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	<title>O diário dos dias extraordinários</title>
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	<description>&#34;disse que nenhuma criatura pode aprender o que seu coração não tem capacidade de conter&#34; [Cormac McCarthy]</description>
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		<title>Trecho XVIII &#8211; Obrigado, Theo</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Dec 2009 10:51:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andante</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Os homens criaram Deus à sua imagem, cada um o descobre mais cedo ou mais tarde, exceto aqueles que nunca descobrem nada. Cees Nooteboom Leia O diário dos dias extraordinários completo acessando o índice disponível no cabeçalho acima. Obrigado, desfrute! &#8211; Será que é por causa dos nossos amigos? – cogitou Aquiles, diante do “agradeço [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=552&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>Os homens criaram Deus à sua imagem,<br />
cada um o descobre mais cedo ou mais tarde,<br />
exceto aqueles que nunca descobrem nada.</em><br />
Cees Nooteboom</p>
<p style="text-align:right;">
<p style="text-align:left;">Leia <strong>O diário dos dias extraordinários</strong> completo</p>
<p style="text-align:left;">acessando o <a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/indice/" target="_self">índice</a> disponível no cabeçalho acima.</p>
<p>Obrigado, desfrute!</p>
<p style="text-align:left;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/12/15/trecho-xviii/"><img src="http://img.youtube.com/vi/EghRqeZA-TU/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:left;">&#8211; Será que é por causa dos nossos amigos? – cogitou Aquiles, diante do “agradeço seu convite porém declino” que por Theo e por mim comuniquei – O seu novo namorado fez muito sucesso! – senti-me cansado só de pensar em começar a explicar que Theo não era meu namorado, como se assim tivesse de desmenti-lo, recordando-me de que ficara abraçado a mim e me chamara de meu amor só para contrariar Ralph&#8230; e também porque estava satisfeito de que pensassem assim, que a “medalha olímpica de ouro” era de fato minha. Em seguida, Aquiles tentou se desculpar por Ralph, contado-me da situação familiar deste, e aventando que, talvez naquele exato momento, o pai de Ralph estaria sendo submetido a uma cirurgia de alto risco da qual não se sabia o resultado, nem mesmo se ele sairia vivo da mesa de operação.</p>
<p style="text-align:left;">Pela segunda vez no dia senti-me arrogante e insensível, por ter sido incapaz de ter empatia e compaixão verdadeira para com Lissa e Ralph, considerando-os apenas como um exercício para desenvolver minha paciência e capacidade de centramento – mas que afinal revelavam ter cada qual razões mais do que suficientes para estarem tentando distribuir, para quem e como pudessem, o sofrimento que os sobrecarregava. Eu poderia ter imaginado ser assim, pois regra era que assim fosse, sempre – nós não conseguimos sofrer sozinhos, e descarregamos nos outros parte do nosso sofrimento, como se isso nos aliviasse, ou pelo menos nos irmanasse, sofrendo todos, não se diferenciando mais o um dos outros, tornados sofredores todos. Era um conhecido círculo vicioso, o qual já havia contatado em mim mesmo – mas aparentemente ainda encontrava-me preso a ele, por mais que praticasse para cultivar ao meu redor um círculo virtuoso. Lissa e Ralph vinham me mostrar que sim, que precisava praticar mais, para atingir um entendimento profundo e a compaixão pelo sofrimento que enxergava ao meu redor, ao invés de reagir em oposição a ele, fosse com desdém ou contrariedade, gerando eu mesmo mais sofrimento, perpetuando o ciclo.</p>
<p style="text-align:left;">Ao fim da ligação para Aquiles, demorei lograr colocar um ponto final – talvez porque tivesse em algum momento cogitado pedir a ele o número de Ralph, mas não me decidira e afinal não o fizera, e de novo deparava-me, envergonhado, com minha pouca generosidade, uma dificuldade para o perdão, ainda cultivando ressentimento pela rejeição .</p>
<p style="text-align:left;">Verena reagiu com menos intensidade do que eu imaginara à notícia de que iríamos acompanha-la à praia – Obrigado. Eu sabia que podia contar com vocês – o plural não passou-me desapercebido, e ao mesmo tempo que me alegrei, verifiquei que pela primeira vez sentia ciúmes do que julgava ser o enorme encanto e talento social de Theo. Depois minha amiga contou-me estar se sentindo exausta &#8212; só hoje tinha reunido coragem e conseguido falar com Dona Cida, a esposa do caseiro, e juntas haviam chorado longamente ao telefone. Desde sempre, essa família cuidava do terreno de praia do pai de Verena, e portanto das três casas de veraneio da família contidas na propriedade. Dona Cida vira Gustavo crescer, e tinha se afeiçoado a ele – e ele a ela – como uma espécie de tia-avó coruja, dedicadíssima em seu amor incondicional, no qual muitas vezes encobrira as diabruras do Gustavinho e depois as farras do Gusto. A cada ida à praia, havia um ritual entre as duas de combinar sobre os devidos preparativos para acomodação dos hóspedes, e o cardápio especial de Gustavo, que aos sete anos de idade tornara-se vegetariano.</p>
<p style="text-align:left;">Lembro-me bem desta época, pois ficamos todos espantados e atônitos, sem reação, sem saber como lidar com o menino. Não havia antecedentes na família de Verena &#8212; cujo pai era um militar reformado, que comia uma panelada de mariscos e um prato de coração de galinhas de aperitivo para a churrascada que se seguia &#8212; nem tampouco em nosso grupo de amigos ou qualquer pessoa que pudéssemos imaginar fosse do convívio de Gustavo. Não viera de nenhuma personagem de TV ou livro que pudéssemos lembrar. Portanto a escolha dele pareceu um processo natural, e quando anunciou que não mais comeria carne, na verdade há muito tempo ele já vinha deixando os bifes e filés de frango quase inteiros no prato, sem que Verena tivesse atinado com isso. Ele explicava:</p>
<p style="text-align:left;">&#8211; Mamãe, acho que não posso comer o que não posso comer com minha própria boca.<br />
&#8211; Como assim? Você morde e mastiga o bife, não é?<br />
&#8211; Mas sem faca eu não consigo cortar ele. Só com os dentes, eu não consigo. Está errado. Não é natural, mamãe – então tentamos empurrar carne moída, frango desfiado e patê de peixe – Você me ensinou que os animais são nossos amigos. Não quero comer os meus amigos. Eu nunca comeria o Astor&#8230; – era o <em>golden retriever</em> da casa de praia; Gustavo também passou a apontar os cardumes de peixes que chegavam à beira da praia, os siris que passeavam pela areia e, muito preocupado,  perguntar se alguém iria caça-los e comê-los – Você teria coragem de matar eles, tio Dan? – perguntou-me certa vez.</p>
<p style="text-align:left;">Tentamos contemporizar que ele precisava comer carne para crescer e ficar forte – mais por desconhecimento e insegurança nossa do que por real convicção levantávamos este argumento. Mas Gustavo, que jamais perdia os programas de TV sobre o mundo animal, tinha chegado às próprias conclusões, que o colocavam numa posição inabalável – A vaca come outra coisa além de grama? Ela não é forte mesmo assim? Por que é que a gente tem de comer a vaca para ficar forte, ao invés de comer como ela? – e então ele se saiu com uma analogia que todos adoramos – Não seria o mesmo se eu comesse a tia Zezé – referindo-se à professora da escola – para ficar sabendo o que ela ensina, ao invés de estudar e aprender a lição com ela?</p>
<p style="text-align:left;">Dona Cida tinha sido a primeira a sair em defesa de Gustavinho, sobretudo para protege-lo da incompreensão furiosa do avô, que reputava à educação desleixada e descuidada de sua “filha riponga dada a exotismos” mais uma maluquice inaceitável em uma criança, que não tinham de ter opinião enquanto não pudessem cuidar de si mesmas &#8212; de resto, tinham só e sempre de obedecer.  Dona Cida passou a esmerar-se no preparo dos pratos, e ao longo dos anos amealhou um vastíssimo repertório vegetariano, sobre o qual falava em linguagem própria com Gustavo, compartilhando quantidade de vitaminas e propriedades terapêuticas. Mesmo assim, estava sempre em busca de receitas novas nas revistas que lhe chegavam às mãos, e sobretudo nos programas de TV a que assistia – e as duas mulheres só haviam começado a chorar, pois durante toda a conversa tinham evitado tocar no assunto da morte de Gusto, quando Dona Cida contara que tinha visto uma receita que poderia adaptar para tornar-se um novo prato vegetariano&#8230; E daí me deu uma vontade de que não fosse verdade&#8230; de que não tivesse acontecido&#8230; de que tivessem se enganado&#8230; de que tivesse sido um pesadelo e eu acordasse e pudesse voltar a cozinhar para o menino&#8230; &#8212; Você sabe se o Theo é vegetariano? – encerrou Verena, com a voz embargada.</p>
<p style="text-align:left;"><a href="http://www.designboom.com/contemporary/kawauchi.html" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-570" title="18- the eyes the ears 2005 rinko kawauchi" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/12/18-the-eyes-the-ears-2005-rinko-kawauchi.jpg?w=397&#038;h=444" alt="18- the eyes the ears 2005 rinko kawauchi" width="397" height="444" /></a></p>
<p style="text-align:left;">Em que ponto daquela tarde revoltei-me com Theo, e sua presença tão intensa quanto súbita em minha vida, pontuando e até mesmo dominando as conversas com meus amigos? Finalmente senti-me invadido, como Lissa previra e eu até então negara. Foi porém um sentimento fraco, e não ficou claro, pois a tarde inteira, provavelmente por estar <em>in loco</em>, dominou-me a preocupação com o destino do escritório. Até ali, fazia meus planos de afastar-me paulatinamente contando que minha sócia assumiria mais espaço – mas a perspectiva de ela mudar-se para a Inglaterra transtornava tudo, para nós dois. Pretendia que o escritório continuasse a existir com um sócio e meio &#8211;sendo eu a metade capenga &#8211;, mas não via perspectivas de que apenas meio sócio, e de novo seria eu, desse conta de mantê-lo&#8230; E nem me parecia desejar absorve-lo, mas de repente defrontava-me com a idéia de vê-lo fechado, e então percebia o quanto ainda tinha de apego, convenientemente disfarçado de desapego porque podia transferir as responsabilidades a Lissa. Ela antevia todas estas dificuldades há mais tempo do que eu, e talvez por isso sofresse tanto mais. Finalmente, podia compreendê-la melhor, ao olhar toda a situação incluindo sua perspectiva. Embora ao longo daquela tarde buscasse concentrar-me em cada atividade, e como de costume esvaziar minha mente nos intervalos entre elas, no meu campo de visão mental jamais abandonou-me a “dissolução do escritório”, assim eu passara a identificar a nova situação &#8212; Ainda vou me tornar missionária no Congo antes de você decidir ser monge! – ameaçava-me, todas as vezes em que conversáramos sobre meu afastamento do escritório. Ser esposa e dona-de-casa – ser mãe também estava nos planos dela &#8212; em Londres teria o mesmo efeito sobre nossa sociedade, e alterava as tranqüilas perspectivas dos meus planos preguiçosos e auto-indulgentes.</p>
<p style="text-align:left;">Naquela tarde, sai da zona de conforto para outra de incerteza, mais profunda, passando das decisões relativas para as irrevogáveis, e estremeci. Apavorei-me. Ruíram minhas duas principais fantasias, pois as vi como o que eram, meras fantasias – a de ser monge, decisão que vinha sempre protelando, e a de trabalhar menos, somente porque alguém estaria trabalhando por mim, e na suposição da continuidade do escritório. Naquela tarde, com cada cliente e fornecedor conversei como se fosse pela última vez, reflexivo, sentindo-me responsável, ouvindo minha própria voz e palavras e as das outras pessoas, todas em minha consciência, tendo bastante consciência da minha própria consciência. Finalmente, muito atormentado, alcancei a profundidade angustiante das reflexões de Lissa – e isso iria finalmente irmanar-nos, de novo, nos meses seguintes, voltando a tomarmos juntos muitas decisões. Naquela tarde, meu passado – representado por aquele escritório &#8212; agarrou-se a mim com a força da despedida, do último adeus, provocando em mim angústia diante das renúncias vindouras, e fazendo vir à tona todo o meu apego, a nostalgia, e muitas dúvidas. Da outra ponta, parecia acenar-me o meu futuro, leve, incerto, venturoso e aventuroso, na figura de Theo – e por isso rejeitei meu amigo com tanta força, como nunca antes, como nunca depois. Sabia que ele estaria esperando uma ligação minha, mas quis distender sua vontade até vir a “incomodar-me” mais uma vez no escritório – sabendo também que ele não o faria, e que assim, aquele dia, não nos encontraríamos. Apesar de haver dito que me curaria, soando tão bondoso e doce, suave e seguro de si, como se pudesse ter certeza – ou talvez por isso mesmo, irritei-me com ele, sua confiança em nós, e decidi passar um dia sem mais Theo, sem mais prática, sem mais voltar-me à respiração. Trabalhei até mais tarde do que nos últimos tempos, e decidi ir à academia, onde não tinha aparecido desde que conhecera o deus adolescente. De repente, ele parecia agigantar-se, intrometer-se e mudar demasiado a minha rotina &#8212; gritei por independência.</p>
<p style="text-align:left;">Pensei em talvez ir direto, e dei o endereço da academia ao táxi – na verdade, temendo encontrar Theo no meu vestíbulo, ou até dentro de casa, quando me recordei exasperado que havia dado a chave do meu apartamento a ele! Por que tinha tanta certeza de ter Theo à minha espera? Simplesmente porque ele não tinha outras opções de apoio, com a mãe viajando. Não somente era já o seu melhor amigo, apesar de nosso relacionamento tão recente, mas talvez fosse o único, além de Joshua. Com minha atitude de afastamento, calculei que podia estar empurrando-o para o tal Philippe, e dentro do meu despeito, pensei não importar-me. Seja! Que menino raro e esquisito, tão belo e tão sozinho, tão exuberante e tão desesperado, tão intenso e tão cansativo, tão dedicado e tão insistente&#8230; Agora, tantos meses decorridos, posso dizer que na verdade Theo bem pouco me importava naquela tarde, pois não estava reagindo a ele, e sim àquilo que ele representava, uma felicidade tão estupenda, estendendo-se num tranqüilo  horizonte de amizade e companheirismo, que chegava a me dar paúra. Naquela tarde, decidira apegar-me ao escritório e a todo o passado de prestígio e conquista e superação e segurança financeira que representara &#8212; em oposição, decidi descartar Theo, o único em profundidade e sinceridade com quem eu pudera até hoje compartilhar a prática no cotidiano.</p>
<p style="text-align:left;">Estava pronto a ser ríspido com ele, e decidi-me por trocar de roupa antes de ir à academia. A tarde inteira tinha sido de angústia, na confusão e aflição em que me perdi da prática – ou do presente, simplesmente, pois a prática a que me refiro nada tem de mística nem mesmo de grandiosamente espiritual, e independe de astros, chakras, luzes, espíritos, mantras, visualizações&#8230; E só voltei a ela quando me choquei contra um bilhete deixado sobre o capacho, como se tivesse bicado uma pedra ao invés de pisar um papel, que me ajudou a compreender também que um dos frutos da prática é um coração compassivo, ou se ainda nem tanto assim desenvolvido, mais aberto, permeável, até perfurado, sangrando e penetrado por todos os lados, e que meu cultivado e requentado egoísmo já não durava como esconderijo:</p>
<p style="text-align:center;"><em>19:23</em></p>
<p style="text-align:center;"><em><br />
Este dia<br />
Sem você<br />
Fico incerto<br />
De estar certo<br />
Viver<br />
Este dia</em></p>
<p style="text-align:center;"><em>20:23</em></p>
<div id="attachment_569" class="wp-caption aligncenter" style="width: 470px"><a href="http://personallifemedia.com/podcasts/236-buddhist-geeks/episodes/52961-buddha-cup/play" target="_blank"><img class="size-full wp-image-569" title="ladder-against-window-mirror-painting_wallpaper" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/12/ladder-against-window-mirror-painting_wallpaper.jpg?w=460&#038;h=618" alt="ladder-against-window-mirror-painting_wallpaper" width="460" height="618" /></a><p class="wp-caption-text">clique para ouvir a entrevista Buddha in a cup of tea</p></div>
<p style="text-align:center;">
<p style="text-align:left;">Tive de encostar-me ao umbral, sentindo-me zonzo como se tivesse escalado as paredes do edifício até aquele décimo primeiro andar. Meu coração parecia estar do tamanho de uma noz, no peito contraído, a respiração curta e ansiosa, os ombros elevando-se em direção ao pescoço, um soluço entalado na garganta. Quanto equívoco e ressentimento! Com uma clareza, súbita e diametralmente oposta em intensidade à anterior confusão, compreendi meu apego não ao escritório, a prestígio ou dinheiro – meu apego era por Lissa. Poderia abrir mão com certa facilidade daquelas paredes e do que representavam &#8212; mas não de minha sócia e mais longeva amiga, e do tranqüilo amor que me inspirava. Só muito depois iria ficar sabendo que minhas constantes medidas de afastamento do trabalho, que tanto a angustiavam, haviam impelido Basil na direção contrária, a de finalmente colocar sua namorada diante de uma decisão que a libertasse e deixasse de atormenta-la. Pela primeira vez, pude realmente admirar Basil, ainda que contra meus interesses – e compreender seu amor por Lissa, o que, para mim, era o mais importante de tudo. Lissa iria para Londres deixando-me para trás entre paredes e de mãos vazias, sozinho com meu choramingo, o estica-encolhe e as indecisões, no impulso e estímulo que agora recebia de Basil.</p>
<p style="text-align:left;">E finalmente compreendi o impulso que eu mesmo ganhava com Theo. Aquele bilhete dizia-me que eu o atingia com minha ausência tanto quanto com minha presença &#8212; e ele parecia sentir com igual intensidade e sensibilidade, tanto minha grosseria quanto minha delicadeza. E daí decidi renovar a determinação em meus votos, íntimos, de cuidar dele da melhor maneira que pudesse, fazer por ele o que uma única pessoa – talvez um dia fale mais dela, aqui &#8212; tinha feito por mim àquela difícil idade, dando-me amor e espaço com imensa generosidade, acolhida sincera e um cuidado prudente que não me sufocava, um amparo amplo, carinhoso e sábio. Da mesma maneira como eu tinha recebido, agora iria retribuir com meu jovem amigo.</p>
<p style="text-align:left;">Senti-me tão aliviado ao ligar para Theo quanto ele ao me atender &#8212; de seu refúgio na casa do primo, defronte ao Playstation. Contei-lhe que a única parte leve e feliz do dia tinha sido a decisão de irmos juntos para a praia – e então confessei que precisava gastar o excesso de energia e também de atordoamento e de cansaço na academia, então ficamos de nos ver depois disso – ele sugeriu encontrar-me à saída, combinando uma sessão tardia de meditação – Tá bom?</p>
<p style="text-align:left;">A academia? Luzes, câmeras, ação. Tantas luzes, e tão excessivas – só podia ser porque as pessoas tinham medo da própria escuridão &#8212; que o ambiente tornava-se feio, e opressivo. Assim como num shopping center, tinha a sensação de que aquelas luzes estavam sugando o planeta, e em parte, a mim mesmo, a meu futuro. Câmeras – tantas, por toda parte, nos espelhos, nos celulares, nas vaidades, nos olhares, nos músculos paralisados por botox, nos cabelos de texturas falsas pintados em cores falsas &#8212; pareciam fazer brotar o pior das pessoas, e um atordoamento de não saber em que direção olhar, ou viver. Ação – narcisista, exibicionista, toda ela tão longe de qualquer tomada de consciência, que a academia tornava-se a minha anti-sangha por excelência, e o total desconhecimento da prática e do caminho naquelas pessoas lembrava-me constantemente da prática e do caminho. Mas o exercício da plena consciência não exatamente combinava com aquele ambiente – fazer os exercícios com maior atenção e ainda mais lentamente do que já era minha natural tendência seria desrespeitar as pessoas que revezavam nos aparelhos comigo, as filas de malhadores que àquele horário noturno formavam-se. Em observando tudo aquilo &#8212; as pessoas cuidando de seus abajures com tanto empenho, sem jamais desconfiarem de que ele podia dar luz, com tanto esmero cuidando dos próprios cadáveres a caminho &#8211;, o complexo de superioridade que eu normalmente tinha com relação à minha prática, crendo-me melhor que os outros, surgia com força naquele lugar &#8212; o que era um tiro pela culatra, ao verificar que a prática errônea gerava mais idéias de ego inflado do que ajudava a transcende-las –, provavelmente para contra-atacar o complexo de inferioridade que então me dominava, pois meu abajur não tinha nem nunca teria mais de um metro e oitenta e dificilmente passava dos 75 quilos, por mais magro e musculoso que me esforçasse por ser, e quanto mais perto dos quarenta, via aumentar o esforço e diminuir o resultado. Nunca, eu poderia competir com modelos e marombeiros – e assim, retirava-me à competição, intensificando minha prática. Ao contrário do escritório, a academia representava um passado do qual eu já tinha me despedido, a não ser nas mensalidades que havia pago adiantado e que ainda tentava fazer valerem.</p>
