Você sofrerá, não por causa de suas próprias preocupações e temores,

mas por causa de seu amor por todos os seres.

Thich Nhat Hanh

Leia O diário dos dias extraordinários completo:

Trecho I – Just an ordinary day

Trecho II – If I let you in, I’ll never let you out

Trecho III – Tea for two

Trecho IV – Last flowers

Trecho V – Als das Kind Kind war

Trecho VI – Where do you start?

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Um amigo cheio de paciência leu todos os trechos até agora e me alerta de que, se eu quero tornar Oddde mais interessante, podia por exemplo ter prolongado o suspense sobre Theo ser ou não garoto de programa. Afinal, ele aparece e desaparece dentro do prédio, e com persistência persegue este narrador, tentando enquadra-lo. Sabe meu endereço, telefone e nome, enquanto dele não sabemos nada. Se eu não descobrisse tão de pronto onde ele mora, com a família, poderia continuar agoniado imaginando se ele vem ao prédio atender algum cliente, ou se mora com alguém no prédio que o sustenta e hospeda. Ou se está só visitando o país, de férias… Tudo seria mistério, tornando-me ansioso. Poderia sentir-me ofendido com essa perseguição por um garoto de programa, e a agonia do narrador seria prolongada de muitas maneiras, despertando mais interesse no leitor, e até uma certa compaixão. Algumas cenas seriam redimensionadas – como, por exemplo, quando o rapaz observa meu apartamento pela primeira vez – estaria avaliando o potencial cliente, e não buscando conhecer ao amigo pelo ambiente… Meu amigável leitor tem razão, daria um romance mais ágil, cheio de reviravoltas – entretanto, eu teria de ter preconceito como ele, e aceitar ou não aceitar um amigo dependendo de seu curriculum vitae. Mas este é um diário de como as coisas aconteceram – E se for isso, Lissa, não muda nada. Eu não deixaria de ser amigo dele – e fui sincero.

Desde que começou a praticar meditação, este narrador tem a impressão de que seu karma se acelerou, as conseqüências de suas ações voltam rapidamente, os resultados aparecem, as coisas lhe são claramente reveladas, e suas dúvidas rapidamente esclarecidas. E nessa fase, não haveria porque a presença de Theo permanecer um mistério ou uma agonia prolongada, a não ser como um recurso literário – e quero lembrar que até este ponto ainda não sabemos a razão de um tão lindo adolescente ocupar seu tempo buscando orientação sobre meditação na companhia de um quase quarentão. Essa trama faria sentido num roteiro e num romance, onde o narrador se veria às voltas com o temor de estar sendo enganado, começaria até a desconfiar da sócia, que o estivesse querendo passar para trás, talvez vingar-se de alguma coisa do passado que ela jamais havia perdoado e ensinar uma boa lição ou humilha-lo da mesma maneira ou faze-lo sentir a mesma dor – eu poderia ter feito algo assim, no passado, em nossa história, sem me dar conta? Assim, todas as notáveis coincidências entre narrador e Theo seriam na verdade os detalhes de um enredo elaborado por ela, e o garoto um bom e belo ator contratado… Da forma como acontece, porém, o grande temor do narrador é não o de estar sendo vítima de um golpe, mas o de estar enganando a si próprio. Este narrador não tem medo do que o aguarda “lá fora”, pois sabe bem que vem de dentro o que quer possa enxergar como uma ameaça “lá fora”. Da miragem participa principalmente o próprio olhar, e a vontade de enxergar realizado o próprio desejo. Então, o narrador olha “para dentro” – da própria mente, que não está dentro nem fora, mas aparentemente sim – para encontrar as razões daquilo que fora o incomoda e oprime.

Tendo chorado antes de dormir, fui acordar com o choro de um bebê, hoje. O choro vinha de baixo, do apartamento de algum vizinho, e era um choro bravo, dolorido, inconformado. Era choro diante da surpresa da dor, da existência da dor, da persistência da dor. Não de cansaço, de tristeza, de desespero, de medo, de comoção, de compaixão – tantas as razões para se chorar. Lembrei-me do Gustavo, e de que ele não iria mais chorar, nunca. Assim, hoje, eu poderia chorar de alegria, chorar para celebrar a vida.

Lissa ligou logo em seguida, antes de me sentar para a meditação. Ao fim do primeiro ano de Literatura, eu havia decidido prestar o vestibular de Arquitetura também – e fora este último o curso que eu cumprira com todos os rigores e expectativas, enquanto o outro tinha levado com certa folga, como se fosse um divertimento, um diletantismo. Lissa e Verena vinham dessa mesma época, dos diferentes cursos – e tão distintas eram que eu jamais conseguira coloca-las juntas, nem tentara. Pensando agora, elas refletiam a minha própria vida… Com Lissa eu perseguira uma carreira profissional, um ideal de beleza, um exuberante estilo de vida, um acúmulo de coisas. Verena, ao contrário, representava um mundo simples e descontraído que eu abandonara – até mesmo a busca espiritual que havíamos compartilhado, mas da qual em algum momento eu abdicara, e ela não. Havia me afastado um pouco de Verena como nunca havia me afastado de Lissa, até hoje — de um e de outro lados de mim mesmo, que haviam recebido minha atenção e empenho de maneiras distintas, permanecido separados e estranhos um ao outro. Parece um pouco maniqueísta, simplista até, mas de repente meus rumos na vida ficam tão claros, assim didaticamente interpretados e colocados em Oddde.

– Você quer que eu te acompanhe à missa? – ofereceu-se Lissa, após algum silêncio, depois de ter ouvido o pouco que eu sabia do que acontecera a Gustavo. Não importa as desavenças pessoais ou desentendimentos profissionais que tivéssemos, que na verdade eram bem poucos, como duas crianças nós não guardávamos rancores nem cultivávamos mágoa – estávamos sempre dispostos a continuar nossa amorosa brincadeira, deixando para trás as disputas. Agradeci, comovido, sem julgar conveniente contar a ela que Theo talvez fosse comigo.

