Trecho X – Travelling
setembro 25, 2009
Vamos em frente, com um movimento tão enfadonho,
tão sonolento que parece que nem prosseguimos,
como se o tempo e não o espaço diminuísse entre nós e [...].
William Faulkner
Leia O diário dos dias extraordinários completo:
Trecho I – Just an ordinary day
Trecho II – If I let you in, I’ll never let you out
Trecho V – Als das Kind Kind war
Trecho VI – Where do you start?
Trecho VII – Will you sink, will you swim?
Trecho VIII – In the Upper Room
Trecho IX – From Gagarin’s point of view
O sol ia alto quando acordei, e o dia abafado prenunciava chuva, ou assim imaginei. Ergui o blackout para ofuscar-me, e de um tranco e em definitivo acordar. Depois do banheiro, e de ter quase esvaziado a moringa d’água, voltei à cama, dobrei o travesseiro e sentei-me sobre ele como um zafu, voltando-me na direção da cabeceira e da parede, decidido a meditar antes de qualquer outra coisa. Viver sem meditar era como não viver, viver distraidamente, viver incidentalmente – e isso eu não podia mais suportar, pois era como a cada dia me acidentar, ao invés de viver. E ter atravessado a manhã dormindo era como ter perdido alguma coisa; invadiu-me um senso de urgência para com a prática, tornado ainda mais agudo quando tomei o papelzinho plastificado que mantinha na PK91, minha improvisada mesa de cabeceira da qual a magnólia de Lissa observava-me, entre ameaçadora e impassível, e como fazia todas as manhãs, li As Cinco Lembranças:
Eu tenho a natureza do envelhecer.
Não há meio de escapar do envelhecimento.
Eu tenho a natureza do adoecer.
Não há meio de escapar da doença.
Eu tenho a natureza do morrer.
Não há meio de escapar da morte.
Todas as coisas que me são queridas e que amo têm a natureza da mudança.
Não há meio de evitar de separar-me delas.
Herdo o resultado das minhas ações, palavras e pensamentos.
Minhas ações formam o terreno no qual eu me mantenho de pé.
Pensei em Gustavo ido, baleado, surpreso morrendo, pensei em Verena, atônita ao receber a notícia, morto, sofrendo. Velório, a vida, a companhia e a cumplicidade entre eles, cessando. Abandonei essas imagens, e deixei as palavras penetrarem mais fundo em mim, assim como a terra recebendo a chuva. Inspirando, eu sei que estou inspirando; expirando, eu sei que estou expirando. E à medida que foram decantando, a voz interna com a qual eu me identificava, na qual volteavam meus pensamentos, silenciando, absorvida num vórtice de espaço, voltei-me à minha respiração. Inspirando, consciente da minha inspiração do começo ao fim; expirando, consciente da minha expiração do começo ao fim. Ouvi o telefone tocar, e alguns segundos depois minha mente viajava para longe do meu corpo, cogitando quem seria, se Theo, se Lissa, se… Pensamento, identifiquei, e convidei-os todos a se retirar, voltando-me à minha respiração, reunindo mente e corpo. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Um som levemente familiar e incômodo, e senti meu coração inchar, prenunciando alguma emoção forte. Sai da cama e do quarto, tomei o elevador da mente e subi para o apartamento acima — antes mesmo de aclarar a emoção incômoda que o ruído despertava em mim, identifiquei os tamancos da avó dos gêmeos, que costumava ficar hospedada no quarto acima. Rodinhas rolando? Imaginei a mala em movimento, o baque surdo ao parar. Má notícia para mim, a chegada dela. Os tamanquinhos vão ficar passeando na minha cabeça… Por quanto tempo? Como um fantasma agourento, vi-me no canto de um quarto de hóspedes no qual nunca havia estado, ressentido observando com raiva os meninos aos pulos, sem conseguir participar da alegria deles com a vinda da avó. A presença do cachorro eu criei a partir das patinhas. Algazarra, e ao meu sofrimento e indignação sobrepôs-se a idéia de que na companhia de Theo os gêmeos poderiam sempre se tornar estrelas. Na cobertura, Castor e Pólux só me ameaçavam na forma de helicópteros, se… Só depois de muito tempo sendo seduzido por minha voz interna, pela sereia dos meus pensamentos, identifiquei minha viagem. Pensamento. Sorri para mim mesmo, e para a imaginada multidão. Tamancos, avó, os gêmeos, o cachorro, a mala, as rodinhas, um quarto, a cobertura, Theo, Castor e Pólux, helicópteros… Gentilmente, convidei-os todos a se retirar, a sumirem no vórtice de espaço que a concentração criava. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. E ao final, a conclusão foi a mesma dos outros dias — Minha mente é um caos, meu coração um tumulto, e minha vida um turbilhão.