<p style="text-align:left;">Havia um certo rush na saída por volta das 22:30, e foi justamente este horário que combinei com Theo. Atrasei-me um pouco – lembrando-me do dia em que ele aguardara-me no hall sem tocar a minha campainha, avaliando se eu iria espera-lo e dar-lhe alguns minutos de tolerância –, para ter certeza de que o deus adolescente estaria à minha espera, e que eu faria uma saída triunfal caindo em seus braços incomparáveis.</p>
<p style="text-align:left;">Theo sabia acender a luz – da plena consciência – e portanto podia desfrutar em paz da exuberância do seu próprio abajur. Ele estava me esperando no hall de entrada iluminadíssimo, como se fosse para compensar a profunda escuridão de espírito em que aquelas pessoas todas viviam. Sentara-se a uma das mesas do bar, e ao redor dele pude perceber a excitação com a qual ia me acostumando, como se estivesse na presença de algum pop star. Nem que ele quisesse conseguiria ser discreto, e os olhares das mulheres e de alguns homens, assim como os comentários, estavam todos voltados na direção dele &#8212; e por fim na minha, quando ele se levantou sorrindo e veio abraçar-me. Cheguei a corar de intensa satisfação, e quando ele me disse, divertindo-se – Está satisfeito? –, confirmou ter entendido minha pequena estratégia exibicionista. Talvez para dar o troco, vi-me pequeno e senti-me dominado quando passou o braço sobre meus ombros, envolvendo também o meu pescoço, e tirou-me da academia como se me seqüestrasse, debaixo de todo o tipo de olhares, furtivos ou diretos, invejosos, surpresos, lascivos, desdenhosos.</p>
<p style="text-align:left;"><a href="http://www.mary-yacoob.com/images.htm" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-568" title="18- book_ledge mary-yacoob.com" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/12/18-book_ledge-mary-yacoob-com.jpg?w=459&#038;h=328" alt="18- book_ledge mary-yacoob.com" width="459" height="328" /></a></p>
<p style="text-align:left;">Subimos a avenida caminhando, Theo empurrando a bicicleta, às vezes montando e desmontando dela, como se praticasse um exercício de equitação, talvez sem notar a própria inquietude e excesso de energia. Contamos um ao outro brevemente como fora o dia, e Theo disse ter saído da casa de Joshua antes do final de um filme extremamente violento que o deixara irriquieto – como eu já pudera perceber.</p>
<p style="text-align:left;">&#8211; Você é vegetariano, Theo? – perguntei, para mudar de assunto.<br />
&#8211; O que você acha?<br />
&#8211; Como vou saber?! – não esperava pela pergunta &#8212; A única refeição que fizemos juntos foi vegetariana &#8212; refleti.<br />
&#8211; Achei que você fosse, por isso servi assim. Você é, não é?<br />
&#8211; Eu estou. Em casa, oscilo entre ser vegetariano e vegan, uma refeição para cada. E preferencialmente crudivorista.<br />
&#8211; É por causa da prática?<br />
&#8211; Eu diria que é conseqüência. Aconteceu naturalmente, quando pela primeira vez voltei do mosteiro. Depois de um mês inteiro lá, com dieta vegetariana, simplesmente não tive vontade de voltar a comer carne, aqui no Brasil. Na época, um amigo meu que é nutricionista explicou dizendo que agora que eu tivera o gosto da existência da flor, não ia mais querer viver na mer&#8230; Não, não acho que seja por especial crença ou convicção, muito mais por inclinação e experiência. E sempre que me acho muito correto, muito bom, sentindo-me o salvador do planeta, sempre que me pego cristalizando minha prática e fundando certezas, compro uma coxinha com catupiry, e agradecendo ao frango, à galinha e à vaca, devoro-os – sorri &#8212; Fora de casa, eu como até lingüiça de javali, o que me oferecerem. Assim é a minha prática. E você?</p>
<p style="text-align:left;">&#8211; Ainda não me decidi&#8230; – Theo inclinou a cabeça para o lado e deu de ombros, daquela maneira que o fazia parecer tímido e menor, e quando em mim brotava a vontade de abraça-lo e beija-lo &#8212; Outro dia li que o Thom Yorke tornou-se vegetariano para impressionar uma garota vegetariana de quem ele estava a fim&#8230; Começou mentindo pra ela que há muito tempo era vegetariano, e de sustentar a mentira acabou virando vegetariano mesmo. Hoje em dia, ele é vegan.<br />
&#8211; E você, está querendo impressionar alguém?</p>
<p style="text-align:left;">&#8211; Eu estou. Mas acho que não deveria. Porque todas as qualidades que tenho o levam a gostar de mim, e a me desejar. Mas só através do que tenho de pior ele vai chegar a me amar – Theo não olhava em minha direção quando disse isso, e por um instante temi que não estivesse falando de mim. Mas como para confirmar que tinha adivinhado e sabia do meu compromisso íntimo de dedicar-me a ele, Theo em seguida engoliu-me com seus verdes olhos líquidos, tornados menos tristes e mais belos com um sorriso cristalino no semblante grego.</p>
<p style="text-align:left;">Em nossa direção, um senhor vinha descendo a avenida com grande dificuldade, praticamente arrastando uma das pernas e parando a cada poucos metros com expressão de dor e cansaço, a mão trêmula sobre uma bengala que mirava não com gratidão, mas com raiva – e foi a expressão atormentada que levantou para nós, parecendo que ia nos dar uma bengalada por sermos capazes de andar com tanta desenvoltura, o que desestimulou Theo a aborda-lo, pois por um instante tive certeza de que iria oferecer-lhe ajuda.</p>
<p style="text-align:left;">&#8211; O que você está pensando? – Theo perguntou-me, quando tínhamos já nos afastado, como se lesse algum indício em meu rosto.</p>
<p style="text-align:left;">Sorri, ao ver-me assim observado, e surpreendido seguindo uma linha de pensamentos, para a qual Theo vinha ser o sino da plena consciência e interromper. Fiquei calado por alguns instantes, observando minhas emoções, os pensamentos arrefecendo – Pensei se aquele senhor teria desfrutado do caminhar quando podia faze-lo sem esforço&#8230; Ou se nunca se importou muito com isso, nem deu bola algum dia&#8230; E então pensei se eu mesmo estava desfrutando de caminhar, agora, sem ter de fazer nenhum esforço em especial&#8230; Só desfrutando deste corpo com tantos mecanismos disponíveis, dos quais lanço mão diariamente sem muito perceber ou valorizar&#8230; Eu caminho, e ao mesmo tempo falo, respiro, enxergo, ouço, e em meu estômago o almoço está sendo digerido e transformado em energia, o que em parte me capacita a continuar dando estes passos, e pensar, falar&#8230; Tantas funções maravilhosas e complexas, todas ocorrendo ao mesmo tempo agora&#8230; E de repente senti gratidão pela chance de estar vivo, de permanecer vivo a cada palavra que pronuncio e passo que dou, e de ter saúde bastante, nenhum problema grave, podendo caminhar a seu lado nesta noite morna, desfrutando da sua presença e de compartilhar com você – senti que aquela onda de amor invadia-me novamente, e tive receio de embriagar-me dela na frente do meu amigo, então resolvi interromper meu discurso &#8212;  E você, o que pensou?</p>
<p style="text-align:left;">&#8211; Que eu não vou ficar assim na idade dele – Theo anunciou, com toda a seriedade e convicção de que só a juventude é capaz. Ao ouvir isso, e dentro do papel pretensioso de cover de mestre zen que na companhia dele eu assumia, pensei em dizer que a saúde era uma das coisas sobre as quais não podíamos ter certeza&#8230; mas em seguida compreendi que o deus adolescente colocava-me para andar à sua frente por lisura, e só por gentileza seguia os meus passos, em sua educação principesca, pois de fato estava muito adiante de mim, já aos dezenove anos de idade &#8212; Não digo quanto ao meu corpo, você entende? – prosseguiu &#8212; Mesmo que tenha de caminhar como ele, com dificuldade, seja por doença ou um acidente, o que não quero ter é toda aquela raiva da vida&#8230; A revolta&#8230; que, reconheço, eu ainda tenho, e bastante – Theo suspirou, exalando longamente, caindo então num silêncio que durou uns vinte metros&#8230; Ah!, como fiquei feliz com aquele silêncio entre nós, pois percebia que Theo já se sentia à vontade comigo, e que não tinha urgência de ocupar os espaços vazios, temendo talvez que eu o podasse ou usurpasse&#8230; Eu esperava tranquilamente que ele seguisse seu raciocínio até termina-lo, sem interrompe-lo, e tinha a tranqüilidade de poder fazer o mesmo e ser respeitado por ele &#8212; Quero poder desfrutar dos meus passos sobre a Terra, mesmo que doam. Não preciso da saúde perfeita nem eterna&#8230; mas quero aprender a não sofrer, em nenhuma ocasião, em nenhuma condição. É esse o ensinamento do Buda, não é? A liberação proposta por ele&#8230;</p>
<p style="text-align:left;">&#8211; E que tal começarmos agora mesmo, Theo?</p>
<p style="text-align:left;">Vinte e quatro horas depois de termos caminhado pelo bairro em nosso vigoroso gioco de cura, novamente vencemos as quadras restantes até nosso prédio. Deixamos a bicicleta de Theo na garagem do subsolo e subimos no elevador, tudo em silêncio, sem trocarmos uma palavra nem olhar. Enquanto abria a porta do apartamento, observei meu amigo sentar-se no hall atrás de mim, rapidamente adotando a posição de lótus completa, ali onde o havia encontrado à primeira noite – e onde provavelmente ele estivera esperando-me antes, naquela mesma noite. Adentrei o apartamento sem acender nenhuma luz, e do armário do corredor retirei um mat, que estendi no hall, dispondo um zafu em cada ponta. Theo transferiu-se para eles, dando-me um tranqüilo sorriso de reconhecimento e agradecimento. “Acordei o sino” que havia trazido no bolso – isso equivale a dizer que o fiz soar seco e curto, simplesmente para avisar ao outro que eu iria “convidar o sino” – o que equivale a dizer que iria toca-lo, atingindo-o com o bastão, três vezes, o tinido longo e lindo ecoando pelo hall, subindo e descendo as escadas, dando espaço para três inspirações e três expirações entre cada vez que o convidava a soar. Meu Deus! – a prática ensinada pelo Buda nunca fizera de mim um budista, no sentido de crenças e credos, mas antes aproximara-me de uma certa paz e acordo com a idéia e conceito de Deus &#8212; Obrigado – a última coisa que pensei, antes de dedicar-me a afastar os pensamentos desnecessários e acalmar a mente, foi &#8212; Obrigado, Theo.</p>
<p style="text-align:left;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/12/15/trecho-xviii/"><img src="http://img.youtube.com/vi/SKz6sgnUgdg/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/552/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=552&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Trecho XVII &#8211; Schubert ao fundo</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Dec 2009 16:38:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trecho XVII]]></category>
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		<description><![CDATA[O espírito está tão próximo que não o vês. Evita ser o cântaro cheio de água cuja boca está sempre seca! Mevlana Rumi Leia O diário dos dias extraordinários completo acessando o índice disponível no cabeçalho acima. Obrigado, desfrute! Desde criança sempre ouviu sua tia Sônia dizer vezes sem fim que cada um deve se [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=550&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>O espírito está tão próximo<br />
que não o vês.<br />
Evita ser o cântaro cheio de água<br />
cuja boca está sempre seca</em>!<br />
Mevlana Rumi</p>
<p style="text-align:left;">Leia <strong>O diário dos dias extraordinários</strong> completo</p>
<p style="text-align:left;">acessando o <a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/indice/" target="_self">índice</a> disponível no cabeçalho acima.</p>
<p>Obrigado, desfrute!</p>
<p style="text-align:right;">
<p style="text-align:right;"><a href="http://www.anishkapoor.com/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-557" title="Anish-Kapoor-at-the-Royal- red train" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/11/anish-kapoor-at-the-royal-red-train.jpg?w=365&#038;h=389" alt="Anish-Kapoor-at-the-Royal- red train" width="365" height="389" /></a></p>
<p><em>Desde criança sempre ouviu sua tia Sônia dizer vezes sem fim que cada um deve se sentir feliz com a parte que lhe coube. Por cada coisinha devemos agradecer. Agora ele se encontra, por fim, bem próximo a essa maneira de pensar. Tudo o que está aqui, a lua e a brisa, a taça de vinho, a caneta, palavras, ventilador, a lâmpada de mesa, Schubert ao fundo, e a própria mesa: um carpinteiro que morreu há nove anos trabalhou muito e fez essa mesa para você, e isso para te lembrar de que as coisas já existiam quando você chegou. Desde a luz das estrelas até as azeitonas ou o sabonete, desde um barbante até um cadarço, desde o lençol até o outono. Não seria nada mal deixar, em troca, algumas linhas dignas do nome. Tudo isso está diminuindo. Desintegra-se. Esvanece-se. O que existiu vai aos poucos se descolorindo</em> &#8212; quando escolhi <em>O mesmo mar</em>, de Amós Oz, para ler na seqüência de Todos os belos cavalos, poderia ter percebido ter já tomado uma decisão íntima, sensível e tranqüila quanto a meu rumo para o feriado que se aproximava.</p>
<p>Mas tive de passar por todo o triste processo egóico, trabalhoso e cansativo, de ainda repensar nas propostas de Lissa, Verena e Aquiles, e de sentir-me culpado recusando duas delas. Talvez desde o início eu tenha me inclinado para as que incluíam Theo, embora não mais houvesse tocado com ele na possibilidade de viajarmos juntos no feriado, aventada pelo convite veemente de Aquiles para acompanha-lo à fazenda, feito à porta de saída – nem Theo havia voltado ao assunto, o que me dava uma certa tranqüilidade triste de poder decidir apenas por mim mesmo &#8212; e assim a cabana de praia que eu alugava com Lissa foi a primeira a ser descartada. Demorei a entender que ela voltasse a fazer-me o convite, talvez cogitando eu ter mudado de idéia &#8212; a reação dela à minha reiterada recusa, no entanto, foi tão extrema que parecia nunca termos antes tocado no assunto, e só então percebi que  Lissa não tinha clareza para chegar ao cerne de si própria, ficando nas bordas dos próprios pensamentos, na fimbria dos próprios sentimentos, como era típico de todo processo de terapia e análise, no qual ela chafurdava semanalmente, há anos. E, como eu, tendo dificuldade em ser direta, o feriado era só uma introdução.</p>
<p>Talvez tivesse já aprendido algumas coisas em minha breve e recente &#8212; porém tão intensa &#8212; convivência com Theo, e diante das lágrimas de maxilares contraídos e ombros caídos de Lissa, fui objetivo &#8212; Você vai me contar o que está acontecendo, de verdade? – e como ela havia adentrado o meu escritório, senti-me à vontade de fechar a porta, que era o código para não ser interrompido sequer por telefonemas, e a instalei numa poltrona, sentando-me a seu lado ao invés de voltar para trás de minha mesa. <em>Inspirando, expirando, inspirando, expirando</em>.</p>
<p>&#8211; Você desapareceu da minha vida&#8230;<br />
&#8211; Não é isso o que quero ouvir, Lissa – fui bastante seco, cortando com uma espada a torrente de suas lágrimas – Você está proibida de falar de mim – disse-lhe com afeto, um sorriso – Fale de você mesma.</p>
<p>Um ovo se pega com cuidado, para não esmaga-lo, e com atenção o manuseamos, para não deixa-lo cair e o vermos inutilizado. Não podia culpar minha amiga por não saber acessar as próprias emoções dessa forma inteligente e cuidadosa, pois eu mesmo não sabia faze-lo antes da prática, e ao vê-la de mãos lambuzadas, quase gritando e de imediato respondendo minha pergunta, como se finalmente tocasse o cerne da questão e dissesse coisa muito densa e profunda &#8212; Estou me sentindo sem apoio! – apenas internamente a critiquei e me ressenti de que não se desse o tempo de consultar a si própria, em silêncio e sem pressa, de resto como a maioria das pessoas, cuspindo a primeira coisa que lhe vinha à língua, misturando casca e baba de ovo.</p>
<p>Mais lágrimas. Enquanto me punha calmo, tive de perceber meu próprio ressentimento – pois interpretei o desabafo de Lissa como uma nova acusação à minha participação cada vez menor no escritório – o que me levou a acessar a culpa que vinha sentindo em relação a ela, percebendo o quanto sua frase sobre meu sumiço repercutia em mim, e finalmente percebi que a estava julgando por não saber o que não podia saber. Preferia que ela   &#8212;  e todas as demais pessoas, se possível, e digo sinceramente, aprendessem a respirar antes de, na pressa, jogarem-se ansiosamente nas respostas, nas reações, antes de amassarem os ovos, realmente. Com certa melancolia lembrava-me de uma de minhas práticas preferidas no mosteiro &#8212; informal e quase secreta, pois não havia uma orientação direta quanto a isso – a pergunta tão corriqueira de <em>Como você está, hoje</em>? era uma outra espécie de sino da plena consciência, a oportunidade de nos darmos conta do momento, da presença do amigo à nossa frente e da paisagem ao redor, de voltarmos à nossa respiração, identificando a direção de nossos pensamentos, consultando nossos sentimentos e sensações – enfim, passeando pelos cinco <em>skandhas</em>, observando-os fluírem como rios que eram, mas à margem, não imerso neles, não mais afogando-se. Era uma prática informal, digo, pois como não continha a fumaçinha do incenso nem o tim-tim do sininho nem o conforto da almofadinha nem a vizinhança do altar, muita gente não se dava conta dela, e a resposta podia ser a rasteira <em>Tudo bem, e você</em>? Mas se esse diálogo tão simples acontecia entre dois praticantes, ele ocorria de outra maneira – e a essa tomada de consciência, os dois saiam liberados, tendo tido a chance cada qual de observar a passagem do fluxo de sensações, emoções, pensamentos – preocupações, medo, ansiedade, pressa, tensão  &#8212; e não perder o momento. A pergunta não era apenas por formalidade social, mas revestia-se de uma inédita sinceridade, estendida também à resposta, muitas vezes ocasião de consideráveis <em>insights</em>. Era ainda uma situação um tanto delicada, pois pergunta e resposta tinham por premissa não só o interesse sincero, mas também o tempo para esta troca de papéis entre escuta amorosa e fala honesta – e nas atribuições diárias do mosteiro, nem sempre sobrava-nos este elemento tempo, e portanto algumas vezes tínhamos de lidar com a frustração de não podermos alongar conversas tão íntimas ensejadas pela pergunta tão simples, <em>Como você está, hoje</em>? Com um sorriso de compreensão, muitas vezes nos despedíamos, agradecidos pelo breve encontro, talvez propondo um reencontro para enfim podermos aprofundar. Tive muitos encontros assim, com meus amigos mais queridos. E como a pergunta repetia-se muitas vezes ao longo do dia, muitas eram as chances de ser sincero e atencioso – consigo mesmo, basicamente, o que é tão libertador.</p>
<p>No espaço aberto em minha mente, borbulhou a lembrança de Theo cantando <em>And if I&#8217;m gonna talk&#8230; I just wanna talk&#8230; Please don&#8217;t interrupt&#8230; Just sit back and listen&#8230; Cause I can&#8217;t face the evening straight&#8230; And you can offer me escape&#8230; Houses move and houses speak&#8230;  If you take me then you&#8217;ll get relief&#8230; relief, relief, relief, relief</em>&#8230; Um senhor passeando com o cachorro olhando-nos com curiosidade (o cão), quase desconfiança (o dono), e enquanto Theo ainda cantava, um carro cheio de meninas passou em velocidade e elas gritaram <em>Lindo</em>!, nós dois simplesmente desfrutando de nosso jogo curativo reparador e da companhia dedicada um do outro, sob a árvore frondosa à esquina. Também esse lembrança da noite anterior, que me fez sorrir internamente, convidei a dissipar-se. <em>Inspirando, expirando, inspirando,eu sei que estou inspirando, expirando, eu sei que estou expirando</em>. Tendo passado por esse processo de limpeza e esvaziamento enquanto assistia as lágrimas de Lissa, pude finalmente ouvi-la de coração aberto, sem julgamentos, sem meu próprio ressentimento, a culpa, a melancolia, a frustração, as expectativas – de tudo isso procurei limpar-me, antes de ouvi-la.</p>
<p><a href="http://www.rossocomeilcielo.it/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-558" title="17- red train kapoor_svayambh" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/11/17-red-train-kapoor_svayambh.jpg?w=460&#038;h=316" alt="17- red train kapoor_svayambh" width="460" height="316" /></a></p>
<p>E havia muito. A começar pela mãe, com quem Lissa se relacionava atravessando bolsões de aceitação e recusa, de aproximação e afastamento, de gratidão e revolta – e assim vinha sendo desde que eu a conhecia, desde o tempo da faculdade. Certa vez, havia dito à minha amiga que ela era uma versão aperfeiçoada da mãe, o que para mim era muito, pois julgava Irene uma mulher lindíssima, elegante, cheia de atitudes e opiniões, sofisticada nos gostos, muito viajada, independente – o que para outras pessoas, incluindo Lissa, equivalia dizer que era uma mulher difícil, arrogante, pretensiosa, cheia de exigências que continuamente causavam problemas, e fria. Parecia-me que Lissa se revoltava simplesmente por ser ótima maçã caída de uma boa macieira, fazendo esforço por se tornar uma fruta do conde ou qualquer coisa mais original e distante – sem logra-lo, logicamente.</p>