– Vou chegar a tempo para o almoço, ok? – prometi. Era um ritual das sextas, quando temos um cozy day no escritório: não recebemos clientes, vestimo-nos informalmente, e vamos todos almoçar juntos, longamente. É um compromisso, que consta até do código da nossa empresa.

Minha mente é um caos, meu coração um tumulto, e minha vida um turbilhão – deixara de ser um insight, tornava-se uma constante constatação. Mas alguma coisa estava diferente, hoje. Ouvia a barulheira no apartamento acima, dos gêmeos que se preparavam para a escola, e o ruído da cidade em seu afã cotidiano, e nem mesmo a passagem dos helicópteros com sua carga de estressados executivos ensimesmados a caminho de importantíssimos compromissos urgentes… nada me tirava a concentração. Na verdade, naquela manhã todos os barulhos deixavam de ser barulhos para serem simplesmente uma… energia… que eu recebia abertamente e só depois classificava como barulho… mas também como um sinal de que estava vivo… ouvir, o que quer fosse, sem julgar se era agradável ou não, era a cada momento um despertar, a identificação de que eu estava vivo, e do que naquele momento estava acontecendo… o helicóptero, a pulsação do coração, o formigar no tornozelo, tii-tii-til-ti-til… cada coisa, a cada instante, me fazia sentir vivo, e eu me sentia indistintamente agradecido, buzinas, o barulho de meu estômago, uma janela que era aberta ou fechada com estrondo, a agonia esforçada de uma serra elétrica. Em cada coisa que ouvia, ouvia uma única coisa – estou ouvindo, consciente de estar ouvindo, e estou vivo, consciente de estar vivo.

Sentei-me no terraço, para celebrar a boa manhã de sol, depois de mais de 24 horas de chuva. O tecido verde dos bairros arborizados a meus pés pareceu-me mais bonito, o ar mais límpido e leve, a luz mais clara e calma. A cidade rugia, e eu desejava a todos os seres que pudessem se dar conta e desfrutar da felicidade de estarmos vivos, em quaisquer condições — partindo um mamão que me pareceu milagroso, generoso e delicioso antes mesmo de comê-lo. Talvez tenha sido o negror úmido das sementes desperdiçadas, à medida que eu as removia para o canto do prato, talvez tenha sido a generosidade emanando delas, a doação sem escolha, que me fez chorar de alegria… e de gratidão… e ao primeiro bocado experimentei o sol no mamão, e a mão que o havia plantado e tratado e colhido e vendido e transportado… Maria, João, Ernesto, Carolina – a todos eu estava grato, por proporcionarem aquela fruta no meu prato. E a tantos outros eu estava grato, por proporcionarem tantos outros alimentos em tantos outros pratos, inclusive os de… Carolina, Ernesto, João, Maria, a quem eu agora ingeria. Olhei a cidade atarefada, e fiquei grato por todas aquelas pessoas dividindo-a e construindo-a – ou destruindo-a –comigo. Quem ia querer viver, ou poderia, numa cidade fantasma, ou isolado? Sorrindo, agradeci aos gêmeos por serem meus vizinhos, ainda que barulhentos. Graças a eles, a seus pais, a todos os meus vizinhos, meu prédio continuava habitável, bem cuidado — na verdade impecável, graças ao Cirilo. E à esposa do Cirilo, a Norma, doce e delicada, que o amava e o auxiliava em todos os áridos assuntos do condomínio. Quem iria querer viver num prédio abandonado, em ruínas, isolado? Gratidão, gratidão, e eu chorava, chorava tranquilamente, de alegria diante do mamão que já não se diferenciava de mim, goela abaixo – e pensei que estava na hora de aprender o nome dos gêmeos, para poder agradecer a eles também por minha boa vida.

– Por que você está chorando, querido? – lembrei-me de um longínquo café-da-manhã na praia, em que Gustavo chorara diante do prato vazio, um chorinho silencioso, contido. A fruta que tínhamos era, justamente, mamão, que ele não comia – Ninguém está te obrigando a comer, lindo – com um amor imensurável Verena falava com ele, que teria cinco ou seis anos, e eu me sentia privilegiado por poder às vezes participar daquela pequena família. Mas o menino não parava de chorar, e parecia profundamente magoado, até que finalmente revelou – É que eu queria gostar de mamão como todo mundo nessa mesa! Só eu não gosto…

Enquanto me vestia, pedi a Mr. Shuffle para me surpreender… Uma única chance, uma única canção: Bring me to a place… To a place that I love… Bring me to a town… To a town that I know… Where the blue sky calls me… Blue sky calls me home… Home – era uma das canções em valsa do Perry Blake, com versos solares e um certo ar de Riveira no verão, e deu-me vontade de dançar, cantando em coro, para celebrar estar vivo, e que podia comer mamão, e passaria a comer mamão sempre por você, Gustavo — Sing me a lullaby… That will keep me from harm… And in that lullaby… May I always find calm… There’s a blue sky calling… Blue sky calling me home… Home…. Home…. Home – coloquei para repetir, linda e leve, a breve canção de menos de 3 minutos, e seus nostálgicos chiados de LP ao fim da faixa, para que durasse 18, 21…

Footsteps in the Sand

Durante toda a manhã, a um canto dos meus pensamentos, esteve a dúvida: Theo viria ou não? Estava feliz em ter a companhia dele, mas não podia encontrar uma razão para que ele realmente desejasse ir. O oferecimento podia ter sido um arroubo de juventude, “fogo de palha”como dizia a minha mãe, mas de verdade… por quê? Qual teria sido a fagulha? Uma missa de sétimo dia. Fazer-me companhia não me parecia plausível… mas também, o que seria plausível, no nosso encontro? Praticar meditação, partilhar uma cerimônia do chá, o interesse comum por um mestre zen? Da forma como me lembrava, ele havia silenciado e ponderado, antes de pedir para ir junto. Mesmo assim havia combinado com ele que, se não acordasse a tempo, eu sairia pontualmente, e iria sozinho, sem problema. Como poderia haver alguma diferença entre nossos relógios, esperei ainda dez minutos mais, e então certo de que ele não viria, e um pouco decepcionado, encontrei-o — parado no meio do vestíbulo.