Ao chegar em casa naquela manhã, tinha escrito um bilhete de bom dia para Donita, pedindo a ela que atendesse o telefone e anotasse os recados. Enquanto dizia-me que Lissa, Verena e Aquiles haviam ligado, entregou-me um pacotinho.
– Foi um moço muito lindo como um ator de filme quem trouxe mas ele não quis dizer o nome só ficou sorrindo assim pra mim – será que ele acordou mais cedo do que eu, pensei, envergonhado, e no mesmo instante abri para descobrir o pen drive em formato de um pingüim usando cachecol. Será que ele está querendo dizer que eu sou friorento? Enquanto ainda sorria para a lembrança da noite anterior, na verdade daquela madrugada e manhã, Donita disparou num discurso doido que eu demorei a decifrar, como se fosse uma figura fora de foco, um som cheio de chiados – o filho adolescente tinha engravidado uma moça uma mais velha mas ninguém sabia ela só dizia que tava grávida mas não sabia a moça era comprometida noiva de um outro mais velho que trabalhava em outra cidade iam casar então ele precisava trabalhar e do dinheiro para construir então eles nunca se viam e era mentira que o filho dela tinha engravidado a moça que era sem vergonha e não prestava e era descrente então só por isso tinha seduzido um menino mais novo para folgar quando o namorado estava longe mas agora o pai dela quer matar ele então era tudo mentira mas o meu filho acreditou era a primeira a deixar ele pegar e ontem ele roubou uma moto e se jogou contra um poste mas só arrebentou a moto então não aconteceu nada com ele mas ele tentou um menino na idade dele não pensa em morrer e então a gente tem de pagar a moto e agora a polícia…
Talvez fosse a fome, talvez fosse o contraste com o lugar de onde eu vinha — uma ilha de silêncio e contemplação, que eu tinha criado com a meditação –, senti-me atordoado com o discurso de Donita, no qual precisei prestar muita atenção, para entender, como se ela falasse o húngaro de seus ancestrais misturado ao cearense de seu marido. Certo de que não praticava meditação buscando algum alívio ou um relaxamento — pois para isso havia massagem e sauna –, e sim para estar mais íntegro e melhor disposto no mundo, ouvindo as pessoas, compreendendo-as, e tratando de ajuda-las o mais que pudesse, ainda que fosse só ouvindo, como naquele momento, sem impaciência nem julgamento, acolhendo, com amor, com espaço, com calma, com sinceridade – o que me ocorreu foi como na noite anterior com Theo, sua beleza em alta definição explodindo diante e dentro de mim, mas desta vez era o sofrimento de Donita, sua voz aguda e a respiração curta, a raiva e a falta de entendimento, os olhos esbugalhados, a maneira como ela cuspia quando falava muito rápido, quando estava nervosa, os respingos ansiosos em mim, e pensar que ela vinha alimentando aquele discurso em sua própria mente e coração há muitos dias, o discurso que agora me atordoava, atordoando-a há muitos dias, incessantemente…
Debrucei-me e abracei-a, na primeira pausa que fez. Ela estava quase aos prantos, e deixei que meu abraço libertasse as lágrimas. Durante algum tempo, surpresa ela se rendeu, e exausta soluçou, vazou, verteu, ela se esqueceu e só se aliviou, mas talvez quando se esvaziou notou que era meu o peito que molhava, e afastou-se um pouco envergonhada, era ela quem estava agora atordoada, e ofereceu-me café-da-manhã. Compreendi que ainda não era momento para palavras, menos ainda para conselhos, nem para oferecer qualquer outra ajuda, muito menos dinheiro, e que já era bem passada a hora do almoço.
