilhar isso é o próprio céu… Não sei para você, mas poder compartilhar essa… vivência… com alguém, ter alguém com quem compartilhar essa experiência… isso é o céu, para mim. É lindo. Obrigado.
– Obrigado você – ouvi-o sorrir – Tem razão. Poder compartilhar o céu é o próprio céu… Como você diz, de novo eu estou no céu. Por poder compartilhar, e porque você está aqui para me escutar…
– Apesar de você morar na minha cabeça… Quer dizer, mais alto do que eu, em cima da minha cabeça… na cobertura! Bom, então estamos no céu juntos, o que é ainda melhor. Você aqui no meu apartamento no céu, e eu no seu apartamento, minha voz neste instante dentro de você, dentro de você que me escuta (e lê)… eu estou onde você está, dentro de você, neste momento, na sua consciência, percebe?
Theo ficou em silêncio, absorto, sem responder. Pude ouvir o respirar pausado e pensativo dele, e aproveitei para voltar à minha própria respiração, e acalmar os meus sentimentos.

– Você é incrível, sabia? – ouvi-o sorrir novamente – Com você eu tenho a noção de que estou vivo… vivo neste momento… a todo instante você me devolve a cada instante, e em cada instante eu realizo o estar vivo… Quando você me fala da sua voz dentro da minha cabeça, você desperta a minha consciência… por dentro… como se você batesse à minha porta, mas não de fora… De dentro!
– E onde você está, agora? – empolguei-me — Quando você fala, e a sua voz está dentro e fora de você, e dentro e fora de mim, nas nossas gargantas, bocas, ouvidos, cabeças, consciência, ao mesmo tempo, como se fossem uma… De onde ela vem? Do seu pulmão, do Sol, do almoço de hoje? E para onde ela vai? Para a noite e a chuva que cai aqui ou para o Sol do outro lado do mundo… – pensei em dizer que a voz dele também iria para a privada, uma vez digerido o almoço de hoje, mas não disse.
Mais silêncio.
– Tenho a impressão de que você não vai gostar… – riu, e pelo telefone ele soou como o menininho sentado no colo do irmão à sombra da jabuticabeira – De que é contra os seus princípios de humildade, mas droga… Tem a ver com a sua presença. Porque depois eu tentei de novo, ao chegar aqui em casa. Aqui na cobertura estou mais perto do céu, como você diz, ou mais dentro do céu, se você quiser… e nem por isso… embora eu tenha conseguido reeditar aquele sentimento… aquela vivência, como você disse… foi puramente intelectual. Foi falso.
– E o que é que eu tenho a ver com isso?
– Eu já te disse. Você abre as portas da minha consciência, por dentro. O tempo todo você me devolve ao momento presente.
– Eu não posso fazer isso, Theo. Eu não sei fazer isso. Não se subestime, não me superestime. É o pior que podia acontecer para nós dois. Ou estamos no céu juntos, ou não estamos. Ou juntos o criamos, ou não há céu algum para nós – quando uma rajada de vento sacudiu a porta envidraçada dando para o terraço, percebi que a chuva recomeçara.
– Podemos continuar essa conversa amanhã? Meu jantar está pronto – ouvi-o caminhar, e em seguida alguns sons metálicos indistintos, e em minha mente coloquei-o na cobertura e imaginei-o na cozinha, imagens apenas, nas quais eu outrora acreditava como uma realidade – Você me disse que vai trabalhar amanhã… Podemos nos ver à noite?
– Eu não sei a que horas volto – soou como uma desculpa e uma recusa, e justifiquei-me – Vou mais tarde para o escritório do que pretendia, porque tenho uma missa de sétimo dia no meio da manhã.
Não esperava pela pergunta seguinte.
– Para quem é, a missa?
– O filho de uma amiga.
– O que aconteceu com ele?
Surpreso com o interesse de Theo, contei-lhe a história, que era grosseira e grotesca: parado na fila para entrar numa boate, Gustavo tinha levado três tiros ao ser pego no meio de uma briga com a qual nada tinha a ver. Seguiu-se o silêncio do meu jovem amigo, e nele ouvi o meu próprio coração, batendo sob o livro fechado, Todos os belos cavalos descansando sobre o meu peito. E como parecesse depender de mim interromper o silêncio, e imaginando que Theo não daria nenhuma seqüência àquele assunto de missa, perguntei:
– Você não precisa responder, se não quiser… Mas eu queria saber o que é que você leu no livro do Cormac McCarthy… É só curiosidade, não tem importância…
– Tudo bem. Você está com o livro?
– Sim.
– Página 206. No alto.
Fiquei impressionado de que ele ainda se lembrasse. Era o trecho que eu já tinha identificado, lendo por alto os parágrafos, procurando por alguma coisa que se parecesse com o que a avó dele dizia. Não fiz comentário algum, só voltei a perguntar:
– E o que mais? – tinham sido dois trechos, na minha cozinha.
– Página 255. Bem embaixo. As três últimas linhas – depois iria descobrir que memória era um dos dons privilegiados do menino, combinada a muita atenção e concentração – Se você puder reler este trecho para mim… – Theo tornara-se sério, soava solene.
…disse que era bom que Deus escondesse as verdades da vida dos garotos quando começavam a vida senão eles não teriam coragem sequer de começar.
De novo, não havia o que eu pudesse comentar, devendo permanecer voyeur dos sentimentos secretos do rapaz, mas finalmente compreendendo o teor dos comentários dele sobre o livro. Que era todo tão maravilhosamente intenso, tão continuamente tenso, que por isso mesmo intensidade e tensão se diluíam para quem o lia por inteiro. Mas algumas frases pinçadas ao acaso pareciam assim letais, agudas, lancinantes, e assim haviam machucado um Theo desavisado. Retornamos ao silêncio, e às nossas respirações audíveis aqui e lá e lá e aqui, a minha e a dele, a dele e a minha, só interrompidas quando:
– Posso ir com você?
– Aonde? – mas eu já sabia, pelo menos intuíra, que esse pedido viria, e não me surpreendia. Quando Theo me contara de sua breve passagem pelo spa do Osho, algumas horas atrás, eu pensara rapidamente em Gustavo, em como o sonho de um podia perfeitamente ser o pesadelo de outro — Gustavo almejava um dia visitar o spa em Pune. Não mais, nunca.
– À missa, amanhã. Posso?
Pensei que não havia razão plausível para ele querer ir à missa de sétimo dia do Gustavo comigo, ao menos eu não conseguia pensar em nenhuma, e portanto deveria haver alguma. Batendo os olhos novamente nos belos cavalos à minha frente, apareceu-me uma razão plausível — a de que Theo significava Deus. A rose is not a rose, therefore it is a rose, ensinava meu mestre — uma flor não é uma flor, e portanto pode ser uma flor, sussurrou assertiva a flor à minha cabeceira, denominada magnólia.
If it rains everyday… Will you sink? Will you swim? Will you sink? Will you swim? Will you sing like a bird in jail? A ligação para Lissa caiu na secretária eletrônica, e apesar de saber que o bip agudo do aparelho soaria torturante para a sua enxaqueca, comovido como estava com o desaparecimento súbito de Gustavo, deixei um recado breve sobre me atrasar amanhã para o escritório; tenho uma missa de sétimo dia; você não conhecia; não é família; eu ligo de novo; beijo; te amo; obrigado; por tudo; sempre. How can the knower be known?