Abraçou-me assim que sai, como se dissesse bom dia.

– Obrigado por me esperar – pela expressão travessa no rosto dele, tive de pensar se teria sido um teste, os dez minutos de lambuja que eu havia dado.

– Você estava me esperando parado aqui?

– Acabei de chegar – e contradizendo-se, pois eu havia desligado a música há pelo menos uns dois minutos — Você estava ouvindo o quê?

– Perry Blake, conhece?

– Conheço William Blake e Fred Perry, mas não Perry Blake – ele disse, rindo — É o mesmo que você estava escutando ontem?

If I let you in, I’ll never let you out… If I let you in, I’ll never let you out… Blessed are the few who live and die… for love… I can see their footsteps in the sand… If I let you in… Lembrei-me do constrangimento que senti quando ele adentrou meu apartamento sob a melodiosa ameaça do Perry Blake — mas se ele de fato havia notado a canção, como agora confirmava, e em bom Inglês a entendera, e no entanto ainda não fugira…

– Você já leu William Blake? – ele voltava a me surpreender. Por que não me falava de Harry Porter ou Crepúsculo, como os meninos e meninas da sua idade? Platão e William Blake combinados a Playstation o tornavam quase insuportável e impossível.

– Li, na escola. Sei somente aquele trecho óbvio… To see a world in a grain of sand and a heaven in a wild flower, hold infinity in the palm of your hand and eternity in an hour.

Óbvio era, e no entanto, citá-lo de memória não o era.

Libertados do elevador, o dia ensolarado, o táxi que havia chegado, aguardando-nos na rampa não longe do banco onde havíamos nos conhecido, sob a árvore, que indiquei a ele com um aceno.

– Eu me lembro, claro – como se às vezes se desse conta de ser grande demais para a sua idade, muito grande de muitas maneiras, e para qualquer idade, ele tinha uma maneira de encolher o ombro e sorrir timidamente que era encantadora, e que o fazia parecer um menininho.

– É uma jabuticabeira, você percebeu? – esclareci.

– Acho que eu tinha percebido, sem perceber, entende? — Theo sorriu – Se fui escolher logo ali para sentar… para te encontrar…

Endereço, e peço ao motorista que faça o caminho mais bonito, escolhendo as ruas mais arborizadas; dou o nome de algumas. Como eu sempre ligava para algum dos pontos do bairro, o taxista me parecia familiar, e olhou-me como se me reconhecesse diante do pedido, sorrindo. Theo sorriu, também.

– Para celebrar a vida – eu disse, baixinho, justificando-me.

O sol batia sobre a metade do banco onde Theo estava sentado, e o menino parecia brilhar, olhando pela janela, para a paisagem em desfile — e eu o observava como se o bebesse. A roupa de algodão cru, os cabelos loiros, a pele pálida, os verdes olhos líquidos, assim como o ar da manhã parecendo mais límpidos… Tudo nele acolhia e refletia o sol – ele era o próprio sol. E daquela poça de luz, na qual volteavam pequenos grãos de poeira e fragmentos de tecido como um esquadrão plácido de microplumas aladas, emergiu a recordação de um dia no Mediterrâneo… Minha primeira viagem à Grécia, logo depois do término da faculdade… Eu tinha 23 anos. Costumava ir à praia pela manhã, depois almoçava e fazia uma siesta, e de novo voltava à praia… Perto da hora do poente, entrara e ficara ali parado, com a água pela cintura, sentindo o calor do sol no rosto, os olhos fechados por conta do brilho intenso que reverberava… Entreabri-os, e vi o rastro de luz na superfície do mar, criando uma alameda aquática – a qual resolvi percorrer. Atirei-me na água, e passei a nadar no rastro do sol, perseguindo-o. Era um bom nadador à época, tendo treinado assiduamente durante todos os anos das faculdades, embora não no último semestre… E sem grande esforço segui nadando, enquanto o sol esteve acima do horizonte. Nadava na superfície dourada com vigor, e às vezes por longas distâncias deslizando submerso pela vereda de luz, segurando o fôlego que sempre tinha sido prodigioso. Quando o sol tocou o horizonte, passei a nadar submerso somente, e de olhos abertos, como se fosse possível divisar o sol afundando no mar, bem à minha frente… Só quando já estava escurecendo, e começara a ventar, o sol desaparecido e minha brincadeira também, dei-me conta do quanto tinha me afastado da costa. Estivera inebriado, tocado, tomado, talvez a experiência mais forte de êxtase que já havia experimentado até aquela idade. E de repente me via cansado, atordoado, duvidoso, perdido, em alto mar. A água esfriava, rapidamente, e pensei que a qualquer momento poderia ter as costumeiras cãibras, e que talvez eu fosse me afogar… ou deixasse me afogar… pensei em deixar-me afogar, permitindo à corrente levar-me… E a idéia não me assustou. Nereidas, ninfas, Poseidon e outras imagens míticas flutuavam ao meu redor. Ao invés de sair nadando de volta na direção da praia, tranquilamente pus-me a boiar, e descobri as primeiras estrelas surgindo no céu acima… A vastidão de mar e céu repercutiam em mim como uma inundação de paz… Boiando, assisti-as acenderem, e pensei que aquela era uma ocasião maravilhosa de morrer, em silêncio e solidão, irmanado com o universo, tendo perseguido a luz, terminando envolto pelas sombras… Parecia-me poético, uma linda analogia da própria vida… E então ouvi o tuc-tuc de um barco, entrando diretamente através da água em meus ouvidos submersos, e foi o que me arrancou daquele sonho sinistro… Podia morrer, não me importava de morrer, morreria feliz, contente, sentindo-me pleno – aos 23 anos de idade? – mas dava-me conta de não querer morrer, de não desejar morrer… A paz me deixou, era como se o efeito do rastro do sol tivesse passado e eu gritei, gritei, help, hilfe, socorro, help, e me debati, tentando fazer-me ouvir acima do som do motor do barco, que de repente silenciou… ele me ouviu, pensei, e de novo gritei, e me debati na água, espirrando-a para os lados e para o alto…

– O que foi? – apreciei o toque gentil, que no entanto me fez estremecer, e só depois a pergunta sussurrada; Theo olhava-me com seus olhos de mar verde, embora o Mediterrâneo onde eu afogava fosse dum profundo azul retinto, a cabeça inclinada para o lado, lindo, embora o sol já tivesse submergido – Onde você está?