– A geladeira tá muito vazia tem quase nada não o senhor não quer que eu faça compra de mercado? – Dona Anita me chamava de senhor há quase vinte anos, quando Lissa e eu havíamos alugado nosso primeiro escritório, e ela era uma das faxineiras do condomínio; quando tivera de sair do emprego para cuidar da filha que tinha sido envenenada e tornara-se epilética, eu oferecera a ela trabalhar na minha casa, que naquele tempo era um pequeno apartamento de solteiro – O senhor não tá de dieta tá? desde que voltou desse mosteiro que quase não come mais a geladeira tá só esvaziando desde que a Dona Lissa abasteceu ela antes do senhor chegar desse lugar… – rapidamente elaborei uma lista, na qual inclui muitas coisas que daria para minha amiga e ajudante levar para sua casa, e enviei-a nessa missão. Quando a vi sair, olhando-me satisfeita de soslaio, como se perscrutasse de onde tinha saído aquele abraço, quando ela se foi eu retornei à minha respiração, enquanto lá embaixo uma moto, dessas pavorosas e possantes que tinha som de trator, passava espavorida pela rua.
Mr. Shuffle, ó Mr. Shuffle, o que é que guardas para mim? E da minha cotidiana playlist do Perry Blake, como um oráculo pescou Travelling e contou-me: It’s been so long since I’ve seen your face… Since I’ve seen the one that I loved… Because I’ve been trying for what seems like a lifetime… I’ve been rolling through the years alone… And I’ve been travelling so long I’m getting tired… I’ve been travelling too long my love… It would be so good holding you again… Holding you again for a while…There are no words to tell it as it was… Tell it as it was for a time – era das baladas mais doloridas do PB, mas ele próprio devia perceber isso e então nos rendia a todos oferecendo com doçura — It’s alright it’s alright it’s alright it’s alright it’s alright it’s alright — para terminar com um pequeno lamento sussurrado no qual eu não pude deixar de lembrar de Theo, em quem inequivocamente tinha pensado desde o início da canção, desde o início do dia (Because I’ve been trying for what seems like a lifetime… I’ve been rolling through the years alone…) e sua epifania sobre nascimento e morte a cada momento… It’s only moments… ain’t that what you said?…Well, ain’t that what you said? my love… Se pudesse de novo confessar-me a ele, eu diria, I’m getting tired my love… And all that wasted time, I just waited for a smile… All my wasted time, and all I needed was a smile… – e pus a canção para tocar novamente. There are no songs that tell it as it is…Tell it as it is as it was…
Daí lembrei-me do texto que Theo havia mencionado de madrugada, e fui atrás do meu exemplar do Banquete da coleção Clássicos de Bolso, e folheei-o até que encontrei Sócrates dizendo: Meu caro Alcebíades! Parece-me que no fundo não és um leviano, se pelo menos é verdade o que dizes de mim e se de fato está em meu poder tornar-te melhor. Neste caso, estás a ver em mim uma inimitável beleza, que supera de muito a beleza de teu corpo. Ora, se depois desta descoberta procuras entrar em relação comigo para trocares beleza por beleza, mostras que tens a intenção de ganhar mais do que eu, pois demonstras que desejas adquirir o que é verdadeiramente belo, em vez do que é belo segundo a opinião do vulgo, trocando assim ferro por ouro. Meu caro Alcebíades! Outrora eu me vira na posição do belo e jovem admirador ateniense, mas agora via-me comparado a Sócrates, não bem pela sabedoria, eu pensava, mas pela idade… Sorri ao pensar em Theo, trazendo Platão à nossa conversa. Eu mesmo fora um adolescente cheio de citações, e podia perdoa-las em meu jovem amigo – ou melhor dizendo, devia aceita-las nele, para enfim aceitar a mim mesmo… Aos poucos ia compreendendo que estar em paz com Theo e sua precoce exuberância curricular era a mesma coisa que estar em paz comigo e meu próprio improvável currículo na adolescência. Abandonei o livro aberto sobre a mesa do escritório prometendo voltar a ele, e aos meus caminhos adolescentes, quando lembrei-me – ou senti — que ainda não havia comido nada, nem bebido outra coisa que não água da moringa.