<p>É verdade que, desde o início havíamos nos dado bem, e achava que Lissa tinha às vezes ciúmes de nosso relacionamento – mas Lissa podia ter ciúmes de um amigo com um cachorro, fosse pelo cachorro ou pelo amigo&#8230; Também é verdade que em todos aqueles anos tivera pouquíssimas conversas íntimas com Irene, e quase todas tinham partido de confissões minhas, de pedidos de ajuda nos problemas em meus relacionamentos pessoais, especialmente na época de grande confusão quando conhecera Felipe – Se é por amor, não deveria importar quem está na cama com você – e depois ela havia emendado &#8212; Pensando bem, meu querido, é principalmente na fase da falta de amor que não deveria importar quem está com você na cama! – e era com grande tristeza que ouvia a confirmação de um diagnóstico de câncer para Irene, e com maior susto a descoberta de um caroço na axila direita de Lissa – Era o que eu pretendia te contar neste fim de semana , mas no Sábado foi o encanador, e no Domingo o menino bêbado – e ao lembrar-se de como fora preterida, mais lágrimas, enquanto que por meu lado, maior culpa. Talvez para livrar-me em parte dela, perguntei se o Basil estava sabendo, refletindo que eu talvez pudesse estar menos presente na vizinhança daquele namorado com tantas características de marido.</p>
<p>&#8211; Contei para ele a caminho do aeroporto. Na verdade, foi um teste. Desde que comecei os exames, relutei contar a ele – por medo de parecer menos perfeita, ela não disse mas entendi, sabendo que Basil não aceitaria menos do que a mulher perfeita, da qual Lissa era o protótipo, inclusive quanto à saúde &#8212; Sabe qual foi o comentário dele? <em>Why couldn’t you wait until Monday to tell me this? Why burden me over the weekend</em>? – e sabia do esforço que ela fazia por não chorar diante de Basil, não só para não borrar a maquiagem, mas sobretudo para conservar a própria imagem – O que você espera de mim? &#8212; ele perguntara, desconfiado &#8212; Não se preocupe. Não esperaria jamais que você cancelasse esta viagem para ficar comigo&#8230; Imagina se você vai ficar sem o seu <em>proper haircut</em> ou pedir a benção mensal da mamãe! – tentei imaginar o tom de Lissa ao dizer isso a Basil – Mas esperava que você me desse apoio ao menos neste momento, em que te conto isso, enquanto você ainda não foi viajar, enquanto você está aqui do meu lado, neste carro. Só até chegarmos ao aeroporto. Depois, não espero mais nada.</p>
<p>A réplica de Basil surpreendeu-me – Apoiar o quê? O seu medo? A sua preocupação? Dar apoio para você passar o final de semana remoendo expectativas negativas? Espero sinceramente que você tenha um bom fim de semana, sem pensar nisso. Quando você tiver o resultado dos exames, então você tem razões para tomar alguma providência, ou nenhuma. Até lá, todo o sofrimento é inútil. O seu amigo te diria a mesma coisa – podia não simpatizar com Basil, mas confesso que eu não teria manejado a espada melhor, embora talvez com mais delicadeza, e com o intuito do mesmo corte, desautorizando um estado neurótico em Lissa. Nunca imaginei que aquilo que eu dizia a minha amiga chegasse até Basil, e que ele prestasse atenção e compreendesse – sem desmerecer suas incríveis qualidades que o tornavam um executivo internacional de capa de revistas &#8211;, nem que pudéssemos ter alguma opinião em comum – e era sobre Lissa!</p>
<p>No entanto, Basil havia ligado de Londres mais de uma vez, e à sua maneira desculpando-se, para contar a ela sobre duas casas que tinha ido ver – Até então, ele tinha sido reprovado no teste. Mas com esses telefonemas, foi como se dissesse que me quer junto dele, mesmo com os meus atuais problemas – à sua maneira complicada e velada, Basil tinha dado a entender que aceitaria qualquer coisa de Lissa como esposa, mesmo as que tinha dificuldade de aceitar enquanto namorada. Seu contrato no Brasil estava prestes a vencer, e apesar de viver por aqui como um príncipe, recebendo em reais o equivalente a seu régio salário em libras, não desejava renova-lo pela terceira vez, e assim cuidava do retorno ao Reino Unido, providenciando um endereço para ele e Lissa – a quem tinha finalmente pedido em casamento. Nada disso eu sabia – e de repente compreendia a situação complexa de minha amiga, entre considerar um casamento em oposição à doença, a da mãe e a possível própria, a tão sonhada possibilidade de uma vida londrina contra o abandono de tudo o que tinha no Brasil&#8230;</p>
<p>Dei-me conta de ter perdido minha chance de saber tudo em primeira mão e de dar os parabéns quando Lissa aparecera lá em casa na quinta-feira, impecável e deslumbrante, egressa do almoço com Basil, provavelmente quando ele fizera o pedido de casamento, querendo compartilhar sua alegria comigo através do <em>In the Upper Room</em> que me trouxera de presente – ou talvez fora aquele um agradecimento por eu tão sabiamente não ter ido àquele almoço, no qual reservava-se para ela uma surpresa que a minha presença teria impedido? Outros homens teriam marcado um jantar formal, mas contra todas as inglesices, Basil tinha um bizarro senso de humor que se comprazia em colocar pessoas em situações inesperadas, nas quais só ele pretendia ter o controle. Mas naquela tarde, Lissa se deparara com Theo instalado em minha vida, e fora só o começo de minha dedicação a ele, e depois a missa de sétimo dia, e de novo Theo, e de repente percebia como por circunstâncias várias eu de fato havia me distanciado dela, enquanto aconteciam a proposta de casamento, o diagnóstico da mãe, a descoberta do caroço&#8230; Ou talvez, conhecendo Lissa, filha de Irene e o contrário de Basil, ela quisesse fazer o anúncio do casamento para mim durante o feriado, com a devida e especial formalidade que nossa longeva intimidade suporia numa ocasião dessas – dias passados <em>en petit comité</em>, aos quais eu me havia furtado. Todas aquelas notícias, represadas desde a última quinta-feira, vindo aos borbotões, eram expressão da frustração mas também da vingança de Lissa, castigando-me, já que há dias eu a preteria. Agora, não havia mais como dar parabéns diante dos problemas surgidos depois, nem como mostrar-me verdadeiramente triste por Irene ou preocupado ou feliz com minha amiga. Nada era puro nem adequado nem pleno, e a própria Lissa devia estar se sentindo assim.</p>
<p><a href="http://www.iucnredlist.org/"><img class="aligncenter size-full wp-image-560" title="17- red train_anish_kapoor_svayambh" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/11/17-red-train_anish_kapoor_svayambh.jpg?w=460&#038;h=690" alt="17- red train_anish_kapoor_svayambh" width="460" height="690" /></a></p>
<p>Só pude desculpar-me, sem tentar me justificar, diante de minha falta de atenção e sensibilidade – Ele já fixou o valor do resgate? – foi assim que Lissa havia adentrado meu escritório horas atrás, eu soube imediatamente, referindo-se a Theo e a meu sumiço, que ela chamava de “seqüestro” – o qual pareceu ficar encerrado, ao menos para ela, pois eu bem sabia que estava disposto a continuar entregando-me a um tal seqüestrador. Diante da intensidade dos acontecimentos, podia enfim compreender a reação de minha amiga diante de minha ausência naqueles dias – mas compreendia também que, somada à viagem de Basil justamente naquele fim de semana, teria indicado a ela alguma necessidade de debruçar-se sozinha sobre as próprias lições de casa, o que aparentemente não desejara fazer, indo buscar companhia até mesmo nas Irmãs Cajazeiras, as colegas de faculdade de quem não gostávamos.</p>
<p>Sem nenhum comentário nem conselho, sem nenhuma notícia ou palavra da minha parte durante todo o tempo que não a minha desculpa, somente com minha escuta atenta, Lissa foi-se, parecendo aliviada. Fiquei em silêncio, <em>inspirando, expirando, inspirando, expirando</em>, tentando concentrar-me na respiração, esvaziando minha mente e meu coração e meu corpo, reconhecendo e deixando sensações, emoções e pensamentos passarem. Era minha prática cotidiana no trabalho. Entre um telefonema e outro, ao final de uma reunião, ao ter encerrado um texto – ou exatamente da maneira como encerrava um texto, tentava colocar um ponto final, ou talvez de exclamação ou interrogação ao final de cada atividade, e abrir espaço para iniciar o novo parágrafo, a próxima atividade. Antes disso minha impressão era a de que vinha escrevendo um texto único ao longo de toda a vida sem bem usar as linhas e muito menos vírgulas ou pontos finais ou mudanças de parágrafos  de tal forma que a narrativa constituinte do Andante era uma confusão de frases não terminadas emendando-se em outras mal iniciadas umas sobrepostas às outras os pensamentos todos atrapalhados as emoções misturadas tive esse <em>insight</em> quando ainda tinha meu carro e dirigia numa tarde em poucas quadras antes de chegar em casa atento a uma dor de barriga que me tornava apressado senti meus ombros contraindo diante do pavor ao quase atropelar um cachorro que saiu correndo para o meio da rua e uma criança veio atrás e depois meu coração inchou e senti o calor da raiva e da indignação com o adulto que surgiu aos berros para resgatar a ambos e foi nessa confusão que na quadra seguinte parado ao semáforo tentando acalmar-me <em>inspirando expirando inspirando expirando</em> vi um rapaz que julguei tremendamente bonito atravessar a faixa de pedestres encarando-me  e observei meu desejo brotar em meio ao discurso sobre a falta de educação e responsabilidade no calor da minha raiva sendo que o medo de há pouco ainda nem arrefecera dentro da contrariedade de um almoço que me esforçava por não julgar péssimo em companhia que havia tanto me frustrado apenas porque estava com o farol da plena consciência volteando por sobre a paisagem pudera identificar todas aquelas emoções sobrepostas em outros tempos jamais teria identificado minha própria confusão incapaz de qualquer clareza mental inclusive para discernir o que fosse confusão vivia nesse estado de confusão e caos permanente embora como as demais e normais pessoas não julgasse aquele um estado de especial confusão ou caos crendo que a vida fosse assim mesmo e que isso se chamasse só stress e fosse uma parte importante do ser brioso ter personalidade certezas opiniões.<br />
Havia aquela anedota descrevendo esse estado corriqueiro da mente, do homem que perguntava ao outro que via passar montado a cavalo em desabalada corrida – Onde você vai com tanta pressa? Ao que o cavaleiro respondia, sumindo na poeira – Não sei! Pergunte ao cavalo! Assim eu tinha vivido a vida inteira descontrolado conduzido por meus pensamentos minhas emoções minhas vontades e desejos minhas preferências minhas aversões minhas compulsões ou medos – até aprender a usar o freio e passar a manejar o cavalo. Desde então, usava de todo o tipo de sino da plena consciência que me aparecia – Como você está, hoje? &#8212; para parar inúmeras vezes ao longo do dia, abrindo espaço entre uma atividade e outra, mesmo que fosse de um único minuto, mesmo que para isso tivesse de ir ao banheiro para encontrar algum isolamento, e tentar dar espaço também entre minhas emoções e pensamentos, e renovado recomeçando. Tinha aprendido com um monge a trabalhar assim, investindo alguns poucos esparsos minutos preciosos em acalmar-me, e tendo o fabuloso resultado de energizar-me nas atividades em que outrora me esgotava. A prática de abrir espaço era a prática de gerar clareza – ponto final, mudando de parágrafo.</p>
<p><a href="http://rednyc.com/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-559" title="17- red train_anishkapoor15h" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/11/17-red-train_anishkapoor15h.jpg?w=460&#038;h=339" alt="17- red train_anishkapoor15h" width="460" height="339" /></a></p>
<p>Diante da lista de ligações que não haviam sido passadas, descartei clientes e fornecedores, pois não me pareceu que nenhuma daquelas obras ou projetos ou egos fosse ruir durante o horário de almoço – ou talvez sim, em relação aos últimos, e era essa toda a cansativa sordidez do negócio no qual eu estava metido e queria abandonar &#8211;, e entre Aquiles e Theo, achei natural primeiro fazer a pergunta para depois comunicar a resposta.</p>
<p>&#8211; Desculpe ter ligado aí no seu escritório&#8230; – já não me lembrava de ter lhe passado o número, mas de fato tinha feito dali uma ligação para combinar de nos encontrarmos na sexta; por aqueles dias ainda me surpreendia com tal principesca educação num adolescente, desculpando-se por usar o número do meu trabalho, quando tantas outras pessoas antes dele haviam sido completamente inconvenientes sem jamais perceber ou intencionalmente espertas e interesseiras; ainda me acostumaria com a perfeita educação da qual jamais descuidava e na qual não precisava esforçar-se, pois era o ponto zero de que partia, estava nas raízes que o nutriam, assim como a objetividade – Queria saber se o convite do Aquiles para o feriado está de pé. O Joshua vai para Trancoso com os amigos, e está me convidando. Preciso dar uma resposta a ele ainda hoje.</p>
<p>Com a mesma clareza, disse a Theo que não pretendia ir para a fazenda, o que não o impedia de aceitar o convite de Aquiles e ir mesmo assim – isso o fez rir como se tivesse ouvido de mim uma piada, deixando-me sem graça.</p>
<p>&#8211; O que foi que você não entendeu? – perguntou, quando terminou de rir – Você acha que estou em dúvida entre Joshua e os amigos ou Aquiles e os amigos? – Theo riu novamente – Vou ser mais claro&#8230; o que é que você vai fazer no feriado? E se for alguma coisa que eu possa estar junto&#8230;</p>
<p>Lisonjeado, contei do convite de Verena a nós, e que já decidira aceita-lo.<br />
&#8211; Por nós? Você aceitou por nós? – falou com pressa, e perdeu o ímpeto ao refletir &#8212; Ou você pretendia ir sozinho?<br />
Contei das circunstâncias daquela visita, e de um encontro promovido pelo grupo de amigos de praia do Gustavo, no sábado à noite, um luau pós-lua cheia, quando esta já teria perdido parte do seu brilho e a perfeição da forma – visto assim, muito apropriado como a homenagem póstuma que pretendiam fazer a meu afilhado.  A tudo ele ouvia em silêncio, e imaginei se tinha a cabeça inclinada lá do outro lado da linha, atento ao cuidado com que eu falava, convidando-o sem convida-lo, tentando não soar ansioso quando na verdade meu coração já cantava sua melodia angustiante de dúvida, o que me levava a tentar evitar a possibilidade de rejeição, tornando-a uma dupla rejeição.</p>
<p>&#8211; Vou de qualquer maneira, Theo. É isso o que estou dizendo &#8212; evitava qualquer eventualidade de ser rejeitado, e assim rejeitava sequer a possibilidade de vir a ser aceito, rejeitando então a mim mesmo, podando minhas chances &#8212; Mas ainda não liguei para ela, confirmando, pois pretendia mesmo falar com você – e depois, para compensar a súbita lembrança de que, quando daquela conversa com Verena, encontrava-me contrariado com Theo bêbado estendido à minha porta, e que não estivera inclinado a desejar sua companhia ou jamais mencionar tal convite, entrei num relato um pouco eufórico sobre o carinho e a gratidão com que minha amiga falara dele, e o quanto os amigos de Gustavo eram bacanas, e como a praia estaria cheia de jovens, e o quanto a casa de Verena era&#8230;</p>
<p>&#8211; Então eu me decido pelos amigos do Gustavo, ao invés dos amigos do Joshua, ou do Aquiles – Theo riu, mas deve ter pensando ser inadequado rir ao mencionar Gustavo, e sua risada quebrou-se &#8212;  Agradeça à Verena por mim, e diga que aceito o convite – a voz dele abrandou-se &#8212; Andante, você não existe&#8230; A minha intenção, quando te liguei, era saber se poderia acompanhar meu melhor amigo a algum lugar, nesse feriado&#8230; Mesmo que fosse para dentro da banheira dele&#8230; – Theo riu, suavizando o meu silêncio intenso, expectante – Meu melhor amigo é você – para encerrar, uma daquelas suas frases que não posso esquecer – E vou curar essa sua ferida, você vai ver.</p>
<p>E porque continua a pedir-me esta amiga para fazer as postagens mais curtas – ponto final.</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/12/05/trecho-xvii-schubert-ao-fundo/"><img src="http://img.youtube.com/vi/uO9I9mN2fo8/2.jpg" alt="" /></a></span>
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		<title>Trecho XVI &#8211; O sonho de Theo (Infidèle)</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Nov 2009 10:55:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trecho XVI]]></category>
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		<description><![CDATA[O artista tende a ver o que pinta ao invés de pintar o que vê. E. H. Gombrich Leia O diário dos dias extraordinários completo acessando o índice disponível no cabeçalho acima. Obrigado, desfrute! Uma amiga – dentre muitos talvez que aqui vêm e dão só uma olhadinha &#8212; está decepcionada com O diário dos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=528&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>O artista tende a ver o que pinta<br />
ao invés de pintar o que vê.</em></p>
<p style="text-align:right;">E. H. Gombrich</p>
<p style="text-align:left;">Leia <strong>O diário dos dias extraordinários</strong> completo</p>
<p style="text-align:left;">acessando o <a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/indice/" target="_self">índice</a> disponível no cabeçalho acima.</p>
<p>Obrigado, desfrute!</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/11/25/trecho-xvi-o-sonho-de-theo-infidele/"><img src="http://img.youtube.com/vi/1Lnhhr6pDqc/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p>Uma amiga – dentre muitos talvez que aqui vêm e dão só uma olhadinha &#8212; está decepcionada com <em>O diário dos dias extraordinários</em>. Por conta deste nome, estava certa de que iria encontrar em <em>Oddde</em> os relatos de minhas viagens à Islândia ou à Polinésia, as semanas nos vales dos Himalaias percorrendo a antiga rota das caravanas da seda, visitando templos milenares e oásis, os dias numa aldeota em que pude crer estar na mítica Macondo, preso ali por conta de repetidas avalanches, meu acidente no Deserto do Atacama ou a travessia pela Patagônia. Nada disso está aqui, embora nada disso deixe de estar, pois não há um Andante sem todo o seu caminho, todo o percurso, todas as memórias de viagens. Em mim estão Dalsnibba e Uzungöl, as Grenadines e o Nubra Valley – e portanto, em cada uma destas linhas está a Índia e o Peru, a Rússia e o Alaska, embora poucas vezes eu mencione anedotas de viagem ao longo desta narrativa.</p>
<p>Porque aconteceu o meu encontro com Theo, e conviver com ele equivale a viajar – não só em sua extraordinária beleza, nem tanto pelo sotaque estrangeiro. Lembro que o Trecho I deste diário leva ironicamente o nome da canção de Perry Blake – <em>It’s just an ordinary day&#8230; Nothing much to laugh about, nothing much to cry about</em>&#8230; &#8211;, pois nunca pretendi outra coisa que não relatar o meu cotidiano de prática e minha convivência com Theo, de meditação e amor, o que para mim é suficientemente extraordinário – passar meus dias cultivando paz e não mais ansiedade, procurando a compreensão no mesmo lugar onde antes havia a impaciência, a compaixão no lugar da raiva, a alegria ao invés da angústia, a prática da liberdade onde antes praticava preferências, apego e aversão. Para mim, é suficientemente extraordinário beber chá e ao mesmo tempo beber nuvens e paz, e poder cultivar gratidão e desapego bebendo chá. E afinal beber chá, simplesmente. Como ensina o meu mestre, <em>as pessoas dizem que é milagre andar sobre a água; mas para mim o verdadeiro milagre está em andar pacificamente sobre a terra.</em></p>
<p>Parece-me extraordinário ter alguém no meu cotidiano com quem compartilhar a prática – que consiste basicamente em viver com plena consciência, todos os momentos, em todo lugar, caminhando até o banheiro, lavando a louça, falando com cuidado e ouvindo profundamente, ao telefone, pela internet ou pessoalmente. <em>Assistir nesta tela de computador estas manchinhas pretas tornando-se letrinhas, tornando-se uma voz que na minha mente, enquanto escrevo e crio, seria a minha voz, mas que na verdade neste momento é a sua voz, na sua mente, compartilhando esta narrativa</em>&#8230; Não me interessa acender velas e incenso ou recitar mantras – ressinto-me da prática formal, quando é superficial. Ela me constrange, desestimula, enfraquece, traz-me dúvidas e até embrutece. Como não sou obrigado a ela, a não ser no mosteiro quando posso pratica-la observando minha própria prisão, a partir dos meus julgamentos e aversão, tenho sido feliz, diligente e pacientemente praticando – e ao final do dia, ou mesmo ao final de um percurso de carro ou a pé, quando dou-me o tempo para relembrar todos os momentos do trajeto, e lembro-me inclusive dos meus estados de espírito, de mudanças de luz e temperatura, do meu fluxo de pensamentos, de uma coceira, da buzina ou do canto do pássaro – como um exercício de passar em revista a minha atenção e a concentração, e como a mantive e desenvolvi ou perdi a cada momento – e de repente dou-me conta do instante presente, no qual realizo tal exercício, e de que em minutos revivo o dia, e ao estar consciente da consciência alguma coisa se desliga e não mais há observador nem observado nem observação&#8230; Isso parece-me extraordinário!</p>