Sorri sem responder, satisfeito por retornar, e por deparar-me com ele, a quem todo o tempo eu continuara olhando, sem enxergar. E de repente, muitos anos depois, compreendi… Escrevera longamente sobre aquele episódio no meu diário, e o intitulara “No rastro do sol”… Agora me dava conta de que, em algum momento e em definitivo, eu o encontrara – o próprio sol, e a tudo o que ele simbolizava. Já não o buscava mais. Encontrava-o numa pêra, no aroma que escapava da padaria e no desenho intricado dos pneus do carro ao lado, na poeira, no lindo olhar dirigido a mim – e lembrei-me das palavras do meu amigo querido, que ainda ontem me contava… do sol em sua piscininha de infância, como do sol no mar da Grécia em minha juventude… por um momento, pensei que talvez pudéssemos ter tido aquela… experiência… ao mesmo tempo, no mesmo dia, eu jovem, ele criancinha, eu no poente grego, ele numa fazenda paulistana, um sob a jabuticabeira, outro sob o firmamento… por que não? O que ele havia compreendido, eu finalmente compreendera também — olhava toda a paisagem ao redor, para cima e para baixo, e o mundo parecia-me um lugar seguro, acolhedor, com o sol brilhando por toda a parte… Dentro de mim, e eu dentro dele completamente, indivisível.

E como se fosse orquestrado, o insight mudando a melodia da paisagem, a direção do trajeto mudou, e agora encontrava-me em pleno sol, mergulhado em brilho e calor, e Theo mirava-me da sombra, retribuindo-me o olhar, e parecendo estar diante de uma revelação.

– O que é? – foi a minha vez de perguntar.

Theo sorriu sem responder, e eu pensei compreender. Talvez como eu, ele se desse conta daquele momento. De estar naquele carro, percorrendo as ruas de São Paulo, na companhia de uma pessoa que ele há bem pouco tempo conhecera, a caminho de uma igreja, para celebrar um mistério… Há apenas dois dias atrás, nenhum de nós seria capaz de imaginar nada disso – a ocasião, a companhia, o rumo. Era estranho, era repentino, era surpreendente, e no entanto, eu me encontrava feliz. And all that wasted time, I just waited for a smile… All my wasted time, and all I needed was a smile… Pelo sorriso dele, diria que meu amigo também.

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Do lado de fora da igreja, estavam pendurados cartazes, alguns com fotos de Gustavo – uma delas, do seu aniversário de 21 anos, ao qual eu tinha comparecido uns poucos dias antes de embarcar para meu ano sabático –, e faixas pela paz. Esperava uma cerimônia tranqüila ou até alegre, como fora Gustavo, como era Verena, ou uma missa corrida e formal, automática, puramente ritual. Como não vejo mais tv ou leio jornal, só ali fiquei sabendo que o caso do Gustavo tivera muita repercussão na mídia, a partir de um texto comovente que havia sido escrito por uma das melhores amigas de Verena, jornalista. O texto tinha ganhado a internet – onde Theo, inclusive, tinha se inteirado dele, eu descobriria depois –, e as fotos de Gusto, como era seu apelido, menino descolado, surfista sarado e sexy, sempre sorridente, haviam colaborado para o sucesso surpreendente e a comoção momentânea. Em meio a grande movimentação, excitação e expectativa para a cerimônia, como se Gustavo fosse alguma celebridade, fui me dando conta de nunca ter estado antes em público com o meu jovem amigo, e incomodava-me a quantidade de olhares que ele recebia – como se a celebridade fosse Theo, afinal, e eu me via no papel de acompanhante que ainda não fora adestrado. Havia muitos jovens na cerimônia, com camisetas pela paz, uniformizados por uma ONG, responsável também pelos cartazes, faixas e panfletos. O colégio onde Verena lecionava, que ficava nas imediações da igreja, comparecera em peso. As turmas da faculdade de Gustavo e da praia, igualmente. Havia algumas figuras conhecidas, vizinhos da vila em que Verena morava e outros amigos, que eu cumprimentava com um aceno de cabeça. E enfim chegou Verena, com escolta familiar, e foi conduzida aos bancos da frente, reservados e isolados com aquelas fitas em preto e amarelo.