Tendo percebido minha própria perturbação e agitação, decidi entregar-me ao ritual de preparar chá. Ao contrário do que dissera Theo, eu não era um proper tea master. Mas minhas visitas ao mosteiro haviam mudado um pouco a maneira como eu me dedicava ao chá – anteriormente, colocava água na chaleira, a chaleira sobre o fogo, e enquanto esquentava eu ia embora fazer outras coisas. Muitas vezes, tão absorvido por essas coisas outras, esquecia-me de que pretendera tomar chá e… no mínimo, a água evaporara completamente. E se as folhas do chá já estivessem dentro d’água, elas se queimavam, e grudavam no fundo da chaleira, algumas vezes até inutilizando-a. Se eu voltasse – correndo, ao subitamente recordar-me –ainda em tempo de encontrar alguma água no fundo da chaleira, o chá já tinha amargado, tendo fervido além do ponto, e a chaleira não se podia tocar, de tão quente. De uma delas, o cabo de plástico derretera. Fora assim, ao longo de todos aqueles anos. Como tomo chá quase que diariamente, então esse desastre da desatenção repetiu-se muitas, muitas vezes.
Agora preparo o chá não simplesmente para bebê-lo, mas também por prepara-lo. Coloco água na chaleira, a chaleira sobre o fogo – e desde o início procuro fazer cada gesto com plena consciência, o que significa não somente a consciência do próprio gesto – que sempre me maravilha, estes dedos fechando-se ao redor do cabo da chaleira e sustentando-a, enquanto os outros giram e abrem a torneira da pia… Meus dedos e suas habilidades parecem-me milagrosos, e sinto-me presenteado, sorteado, abençoado… E também a água, brotando da torneira… Sorrio ao pensar como seria se tivesse de buscar água num balde toda vez que desejasse beber chá, e quanto chá beberia se tivesse de ser assim… Teríamos um poço artesiano em nosso prédio, e eu teria somente de me esforçar por onze andares, abajo y arriba, ou teria de caminhar até o lago do Ibirapuera, onde provavelmente teria de entrar numa fila para encher meu balde de uma água nada limpa, talvez disputando espaço com donas de casa lavando roupas às margens… É só uma fantasia que me faz sorrir, mas torna-me instantânea e imensamente grato pelo fato tão corriqueiro de ter agua potável brotando da minha torneira, onze andares dentro do céu… Penso em todas as pessoas que cuidam para que essa agua esteja disponível e tenha qualidade, e agradeço por seu trabalho, por seu empenho, por seu interesse, por seu estudo… Encher a chaleira de agua demora bem menos tempo do que escrever todas estas linhas sobre minha gratidão à agua, é verdade, mas ainda assim tudo isso passava-se em minha mente e coração, diante da pia e da torneira… E mesmo quando ao fogão aperto um simples botão, e de maneira para mim inexplicável o milagre do fogo brota… Então penso como seria se tivesse de catar lenha todos os dias para preparar o meu chá, e quanto de chá eu beberia, se tivesse de ser assim… Via-me grato pelo gás encanado, pelo trabalho dessas pessoas que o forneciam a mim, por seu conhecimento, por seu empenho até mesmo de enfrentarem os constantes congestionamentos da cidade para ir para o trabalho… Não, eu não estou divagando. Essas ideias simplesmente ocorrem, e eu as observo assim como observo a gratidão que elas constroem em mim. Permaneço diante do fogão. Não, eu não estou tomando conta da chaleira. Eu estou presente. Diante da chaleira, que vai aquecendo — eu respiro, e ao inspirar estou consciente da minha inspiração, ao expirar estou consciente da minha expiração. Ao inspirar, estou aqui e agora – e você onde está? Ao expirar, eu cheguei. Você também? Então, entre outras coisas, posso sentir o calor escalando as paredes da chaleira, o que pode ser tão confortante num dia frio… Outras vezes, eu sinto a água fervendo, eu sinto – e ouço — como ela esquenta, como surgem as bolhinhas… A cada vez, simplesmente presente, há tanta coisa presente comigo. Como se houvesse graus de plena consciência, desvelando-se, ampliando-se. O sabiá cantando. A buzina dos carros na rua de trás. O grito de crianças, que não são os gêmeos, a cozinha acima de mim silenciosa, minha contrariedade adormecida… Uma coceira no pescoço, a imagem do bonito filho ruivo de olhos verdes de Donita que eu só conhecia por foto, uma moto despedaçada… Sim, talvez eu esteja divagando, e são estes pensamentos desnecessários, contrariando a minha prática de concentrar-me na respiração… Quando enfim percebo-me