<p>Sempre vivi a vida extraordinária que nos é dada, mas a não ser em minhas viagens, raras vezes dando-me conta disso. Neste sentido, minha amiga tem razão – um diário dos dias extraordinários deveria ser um diário das minhas viagens: comer olhos e cérebro de carneiro na Grécia ou carne apodrecida de tubarão na Islândia, iguarias oferecidas ao estrangeiro e convidado de honra, este mesmo que no restante do tempo está vegetariano. Colocou-me porém numa nova trilha, que afinal desembocou na prática da plena consciência, a mãe de uma outra amiga, quando depois de ouvir meus relatos e ver as fotografias de uma viagem de alguns meses pela Capadócia, adentrando o território da antiga Babilônia ao longo das margens dos rios Tigres e Eufrates – <em>você viaja num estado de graça</em>, disse-me, referindo-se aos inúmeros perigos por que passava sem mazelas, os contratempos que ocorriam e quase magicamente se deslindavam, sem mais da minha participação nas soluções do que paciência e contemplação &#8212; relativamente poucos, em se pesando minha exposição durante essas viagens de expedição &#8211;, muitos deles corrigindo meu caminho em direção a rumos mais maravilhosos e ao encontro das pessoas mais extraordinárias&#8230; A mãe de minha amiga tinha razão, e ao me dar conta disso, resolvi viver o meu cotidiano também em estado de graça, e não mais aguardando pelas viagens. Desisti de ficar ansiando o ano inteiro pelo mês de férias, e a experiência de viver num estado de graça que me proporcionavam as viagens. Desisti de ficar esperando pela admissão no Paraíso pela porta dos fundos, e após um breve passeio pela ante-sala de novo ver-me despachado para o Inferno&#8230; Decidi viver no Paraíso todos os dias – e um dos primeiros degraus da prática foi libertar-me de conceitos de Paraíso e Inferno&#8230; Nem um nem outro extremo, há um estado de paz e alegria que suplanta os dois – coisa parecida com o que sentia na liberdade das minha viagens, mas mais constante, estável, e cotidiano. Decidi ser feliz, <em>aqui e agora</em>, e não mais esperar por um outro lugar melhor para ser feliz, o Monte Athos ou o Deserto de Gobi, e independer das condições ideais – das minhas idéias sobre felicidade &#8212; , para desfrutar isto&#8230; Cansei de esperar e depender de condições ideais de clima e temperatura e situação e pessoas e etcetera para ser feliz – um longo processo de liberação que ainda está em curso, e que já se associou ao percurso deste cadáver a caminho que sou.</p>
<p><a href="http://www.oficinadeastrologia.com/pg/lua" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-529" title="16- full moon trees overlay" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/16-full-moon-trees-overlay.jpg?w=460&#038;h=655" alt="16- full moon trees overlay" width="460" height="655" /></a><br />
Isto dito à minha querida amiga e leitora, que espero possa lidar bem com a frustração, foi o caminho do Inferno ao Paraíso que retracei, no elevador com Theo. Foi durante aquele breve percurso descendente que consegui resgatar o contato com meu centro, <em>the island whithin, inspirando, expirando, inspirando, expirando</em> – tive inclusive de fechar os olhos à beleza extraordinária de Theo, e talvez por isso ele não tenha feito outro comentário que não o elogio a Aquiles; também fechou os olhos e, creio, voltou-se à própria respiração. Quando saímos do elevador e atravessamos o hall em direção à noite fresca, envolvia-nos um renovador e aconchegante silêncio, no qual novamente eu podia ouvir as batidas do meu coração, vendo Ralph e <em>Il Rigoletto</em>, minha contrariedade e sentimentos de humilhação e vingança, todos, dissolvendo-se no espaço amplo da consciência; a temperatura de meu corpo arrefecendo e a rigidez dos músculos suavizada, à medida que eu deixava o Inferno onde me colocara. Teria sido excelente fazer este mesmo processo in loco, abandonar o próprio Inferno sem ter de abandonar o Inferno, deixar de estar no Inferno estando ainda no Inferno – mas daquela vez eu não conseguira, e tivera de deixar a festa para poder acalmar-me. Ao menos, sentia que nada daqueles sentimentos negativos e emoções aflitivas me acompanhariam por muito tempo, e se eu praticasse, se eu persistisse na prática, dissolvendo-os, provavelmente nenhum deles chegaria em casa comigo – não porque deles me esquecesse ou distraísse, mas porque os transformava. Theo, silencioso e pacífico a meu lado, parecia também disposto a isto, o que provocou-me um agradável contentamento e impeliu a convida-lo &#8212; O que você acha de fazermos meditação caminhando até em casa?</p>
<p>Vivemos uma fantasia. A minha, naquela noite, incluía os exuberantes jardins do prédio de Aquiles, com quase quarenta anos de existência – oposto do zen do meu edifício, estes eram luxuriantes, o pequeno bosque que se tinha de atravessar a partir do portão de entrada – um canto dele tendo sido desmatado nos anos recentes para a construção de uma guarita externa; por medidas de segurança e valorização do edifício, típicas da classe média entre apavorada e ávida, tinha morrido uma frondosa paineira &#8211;, tendo-se inclusive de cruzar uma pequena ponte sobre espelhos d’água, onde nadavam carpas e viviam rãzinhas que agora mesmo escutava. Tão alegre e satisfeito estava, na breve vitória sobre minha contrariedade, na companhia doce do deus adolescente, que voltou a invadir-me a mesma delícia de caminhar nos bosques outonais de Leh, no ar rarefeito que me deixava tanto mais alerta e impulsionava meu módulo de alta definição de percepção,  por entre regatos da água límpida de desgelo do Himalaia, enquanto o suave marulhar nos pequenos espelhos d’água enviou-me de volta à Patagônia chilena e as caminhadas circundando seus grandes lagos, às vezes cruzando-os em botes infláveis para nos aproximarmos das geleiras&#8230; E eu nem tinha deixado o meu bairro&#8230;</p>
<p>A prática é todo o tempo, em todo lugar, e quando não se mantém o <em>insight</em>, há que sempre recomeçar. Percebi a precariedade de meu contentamento, que não era muito mais do que a pobre euforia de ver-me livre da contrariedade experimentada durante a festa improvisada, achando-me enfim a sós e em paz com meu adorado amigo – percebi que havia confundido a constância da vela em relação ao esplendor dos fogos de artifício, e de novo vi-me em meio à fumaceira depois que o espetáculo colorido e ruidoso da minha falsa paz e do meu pífio silêncio foram interrompidos pelo celular de Theo. Por sua expressão percebi que não reconhecera o número que o chamava, e não se afastou de mim para falar, assim acompanhei um dos lados da conversa – Ah&#8230;. Oi, Philippe. É mesmo? Que bom! Não, eu não estou em casa. Você poderia deixar na portaria do meu prédio para mim? Hoje à noite? Estou de saída da casa de&#8230; um amigo – final da conversa, ouvi Theo dar o endereço do prédio de Aquiles ao tal Philippe, combinando de encontra-lo à frente – O cara de ontem&#8230; – esclareceu-me em seguida &#8212; Encontrou minhas chaves na casa dele, e quer devolver-me.</p>
<p>Foi assim que terminou minha fantasia de bosques nos vales dos Himalaias junto a lagos da Patagônia sob uma lua cheia que jamais vi tão forte quanto no deserto do Atacama ou do convés de um pequeno barco cruzando o Mediterrâneo&#8230; Vi nossa meditação caminhando descartada, não só porque Theo viera de bicicleta, mas porque vinha até ele o tal Philippe, o cara de ontem – <em>Uau, veja o que minha mente é capaz de produzir</em>!, havia-me ensinado a praticar um outro mestre, observando os fenômenos da mente e suas intricadas conexões, não me surpreendendo ao ouvir o nome Felipe manifestar-se mais uma vez naquele jardim, sendo que em muitas outras ocasiões havia sido eu mesmo a pronuncia-lo. Felipe era o nome do meu primeiro namorado, sobrinho de Aquiles. Não o via há alguns anos, pois atualmente mora no Canadá, e no entanto estava de novo aqui, neste jardim – nunca tendo deixado o espaço da minha consciência. Meu desconforto aumentou diante do eminente abandono por Theo, e a toda contrariedade da noite somava-se agora o fantasma de um amor interrompido, ou dois, ou mais, e de novo via-me afundar no pântano do meu Inferno da rejeição, por causa do Felipe e de Philippe.</p>
<p>Theo, no entanto, não se encontrava no mesmo lugar que eu, embora estivéssemos os dois nos jardins do prédio de Aquiles – O que tem ali? – perguntou, e antes que eu advertisse ser território proibido, a casa fantasma, vi-o desaparecer aos pulos, galgando os largos degraus que levavam ao primeiro cubo de concreto dos Jardins Suspensos da <em>Babylonia</em>, como Felipe e eu havíamos apelidado aquele canto do terreno – uma série de espaçosos cubos de concreto cercados de largas floreiras cheias de vegetação e onde até árvores cresciam, os cubos em diferentes alturas criando desníveis de patamares e abrindo clareiras em meio à vegetação. De dia, pelas rampas e não pelos degraus, algumas mães escalaram ali com seus bebês – atualmente, só se viam babás com os bebês das mães ausentes &#8211;, por isso o apelido de <em>Babylonia</em>. À noite, no entanto, nunca avistava-se ali nenhum morador, e assim nós descobríramos mais um lugar para namorar&#8230; Era portanto um terreno mal-assombrado para mim, aqueles cubos de concreto em meio ao bosque, e quase não tive coragem de sair no encalço de Theo – ainda não tendo percebido a chance que o deus adolescente me dava de fazer as pazes com meu próprio passado, nem tanto renovando as lembranças mas acrescentando uma outra, que eu ainda não imaginava qual seria&#8230; Algumas vezes, esquecia do poder curativo de Theo sobre mim, ou desacreditava dele.</p>
<p>Não diria que Theo tivesse escolhido o canto mais querido e dolorido das minhas memórias, pois não havia nenhum sítio naqueles cubos que Felipe e eu não tivéssemos desfrutado ao longo dos anos &#8212; Este lugar é mágico! – Theo exclamou, abrindo os seus metros de braços e ombros, acolhendo o universo, girando nos calcanhares como às vezes fazia, tendo escolhido dos patamares o mais alto e central, na vizinhança de um pau ferro, completamente envolto pela vegetação e longe da vista de quaisquer passantes. Ele estava tão feliz e exuberante que, se fosse alguém de quem eu gostasse menos, teria reagido com mágoa e rispidez para faze-lo dar-se conta e compartilhar do meu sofrimento. Em sendo Theo, desarmei-me, e tentei compartilhar de sua alegria radiante que o tornava formidavelmente belo.</p>
<p>Alguns dos cubos eram totalmente circundados por canteiros, com vegetação  típica dos anos setenta, avencas e aspargos ornamentais, samambaias taludas que havia atingido o porte de árvores, enquanto nuns outros havia bancos de madeira em nichos – e Theo havia se instalado neles, tendo tirado as sandálias e com elas coberto a luminária rente ao chão que lhe pareceu dar-nos iluminação excessiva, estirado sobre o banco, e instando-me a fazer o mesmo no banco do lado oposto. Eu estava pregado nos degraus que subiam até esse último cubo, vendo-o tão à vontade naquele espaço, desfrutando-o tão imediatamente – era uma de suas qualidades principescas com as quais iria me acostumar, uma imediata e natural intimidade e posse de tudo que gostasse e desejasse desfrutar &#8211;, e como num sonho sem clemência, metido em roupas minhas. <em>Veja o que minha mente é capaz de produzir</em>&#8230;</p>
<p><a href="http://www.oddee.com/item_94349.aspx" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-530" title="16- cave_light dark strokes" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/16-cave_light-dark-strokes.jpg?w=460&#038;h=569" alt="16- cave_light dark strokes" width="460" height="569" /></a></p>
<p>Demorei a apaziguar-me, e não colaborou a visão de Theo esparramado no banco, metro e meio distante de mim, na noite sensualmente agradável, envoltos pelo cicio de grilos, cigarras e alguns pássaros tardios, a escuridão assinalada pelo vôo iridescente dos insetos noturnos, o improvável coaxar de uma ou duas rãs em plena metrópole. Finalmente, fiquei descalço como Theo, e acomodei-me no banco, deitando de lado, na direção oposta à que ele havia escolhido, e como o meu amigo com o cotovelo dobrado sustentando a cabeça apoiada a uma mão, para que pudéssemos nos mirar confortavelmente. Theo encarou-me, sem esconder nada de sua satisfação com aquele lugar e momento, e em sua expressão deixando clara sua gratidão e a apreciação de minha companhia – e finalmente libertei-me, ao entender que Felipe tinha vindo em outro momento, antes para mim, e que retornaria depois como Philippe, então para Theo, mas agora havia só Theo e Andante, se eu não deixasse entrar mais ninguém. Então também para mim seria somente satisfação, gratidão e apreciação, que era o que de fato contava e existia – uma jaca podia despencar na minha cabeça a qualquer momento, ou poderia ter um infarto fulminante como geralmente ocorre com os homens em minha família, e diante desse pensamento sobre a minha própria brevidade afastaram-se o Felipe que cruzava o continente americano para assombrar-me na perspectiva do Philippe que cruzava a cidade para vir ao encontro de Theo – que, por sua vez, parecia perfeitamente instalado dentro da noite, só à espera da minha completa presença, pois ele já parecia identificar quando tinha em mim platéia que retribuísse, para criar um momento mágico.</p>
<p>&#8211; Posso te contar o sonho que tive, dormindo lá no seu apartamento? – Theo sorriu, secreto – Gostaria de acreditar que foi por causa da sua meditação&#8230; a sua onda amorosa que me invadiu&#8230; – percebi que no início de cada compartilhar, Theo sempre me incluía neles, o que era irresistível &#8212; Foi assim&#8230; Eu estava dentro de uma caverna da qual não podia divisar nenhuma parede, de tão longe que estavam, tão enorme era a caverna. E escura. Muito escura. Mas não completamente escura, pois de algum lugar vinha luz, que era a minha motivação para caminhar, buscando-a. Encontrava-me perdido, e estava completamente nu, sujo, faminto, exausto naquela busca. De repente, ouvi você me chamando. Você não dizia meu nome. Você me chamava diretamente. Eu não tinha um nome, eu não era alguém, então você me chamava diretamente, sem dizer nenhuma palavra. O seu chamado partia de mim mesmo, ecoando em mim, a partir de som nenhum. É difícil de descrever, como sempre, nos sonhos. Mas foi o chamado mais direto que já recebi. Não podia me equivocar. Fui seguindo na direção desse chamado silencioso. Descobri-me indo na direção da luz, que se intensificava. De repente enxerguei no meio da caverna uma enorme coluna de luz. A luz parecia irradiar-se do solo para cima, mas também do teto para baixo, de forma que era muito densa. Tive medo de me aproximar, mas o seu chamado sem palavras instigava-me. Não podia te enxergar, pois você estava dentro da coluna de luz, e eu ainda me encontrava na escuridão da caverna. Tive medo de adentrar, e então a sua mão alcançou-me no escuro e convidou-me a entrar&#8230; Dentro da luz, eu já não tinha mais a sensação de estar nu, talvez porque você estivesse nu também, então isso não era um problema&#8230; Ainda não te enxergava, pois a luz era muito intensa. Agora vamos subir a escada, você dizia, sem palavras, mas eu não enxergava escada nenhuma, só luz. Aqui é o primeiro degrau, e você tomava o meu braço e me ajudava a subir. Eu tinha medo, porque não conseguia enxergar a tal escada, e me parecia estar subindo no ar. Era aflitivo. Cada degrau era invisível, aquele onde eu estava e o próximo que devíamos galgar, então tinha medo de estar pisando num buraco. Só a sua presença me inspirava confiança, ainda que eu não pudesse te enxergar a meu lado. Podia sentir a sua presença. E assim fomos subindo degrau após degrau, os patamares invisíveis, vencendo o medo, galgando o ar, dependurados cada vez mais alto, escalando dentro da torre de luz&#8230; então comecei a ter receio de batermos contra o teto da caverna, do qual nos aproximávamos. Você seguia confiante, e eu tentava ter a mesma desenvoltura que você, e não demonstrar medo, embora me encolhesse. Finalmente, senti que estávamos atravessando o teto da caverna, que era só muito escuro mas afinal não era sólido.</p>
<p>Theo parou por um momento, e olhou-me, inclinando a cabeça de lado, para ver se eu prestava a atenção – e deve ter me encontrado fascinado, e também enternecido como sempre ocorria quando o via inclinar a  cabeça em dúvida, e continuou, estimulado:</p>
<p>&#8211; Estávamos numa catedral. Tipo gótica, com colunas muito compridas e  delgadas. Mas não havia bancos, e não me lembro do altar. Por toda parte o que havia era mesas, longas mesas de banquete, cobertas de todos os tipos de comida. Só então me lembrava que estava faminto, e me atirava à comida. Na catedral, perdi-me de você. Havia lá outras pessoas, comendo também, passeando por entre as mesas de banquete, mas era uma catedral tão enorme que as pessoas não encontravam umas às outras, e como havia comida em abundância, tampouco havia o quê disputar. De repente, me lembrava de você, e te chamava. Assim como eu, você não tinha nome, então não precisei dizer nada, simplesmente chamar diretamente. Você vinha imediatamente. Na verdade, você nunca tinha deixado o meu lado. Embora ainda não conseguisse enxergar você, mesmo que na catedral a luz fosse normal, filtrada pelas altas janelas. Comecei a entender que você e eu não éramos tão distintos, nem estávamos separados. Talvez você não estivesse a meu lado, mas dentro de mim, e por isso não conseguia te enxergar, porque estava procurando enxergar fora o que estava dentro&#8230; Não sei bem porque te chamei, talvez por não ter mais o que fazer ali naquela catedral de comidas, tendo me fartado. Você me convidava a prosseguir, e quando começávamos a caminhar o chão da catedral sob nossos pés, que parecia de pedra, dissipava-se como um nevoeiro, e nós estávamos descendo pela escada novamente, para dentro da caverna. Eu hesitava, com medo de deixar a catedral e a comida para trás, lembrando como era horrível sentir-me faminto. Você me encorajava a seguir, com um sorriso, que eu sentia mais do que enxergava, já que você permanecia invisível. Era impressionante descer dentro do ar, pisando nos degraus invisíveis. Tinha medo de cair, sentia vertigem. E você me acalmava. Quando chegávamos ao solo da caverna, você se encaminhava para fora da coluna de luz, e eu gritava que não, que era um erro, que não devíamos voltar para a escuridão! Você tomava minha mão e me conduzia. Que pavor senti, ao reentrar na escuridão. Olhe lá, ouvi, mesmo sem você dizer. E enxergava uma outra coluna de luz, majestosa, uns cem metros à nossa frente, e para lá nos encaminhávamos. Com aquelas duas colunas de luz, a caverna já não era tão escura, embora continuasse vastíssima, sem limites visíveis. E parecia que tínhamos ficado molhados da primeira coluna de luz, pois nós mesmos passáramos a emitir um tanto de luminosidade, de tal forma que caminhar na caverna já não era tão assustador. Deixamos uma torre de luz em direção à outra, caminhando muito devagar, mas sem hesitação. Adentramos o segundo espaço de luz, e de novo você nos conduziu escada acima, embora eu não enxergasse escada alguma. Eu tinha de vencer o medo a cada degrau, e esta escada parecia bem mais alta do que a outra&#8230; Uma vez mais, o teto da caverna abriu-se sobre nossas cabeças, e desta entramos num jardim maravilhoso, com árvores frutíferas e muitas flores, regatos, pássaros, muito sol&#8230; Eu já não sentia fome, mas as frutas pareciam se oferecer a mim, de tão coloridas, superfícies brilhantes como se tivessem sido polidas, refletindo a luz, adoráveis, macias, sedutoras. Tive a impressão de que todas as frutas estavam plenamente maduras e as flores todas completamente abertas. Estava inebriado pelos perfumes, pelas cores. Sentia o conforto do sol acariciando minha pele, e com um arrepio também uma brisa a envolver-me. Ouvia com perfeita clareza, como se usasse fones de ouvido, o som dos galhos agitando-se, do vôo dos pássaros e seus cantos, o regato murmurando&#8230;</p>
<p>Theo fez uma pausa longa. Talvez, como eu, desse conta do jardim em que nós estávamos, não muito distinto e menos distante do que seu jardim de sonhos, e da poça de luz em meio às sombras na qual nos encontrávamos, nos cubos de concreto por entre a vegetação como antes na caverna. Encarei-o, esperando pela continuação do sonho. Ele sorriu &#8212; Então o seu telefone tocou, e eu acordei – e finalmente riu, esparramando-se sobre o banco.</p>
<p>Theo queria a minha interpretação do sonho, já que sentia que eu era co-criador por diversas razões – além de estar nele, tinha acontecido em minha casa e “sob os eflúvios da minha meditação”.</p>
<p>&#8211; Sabe o que me lembrou? Ainda durante a sua narração&#8230; <em>The teachings on the Four Nutriments of the Mind</em>. A catedral dos alimentos, o jardim das impressões dos sentidos, e se o meu telefone não tivesse tocado, quem sabe onde você encontraria a sua volição, e ao fim ter algum insight de acesso à sua consciência&#8230; – mas Theo não conhecia estes ensinamentos do qual Thây havia falado tantas vezes em nossos retiros, e preferi assegurar que lhe enviaria o link para uma palestra a tentar dar algum outro esclarecimento, sempre precários da minha parte.</p>
<p><a href="http://commons.wikimedia.org/wiki/Cistercian_architecture" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-531" title="16- abadia constrast" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/16-abadia-constrast.jpg?w=460&#038;h=345" alt="16- abadia constrast" width="460" height="345" /></a><br />