Um coral de jovens, bem ensaiado e empolgado, pontuou a missa cantando músicas jovens, das quais identifiquei inicialmente É preciso amar as pessoas… Como se não houvesse amanhã… Por que se você parar… Prá pensar… Na verdade não há… do Legião Urbana. O padre, ciente de ter audiência, saiu-se com um sermão bem ensaiado e empolgado, tornando Gustavo um jovem ideal – o que ele quase era, de fato – sacrificado pela “besta da violência”. Curiosamente, traçou um paralelo entre os jovens gregos sacrificados ao Minotauro, e os de agora, mortos por seus tênis e bicicletas ou celulares e outras coisas bestas, perdidos no labirinto da internet, da oferta de drogas e do sexo fácil, até quando, até quando? Houve uma versão em andamento lento e muito doce de Não me deixe só… eu tenho medo do escuro… tenho medo do inseguro… dos fantasmas da minha voz… – lembrei-me de que com Gustavo não tinha sido diferente; eu mesmo havia aconchegado o menininho trêmulo quando ele tivera medo do monstro embaixo da cama. Não me deixe só… que o meu destino é raro… eu não preciso que seja caro… quero gosto sincero do amor… fique mais, que eu gostei de ter você… não vou mais querer ninguém… agora que sei quem me faz bem… – fora uma das canções preferidas dele, e havia sido editada para comparecer à igreja, bem comportada. Muitos se emocionaram, inclusive eu, e após o sermão e a cantoria senti uma enorme energia movendo-se dentro da igreja, como se ardesse uma fogueira de espíritos, redimindo nossas tormentas, nossos medos, todos os nossos padecimentos. Todo o tempo, sentia a proximidade de Theo, e pelo canto do olho pude perceber que ele estava bastante impressionado com uma tal missa — que nunca teria visto em França, se é que jamais ia à igreja. Por fim demo-nos todos as mãos, mesmo entre os bancos, braços estendendo-se por sobre o corredor central, para frente, para trás, pelos corredores laterais, e juntos rezamos. Sentia Theo apertar minha mão como não sentia a senhora ao meu lado, ele procurou o meu olhar, e quando nos encaramos foi espelhando um sorriso tímido de agradecimento mútuo, nossas faces úmidas.

Formou-se uma longa fila de cumprimentos, e foi só então que divisei Olaf, o ex-marido de Verena, que há anos estava vivendo na África do Sul. Compadeci-me de minha amiga, submetida a toda aquela provação, e sua dor tornada um espetáculo público, como se não bastasse perder o filho – filho único, eu já havia mencionado isso? Ela procurara manter-se sóbria, mas a palavra que mais se ouvia, mesmo à distância, era tia, tia, tia… Dos alunos e ex-alunos dela, dos alunos que não eram dela, dos amigos do filho e dos filhos de amigos – e jovens não tinham a mesma máscara social dos adultos, sendo efusivos e espontâneos e sinceros e expressivos em seus cumprimentos, entregavam poemas, botões de flor, lágrimas e abraços, e tia, tia, tia… Quando me aproximei de Verena, ela chorava lágrimas caudalosas, e soluçava, amparada pela cunhada. Tinham tentado tirá-la dali, ela me contou depois, mas ela decidiu ficar e receber os cumprimentos de todas as pessoas, e passar por aquele ritual tornando-o tão curador quanto fosse possível, para si mesma e para as pessoas percorrendo a fila. Sentiu que aquilo era o oposto de um paredão de fuzilamento – era um paredão de redenção. Sentiu que era necessário, importante para toda a comunidade, importante na história do mundo, da humanidade, então decidiu cumprir seu papel de depositária das condolências, de inspirar piedade e compaixão e todos os sentimentos bons que as pessoas pudessem desenvolver por ela… E como sabia ser boa anfitriã, só pedia que todos chorassem sinceramente todas as suas dores, que eram sempre tantas, amparando-se uns nos outros, redimidos sob os olhares torturados dos santos pendurados pelos nichos.

Não fui capaz de dizer muita coisa, mas nosso abraço foi intenso.

– Eu te amo. E estou aqui para você, para o que você precisar.

Ela fitou-me com uma expressão vazia, como se seu olhar viesse de muito fundo, ou mesmo não alcançasse, não chegasse até a superfície, e então uma centelha de reconhecimento brilhou – depois me contaria do enorme esforço de reconhecer as pessoas, entre tantas desconhecidas, e de falar com elas, todas, de responder, pois a dor era tão avassaladora e soberana que a pouca sanidade que persistia nela tinha ido se esconder lá dentro, bem fundo, e tinha se perdido, eximindo-se de qualquer contato exterior.

– Que bom ver você… saber que você voltou. É, eu preciso de você…

Theo vinha depois de mim, e notei a maneira como o olhar de minha amiga acompanhou minha mão, com a qual tinha tocado o rosto dela, afastando-se vagarosamente em direção ao ombro de Theo, onde a pousei, conduzindo-o com suavidade na direção de Verena. Como se tudo acontecesse em câmera lenta, quadro a quadro, dando-nos tempo de notar, absorver, viver – e nos unindo, aos três. Um amigo, eu falei, e ela o olhou como se estivesse diante de uma visão, de uma revelação – vi Verena, baixinha, tornada um pouco redonda durante minha ausência, surpresa e maravilhada enquanto observava a descida de um Theo muito belo sobre ela, que a abraçou longamente – ou mais longamente do que eu esperava, enquanto me adiantava pelo restante do paredão de cumprimentos.

O andar da fila interrompeu-se por um momento, enquanto Theo e Verena se conheciam, ou reconheciam, no abraço – depois ela iria dizer que nós dois tínhamos aberto um “buraco cósmico” de paz e aconchego para ela, naquela seqüência de constrangimento, tormento e sofrimento. Quando se separaram, ouvi-a perguntar se ele fora amigo do Gustavo, e ele me indicou dizendo não, vim com o seu amigo. Verena o abraçou novamente, beijando-o, e vi Theo sussurrar em seu ouvido, e minha amiga assentir.

Na saída da igreja havia um abaixo-assinado propondo a instalação de comitês pela paz em diversas instâncias dos três poderes, e já do lado de fora Theo aproximou-se de uma menina que distribuía panfletos da ONG pela paz, começando a conversar com ela. Desci até a calçada em busca de um táxi – a cerimônia havia sido bem mais longa do que eu imaginara, e agora começava a ficar inquieto, já atrasado para o almoço. Era uma rua lateral de pouco tráfego, cogitava caminhar até a avenida, e quando virei para chamar Theo, vi mais três meninas junto da primeira, todas olhando mesmerizadas o meu amigo. Ri. E se por ciúmes ou curiosidade, outros dois rapazes vieram engrossar a audiência uniformizada de Theo – embora ele estivesse quieto, apenas perguntando sobre as atividades da ONG e ouvindo com atenção dedicada as respostas. A meu lado, ouvi uma menina olhando na direção dele perguntar se não era aquele ator que tinha feito uma participação num episódio de Crepúsculo, e outra animando-se a pedirem autógrafo… Finalmente um táxi, e quando me voltei para chama-lo, vi que ele estava me olhando e sorrindo, enquanto outra menina do grupo falava com ele – e com seu olhar parecia dizer algo como… não perco você de vista.