pensando com gratidão no inventor do fogão. Minha prática, afinal, é a da gratidão. Vejo-me grato a quem abriu uma empresa de produzir fogões, que em conjunto com o pessoal do fornecimento do gás estava esquentando a água do meu chá… E sinto gratidão também para com as pessoas que trabalharam para montar o fogão… E para com aquelas que produziram as suas peças… E para quem o transportou, para quem o vendeu a mim, para quem abriu uma loja para vender aquele aparelho milagroso que estava esquentando a água para mim… Lembro que todas essas pessoas tiveram pai e mãe, que cuidaram delas para que elas pudessem esquentar a água do meu chá… E lembro-me que todas essas pessoas maravilhosas e mais seus pais e mães foram alimentados por outras pessoas maravilhosas que plantaram vegetais, que os levaram às feiras… E que essas pessoas tinham tido professores, mestres, amigos, que cuidaram delas para que eu pudesse esquentar a água para o meu chá. Minha gratidão a todos esses seres é, já, sem fim… E desses mestres, professores e amigos, cuidaram outras maravilhosas pessoas, e todas tiveram seus pais e mães… que consumiram alimentos, generosamente doados pela Natureza, pelo sol, pela chuva, os minerais do solo, as formigas adubando-o e areando-o, e os cuidados dos agricultores… Penso no generoso arroz com feijão que estava na composição do meu fogão ou da chaleira, nos pêssegos e bananas comidas que se transformavam no fornecimento de agua e gás encanados… E o vapor do chá escapando da chaleira, o contido chiado suave, realçam a consciência dos meus sentidos, grato por estes ouvidos, por estes olhos… E cada detalhe do preparar o chá, de simplesmente ferver a agua do chá, torna-se um milagre, um evento digno da minha atenção, da minha intensa participação… É energético estar assim presente, é nutritivo e fortalecedor estar assim concentrado, e percebo que vivendo dessa maneira o tempo não escoa sem sentido, eu não passo pela vida desapercebido da própria vida, distraído com meus próprios pensamentos, perdido em meus labirintos mentais. A cada atividade que faço assim, num arremedo de plena consciência, ao menos na tentativa de cultiva-la, sinto-me mais pleno e energizado, ao invés de mais cansado. Enfim, sentia-me feliz com as coisas mais prosaicas — simplesmente e milagrosamente fervendo a agua para o chá.
Sorriu-me o té Darjeeling bianco prodotto e confezionato da Ambootia Tea Gardens dado por Theo, mas foi um delicioso oolong cultivado organicamente no Vietnã e embalado em Taiwan, dado de presente a mim por um monge à minha partida do mosteiro, que me seduziu (o chá, não o monge) no armário de chás que mantinha na cozinha, lotado de variedades de diversas procedências. Observei as folhas, que dentro do pacote habitavam em bolotas, desdobrando-se sob a cascata de agua quente, e o aroma um pouco cítrico ou acido imediatamente desprendendo-se e novamente realçando a minha consciência dos sentidos.
Como é que este chá maravilhoso veio parar dentro do meu copo de cerâmica? Como viajaram estas nuvens, o solo, as pessoas e sua alegria, seu trabalho árduo, os estudos dedicados, as madrugadas frias, os poentes — este chá, que agora se torna um, comigo, em mim, e eu nele.
Bebendo chá. Bebendo chuva. Bebendo as nuvens do planeta. Bebendo colinas verdes entre as quais passeiam meus irmãos monásticos. Bebendo as flores dos jardins. Bebendo borboletas, caracóis, minerais, formigas. Bebendo o sol. Bebendo trilhões de anos. Bebendo trabalho, estudo, família, amigos, professores, médicos, motoristas. Bebendo sabedoria, memória, sobrevivência. Bebendo toda a história da humanidade. Bebendo cuidado, carinho, amor, amizade. Bebendo pessoas que conheço ou só imagino. Bebendo os buracos negros do universo. Bebendo tudo o que aconteceu e acontecerá, e deixou de acontecer, até que enfim acontecesse — este momento.
Bebendo chá, já não há como separar a minha vida da dele — nem quero –, ou das pessoas que o plantaram e colheram, e cuidam do planeta há milênios, do sol brilhando desde sempre, sem interromper um único momento, e a carreira de formigas adubando o solo, as ventanias aqui, a poeira das galáxias, desertos e orvalho lá — não há como separar-me do meu avô, do seu avô, dos avós de todos nós.
Bebendo chá — mais do que sacio a minha sede, eu me inundo de gratidão.
Bebendo chá. É tão maravilhoso poder simplesmente beber chá, poder beber chá simplesmente.