No espaço aberto quando Theo em seguida recolheu-se a si mesmo, aproveitei para liberar a imagem de um sonho de muito tempo atrás, que súbito retornava. Vinha da época do início do namoro com Felipe, e portanto muito apropriado para este jardim. Depois de uma fila de mulheres, Felipe tinha sido o primeiro homem a vencer barreiras que eu reputava intransponíveis – até então, e com bastante agressividade, mandava embora qualquer carteiro, e à sua correspondência, acreditando que haviam errado de endereço – ou antes, de gênero. A insistência de Felipe, cuja aproximação e permanência a meu lado fora proporcionada por um projeto interdisciplinar entre nossas faculdades – eu em Arquitetura, ele em Engenharia &#8211;, tinha sido uma tremenda libertação, talvez a primeira e mais importante numa seqüência delas, quando eu ainda nem sonhava em manter qualquer prática espiritual. Ou melhor, à época eu só sonhava – e no meu sonho, calcado tanto numa cena de <em>O céu que nos protege </em>de Bertolucci, quanto numa semana em que percorrera a pé de mochila nas costas as rotas de Meteora, visitando cada um dos mosteiros impressionantemente construídos sobre os abismos das altas pedras, às vezes dormindo em bosques ao longo das estradas ou ao sopé dos dedos escarpados; no meu sonho encontrava-me à beira dum platô altíssimo, do qual podia enxergar uma planície desértica, vasta a perder de vista. A única coisa distinguindo-se de toda a areia era uma majestosa catedral, que eu sabia ser uma abadia cisterciense simplesmente por ser o meu estilo preferido, erguendo-se desafiadora e presunçosamente sólida e um tanto arrogante – como eu mesmo. Observava a <em>Catedral no Deserto</em> (assim aprendera a chamar aquele sonho) com grande contentamento – auto-enfatuação seria mais o sentimento – até que de repente ela ruía, ou implodia. Mas não havia estrondo, e não sobravam pedras quando desabava por completo – e no espaço que havia ocupado, erguendo-se no ar, continuava a distinguir-se o perfil perfeito da catedral, desenhado nos mínimos detalhes pela poeira que durante todos os anos havia assentado em suas superfícies, externas e internas. Divisava perfeitamente os pórticos, os frontões, os picos das torres, e também o altar, as colunatas – tudo finíssima e sutilmente desenhado no ar, mas sem densidade senão a da poeira, sem volume senão o traçado das linhas. A catedral de poeira e luz, onde antes estivera a de pedras. Não me lembro de susto ao assistir a catedral desabar, como se estivesse esperando por isso, nem me lembro de surpresa ao observa-la como um desenho de poeira suspenso no ar do deserto. Foi um sonho breve, e não me lembro se depois acrescentei detalhes, pois a ele voltei muitas vezes, tendo tornado a catedral de poeira praticamente indestrutível, sobrevivente de tempestades de vento e chuva, terremotos e incêndios que a lambiam mas não carcomiam, desafiavam mas não abalavam, cada vez mais sutil e portanto inatingível. Esse sonho representava a liberdade que conquistei através do meu relacionamento com Felipe, e de épocas em épocas retornava a ele como símbolo do meu perene processo de desconstrução.</p>
<p>O celular de Theo arrancou-nos de nossos bancos como ilhas de cismas – Tá bom, já vou sair – e numa seqüência aflitiva de sonho induzido por calmantes químicos ou dum torpor alcoólico, sem perceber bem como vi-me de repente na calçada em frente ao prédio de Aquiles – e simplesmente não agüentei a visão de Theo com o rapaz jovem e bonito com quem ele passara a noite anterior, o Philippe afinal. A eminência de meu amigo virar-se para mim e me dispensar para ir com o outro rapaz fez-me agir com brusquidão e quase rispidez, acreditando que, ao anunciar Já vou indo e me afastando pressuroso, estivesse agindo em legítima defesa. Dois minutos depois, passo após passo chafurdando no Inferno da minha rejeição, pisando em meus próprios calos com pés esfolados &#8212; uma chicotada em minha auto-comiseração, os freios da bicicleta de Theo estalaram junto a mim.<br />
&#8211; Por que você fez isso?<br />
&#8211; Fiz o quê?<br />
&#8211; Saiu correndo assim&#8230; – Theo tinha razão, provavelmente eu me pusera a correr sem nem me dar conta, pois percebi-me ofegante quando respondi:<br />
&#8211; Imaginei que você fosse querer ficar conversando mais tempo com o seu amigo&#8230;<br />
De repente, Theo jogou a bicicleta à minha frente, barrando meu caminho.<br />
&#8211; Quem foi que te machucou tanto para você agir assim? – ele procurava entender, e sua voz soava intencionalmente doce.<br />
&#8211; Ah, Theo&#8230; – era uma percepção profunda para um rapaz dessa idade, e senti-me agradecido por ver-me assim percebido, mas por despeito não quis reconhecer, e com desânimo desconversei  &#8212; &#8230;agora não&#8230;<br />
&#8211; Você achou que eu ia sair com o Philippe e te largar sozinho? – meu amigo tinha a prática de ser direto, da qual eu tanto fugia.<br />
&#8211; Eu nem sei quem é o Philippe&#8230; – mas desisti de fazer-me de desentendido e continuar tentando contornar meu próprio sofrimento – É, foi isso mesmo! Achei que você fosse com ele – e de ímpeto, já que estava num jorro insincero e forçado de sinceridade – Posso saber o que vocês combinaram?</p>
<p>&#8211; Nada. Não pretendo mais vê-lo – Theo encarou-me – Parece que ele continua aí com você, mas eu já larguei dele faz tempo&#8230; Na verdade, desde ontem à noite não pensei mais nele. E foi só por conta das chaves que tornei a revê-lo.</p>
<p>Lembrei-me da expressão do outro rapaz ao descer do carro e caminhar numa nuvem de admiração, expectativa e desejo até Theo – Acho que ele ficou pensando em você&#8230;<br />
&#8211; É. Ele me disse isso mesmo! Terá sido porque eu vomitei no quarto dele, depois que nós transamos? – Theo riu, e fez uma careta de nojo – Mas acho que ele se enganou comigo&#8230; – estava finalmente aborrecido – Ele devia ter ficado pensando em você, já que você fica pensando nele&#8230;<br />
&#8211; Desculpe, Theo.<br />
&#8211; Você se lembra do que te disse lá no meu apartamento, quando você falou do seu desejo por mim?<br />
&#8211; Acho que sim.<br />
&#8211; Acha? Quer que eu repita?<br />
&#8211; Você disse que não sentia desejo por mim – e como com o olhar, aceso e verdíssimo sob a lâmpada de segurança do prédio junto ao qual havíamos parado, ele me desafiasse a continuar – mas que talvez sentisse amor por mim – ele continuou a me instigar – E admiração, respeito.<br />
&#8211; E o que mais eu disse, ao nascente?<br />
&#8211; <em>Se quiser me amar, se puder</em>&#8230; – tinha as palavras gravadas em mim &#8212; <em>Você é bem-vindo e já é retribuído</em> – falei com muita emoção, minha voz tremendo.</p>
<p>&#8211; Não foi um arroubo de poesia, Andante – ele encolheu os ombros, à sua maneira tímida, na tentativa de ser menor, menos denso, menos belo e menos desejável talvez – Não sei mais o que dizer. Se você sente muito desejo por mim&#8230; Se você quiser transar comigo, isso não é problema. Transar para mim não é problema – surpreendi-me diante daquela liberdade que eu não conseguia ter &#8212; Dizer que não sinto desejo por você foi&#8230; inábil. É que sinto mais do que isso. Também sinto desejo. Você é um homem bonito. Mas meu irmão e meu pai também eram bonitos e eu não sentia desejo por eles – em seguida, fez um gesto de desdém com a mão, tão característico de alguns países europeus &#8212; E mesmo sem desejo, podemos transar, se você quiser. Já transei com homens e mulheres só porque eles me desejavam – pensei em Lissa, e sua intuição de que Theo era garoto de programa. O deus adolescente descia do pedestal e encarnava como ator pornô, com enorme experiência, de longa carreira. Ou talvez fosse um mentiroso compulsivo. Em minha confusão, pensei se deveria ter receio dele? &#8212; Para mim não é complicado. E também não é importante.</p>
<p>Depois viria a saber que uma fase de voracidade e experimentação sexual – na qual ele se encontrava ainda, embora arrefecida – tinha se seguido à tentativa de suicídio. Nada surpreendente – após o doloroso fracasso em anular-se, tentava agora abusar do dom de sua beleza esplêndida, sacrificando-a levianamente, ainda manifestando a revolta pela morte do irmão, a incompreensão que o levava algumas vezes a sentir desprezo pela própria vida, imerso na dor.  Mas àquela noite, ainda mal tocando Theo na superfície, apenas encarei-o desconfiado, julgando sua sinceridade pornográfica. A mente tem meandros, ou talvez sejam as tais sinapses, e das profundezas da minha brotou uma cena de <em>Shirley Valentine</em>, em que o amante grego esclarece à dona de casa britânica, numa demonstração de filosofia pós-moderna, que <em>Love is love, f”ck is f”ck</em>&#8230; – e pude finalmente rir de toda a nossa cena de rua. Meu jovem amigo não poderia ser mais claro, direto e seco – e nada poderia ser mais benéfico para mim.</p>
<p>&#8211; Desculpe, Theo.<br />
Sem dizer nada, ele se debruçou desde o selim da bicicleta e abraçou-me, e retribui o abraço, longamente, sem defesas, sem mágoas, sem ressentimentos, e grato pelo enfrentamento proposto por ele, que trazia esclarecimento.<br />
&#8211; Já te disse isso uma vez. Sinto que no Brasil as coisas não são às claras, e isso me angustia. Preciso que você esteja tranqüilo com a minha presença para eu poder estar bem na sua companhia.<br />
&#8211; Obrigado, Theo. De verdade. A sua clareza é a minha clareza.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/86631991@N00/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-533" title="SombrasAvignonVeloburn" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/sombrasavignonveloburn.jpg?w=459&#038;h=669" alt="SombrasAvignonVeloburn" width="459" height="669" /></a></p>
<p>Empolgado com minha reação, Theo propôs um <em>gioco</em> para substituir nossa meditação caminhando, já que ele voltaria de bicicleta – pensou que poderíamos esclarecer o que mais houvesse emperrado ou estivesse obscuro na nossa amizade, e a forma como imaginou foi um de nós escolher um assunto difícil, conversarmos brevemente e então nos separaríamos, pois eu continuaria caminhando e ele faria o percurso de bicicleta ao redor da quadra, na direção inversa à qual eu estava indo, de maneira a vir ao meu encontro novamente.</p>
<p>&#8211; Então você começa – convidei. Era um idéia criativa e não muito diferente do processo de <em>Beginning Anew</em> que tínhamos lá no mosteiro, que no entanto ele desconhecia. Preferi não palpitar para não impor regras – o importante, dentro do que eu tinha aprendido, era trazer às claras mal-entendidos e ressentimentos no intuito de resolve-los e ultrapassa-los, e não no de requentar e remoê-los e, acima de tudo, dentro de espírito de amorosidade, compreensão e abertura – o que sem dúvidas nós dois tínhamos.</p>
<p>Até hoje, conheci pouquíssimas pessoas – e adolescentes só outros dois, ambos de 19 anos e noviços lá no mosteiro &#8212; com a profundidade de penetração de Theo, e com tal comprometimento no chamado “caminho espiritual” &#8212; ou simplesmente com “a prática”, como eu preferia, sem os excessos interpretativos que normalmente se associam às tais “coisas espirituais”. A prática na prática – e a proposta de Theo era perfeitamente prática para ser posta imediatamente em prática.</p>
<p>Ele escolheu um assunto do qual já tínhamos tratado, mas que ainda o incomodava – a leviandade com que eu havia tratado sua sinceridade, interesse e empenho no caminho, da primeira vez em que havíamos nos encontrado. <em>Você é tão jovem para querer ter um mestre espiritual</em>&#8230; era um abismo que continuava a abrir-se entre nós, no coração de Theo, que se sentira e continuava a sentir desprezado, desdenhado. E finalmente compreendi – minha grosseria podia ter botado tudo a perder, se não fosse o rapaz maravilhoso à minha frente, e sua insistência e honestidade em querer minha companhia e assistência – se tivesse retribuído a arrogância e presunção com que o tratei de maneira equivalente, provavelmente os últimos dias não teriam decorrido e sem dúvida não estaríamos agora na companhia um do outro. Eu o teria abandonado – eu, que temia o abandono! As conseqüências nefandas das minhas palavras descuidadas – quantas, ao longo de toda a vida! &#8212; abateram-se sobre mim, e no abraço que se seguiu ao meu sincero pedido de desculpas que não era uma justificativa, senti que com Theo estava no caminho da compreensão e da cura em relação a toda a história Andante.</p>
<p>Em seguida, Theo desapareceu, e pus-me a caminhar sozinho. <em>Inspirando, expirando, inspirando, expirando</em>. Se for descrever minha caminhada, todos os pensamentos, emoções e sensações que surgiram, às quais identifiquei e liberei de volta no espaço da consciência, ao invés de agarra-las e desenvolve-las – bom, não chegaremos nunca ao fim deste domingo, nem ao fim desta quadra. Bem antes da esquina, Theo passou como um bólido com seu incrível sorriso arremessado na minha direção – com um pouco de incompreensão, pensara que ele bem poderia ir empurrando a bicicleta a meu lado, e eu mesmo me ofereceria para conduzi-la, já que tinha escolhido permanecer em minha companhia, mas demorei a perceber &#8212; ou ainda não o conhecia tão bem, nem convivesse amiúde com adolescentes &#8211;, que a um período de grande quietude como o que tivéramos no jardim, costumava-se seguir algum extravasamento da energia contida, e assim ele passou por mim voando de bicicleta, e acelerando, para voltar a encontrar-me à esquina, antes de cruzarmos para a próxima quadra e para outro tema.</p>
<p>&#8211; Agora é a sua vez – disse-me, ofegante. Aproveitei o tempo que ele levou para recuperar o fôlego e a concentração para ouvir-me, e deixei vir à tona qual seria o mal-entendido separando-me dele. Sem que fizesse qualquer pesquisa intelectual ou emocional, o que me veio foi Theo cantando, quando da primeira vez propus que compartilhássemos, após o chá, e foi o que mencionei. Para minha surpresa, ele próprio reagindo à surpresa de saber que um episódio ao qual não dera a menor relevância pudesse incomodar-me tanto, ali à esquina, cantou novamente a canção, talvez mais doce e tranquilamente, ou então por não ter minha carga emocional aposta, julguei-a enfim apropriada e mesmo bela, assim como a voz dele, num <em>falsetto</em> que viria a saber:</p>
<p>&#8211; <em>And if I&#8217;m gonna talk&#8230; I just wanna talk&#8230; Please don&#8217;t interrupt&#8230; Just sit back and listen&#8230; Cause I can&#8217;t face the evening straight&#8230; And you can offer me escape&#8230; Houses move and houses speak&#8230;  If you take me then you&#8217;ll get relief&#8230; relief, relief, relief, relief</em>&#8230; – a canção era <em>Last Flowers</em>, e ele tentava cantar no mesmo tom do Thom Yorke, do Radiohead, e nesse esforço revelava-se muito afinado e quase se transfigurava, os olhos fechados ou olhando para dentro, tornado ainda mais belo cantando, coisa que eu não pudera perceber da primeira vez – Desculpe – e com outro abraço nos separamos, cada qual para desfrutar à sua maneira daquela quadra, da noite, dos passos, da bicicleta, do jogo, da cura, da amizade, do amor, do ar, da lua, da existência &#8212; da consciência.</p>
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			<media:title type="html">SombrasAvignonVeloburn</media:title>
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		<title>Trecho XV &#8211; Tread softly (Sarabande)</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 08:05:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trecho XV]]></category>
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		<description><![CDATA[Neste mundo, quando não nos queremos mal, amamo-nos todos Italo Svevo Leia O diário dos dias extraordinários completo acessando o índice disponível no cabeçalho acima. Obrigado, desfrute! &#8211; Nossa! A Noviça Rebelde está de volta! Mesmo de costas para a porta de entrada, reconheci o sarcasmo endereçado a mim na voz rouca de Ralph recém-chegado, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=475&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>Neste mundo,<br />
quando não nos queremos mal,<br />
amamo-nos todos</em></p>
<p style="text-align:right;">Italo Svevo</p>
<p style="text-align:left;">Leia <strong>O diário dos dias extraordinários</strong> completo</p>
<p style="text-align:left;">acessando o <a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/indice/" target="_self">índice</a> disponível no cabeçalho acima.</p>
<p>Obrigado, desfrute!</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/11/15/trecho-xv-tread-softly-sarabande/"><img src="http://img.youtube.com/vi/kS8hCuDXLiU/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p>&#8211; Nossa! A Noviça Rebelde está de volta!</p>
<p>Mesmo de costas para a porta de entrada, reconheci o sarcasmo endereçado a mim na voz rouca de Ralph recém-chegado, e observei a formação mental que me impedia de esperar qualquer gentileza sua aumentando um tanto mais, no que julguei ser outra grosseria da parte dele&#8230; Mas com Theo a meu lado, sentia-me fortalecido, e a exclamação com que me saudava depois de mais de um ano sem ver-me não me melindrou.</p>
<p>Theo havia voltado a ligar, perguntando se poderia ver-me àquela noite, tendo se dado conta de que eu iria trabalhar no dia seguinte e um simples telefonema não era agradecimento suficiente por meu cuidado e acolhida – Fico feliz se puder te dar um abraço – então combinei de encontra-lo quando ele chegasse ao prédio de Aquiles, o que seria minha deixa para ir-me embora da festa espontânea onde me encontrara como numa câmara de tortura – mas ao contrário, Aquiles insistiu para que Theo subisse quando este tocou o interfone avisando-me para descer. Só ao deparar-se com Theo percebi o quanto Aquiles estava com a vista realmente reduzida, pois como um cego aproximou-se tanto do rosto do rapaz que parecia ia lambe-lo, e depois pediu permissão para tateá-lo, meu jovem amigo rendendo-se com boa vontade e gentileza a nosso anfitrião, que afinal e surpreendentemente sussurrou – Meus queridos&#8230; Enxergar tão pouco neste mundo atualmente tão feio tem sido uma benção, mas às vezes ainda me ocorre de lamentar por ter perdido a vista, como agora&#8230; – não esperava tamanha sinceridade de Aquiles, dirigida somente a mim e meu jovem amigo, mas depois voltando-se para todos os presentes &#8212; Antínoo renasceu, e está entre nós! – ao anúncio retumbante, Theo fez sua entrada triunfal nos braços de Aquiles em nossa reunião de domingo. Permaneceu sempre ao meu lado. Lembrei-me da igreja, e de novo senti que ele parecia não se importar com todos os olhares voltados na sua direção, ainda que o alvejassem com uma confusão de energias, avidez, lascívia, curiosidade, talvez inveja, uma boa dose de agressividade, desconfiança – Theo parecia encapado e protegido, muito centrado e certo de si mesmo nessas ocasiões. Como ele me diria depois, percebia que as pessoas o olhavam com uma carga emocional e de julgamento tão grande, mas sem ultrapassarem sua superfície e aparência, que ele se sentia afinal invisível, intangível, inviolável, sereno e secreto no olho do furacão.</p>
<p>&#8211; Como você está? – retruquei a Ralph, que estava lá para nos desafiar e testar, o antepenúltimo conviva a chegar do total de doze homens que perfariam aquela reunião. Tentei ser educado sem parecer condescendente, seco sem ser brusco, mas os olhos de Ralph já tinham recaído sobre Theo, e sem poder com palavras ou outros sinais precaver daquilo que certamente se abateria sobre o meu jovem amigo, dei-lhe um inacreditável e intencionalmente dolorido beliscão, que então olhou-me completamente surpreso, bufando, murchando a meio caminho o sorriso encantador e inocente que ia desfechar desavisado sobre Ralph, enquanto ouvia:</p>
<p>&#8211; <em>Me</em> Jane&#8230; – Ralph estendeu a mão para Theo beijar, com a atitude de uma <em>drag queen</em> que imitasse a rainha da Inglaterra &#8212;  <em>You</em> Tarzan. Mas também posso ser o Boy&#8230; O que você quiser! – Senti Theo rapidamente retesar-se a meu lado, passando da postura relaxada, aberta e delicada que normalmente tinha, como se o mundo lhe sorrisse sempre, para estar em guarda, como eu tinha pretendido com o beliscão. Talvez com isso tenha tirado a Theo suas melhores armas, a imensa doçura, sinceridade de atenção e perfeita educação que desarmavam qualquer um, quem sabe até Ralph, que no entanto viu-se diante de uma banca examinadora hostil e procurou esmerar-se em sua ironia – A medalha de ouro olímpica é sua, né? – dirigia-se a mim, com perspicácia e muita propriedade criticando minha longa e conhecida carreira de pavão branco e consumidor exibicionista de belos homens e mulheres, enquanto ao mesmo tempo menosprezava Theo, em sua exímia maldade – É o que as garotas bem comportadas recebem lá no convento? Oh! A Erin Brockovich também veio! – exclamou, afastando-se na direção de Helio, que devia levar essa pecha por ser presidente de uma ONG.</p>
<p>Não tive tempo de conversar com Theo para justificar meu beliscão, pois o celular dele tocou e vi-o afastar-se para o canto escuro e vazio do terraço, falando em Italiano. Abençoei Fedora pelo <em>timing</em> perfeito. Fiquei algum tempo no <em>bardo</em> da falta de companhia e assunto, tendo perdido Theo e virando-me para o grupo mais próximo, sem na verdade querer participar da conversa sobre os diversos filmes assistidos naquele final de semana, nenhum deles digno de receber mais de um ou dois minutos de comentários, somente observando meu amigo ao telefone, para quem me encaminhei quando o vi desligar.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-476" title="white peacock contrast" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/white-peacock-contrast.jpg?w=460&#038;h=368" alt="white peacock contrast" width="460" height="368" /></p>
<p>Theo voltara-se para a noite, dando as costas à festa improvisada. Aproximei-me dele com um arrepio de prazer, confesso, vendo-o vestido com minhas roupas. Encostado à grade, ele tinha fechado os olhos, e decidi fazer o mesmo, imobilizando-me a seu lado, retornando à minha respiração. <em>Inspirando, expirando. Inspirando, expirando</em>. Era sempre bom, como era bom! Prestei atenção à batida do meu coração, que foi desacelerando, aos pensamentos e emoções em ebulição arrefecendo – mas não fui muito longe, e comecei a rir quando senti Theo retribuir-me o beliscão.<br />