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Horário de almoço, muito trânsito, então combinamos que iríamos primeiro para o escritório, e depois Theo seguiria para o apartamento, com o mesmo táxi. Permanecíamos silenciosos. Eu precisava digerir toda aquela inesperada catarse, mas sentia-me ansioso por fazer as pessoas da equipe esperarem por mim, e assim não encontrava paz, nem espaço para cultivar a paz. De repente, e muito levemente, Theo tocou a minha mão. Olhei-o inquisitivamente, mas ele não levantou o olhar, os olhos verdes luminosos pousados sobre a minha mão. Uma leve carícia provocou-me um arrepio insurrecto, repercutindo desejos inconvenientes por todo o meu corpo. Virei a palma para cima, e então entrelaçamos os dedos, sem ensaio nem erro, sem ânsia nem dúvida. Aquilo interrompeu o fluxo dos meus pensamentos, como um sino da plena consciência, devolvendo-me ao momento presente e à companhia do meu amigo. Ainda havia sol, começara a ventar, as nuvens a se juntar. Continuamos sem palavras, imóveis, as mãos dadas pousadas no espaço do banco entre nós, o couro falso, os pêlos loiros, gratidão, união. Theo olhava pela janela, absorto em pensamentos ou talvez como eu, tentando digerir e refazer-se, os prédios altos, os carros refletindo paisagens distorcidas em suas superfícies metalizadas, um avião rugindo baixo, nossas mãos começando a suar. O pensamento recorrente, no entanto, era de que eu devia avisar no escritório, mas tinha feito a opção por não ter celular, então porque pedir o do meu amigo se… De repente, o celular de Theo tocou. Ele pediu licença e aquela bonança mágica acabou — desatamos as mãos. Mas foi só por um instante. Quando ele sacou o telefone do bolso lateral da calça, voltou a segurar minha mão. Quando a pessoa do outro lado identificou-se, ele riu, riu muito, como se tivesse ouvido a coisa mais engraçada, como se fosse agora a pessoa mais feliz do mundo. Pude ouvir alguém rir do outro lado também, e até o motorista assistiu-o pelo retrovisor. E Theo passou a falar em italiano, a voz tornada mais doce, verdadeiramente alegre, como eu ainda não tinha ouvido. Depois de algum tempo pediu licença ao outro lado, virou-se para mim e informou, é a Fedora, ligando de Milão. Assenti e sorri, agradecido, comovido por sua atenção — quem quer que seja, pensei, te faz feliz, e isso é bom. Tão bom quanto as nossas mãos unidas, a pulsação distinta de nossos corações, unidos.

A conversa entre eles foi longa, e desliguei-me dela, depois de ter contabilizado ser aquele o quarto idioma que ouvia Theo falar, com fluência. Aproveitei o espaço aberto pela parcial ausência do meu amigo para acalmar-me. Minha escolha feita, o que não tem remédio, remediado está. O trânsito estava péssimo, e a não ser que pedisse emprestado o celular do motorista… Acalmei-me, aceitando a situação – e em seguida o trânsito melhorou, como se um “buraco cósmico” tivesse se aberto, para usar uma das expressões preferidas da Verena. Aproximamo-nos do escritório, e dei instruções ao taxista de como chegar, por conta da feira livre no início da rua. Theo percebeu e pediu a Fedora para interromper a ligação, dizendo que estava com um amigo e queria conversar com ele, desligando depois de mais risos.

– Estamos chegando – confirmei, e apertamos nossas mãos ainda uma última vez, antes de as desatarmos.

Quando o vi descer do carro pensei — será que vai querer conhecer o escritório? — e convidei-o — mas não, ele queria ir para casa, e ver-me mais tarde, se tudo bem. E dessa vez, passou-me seu número de celular — se te der vontade de falar comigo – como se dissesse, agora depende de você também.

– Podemos nos ver mais tarde, talvez à noite, se você não estiver muito cansado do trabalho?

– Claro que sim, mesmo se eu estiver cansado – ri, e o vi enrubescer. Ou se você não arranjar programa melhor, pensei, numa sexta-feira à noite — Eu ligo para você.

Abraçamo-nos, e naquele abraço eu compreendi que não estava mais sozinho – assim eu me sentia, desde que voltara ao Brasil. Simplesmente não havia encontrado vontade de reencontrar a maioria das pessoas a quem chamava de amigos, e que não via há pelo menos um ano – Verena e Gustavo, inclusive. Só agora com Theo eu parecia reencontrar o afeto e a sinceridade, a constância e a irmandade que tinha experimentado no mosteiro. Sentia-me nu em meio a pessoas envergando armaduras, em todos os lugares a que ia em São Paulo, desde que retornara. Descalço, quando todos que me convidavam para dançar usavam coturnos. Somente com Theo reencontrara aquele sentimento de cuidado e gentileza no relacionamento, que nos permitia ficar nus sem medo, um diante do outro. Foi o que entendi, naquele abraço duradouro, tive certeza de que era o que ele queria me dizer abraçando-me tão longamente, tão determinado, tão carinhosamente – de que ele se sentia assim também, aconchegado, encontrado, reconhecido — e então, ouvi vozes familiares às minhas costas.

Deparei-me com toda a equipe do escritório de saída para o almoço, fazendo um semi-circulo diante da porta como se estivessem num anfiteatro — assistindo o meu abraço – e as vozes esmoreceram, quando os encarei, e enquanto enrubescia percebi que na verdade a maioria prestava atenção em Theo, e não em mim. Lissa adiantou-se do grupo, radiante e afetada, uma nuvem vermelha de perfume e intenções.

– Você trouxe o Theo para almoçar conosco? Que surpresa boa!

Sexta-feira era o dia em que estimulávamos os funcionários a convidarem alguém da família, amigo, namorado, namorada, para almoçar conosco. O taxista, ouvindo o convite de Lissa e vendo a conversa estender-se, perguntou em voz alta se continuava esperando ou não. Foi o suficiente para o semi-circulo da audiência romper-se, enquanto Theo e eu nos dávamos conta de que estávamos de novo de mãos dadas, como duas crianças assustadas diante dos portões da escola no primeiro dia de aula — diante de um paredão de franca perplexidade e discreta bisbilhotice. Um momento de confusão, de ânsia, um pouco de pressão, atores mal ensaiados, uma comédia sem graça, platéia indócil – e a tudo isso Theo reagiu com muita calma, dizendo que não, quero voltar para casa.

06- coração em chamas facet overlay

Durante o almoço, já esperava pelo questionário de Lissa:

– Ele foi com você à missa?

– Sim – respondi, simplesmente, garfando sem interesse um aspargo desmaiado.

– Ele… vocês dormiram juntos?

– Não – o ciúme e possessividade de Lissa me deixavam indiferente.

– Quando você o convidou para ir à missa com você? – Lissa competia e calculava com relação a sua própria oferta, que eu declinara.

– Não o convidei. Ele me pediu para ir junto.

– Espero que você saiba o que está fazendo… esse menino pode ser um psicopata social…

– Você está assistindo filmes demais, Lissa…

– E você, está assistindo filmes de menos! – ela vociferou. Era outra crítica a esta etapa de vida em que eu recusava inclusive ir ao cinema, um de nossos programas preferidos ao longo de todos aqueles anos, que em parte eu justificava por não querer expor-me a um excesso de emoção quando mal dava contar de cuidar das minhas, como havia percebido com a meditação, mas em grande parte por não suportar a nova etapa dos cinemas paulistanos, que haviam se tornado franquias de máquinas de pipoca e refrigerantes, estimulando monstruosos chupadores de canudinho a chafurdarem em baldões exalando odor gordurento… e Lissa não podia se conformar de eu desistir de ir ao cinema. Talvez ela tivesse razão.

Ouvi um barulho estranho, um estrondo tremendo. Alguma coisa caindo, e essa coisa se partindo, rompendo-se, quebrando-se em centenas de pedaços. Dentro de mim — fora de mim, a sirene de uma ambulância fazia-se ouvir no início da rua, do outro lado da feira livre, e depois se distanciou. Foi uma queda longa, vagarosa, mais como a implosão de um prédio vista em câmera lenta. Uma implosão noturna, sem luz para enxergar, e ninguém para assistir. A ambulância deve ter feito um desvio, contornando a feira, e voltava a gritar na rua, aproximando-se de nossa calçada. Ouvia-a às minhas costas, enquanto observava como transeuntes e pessoas do nosso grupo já se viravam para assistir à passagem pressurosa do carro branco. Não foi uma destruição súbita, mas em partes, em etapas… Como se uma estátua fosse caindo ao chão, não inteira, já trincada e quebrada, membro a membro, ainda relutando em perde-los, e cada fragmento ao atingir o solo se quebrava em infinitas partes menores… Quando percebi a ambulância logo atrás de mim e esperava vê-la passar em alta velocidade, ela fez uma curva virando na rua que acabávamos de atravessar, e seguiu veloz carregando seu gemido e a carga que eu só podia imaginar para outra parte do bairro, da cidade. Dentro de mim, a quebradeira continuava, no escuro, e eu não sabia o que era que se rompia e estilhaçava. Só podia sentir, mas não enxergar, a destruição em meio à escuridão.

Confesso que não tenho vontade de escrever sobre a tarde de trabalho – cálculos e custos, cores e suas combinações, materiais, ventos, insolação – no planeta de onde eu vinha, nada disso tinha substância, nenhuma importância – e em poucas linhas posso descartar muitas horas. Talvez quem me lê diga – Graças a Deus, ele bem podia fazer isso mais vezes! Ao menos, sexta era nosso dia de sairmos mais cedo, e pontualmente, todos. Ninguém ficava para trás, ninguém fazia hora extra – não de sexta – embora eu já houvesse saído do escritório como os outros, para em segredo voltar mais tarde, e algumas vezes encontrara Lissa, que também tinha retornado e se debruçava sobre algum projeto, obsessivos e obstinados os dois. Quando a equipe começou a se arrumar, liguei no celular do Theo.

– Estou na casa do Joshua.

The Playstation master?

Theo riu. Disse a ele que já estava de saída para casa.

– Não esperava tão cedo. Acabei de chegar aqui…. Acho que eu chego mais tarde, tá bom?

– Claro.

– Está tudo bem?

– Acho que sim. Por que não estaria?

– Está tudo bem, com você? – a pergunta dele tinha intensidade, como que para soar verdadeira. O interesse dele me comovia. Era sempre um milagre, uma nova amizade.

– Eu não sei. Aconteceu alguma coisa. Talvez eu esteja me dando conta só agora… do Gustavo… É, o Gustavo. E a Verena. Algumas vezes eu me senti pai dele, na ausência do Olaf… – lembrei-me de ser acusado de paternalista e indulgente, repetidas vezes, especialmente no ambiente profissional, e mesmo em minhas amizades — Podia tê-lo visto, ainda, se tivesse ligado pra Verena nestas semanas em que estive no Brasil – sentia culpa; de repente visualizei Joshua sentado ao lado de Theo, esperando para recomeçar o jogo — Eu não sei dizer o que é, ainda. Não importa. Nós nos vemos mais tarde, talvez?

– Importa muito, e você sabe. Você vai ficar bem?

– Talvez não. Mas eu dou conta disso também.

– Eu sei. Estamos acordados, para mais tarde. Não se perca do sol, tá bom?