&#8211; Por que você fez isso? – ele ria também. Expliquei minha intenção, ao que Theo perguntou – O seu amigo é sempre assim?</p>
<p>Sai-me com um horrendo – Coitado&#8230; &#8212; e ao invés de tentar esclarecer que, com exceção de Aquiles ninguém mais ali era meu amigo, embora conhecesse a maioria há muitos anos, contei-lhe de uma ocasião lá no mosteiro, poucos dias antes da minha partida, quando ao entrar numa sala, um monge conhecido meu, coordenador de trabalho à época, tinha caminhado na minha direção, mirando-me nos olhos, e desferido um tapa tão forte no meu ombro que quase perdi o equilíbrio. Não mais o vi depois disso, e nunca pude esclarecer sua intenção, mas pareceu-me que com aquele tapa ele colocou-me numa postura alerta e defensiva para o que iria em seguida ocorrer – os monges seniores estavam reunidos naquela sala, e passaram a criticar-me duramente por não ter dado conta de atribuições que sequer sabia serem minhas, no tempo em que eu fizera parte do chamado <em>Guest Team</em>, do qual era já o último remanescente, também eu de partida. Não posso afirmar que o monge coordenador do trabalho, tendo antes sido duramente criticado por minhas supostas faltas, desse-me um tapa para vingar-se de mim, pois isso era impensável em nossa prática monástica &#8212; então ocorreu-me que, ao ver-me adentrar a sala com um enorme sorriso franco, sentindo-me doce e sereno depois de um passeio de despedida em companhia de um dos meus melhores amigos para assistir a um poente magnífico, encontrava-me num estado de suave contentamento e abertura &#8212; e no meu entendimento, o monge que muitas vezes me apoiara e até protegera, tinha com o tapa tentado despertar-me e pôr-me em guarda para o massacre da serra elétrica zen que se seguiria.  Ao fim, surpreendeu-me a pergunta de Theo, que parecia seguir raciocínios muito próprios que serviam para me desarmar:</p>
<p>&#8211; Você pensou a mesma coisa quando me viu à sua porta? Coitado&#8230;</p>
<p>Como a pergunta viesse do meu mestre de honestidade, relatei todas as emoções por que passara ao encontra-lo dormindo sobre o meu capacho, sem esconder minha contrariedade, meu asco, a culpa por ter cancelado o almoço com Lissa, sem ocultar nada da minha vivência da onda de Amor, embora não mencionando minha conversa com o passarinho, nem com a senhorinha e seu cachorrinho. Todo o tempo, às nossas costas, identificava claramente a voz contraditoriamente rouquenha porém estridente de Ralph, competindo com o ribombar constante de Aquiles – entretanto, a atenção dedicada de Theo às minhas palavras colocou-me não só num estado de concentração e relaxamento, mas permitiu que um pouco daquela bondade amorosa voltasse a me envolver, sem poder distinguir se era uma reminiscência ou se emanava da presença do deus adolescente à minha frente, que abria um “buraco cósmico” para uma partilha amorosa em plena festa barulhenta.</p>
<p>Theo fez silêncio ao final do meu relato das horas que tínhamos passado juntos porém separados, como ele definira, e de novo virou o corpo, que estivera voltado e inclinado para mim, em direção à noite lá fora. Senti-me valorizado, tão feliz de estar em sua companhia, quando o observei pensativo, absorvendo minha vivência e pesando minhas palavras enquanto olhava a lua cheia. Sem voltar-se na minha direção, pois eu mesmo me pusera a assistir o <em>ballet </em>da lua e alguns fiapos de nuvens pelo céu, ele perguntou:</p>
<p>&#8211; O que você acha que possa ser o amor para a lua?</p>
<p>Morro de susto mas não morro de tédio na tua companhia, pensei mas não disse &#8212; Você tem razão, Theo. Não tem nenhum amor, para a lua. Amor é só um nome, uma idéia, um conceito para expressar uma vivência. O que é a compaixão, para a vastidão de estrelas? Acontece que amor e compaixão talvez sejam os sentimentos mais nobres que possamos cultivar como seres humanos, e é isso o que o amor é. Um presente para a nossa consciência, embora não só. Uma idéia nobilíssima que talvez te inspire a uma prática tanto mais nobre porque, se efetiva, vai beneficiar-te e a todos os demais seres, inclusive a lua, que talvez fique isenta de tentarmos explodi-la, passando a realizar nossos testes atômicos lá, ou por avidez e desespero coloniza-la e fazer dela o lixo que fizemos da Terra. Ou talvez, através do amor, possamos um dia coloniza-la pacificamente, ordenadamente, beneficamente&#8230; Mas você tem razão, tudo isso são idéias ideais. Será que o amor pode ser comunicado ao universo? Eu tenho a impressão que sim, de que o universo é amor, então não há nada a comunicar, somente por escutar&#8230; Mas a lua não deve sentir nenhum amor&#8230; porque não há um pensamento de amor que a lua possa ter&#8230; até porque a lua não passa de uma idéia também&#8230;</p>
<p>&#8211; Você está dizendo que a lua não existe? Que ela é só uma idéia?</p>
<p>&#8211; Estou dizendo as duas coisas que você disse, mas numa só: A lua só existe como idéia.</p>
<p>&#8211; Então eu estou olhando para uma idéia? Aquilo não é a lua?</p>
<p>&#8211; Theo&#8230; Aquilo que você enxerga como lua não é por si mesma a lua. Nesse sentido, não há nenhuma lua. É a sua idéia de lua que torna aquele pedaço de rocha flutuando lá no espaço a lua. A lua não é lua em si mesma. Ou você acha que ela tem uma certidão de nascimento que diz: lua&#8230; – em meio à balburdia da festa, naquele instante ouvi claramente, lá do outro lado do terraço, um cubo de gelo partir-se, dentro de um copo de uísque e da minha consciência &#8212; Nem podemos dizer que ela é um pedaço de rocha flutuando no espaço, pois pedaço, rocha, flutuar e espaço são um encadeamento de idéias somente&#8230;</p>
<p>&#8211; A lua é só uma idéia&#8230; – Theo estava incrédulo.</p>
<p>&#8211; Não, Theo. Ela é o que é. É o que é. Ponto. Olhe bem&#8230; Você acha que ela está cheia hoje? Mas quando foi que ela esteve vazia?</p>
<p>&#8211; Ela está cheia de luz! – ele parecia desapontado comigo.</p>
<p><a href="http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2008/08/19/a-lua.html" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-480" title="macaco e lua contraste hard light" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/11/macaco-e-lua-contraste-hard-light.jpg?w=460&#038;h=860" alt="macaco e lua contraste hard light" width="460" height="860" /></a></p>
<p>Olhei ao redor em busca de socorro, descobrindo em Theo um bom argumentador, que não oprimia, não brigava, não era agressivo – ao contrário, cedia-me o espaço.</p>
<p>&#8211; Aquilo ali, Theo, o que é?<br />
&#8211; Andante, você não vai me convencer que aquilo ali não é uma mesa&#8230; Ou que mesa é somente uma idéia&#8230;<br />
&#8211; Porque chamamos aquilo de mesa não significa que aquilo seja mesa por si mesma.<br />
&#8211; É claro que sim! Ela foi criada para ser mesa, e não pode ser nenhuma coisa além de mesa.<br />
&#8211; Você pode usar uma mesa com funções que não sejam de mesa&#8230;<br />
&#8212; Claro, você pode se sentar sobre ela, mas isso não faz dela uma cadeira.</p>
<p>&#8211; Theo&#8230; Como você acha que um cupim enxerga a mesa? Como mesa ou um delicioso banquete? Na verdade, nem mesmo como comida, e gostosa ou não, pois não acredito que um cupim tenha esse conceito de alimento&#8230; Ele simplesmente a come, como é da sua natureza. Para uma galinha, aquela mesa é um poleiro, embora poleiro seja um conceito também, outra idéia, assim como a de galinha&#8230; Para uma mosca, é um campo de pouso, embora não haja campo nenhum, nem o pousar, nem mosca ou a classificação de inseto&#8230; &#8212; via a impaciência de Theo aumentar, mas como nas regras do compartilhar que eu tanto prezava, ele me esperava terminar &#8212; Para uma criança, a mesa seria uma cabana&#8230;</p>
<p>&#8211; Nós não somos cupins nem galinhas nem crianças&#8230;</p>
<p>&#8211; Eu sei, Theo, embora uma parte de nós contenha galinhas, crianças e até mesmo cupins&#8230; Os cupins não são cupins, nem as galinhas são galinhas, nem crianças são crianças, portanto cada coisa pode ser o que é, e receber os nomes que lhes damos. Alguma vez na vida você já se deparou com algum objeto que não tinha a menor idéia do que era?</p>
<p>&#8211;  <em>Un dé à coudre </em>– Theo lembrou-se, depois de ter refletido com uma seriedade que me comoveu &#8212; Como se diz em Português? Um dedal&#8230; Achei que fosse um copinho minúsculo para se tomar algum remédio muito poderoso&#8230;<br />
&#8211; E como você ficou sabendo que era um dedal?<br />
&#8211; Minha avó. Estava remexendo nas coisas dela.<br />
&#8211; E quando ela te disse dedal, você entendeu de imediato do que se tratava ou ela precisou demonstrar para você?  &#8212; Theo confirmou, e com um gesto me fez imaginar a avó dele costurando &#8212; E no entanto, como você disse valer para a mesa, o dedal tinha sido fabricado com a intenção de ser dedal desde o início, então como é que você não percebeu o que ele era logo de saída?</p>
<p>&#8211; Porque um dedal não é um dedal? &#8212; Theo experimentou &#8212; Porque o dedal só existe como idéia de dedal?</p>
<p>&#8211; O que é muito importante, fundamental mesmo, para podermos nos comunicar. Se você me dissesse <em>un dé à coudre</em> fora deste contexto, porque falo pouco Francês eu não teria idéia do que é. <em>Ter idéia</em> do que é, é só o que <em>temos</em>. Mas não podemos, ou não precisamos, nos deixar aprisionar pelas idéias. Nem pelas idéias de amor ou de lua. Muita gente vive infeliz e insatisfeita por conta da sua própria idéia estreita do que seja amor. E o amor, seja como idéia ou prática, é tão vasto e todo inclusivo&#8230; <em>Todas as coisas são iluminadas e nos iluminam de volta</em>&#8230; Todas as coisas são livres em sua natureza, e existem para nos libertar&#8230; A liberação vem de todos os lados&#8230; A iluminação nos é dada por todas as coisas&#8230; A vida, Theo, é uma celebração da liberdade, não um réquiem na prisão&#8230; Eu acho isso, eu quero viver assim&#8230; – e ao coro altíssimo de gargalhadas a comando de Ralph, convidei Theo – O que você acha de nos libertarmos disto aqui?</p>
<p>Talvez tenha sido o momento errado para bater em retirada, tendo falado a Theo sobre a liberdade que havia <em>em</em> todas as coisas, e a possibilidade de encontrar-se livre <em>nelas</em>, inclusive numa situação como aquela festa barulhenta &#8212; o que constituía a verdadeira liberdade a meu entender, e não a liberdade apenas relativa que há em se livrar das coisas, como ao afastar-se de uma situação ou pessoa desagradável. A popularidade de Ralph estava no auge, a qual viemos interromper e diminuir com o anúncio de nossa partida. Houve um pequeno coro de decepção em resposta a nossa ida, talvez mais em relação a Theo do que a mim, pensei, e dentro do espírito leviano do momento um amigo exclamou que ainda queria saber da vida no convento, se havia sexo às escondidas, e outro, maliciosamente compreensivo comentou que no meu caso não sairia mais de casa &#8212; nem da cama mais ele sairia – referindo-se à companhia de Theo.</p>
<p>&#8211; Se eu fosse ser monja, não sairia de casa na companhia do Tarzan por medo de parecer ridícula&#8230; – isso veio de Ralph – Ainda mais depois de velha&#8230;</p>
<p>Foi tolice reagir. Identifiquei a raiva quando era ainda um súbito inchar do coração, que se alastrou pelo corpo como um calor e tremor, depois identifiquei a agressão a Theo e a mim nas mesmas palavras, como era da habilidade de Ralph, e sem querer praticar com elas pensando que eram só um som, sem sentido se estivessem sendo ditas numa outra língua, <em>un dé à coudre</em>, e que não podiam nem deviam me atingir a não ser que eu desse poder e sentido a elas&#8230; Em seguida ao meu discurso sobre idéias, perdi todas as minhas chances de permanecer centrado, mesmo com todos os alarmes da plena consciência ligados, e disse, secretamente muito mais para mim mesmo do que para Ralph, mas para todos ouvirem:</p>
<p>&#8211; É muito conveniente enxergar o mundo como se fosse uma janela, e ficar atirando pedras nela. Acontece que o mundo é um espelho, e as pedras acertam você mesmo, e você está desfigurando a sua própria imagem&#8230;</p>
<p>&#8211; Nossa, eeeeeeu faço isso? Que coisa maaaaaais profunda! Eu não seria capaz! – e dirigindo-se a Theo, que tinha cochichado Vamos embora em meu ouvido, tomando-me o braço – Como é que o Tarzan chama a Madre Superiora? De tia?</p>
<p>Estava trêmulo e decepcionado comigo mesmo, no auge do meu inferno de identificar-me com a idéia do meu pobre ego atingido e manchado, machucado e danificado, e Theo pareceu sentir minha fraqueza, meu cansaço e desânimo, pois veio em meu socorro. Grudando às minhas costas, passou um  braço pelo meu peito e outro pelo meu ventre, suave porém dominador, e retrucou desafiador &#8212; Chamo de meu amor&#8230; – senti-me enrubescer, não sem um enorme prazer, ao ouvir aquilo dito diante daquela audiência, enganchado naquele abraço de editorial de moda &#8212; Você sabe o que é isso? Você já teve isso? &#8212; em sucessivos recortes de realidade, Theo e Ralph encaravam-se, e a platéia encarava Theo ou Ralph, e eu encarava a platéia, na qual estava Ralph &#8212; Porque será que eu tenho a impressão de que você não conhece isso? Acho que porque você é tão incoveniente, e não tem respeito nenhum pelas pessoas – senti o coração acelerado de Theo contra meu ombro, e o calor do inferno da raiva e frustração em que ele ardia emanando de seu corpo, os músculos retesados, o ar quente de suas palavras ríspidas roçando meu ouvido. Era sofrido e era sensual. Fiz uma carícia lenta em seu antebraço poderoso, tentando acalma-lo, não sem desfrutar daquele nosso primeiro abraço mais íntimo, dentro do qual me sentia tão pequeno e dominado, um pouco envergonhado, mas também irmanado ao meu querido amigo &#8212; Desculpem se fui grosseiro&#8230; – Theo voltava a ser o príncipe que eu conhecia, dirigindo-se à dez pessoas ao nosso redor, porém reservando para o agressor, a quem encarou &#8212; Me sinto péssimo, rebaixando-me ao seu nível&#8230; – e como Ralph parecesse se preparar para retrucar, Theo sibilou – Se você me chamar de Tarzan de novo, eu te arrebento!</p>
<p>Ralph não disse nada, mas fez um trejeito como se estivesse excitado diante da possibilidade de Theo agredi-lo, e tive certeza de que procurava qualquer coisa horrenda para a provocação final, e o que achou foi &#8212; Eu só queria saber o tamanho&#8230;  – por um instante, pareceu dar-se conta do estrago que pretendia, mas com uma careta descartou qualquer culpa, e apesar de estar por volta dos cinqüenta anos de idade como a maioria ali, comportando-se feito um adolescente e comprando a rinha &#8212; &#8230;e a grossura do cipó com que você vai me bater&#8230;</p>
<div id="attachment_484" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><a href="http://www.webislam.com/?idv=491" target="_blank"><img class="size-full wp-image-484" title="elgransilencio2 contrast" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/11/elgransilencio2-contrast.jpg?w=450&#038;h=300" alt="elgransilencio2 contrast" width="450" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">clique para assistir o documentário O Grande Silêncio completo e gratuito</p></div>
<p style="text-align:center;">
<p>Começou como um som estranho, quase um soluço. Ainda em cima das palavras de Ralph, Guido murmurou alguma coisa confusa e praticamente inaudível, mas as três pessoas mais próximas viraram-se para ele diante da surpresa de ouvi-lo manifestar-se, e ele enfim ocupou o espaço &#8212; Cala essa boca, Ralph! Senão eu vou embora também – manifestava-se pela primeira vez durante toda a reunião, falando sem olhar ninguém – E não venho mais, quando souber que você vai estar aqui – Guido falava com calma, embora a voz dele tremesse, talvez pelo fato de que raramente fosse ouvida fora de sua própria mente, e soava mais volumosa e muito mais alta do que de costume, tornando-o inseguro. As palavras dele, apesar de mais educadas, tinham assim uma força inédita, e impuseram a toda a roda um silêncio mais pesado do que as palavras mais ríspidas de Theo. Ele foi direto – Quem tem que ir embora é você, Ralph.</p>
<p>Algumas pessoas entreolharam-se, enquanto no silêncio fez-se perfeitamente reconhecível a frase <em>La tisi non le accorda che poche ore</em>, da <em>La Traviata</em>. Finalmente, Aquiles levantou-se e com sua voz impôs-se. Ele sabia o que ninguém mais naquela sala sabia ainda – que o pai de Ralph, com quem nosso amigo nervoso dividia uma vida atribulada e o mesmo e pequeno apartamento, tinha sido internado naquele fim-de-semana e seria submetido a uma cirurgia de alto risco na manhã seguinte. A mãe, com quem ao contrário do pai, Ralph tivera um relacionamento excelente, tinha falecido no ano passado – isto eu também não sabia, pois estivera viajando. Sem irmãos ou outros parentes no Brasil, era provavelmente demasiado para Ralph ver-se na eminência de perder todo o seu núcleo familiar, e sem saber como lidar com o próprio medo e desespero, a agressividade era sua reação impensada – e agora estou me justificando, pois gostaria de ter tido mais compaixão e empatia com ele do que simplesmente tratá-lo como um exercício de aceitação e paciência, no qual saíra derrotado. Mesmo Theo, depois, iria mudar de atitude em relação a ele, compadecido, compreensivo e irmanado em sua perda, envolvendo-o num abraço longo e sincero durante o velório do pai de Ralph – e em outra ocasião pedindo-lhe perdão, assim como quando o ofendera, em alto e bom som e diante de muitas pessoas.</p>
<p>Aquiles levantou-se e com sua voz impôs-se. Ele adorava declamar, e nunca mais ouvi o <em>I Juca Pirama</em> soar tão maravilhoso, vivaz, emocionante, como durante uma certa noite naquela cobertura – tendo se tornado <em>Meninos, eu vi</em>! um de seus bordões preferidos &#8212; mas o que improvisou, em meio a nosso silêncio incômodo, foi mais para suavizar-nos todos, sem a mesma carga trágica dos trechos escolhidos do <em>Pirama</em>, apenas expressando dúvida e desesperança, e como se pedisse clemência, com voz macia e intencionalmente trêmula, declamou o tratado de paz para todos os seres delicadíssimos que somos, vivendo com nossa pele pelo avesso e em carne viva, medos e expectativas como feridas expostas, humildemente contando para sobreviver com uma irrestrita gentileza alheia e talvez a sorte de uma crença ou fé, a gentil fantasia de um amor ideal correndo como sangue por nossas veias, pedindo para não ser machucado, Aquiles transfigurado declamou, em perfeito Inglês para quem pudesse entender, com tão perfeita emoção que tornava-se impraticável não sentir sua interpretação de Yeats:</p>
<p><em>Had I the heavens&#8217; embroidered cloths,<br />
Enwrought with golden and silver light,<br />
The blue and the dim and the dark cloths<br />
Of night and light and the half-light,<br />
I would spread the cloths under your feet:<br />
But I, being poor, have only my dreams;<br />
I have spread my dreams under your feet;<br />
Tread softly because you tread on my dreams.</em></p>
<p>Menos de uma semana de convivência, mas já havia aprendido que os abraços de Theo eram loquazes &#8212; e vi que gostara sinceramente de Aquiles quando com enlevo o envolveu à despedida, como confirmou durante nossa descida no elevador – O seu amigo é maravilhoso! – disse, com a admiração veemente e sonhadora de quem se pegava diante de uma longa estrada rumo a um horizonte amplíssimo, os primeiros passos do menino de 19 anos referindo-se ao homem de setenta anos que já a tinha em grande parte percorrido – e onde Lissa talvez enxergasse um complô, a descoberta de um cliente <em>premium</em> para o garoto de programa ávido, pensei que Theo julgava Aquiles com olhos humanistas, e assim o coroava de êxito. Andante, Theo, Aquiles, Lissa – pareceu-me que o êxito ou fracasso de nossas histórias residia em nossos próprios julgamentos, em relação a nós mesmos, às outras pessoas e a todas as coisas. Tudo, todo o tempo, era uma encruzilhada, diante da qual fazíamos uma escolha, a cada segundo frente a uma nova encruzilhada, fosse outra pessoa ou situação, e a nós próprios, nossas emoções e pensamentos e sensações, encruzilhada após encruzilhada com a escolha correspondente encaminhando-nos para o paraíso ou o inferno, a todo momento, para serem vivenciados <em>aqui e agora mesmo</em>. De uma intricada rede de encruzilhadas diante das quais continuamente optávamos, constituía-se o caminho que percorríamos – e assim, de seu caminho como uma seqüência de encruzilhadas seguidas,  constituía-se cada pessoa &#8212; Lissa, Aquiles, Andante e esse menino maravilhoso, a quem observava com gratidão e admiração pelo espelho do elevador, com nome de Deus.</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/11/15/trecho-xv-tread-softly-sarabande/"><img src="http://img.youtube.com/vi/-8SDM10wjZ0/2.jpg" alt="" /></a></span>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/475/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=475&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Trecho XIV &#8211; Há Amor (Sirènes)</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Nov 2009 09:18:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trecho XIV]]></category>
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		<category><![CDATA[amor]]></category>
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		<category><![CDATA[Santa Teresa D'Ávila]]></category>
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		<category><![CDATA[Terra Pura]]></category>

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		<description><![CDATA[Pensar que hemos de entrar en el cielo, y no entrar en nosotros&#8230; es desatino. Santa Teresa D&#8217;Ávila Leia O diário dos dias extraordinários completo acessando o índice disponível no cabeçalho acima. Obrigado, desfrute! Como amar mais? Como amar tudo? Como amar por completo? Como amar o bastante? Como amar até o que não consigo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=464&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>Pensar que hemos de entrar en el cielo,<br />
y no entrar en nosotros&#8230; es desatino</em>.</p>
<p style="text-align:right;">Santa Teresa D&#8217;Ávila</p>
<p style="text-align:left;">Leia <strong>O diário dos dias extraordinários</strong> completo</p>
<p style="text-align:left;">acessando o <a href="../indice/" target="_self">índice</a> disponível no cabeçalho acima.</p>
<p>Obrigado, desfrute!</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/11/05/trecho-xiv-ha-amor/"><img src="http://img.youtube.com/vi/nf1WFP7PxgQ/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p>Como amar mais?<br />
Como amar tudo?<br />
Como amar por completo?<br />
Como amar o bastante?<br />
Como amar até o que não consigo amar?<br />
Com estas perguntas, sentei-me para meditar, colocando o <em>zafu</em> no corredor, entre a porta do escritório e ali onde Theo dormia sobre a colchonete.</p>
<p>Na superfície do lago havia marulhas, agitadas por um vento leve. Inspirando, expirando. Encontrava-me num estado bastante distinto daquela manhã. <em>Inspirando, expirando.</em> Apesar de ter meditado antes de dormir, ainda acordara com alguma angústia pelo aparente abandono a que Theo me relegara, sem jamais ter me convidado para sair com ele e os amigos à noite, nem que fosse por educação –  mas a educação de quem,  do meu avô quatrocentão ou de um jovem <em>cool </em>francês? – pois afinal eu não cogitava passar pelo ridículo de sair com a trupe adolescente&#8230;Pensamento, reconheci – mas não fui capaz de larga-los. <em>Inspirando, expirando</em>. Ainda acalentara a percepção de perda – agora anulada por seu pedido de refúgio, como passara a interpretar, seguindo o raciocínio de Verena, tendo vindo dormir à minha porta, mesmo que fosse para não se esborrachar na escadaria rumo à cobertura, e a um pedido de Fedora. Parecia-me surpreendente que desse menos importância à inclusão cada vez mais intensa que eu ia tendo na história dele, a participação da morte do irmão amado e sua tentativa de suicídio, do que uma balada&#8230; seria por ter sabido através do Joshua que ele tinha saído com outro cara? Pensamento, reconheci, e quebrei esta cadeia. <em>Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando</em>. Ocorreu-me que Lissa estaria decepcionada comigo, e como compensa-la? Como desculpar-me com ela? Pensamento. <em>Inspirando, expirando</em> – recomecei. Verena tinha muito mais razões para estar verdadeiramente ofendida comigo, o meu sumiço por meses. E no entanto, diversamente de Lissa, ela parecia relevar isso&#8230; Pensamento. Julgamento – deslindei, liberando. <em>Inspirando, expirando. Inspirando, expirando</em>. Como um rádio – a Rádio Mente &#8212; a que tinha de desligar muitas e muitas vezes, já que ele ligava automaticamente. Automática Mente. E surgindo como se fosse um espetáculo inédito, o tema nunca suficientemente explorado, tragando-me mais fundo &#8212; a culpa. Suficiente Mente? Como ainda podia querer assisti-lo? Como ainda encontrava interesse? Desta vez, inovado o espetáculo sempre repetido, vi Gustavo sorrindo. Ocorreu-me que me lembrara diversas vezes dele no mosteiro, pois entre meus amigos mais queridos estava um polonês que era discípulo (póstumo) de Osho. Ele já havia estado em diversos centro de prática, inclusive no de Pune, que era o sonho de Gustavo. E apesar de não ter conseguido sentir qualquer apreço ou aceitação por este afamado senhor a quem eu sequer reputava mestre, através do amor e admiração que sentira por meu amigo tinha ao menos reduzido o asco e aversão ao indiano, o que me trouxera certa liberação. Na companhia do polonês recordava do meu afilhado, assim fundindo a afeição que por ambos sentia, e cultivando-a numa escalada que só se interrompeu com a partida do meu amigo. E a morte de Gustavo? Como interrompia o afeto que eu sentia por ele? Pensamento. <em>Inspirando, expirando. Inspirando, expirando.</em> Então ocorreu-me tocar aquele sentimento novamente, mergulhando em águas mais profundas – ou finalmente emergindo, não sei descrever a sensação &#8212; afilhado e afeto eram sinônimos, e no mesmo espaço onde navegara a culpa, agora surfava na afeição, no amor verdadeiro &#8212; espaçoso, inclusivo.</p>
<p>Quando foi que comecei a visualizar o meu prédio? Quando foi que novamente senti o milagre de estar ali sentado não somente sobre o <em>zafu </em>lindamente confeccionado mas no meio do céu, pendurado muitos andares acima do solo graças à engenhosidade humana, e a muito trabalho árduo? A gratidão dominou-me. E me vi mentalmente visitando as fundações do prédio, e não sei bem como nem porquê visualizando-as feitas de Amor, reconhecendo o trabalho nelas, a sabedoria nelas, a solidez, a confiança&#8230; Percebi aquela outra cadeia de pensamentos, mas como não me pareceu nociva, deixei que se desenvolvesse para ver a que lugares me levaria&#8230; Senti que havia uma forte energia de Amor, da qual eu não era o centro mas da qual participava como&#8230; dínamo? Das fundações do Amor parti para a garagem do subsolo, com as dependências para funcionários, todos os carros estacionados, as bicicletas, os armários, fechaduras, cadeados&#8230; Madeira como Amor, borracha como Amor, metal como Amor&#8230; Minha visita inundou a garagem de uma água aerada, dourada, cintilante, levíssima&#8230; Amor. Havia uma família chegando de carro &#8212; assim vi ou visualizei &#8211;, e envolvi-os em bem estar, delicadeza, harmonia. Amor. Depois de ter percorrido todos os cantos da garagem, subi ao andar térreo&#8230; Ou não fui eu, pois não havia eu, mas a onda de Amor na qual me encontrava, diluído, cintilante, vaporizado naquela espécie de ar aquoso e dourado como um nevoeiro mais denso atravessado por um esplendoroso nascente, que se estabelecia desde as fundações do prédio e os poços dos elevadores, preenchendo toda a garagem e agora espalhando-se pelo térreo, inundando os jardins, a guarita dos seguranças, a casa do zelador e de novo, quando cada canto encontrava-se pleno de luz dourada, e as próprias paredes não eram feitas de outra essência que não fosse Amor, a escalada prosseguiu para os dois apartamentos do primeiro andar, que a onda visitou desde a frente até os fundos, de uma ponta a outra, envolvendo todos os objetos e seres com Amor, Amor, Amor&#8230; Pleno e satisfeito o primeiro andar, a onda subiu para o segundo, e uma vez preenchido, para o terceiro, e assim por diante, cada vez mais densa, mais brilhante e intensa  – passou pelo meu andar, pelo meu próprio apartamento e o do vizinho, e em seguida o dos gêmeos acima, e depois ainda para o alto, até a cobertura da família de Theo, e o próprio salão de festas onde ele morava&#8230; Amor. Das fundações ao topo o prédio estava inteiramente preenchido todos os cantos em todos os aspectos todos os materiais e elementos visíveis e invisíveis manifestando Amor a onda era tão forte encontrando tanto espaço e avançando tão naturalmente e sem resistência que uma vez tendo inundado todo o prédio senti que ela vertia por sobre os muros dos jardins suspensos de Theo e como uma vertiginosa cascata luminosa para a avenida a água dourada não apenas lavando todos os transeuntes e carros que por ali passavam mas repintando-os da cor do Amor da matéria do amor de tal forma que os carros correndo com seus motoristas e passageiros iam levando o Amor para outros cantos da cidade eles próprios mensageiros e arautos do Amor tornados Amor e quanto mais carros passavam e alguns deles entravam no prédio uns saiam outros estacionavam e os elevadores funcionavam para cima e para baixo e quanto mais as pessoas e os cães e os gatos se movimentavam por quartos e corredores quanto mais me dava conta de toda a miríade de insetos as formigas e seus caminhos silenciosos os cupins e suas moradas secretas e tanto mais o Amor se intensificava tanto mais ele se expandia não mais somente como uma majestosa e poderosa cascata dourada desde a cobertura mas a partir de todas as janelas do meu prédio que como centenas de faróis emitiam fachos de luz dourada em todas as direções fachos cada vez mais fortes o Amor alcançando os outros edifícios também pelo poços dos elevadores pelas fundações o Amor tendo se infiltrado no subsolo da cidade e pelas tubulações pelo lençol freático fluindo e espalhando-se mais rapidamente&#8230;</p>
<p><a href="http://www.aleksandravasovic.com/goldenroom.htm" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-471" title="Vasovic Golden room" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/11/vasovic.jpg?w=460&#038;h=328" alt="Vasovic Golden room" width="460" height="328" /></a></p>
<p>Não estive cochilando.<br />
Nem estava alucinando.<br />
Permanecia imóvel no <em>zafu</em>, consciente da minha respiração, e de uma certa expansão&#8230; Houve enfim o momento em que algo me fez compreender que eu não estava criando uma onda de Amor e com ela inundando todas as coisas&#8230; Pois não havia nenhum criador. Havia um mero observador, que de repente se deu conta – ao reconhecer que todas as coisas já eram Amor, quer se dessem conta disso ou não. Foi o refluxo da onda. Num instante, o caminho que seguia espalhando-se pela cidade e por todos os seres, para fora, expandindo-se, percebeu que era o mesmo e um só caminho de volta&#8230; O caminho se deu conta, não o caminhante, de que ele era de ida e volta. O Amor se deu conta. Vou e volto sem ter de ir nem voltar, pois sou o próprio caminho, o caminho inteiro. Estou no começo, estou no fim, estou em todo e cada lugar. O rio não precisa chegar ao mar. A nascente não precisa correr, pois lá na outra ponta ela já toca o mar – apenas que recebe um outro nome, o de estuário&#8230; Mas o rio é um só, da nascente ao estuário, o caminho unindo as pontas, e não separando-as. Constituindo o próprio rio. O caminho também, subindo ou descendo, indo ou vindo – é só uma impressão, a de direção. E a onda que refluiu não precisou de fato refluir – ainda assim, senti o Amor de todas as coisas confluindo em mim, como uma retribuição, um reconhecimento&#8230; Não era preciso colocar Amor em todas as coisas, posto que Amor elas já eram, ainda que não soubessem disso, ainda que não se reconhecem Amor&#8230; A tremenda violência do filme exibido na televisão – quando quem assistia se desse conta do milagre que era ter olhos, e poder enxergar naquele momento&#8230; O casal que se agredia, sem dar-se conta da maravilha de manifestar palavras, da energia que os animava a gritarem, talvez até a se baterem – se tivessem consciência do milagre das próprias vozes, tão mal empregadas, da energia em seus movimentos, tão mal conduzida&#8230;  Apenas porque não reconheciam o Amor, não o viviam. Mas ele estava lá sempre, sustentando o momento, a vida de cada ser. Sendo Amor só um nome. Assim como a camiseta que eu usava – linha, tecido, algodão, camponeses, tecelães, patrões e operários, famílias, alimento, agricultura, chuva, sol, transporte, poeira, telhados, vento, joaninhas, petróleo, cimento, foguetes, injeções – abrigando todos os elementos, camiseta era só um outro nome para o Amor que me envolvia naquele momento. O <em>zafu</em> debaixo de mim. Os tacos do corredor. O ar, dentro e fora de mim, sem que dentro nem fora fossem possíveis de distinguir. A buzina da moto, à distância – e no entanto, bem dentro de mim assim como o zumbido do elevador, o vento na janela, o ressonar de Theo – dentro de mim, todos. Um cheiro úmido no ar – dentro de mim. A coceira em minha coxa esquerda, entre tantas coisas que constituíam a minha existência naquele momento – não só a minha experiência, mas a própria existência, naquele momento. E o coração, súbito tão alto, tão próximo, tão vivo, tão presente&#8230; Tantas condições permitindo a minha existência naquele momento, tão maravilhosas, tão infinitas, tão misteriosas, sem poderem estar próximas nem distantes, sem poderem estar dentro nem fora &#8212; o ar em meus ouvidos e em minhas narinas ilimitado com o ar de todo o universo, os cometas e estrelas cintilando no universo da minha consciência –, as coisas perdiam seus nomes particulares para se reunirem sob Amor&#8230;</p>
<p>Era uma vivência, não era uma idéia; uma experiência, não uma teoria; não uma descoberta, mas uma confirmação – e portanto, a verdade que no instinto e na intuição há, inexplicáveis, irredutíveis à pobre razão.</p>
<p>Era uma libertação, aquela nova experiência de Amor. Não havia mais que pensar nele como o amorzinho que tinha de vir de papai senão seria um muxoxo, a afeição de mamãe senão seria um chorinho, o reconhecimento do namoradinho senão seria uma ofensa, a estima da namoradinha senão seria a insegurança, a aceitação do patrão senão seria o medo, a aprovação do vizinho senão seria a antipatia – que por sua vez estavam esperando o amorzinho de papai e mamãe que por sua vez estavam esperando-o de&#8230; Basta. <em> Amor está presente e disponível em todas as coisas</em>&#8230; Todas? Assassinatos, estupros, guerras&#8230; Naquele instante, pareceu-me que bastava o caçador reconhecer a maravilha do momento &#8212; ainda que fosse o momento de puxar o gatilho, o olhar na mira &#8211;, ao entrar em contato com seus próprios olhos, ouvidos, a imensa destreza nos dedos, braços, mãos, e os pulmões, o coração – se ele pudesse se dar conta das condições infindas e maravilhosas que se reuniam naquele momento para torna-lo possível, e também ao outro ser que ele pretendia matar, se por um segundo se deparasse com o milagre não menos do que grandioso, poderoso, intenso, avassalador, da vida presente em cada mínimo, ínfimo, prosaico segundo – ele não mataria, ele não estupraria, ele evitaria todo o mal, e provavelmente se poria de joelhos. Pensamento. <em>Inspirando, expirando. Inspirando, expirando</em>. Percebi que já havia deixado o reino onde há pouco estivera, onde tudo era Amor, porque assim eu queria a tudo chamar, sem distinções. Amor? Já distinguia – morte, vida, começo, fim, bom, ruim, caçador, caça, arma, e eu não era nenhum deles, mas um outro ainda. <em>Inspirando, expirando. Inspirando, expirando</em>.</p>
<p>Abri os olhos. Começava a escurecer. Encontrava-me novamente naquele módulo de alta definição de sensação e percepção, e em todas as coisas havia uma espécie de halo. <em>Todas as coisas são iluminadas, e nos iluminam de volta</em>. E apesar de escuro, ficou claro &#8212; não há iluminação nenhuma a obter. Apenas reconhecer. Não há que criar. Apenas experienciar. Ainda que seja por um momento, tocar o que está sempre lá, disponível.</p>
<p>Aquiles aguardando-me. Aproximei-me de Theo. Nem esparramado nem encolhido. Nem entorpecido nem retraído. Pareceu-me pacífico. Liguei para meu amigo. A voz muita baixa. Ele baixou a voz também. Desculpe, estou atrasado. Mas você vem? Posso deixar o seu telefone com meu vizinho que está passando mal? O que aconteceu com ele? Posso? Lógico que sim! Então daqui a pouco estou de saída. Escrevi um bilhete para Theo. Espero que você esteja bem ao acordar. Obrigado por confiar em mim. A Fedora e o Joshua ligaram. Falei com eles. Desliguei seu celular antes de a bateria acabar. Eles querem que você ligue quando acordar. Sua mãe também. Eu também. Vou estar na casa de um amigo, e o telefone de lá é. Não pude esperar você acordar. Passamos o dia inteiro juntos. Embora você não vá se lembrar. Obrigado por estar aqui. Fique com as chaves do meu apartamento para você. Com Amor. Andante.</p>
<p><em>If we meet again&#8230; I´ll tell you how I feel&#8230; I´ll tell you from the start&#8230; I´ll tell you love is real&#8230; How everything we say&#8230; And everything we do&#8230; Has been preordained&#8230; To bring true love to you</em>&#8230; &#8212; diante da luz do computador redivivo dei-me conta do meu estado; quando a tela ofuscou-me, pisquei e senti vertigem e surpresa, pois com sua luz trazia-me as usinas hidroelétricas, rios, reservatórios, relâmpagos, chuvas, tempestades, cabos, postes, engenharia, engenhosidade, estudos, empenho, toda a história, memória e sobrevivência da humanidade. <em>Nothing else is pure&#8230; Nothing else is right&#8230; You will know for sure&#8230; Once you´ve seen the light</em>&#8230; &#8212; a luz elétrica atingiu-me como a um cometa, explodindo em minha consciência. Alcançaram-me milhares de trabalhadores, a noção de um contínuo empenho, cuidado e esforço através da corrente elétrica, como uma comunicação de Amor – e percebi-me emocionado com coisa tão cotidiana,  lágrimas nos olhos diante de um aparelho eletrônico&#8230; Pensei que seria impossível viver assim, naquele estado de Amor confirmado até pela canção &#8212;  ou por aquela voz que saindo do computador adentrava minha mente e me comunicava Amor só porque eu havia aprendido um outro idioma, graças a meus pais, professores, escritores, cineastas, e meu próprio interesse e empenho &#8211;, mas que talvez eu tivesse de aprender a viver assim, já que aquele passava a ser o meu caminho, irreversível. Amor.  <em>If we meet again… I´ll tell you how I feel… I´ll tell you love is real</em>… &#8212; cantarolei, fechando a porta com um último olhar na direção de Theo.</p>
<p><a href="http://newberryworkshop.com/Tutorial/trans2/trans2.html" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-472" title="icarus multiply" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/11/icarus-multiply.jpg?w=255&#038;h=516" alt="icarus multiply" width="255" height="516" /></a></p>
<p>O porteiro retribuiu-me o cumprimento, sorridente, e à saída o segurança somente acenou, sempre precavido, profissionalmente retraído. A primeira quadra que caminhei, das sete ou oito que me separavam do edifício de Aquiles, foi um tremendo susto. Aos primeiros passos na calçada seqüestrou-me o ruído e a visão do vôo iridiscente de um besouro cruzando o espaço à minha frente em câmera lenta até pousar na borda de cimento coberta de lima do canteiro do prédio vizinho onde amarílis e agapantos explodiram em cores brilhantes intricados recortes arranjos exuberantes diante dos meus olhos no módulo de alta definição em que me encontrava as nuvens de chuva que escureciam o céu foram se dissipando e o final de tarde repentinamente revelou-se ensolarado os pássaros pareciam dispostos a comemorar a desistência da tormenta ouvi um trinado vigoroso e virtuoso logo acima da minha cabeça e enxerguei o passarinho pousado no resedá junto a mim <em>ti-tiu&#8230; ti-tiu-tiu</em> cantou mais uma vez resolvi responder com <em>Amor&#8230; Amor-Amor</em>&#8230; e logo em seguida me arrependendo imaginando que o passarinho iria voar assustado diante do meu canto tão desafinado e em nada parecido com o dele a não ser na tentativa de tom e melodia para minha surpresa ele girou a cabecinha e voltou a piar <em>ti-tiu-tiu&#8230; ti-ti-ti-tiu</em>&#8230; e eu insisti no meu piado de <em>Amor-Amor-Amor</em> talvez um pouco mais delicado descobri que o passarinho desejava brincar e respondeu-me&#8230; <em>ti-ti-ti-tiu</em>&#8230; por um instante somente escutei para ter certeza de que não havia algum outro pássaro ao qual ele estivesse correspondendo e que eu ainda não houvesse identificado <em>ti-tiu</em> ele pareceu-me perguntar e <em>Amor-amor</em> eu respondi assim ficamos ao resedá conversando animadamente até lembrar-me que já estava atrasado para a casa de Aquiles despedi-me agradecido com um <em>Amor-Amor-Amor</em> doce e sorridente e sai caminhando pelo canto do olho enxerguei o passarinho voar até o resedá seguinte dois metros à minha frente e de lá de novo endereçar-me <em>ti-ti-ti-tiu</em>&#8230; fiquei imaginando se o passarinho teria me identificado como a origem do canto que respondia e por isso me seguira <em>Amor-amor&#8230; A-mor&#8230; A-mor</em>&#8230; cantei lentamente mais suavemente e me aproximei da arvorezinha o passarinho animou-se e discursou <em>Ti-tiu&#8230; ti-tiu-tiu&#8230; Ti-ti-ti-tiu&#8230; Ti-tiu</em>! <em>A-mor&#8230; A-mor&#8230; A-mor&#8230; A-mor</em>&#8230; empolguei-me e assim continuamos &#8212; só nos separamos quando um carro encostou ao portão da garagem mais próxima e buzinou, espantando o passarinho num vôo espavorido, acelerando meu coração. Será possível, pensei, ou estou ficando louco?</p>
<p>Na esquina, esperei o semáforo para pedestres abrir mais porque aquilo me dava a chance de parar e voltar-me à minha respiração, tentando acalmar um pouco o estado inebriado e emocional no qual que encontrava. Mas meu olhar em alta definição não se pacificou diante do vento do fim de tarde agitando os galhos da verdíssima figueira do outro lado da calçada, como um maestro em pleno <em>allegro molto vivace, apassionato e con brio</em>, enquanto por entre a copa abrindo e fechando-se eu entrevia as nuvens afastando-se no mesmo ritmo vigoroso&#8230; Todos os movimentos claramente perceptíveis, as folhas intensamente brilhantes, os galhos agitados estalando como que espreguiçando-se, e as folhas lambendo-se umas às outras com um chiado voluptuoso. Pensei que era impossível viver daquela maneira, tocado por todas as coisas continuamente, e procurei fechar os olhos. Com isso perdi o semáforo para pedestres, que voltou a ficar vermelho – embora, de fato, não houvesse carro algum naquela tarde de domingo, àquela esquina. Procurei manter o olhar baixo, concentrando-me na minha respiração, buscando vigiar os sentidos. Mas fui assaltado pela visão surpreendentemente gloriosa da passagem de um avião refletido no vidro traseiro do carro estacionado bem ao meu lado – e enfim soltei uma risada.</p>