Pesquisei, no escuro, acendendo a lanterna da plena consciência, como havia aprendido lá no mosteiro. Era difícil fazer isso na companhia dos outros, no meio dos carros excitados e agressivos, avançando o sinal vermelho e parando sobre a faixa de pedestres, em meio ao trânsito ruidoso, nervoso, o taxista contrariado. Construir alguma ordem em meio ao caos. Mas era necessário, ao menos tentar. Inspirando e expirando como âncora, como bóia e plataforma a partir da qual explorava um tremendo e tempestuoso mar interior – não era assim que se referiam ao Mediterrâneo, também? Cacos e outros estilhaços ricocheteavam, alguns deles alcançavam a superfície, ajudando-me a reconhecer minhas emoções, os sentimentos. Como bolhas, os cacos emergiam, e eu no meio deles, boiando numa balsa de fragmentos. Call me by my true names, pedia-me o mestre. Era um exercício de sanidade, entrar em contato com cada sentimento, sensação, pensamento que passava por mim. Em outros tempos, teria ido ao cinema, feito qualquer coisa com Lissa para distrair-me. Ligar para um amigo, combinar um jantar, descobrir a melhor festa da noite – sempre havia festas na cidade. E levar alguém pra cama, ou assistir pornografia. Agora, preferia ir para casa, simplesmente, e dar conta de mim mesmo – conta e cabo de mim mesmo, pensei? … Will you sink? Will you swim? Will you sink? Will you swim? Will you sing like a bird in jail? O trajeto era longo, o trânsito estava moroso, e eu tinha a opção de ficar silencioso, e praticar.

Rick Gunn-Fire2

Em casa, os gêmeos estavam jogando basquete, a quadra estendida sobre a minha cabeça – ou dentro dela. Pensei em Sísifo, amigão e companheiro, excelente exemplo. A mesma pedra – um novo caminho, era o título de um livro que havia lido. Poderia dizer O mesmo caminho, uma nova pedra – em minha mente. Não havia paz estabelecida, permanente. Permanente só a construção. A destruição. A desconstrução. A reconstrução. Permanente, só a impermanência. O telefone estava tocando, Theo para avisar que tinha chegado, vim de bicicleta, vou tomar um banho e desço.

– Ou você prefere ficar sozinho?

Ou você preferi ir pra balada, pensei em retrucar.

– Não, eu preciso de um amigo, hoje – e senti que devia ser ainda mais específico – E se puder ser… você, Theo.

– Desço daqui a pouco.

Não há caminho para a paz, a paz é o caminho, disse alguém, e o mestre costumava repetir. Então preferi caminhar pelo apartamento, em meditação, ao invés de sentar-me, pois para isso iria escolher o último quarto, o mais distante do tum-tum-tum, dos tênis, das patinhas do cachorro, escondendo-me. Tentei caminhar e focar a atenção nos meus passos e na respiração, mas havia uma angústia crescente. Talvez os gêmeos estivessem me indicando que, o que quer estivesse desmoronando, caia dentro tanto quanto sobre mim, e a sensação era opressiva. Precisei lançar mão do refrão aprendido no mosteiro — Peace para um passo, is para outro passo, every para outro ainda, e step para mais um passo, e recomeçando, Peace is every step… Poderia dizer Paz a cada passo, mas minha estadia no mosteiro me familiarizara com as práticas em Inglês. Aquilo trazia-me concentração, ao menos, e a sensação de estar reunindo-me à sangha, a inúmeras pessoas que praticavam a paz pelo mundo, naquele mesmo instante.

Mas apesar de eu tentar me acalmar, praticando, cultivando paz, Peace is every step, estava ainda atormentado quando abri a porta para Theo. Imagino o olhar que lancei a ele, que me abraçou imediatamente, e me segurou, sob o umbral da porta, aconchegando-me, confortando-me. Eu era mais velho, devia ser mais experiente, mas ele era tão maior do que eu!

– O que acontece?

– Não sei. Não sei dizer. Ainda não sei.

– Você está… muito… angustiado… e contrariado.

– Em parte, é isso – quando nos separamos do abraço, apontei para o barulho que vinha do andar de cima – Todas as vezes que os pais saem de casa, os meninos começam a jogar.

– Ontem também tinha esse barulho — ele havia notado – e você não estava assim.

Sorri, triste.

– É parte da minha prática cotidiana de cultivar a paciência e a paz. Mas às vezes eu me canso, quero desistir – afastei-me da porta, para que ele pudesse entrar — Vamos ter de ficar na cozinha, ou no escritório. E depois sair de lá também, pois fica sob o quarto dos gêmeos, onde recomeça a barulhada quando o jogo acaba.

Theo descendeu sobre mim, me alcançando e puxando-me em direção a ele, abraçando-me de novo, sob o umbral, saindo um pouco do apartamento, quando cambaleei.

– Eu acho que você é um excelente praticante… Mas se você quiser pular a prática hoje… Podemos subir para o meu apartamento. Que tal? Só tem nuvens e estrelas acima dele. Não vai ter ninguém nas nossas cabeças… ou tantas pessoas quanto pudermos carregar, e deixarmos entrar, nas nossas mentes – ele riu, batendo com uma mão à cabeça e sacudindo-a, como se estivesse tentando se livrar de alguma coisa lá dentro que o incomodava — Quer? – fazia gracinha e careta como um menino, o deus adolescente.

Por muitas razões, era o que eu mais desejava.

– Só… Estou com fome, quero comer alguma coisa antes.

– Tem comida na minha casa, e eu sei até cozinhar! – ele riu novamente, estava alegre, exuberante, um verdadeiro antídoto para o meu estado — Vamos subir?

Apaguei a Nebula e abandonei os gêmeos no apartamento às escuras, e ainda pensei – só Castor e Polux, lá em cima. Se, na civilização contemporânea, ainda não tiverem se metamorfoseado em um par de helicópteros voando nalguma parte…

you say…

it must hurt…

I know…

and it does.

I’m running away, I’m running away…

Leia o Trecho VIII – In the Upper Room

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