<p>Lembrei-me do conselho que no mosteiro havia recebido do Venerável, quando até um pouco assustado havia lhe contado sobre aquele módulo de percepção em alta definição no qual incorria algumas vezes. Os super-sentidos, <em>siddhis</em> como ele os chamara, ocorriam a algumas pessoas logo no início da prática. E não deviam tornar-se um problema, a não ser que eu escolhesse torna-los um problema – apegando-me a eles, dando-lhes importância,  desenvolvendo-os, e assim retardando meu progresso verdadeiro, na clareza mental que de fato importava. Se ficava atordoado por ouvir os sons vindos de todos os cantos dos dois andares da casa onde residia no mosteiro, se me incomodava ouvir claramente as confidências não dirigidas a mim, compartilhadas em sussurros no fim do corredor &#8212; eu podia escolher ouvir mas não entender, prestando atenção ao som porém não ao sentido. Não havia um problema se eu não criasse um problema.</p>
<p>Soltei outra risada – e o cachorrinho que viera cheirar minha perna latiu, mirando-me com olhinhos desconfiados. Os mesmos olhos miúdos e um pouco úmidos de sua dona, a senhorinha que chegou alguns segundos depois, vinda da outra ponta da coleira, e que olhou-me igualmente desconfiada – mas não latiu, apesar de ser do clã da gente cã. Além da coleira, segurava as abas de um casaquinho de tricô azul que o vento tentava abrir, e o cabelo branquíssimo cuidadosamente armado que o mesmo vento tentava despentear. Convidei-a a atravessar, quando o semáforo mudou para verde, e mostrando-se muito surpresa com o meu gesto de porteiro da rua, apressou o passo.</p>
<p>Na outra calçada, vi-me envolto pela figueira que já havia chamado minha atenção, a qual lançou um galho à minha frente, interceptando minha caminhada, e quando estanquei, baixou outro diretamente sobre a minha cabeça, a folhagem trêmula cutucando minha nuca. Ri de novo, envolto pelo verde, imerso em folhas e farfalhar de folhas, seiva e poeira. Esperei até a árvore – e o vento &#8212; me liberarem, erguendo novamente seus galhos, redemoinhos, silêncio, e segui em frente. Cumprimentei a senhorinha que me olhava ainda desconfiada.</p>
<p>&#8211; Boa tarde – minha voz saiu triunfante, e sorri com exagero. Esfuziante foi a palavra que me ocorreu quando observei o meu estado de espírito.<br />
&#8211; Boa tarde&#8230;? – ela respondeu, hesitante, egressa de um mundo totalmente diferente do meu, e apesar de eu já ter me afastado, preocupado em não assusta-la ainda mais com meus modos exuberantes, acrescentou – O senhor parece muito feliz&#8230;<br />
&#8211; Eu estou! – confirmei, permanecendo a alguns metros de distância. Vi um passarinho agitar-se dentro do arbusto de espirradeira a meu lado, e pensei, por favor não comece a conversar comigo na frente desta senhora&#8230;</p>
<p>&#8211; Que bom para o senhor! – e ao dizer isso ela soou inconformada, até indignada, como se minha atitude lhe fosse ofensiva – Num mundo como o nosso&#8230; – empertigou-se, para iniciar  a tentativa de sabotagem – O senhor viu aquela menina de três anos lá do Rio que os ladrões mataram essa manhã?<br />
&#8211; A senhora a conhecia? – indaguei, com cuidado.<br />
&#8211; Claro que não. Só vi no jornal. Mas como o senhor consegue ser feliz com uma coisa dessas? E com tantos políticos corruptos lá em Brasília&#8230;</p>
<p>Ocorreu-me que não compartilhávamos a mesma tarde, não o mesmo bairro nem rua, nem a mesma calçada ou planeta, e numa súbita inspiração &#8212; A senhora ficou sabendo daquele bebê que um médico salvou da morte por asfixia&#8230; Aquele que nasceu com o cordão umbilical dando duas voltas no pescoço?<br />
&#8211; Não. Ele está bem? Onde foi?<br />
&#8211; Muito bem – assegurei-lhe, efusivamente – Ele sobreviveu, e está aqui diante da senhora – embora não pudesse afirmar que sem seqüelas, visto o meu estado atual.<br />
Ela arregalou os olhos.<br />
&#8211; Não vá até o Rio ou Brasília, senhora. Fique por aqui mesmo, e desfrute da sua tarde&#8230; – despedi-me e sai caminhando, mas não resisti a um impulso do qual depois me arrependi, por parecer-me doutrinador e excessivo, voltando-me para dizer-lhe &#8212; E se puder, desfrute desse seu casaquinho azul tão bonito, que protege a senhora do vento – empolguei-me – Desfrute até do vento, que ajuda a dissipar a poluição e está afastando a tempestade – apontei para o céu, como se ela não soubesse onde buscar a evolução das nuvens &#8212; Desfrute desta tarde através dos seus olhos, com os seus ouvidos, com as pernas que levam a senhora para caminhar – e não parei, mesmo diante da expressão de incredulidade da mulher – Desfrute da companhia do seu cachorrinho tão bem cuidado&#8230; E quando chegar em casa, agradeça pelas  paredes, pela água encanada, pela energia elétrica – cãozinho e dona imóveis pareciam igualmente prestar atenção em mim, julgando-me, ou buscando fazer sentido &#8211;, pela comida&#8230; – abri os braços da maneira ampla como Theo fazia, abarcando o universo – Por que não estar contente, aqui, agora?</p>
<p>&#8211; Tome cuidado para a sua felicidade não ser atropelada na próxima esquina – exímia, a senhorinha desfechou o golpe mortal – Nem assaltada&#8230; – ministrou-me o antídoto fatal.</p>
<p>Não vou relatar o restante da minha caminhada  &#8212; a Rádio Mente tocando <em>Here is the Pure Land, the Pure Land is here&#8230; I smile in mindfulness, and dwell in the present moment&#8230; The Buddha I see in an autumn leaf, the Dharma in a floating cloud</em>&#8230; &#8212; até o prédio de Aquiles, em respeito a um amigo e leitor que pondera sobre os trechos estarem demasiado longos. De fato, ao contrário da maioria das pessoas que reclama que os dias estão cada vez mais curtos e que o tempo parece passar mais rápido, os meus parecem alongar-se, vividos intensamente, prestando atenção a cada momento, mesmo ao abrir a torneira, presente o tempo todo, inclusive escovando os dentes&#8230; Há quantas palavras atrás sai de casa? Quantas postagens está durando este domingo? Quantas mais vai durar? Não sei dizer, uma vez que a inundação do meu lavabo tem se repetido com esta narrativa, as palavras escorrendo-me dos dedos em jorros de frases e parágrafos inteiros. E não há nenhum Divino para reparar isso.</p>
<p><a href="http://montanhadourada.blogspot.com/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-473" title="path up mountain ©Zhao Yichao &amp; Zhang Mingtang  golden" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/11/path-up-mountain-c2a9zhao-yichao-zhang-mingtang-golden.jpg?w=350&#038;h=565" alt="path up mountain ©Zhao Yichao &amp; Zhang Mingtang  golden" width="350" height="565" /></a></p>
<p>Afinal, pelo caminho minha felicidade não foi atropelada nem assaltada, pois eu mesmo já tinha sido atropelado e assaltado por ela, e portanto não chegou diminuída à cobertura do meu amigo, que estava à porta para receber-me.  Antes de julga-lo abatido, envelhecido, emagrecido, deixei-me envolver por seu abraço, e procurei harmonizar-me com ele – o que não era difícil, se atentasse à trilha sonora proporcionada por Aquiles, sempre ouvindo música em alto volume, afinada com sua disposição de espírito.<br />
&#8211; Debussy. <em>Sirènes</em> – foi o máximo que reconheci, apesar de saber que aquele movimento fazia parte de algum Noturno do qual não lembrava o número, mas mesmo assim foi o suficiente para faze-lo sorrir. Era o começo da peça, e fiquei imaginando se meu amigo a teria iniciado assim que o interfone tocara ou à aproximação do elevador, numa espécie de homenagem à minha chegada, como já o assistira fazer com outras pessoas.</p>
<p>Ele confirmou, exuberante, um Odisseu triunfante com sua voz tonitruante que teria vencido todas as sereias &#8212; Abbado. O seu preferido! – Aquiles referia-se à época em que eu vivera em Berlin, durante a qual tinha freqüentado a Filarmônica, economizando em outras coisas para poder comprar os ingressos, sempre que possível assistindo-a e ao Claudio Abbado que, por alguma razão incompreensível até para mim mesmo, tinha eleito como meu maestro preferido, a partir de uma ou duas interpretações de Brahms, também o meu compositor preferido à época, se ainda me lembro&#8230; Há anos não tocava minha coleção de eruditos, e só voltava a esse mundo na companhia de Aquiles – Vou só me despedir do Nils e sou todo seu&#8230; Você nos fez falta, aqui! – e retornou ao computador para o amigo, um sueco residente nos EUA. Depois iria descobrir que Aquiles já não subia ao segundo andar da cobertura, e que aquele canto da sala abrigava uma pequena estação de trabalho que era agora o seu escritório, o qual tinha se convertido em quarto de dormir, e que durante o tempo em que eu estivera fora, uma grande reforma ampliara o lavabo tornando-o propriamente um quarto de banhos, retirando espaço à cozinha – tudo por conta dos problemas de vista que o haviam deixado praticamente cego, embora não desse mostras disso em seu próprio apartamento, onde morava há mais de 20 anos e no qual movia-se até de olhos fechados, mesmo com a recente reforma.</p>
<p>Meu amigo ainda não tinha se desvencilhado do computador, tendo pedido licença para atender apenas brevemente a um outro amigo da Holanda que o chamava pelo Skype, quando Fátima, a fiel ajudante de Aquiles desde a Antiguidade, trouxe-me o telefone, e eu soube imediatamente tratar-se de Theo – agradecendo pelo meu cuidado e pedindo desculpas pelo transtorno, já tendo falado com Fedora, Joshua e a mãe – e não fiquei triste por ser o último da lista &#8211;, dizendo-me que em outros tempos não teria tanta gente atrás dele, mas desde que ele tinha tentado o suicídio – também não me surpreendi por ele mencionar o assunto tão diretamente – sentia que tinha um monte de gente seguindo cada passo que dava&#8230; &#8212; Perdi a chave do meu apartamento&#8230; – confessou, e era esta a razão de ter me pedido abrigo, e não a promessa feita a Fedora de não subir bêbado a escadaria – e como não queria pedir a cópia aos empregados lá de casa&#8230; – ele esclareceu – Na verdade, ainda não quero fazer isso, não nestas condições&#8230; Estou nojento! Como você me agüentou? – ele riu – Será que posso tomar banho aqui na sua casa, antes de subir, e pegar emprestada uma camiseta sua?</p>
<p>Eu tinha previsto isso, e separara uma toalha e algumas roupas que o aguardavam no quarto de hóspedes, e que por receio de parecer tolo, paternal, excessivo ou desnecessário – a raiz estava em meu medo de rejeição, eu sabia melhor – não incluíra no bilhete, revelando-o somente agora, satisfeito &#8212; As chaves do apartamento também são suas. Da próxima vez você pode entrar direto&#8230; – ri, entre sentir-me magnânimo e generoso, satisfeito ao estreitar nossa intimidade e confiança – Não precisa ficar no capacho&#8230; &#8212; decepcionei-me quando em seguida ele não agradeceu efusivamente, mas foi até um pouco hesitante, e finalmente senti-me tolo, paternal, excessivo e desnecessário.</p>
<p>&#8211; Depois vou sair de bicicleta. Para queimar tudo o que bebi, e quem sabe espantar essa “lezadeira” – usou uma palavra estranha, talvez misturando lerdeza com bebedeira, e nossa conversa terminou bruscamente, quando ele precisou atender outra linha, deixando-me num estado indistinto de frustração e carência – que só iriam aumentar, quando em seguida chegaram Guido e Luciano, um casal <em>habitué</em> de Aquiles. Não fiquei surpreso, embora me sentisse decepcionado, tendo imaginado que meu amigo desejaria passar algum tempo a sós comigo, quando iríamos nos colocar a par do correr de nossas vidas durante o ano em que não nos víramos. Vendo-o abatido, envelhecido, emagrecido, esperava que ele me confidenciasse – mas também não era surpresa que preferisse a música alta, a casa cheia e a agitação de costume a encarar-me sozinho e em silêncio. Aquiles mantivera sua amizade por mim, mas a condição era que nós preservássemos uma prudente reserva de assuntos pessoais e à distância a sinceridade em relação a sentimentos, assim como ele fazia com relação a si próprio.</p>
<p>&#8211; O monge resolveu voltar para nós! Que bom! – Luciano sabia ser charmoso e sempre educado, o que a meus olhos aumentava sua beleza um pouco rude e muito masculina de tipo árabe – Nós precisamos da sua paz! Nós precisamos de pelo menos alguém em paz, né? – olhou na direção de Guido, que sempre tímido apenas sorriu, sem mostrar os dentes nem alterar a melancolia perene em seus olhos castanhos e grandes, ainda inocentes como os de um bezerro, apesar de estar beirando os cinqüenta, assim como seu companheiro.</p>
<p>Vi minha frustração aumentar à medida que começou a entrevista sobre minha vida no mosteiro. Ao contrário da prática meditativa de ouvir sem interromper, agora eu me dispunha a falar somente para ver até onde chegaria no relato que me pediam para fazer do cotidiano monástico – normalmente, não conseguia passar do sino que nos despertava às cinco da manhã&#8230; Depois de bastante polêmica e incompreensão sobre um tal horário para se iniciar o dia, a pergunta seguinte foi sobre disciplina, e antes mesmo que eu respondesse, começou-se a comentar da disciplina em um spa, que já era insuportável, imagina então num mosteiro, e o assunto derivou de spas para cirurgias estéticas e as correspondentes fofocas sobre os acréscimos ou decréscimos neste ou naquele amigo&#8230; Assisti minha frustração aumentar em meio à conversa caótica e errática – embora só eu a julgasse assim, pois de resto era normal e prosaica e estava dentro dos parâmetros de todas as conversas ansiosas, confusas, estupidificantes que normalmente era só o que se tinha ao longo dos dias e de toda uma vida – da qual só participaram Luciano e Aquiles, tendo eu me recolhido ao meu sorriso um pouco condescendente e Guido, de quem não conseguia sequer recordar-me do timbre de voz, ao seu habitual isolamento acústico. Quis crer que como eu, ele também se esforçava por assistir ao poente, para o qual toda a frente do apartamento estava voltada, inclusive o espaçoso terraço no qual nos encontrávamos. Mas talvez eu tenha sido o único a observar as nuances de cores e a mudança nas texturas das nuvens – pelo canto do olho, para não parecer totalmente desinteressado da conversa.</p>
<p>Amuadas como eu, as sereias já haviam se recolhido há muito tempo, tendo cedido a vez a um retumbante <em>Il Rigoletto</em>, ou coisa do gênero, e as bebidas alcoólicas começaram a brotar do bar quando chegaram mais dois amigos de Aquiles, num <em>crescendo</em> que galgaria a doze participantes naquela pequena reunião de domingo.</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/11/05/trecho-xiv-ha-amor/"><img src="http://img.youtube.com/vi/pmc2siTZ41Q/2.jpg" alt="" /></a></span>
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			<media:title type="html">Vasovic Golden room</media:title>
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			<media:title type="html">icarus multiply</media:title>
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			<media:title type="html">path up mountain ©Zhao Yichao &#38; Zhang Mingtang  golden</media:title>
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		<title>Trecho XIII – Nothing is real/ Love is real</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Oct 2009 10:25:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trecho XIII]]></category>
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		<description><![CDATA[Onde não há amor coloca o amor e receberá o amor. San Juan de la Cruz Leia O diário dos dias extraordinários completo acessando o índice disponível no cabeçalho acima. Obrigado, desfrute! Presente. Ainda que preenchido por percepções de perda, pela agonia do abandono, surpreendia-me praticando a plena presença. Descendo pausadamente, pé ante pé, pesava-me [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=438&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>Onde não há amor<br />
coloca o amor<br />
e receberá o amor.</em><br />
San Juan de la Cruz</p>
<p style="text-align:left;">Leia <strong>O diário dos dias extraordinários</strong> completo</p>
<p style="text-align:left;">acessando o <a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/indice/" target="_self">índice</a> disponível no cabeçalho acima.</p>
<p>Obrigado, desfrute!</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/10/25/trecho-xiii-%e2%80%93-nothing-is-real-love-is-real/"><img src="http://img.youtube.com/vi/ZGuFuMR3PPk/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p>Presente. Ainda que preenchido por percepções de perda, pela agonia do abandono, surpreendia-me praticando a plena presença. Descendo pausadamente, pé ante pé, pesava-me o coração – sendo o coração este pedaço de pensamento que penso amar, esta parte da mente que pretendo sempre privilegiar.</p>
<p>Pressentia uma noite sem poder dormir, e preferiria não passa-la sozinho. Mas não pretendia evadir-me em <em>chats</em>, ou pornografia – antes agüentar a pressão. Aguardava-me o <em>zafu</em>, ou nada, eu me auto-ameaçava.</p>
<p>Pura pretensão e quase desespero, pensar que podia prende-lo. Pois pensei pedir para ele não ir, quando o vi pronto, vestido de negro, um perfeito anjo noturno em luto profundo – chovia, como eu previra, e parecia que não ia mais parar, aquela noite. Na verdade, pretendia apenas prolongar a nossa permanência juntos, e desfrutar a presença preciosa dele.</p>
<p>Diante da porta do elevador ele parecia hesitar e pensar, mas só por um momento, dissipado pela performance potente dos quatro rapazes em celerado alvoroço dentro do elevador. Esperou-me aparecer no hall, já que eu viera descendo os degraus desde a cobertura lentamente, a cada pé perdendo o paraíso sem saber nem como nem porque e padecendo sem poder reconquista-lo &#8212; e quando eu apareci, com um sorriso ele partiu. De seu presente apressado eu já não fazia mais parte.</p>
<p>Desde que dera com a alta algazarra dos quatro amigos no hall, deixando o meu lado ele disparara degraus abaixo e num instante fora engolfado pela onda jovem de enorme excitação e abraços e confraternização que o dragou em direção ao elevador.</p>
<p>Antes de mergulharmos da noite fresca e úmida para as entranhas do prédio, sentira nosso abraço separar-nos, mais do que nos unir, esgarçando ao invés de encurtar a distância entre nós, como comumente &#8212; e antes de a porta do apartamento abrir-se para a escadaria, respondendo à campainha.</p>
<p>Em sua atitude, a paz e a pureza pareciam enterrados no passado. Observara sua troca de pele, a metamorfose num predador de <em>streetwear</em> preto satinado provavelmente proposto por alguma grife londrina alternativa, passando pela apoteose do corpo esplêndido despido sem pudor,  os trajes brancos de príncipe do Yoga pendendo já da borda da cama, onde eu permanecera estendido. Ele não precisava de perfume nem de se pentear para parecer perfeitamente bonito, bastando agitar a basta cabeleira loira para por em movimento as constelações cintilantes e os pensamentos para viajar.</p>
<p>De um pulo ele pusera a vestir-se. Como a salva de tiros não põe fim à corrida – a não ser que seja este um fugitivo, ao invés do contendor &#8212; o silêncio acolhedor em que mergulháramos ao final do filme tinha sido sacrificado pelo toque do celular. Premeditado da minha parte, já que tinha me passado pelo pensamento pronunciar algum tipo de palestra, e eu preferira silenciar &#8212; pensava ter escolhido os vídeos para o meu amigo, mas de repente parecia-me mais que explorara as possibilidades de conformar-me ao papel de <em>cover </em>de mestre zen no qual me punha Theo.</p>
<p>O filme excelente terminava por uma redenção, a grua propulsionada para o espaço, as personagens impressas contra o planeta, apaziguadas na estrada. Era tudo o que eu podia desejar para o próprio Theo. Percebera suas lágrimas pacificando ao longo da história, e uma nova paz, crença e percepção da prática pareciam ter se manifestado, proporcionadas pelas muitas falas inspiradas do mestre zen, e pela trajetória das duas personagens principais, dois irmãos – razão pela qual eu tentara dissuadi-lo dessa escolha, propondo ao invés o minimalista japonês <em>Depois da Vida</em>, tendo já descartado <em>A Vida é Iluminada</em>, arrepiando-me só de pensar na pavorosa cena final passada com a personagem do velho sobrevivente de guerra.</p>
<p>&#8211; Podemos assistir o japonês?<br />
&#8211; É o seu preferido? – Theo tinha minha seleção de três filmes nas mãos.<br />
&#8211; Não por isso. Gosto dos três, mas&#8230; como esse foi um dia difícil de se viver, de verdade&#8230; – fui sincero em minhas razões – Este tem uma cena de suicídio&#8230; E este é a história de dois irmãos – fechei os olhos, e suspirei fundo &#8212; Eu não podia prever. Errei completamente nas minhas escolhas. Me perdoa? – assumindo que tinha escolhido os filmes para exibir-me, pobre pretensioso.</p>
<p>&#8211; Mas não&#8230; Você foi clarividente! – Theo encarou-me, seriamente, absorvendo-me e absolvendo-me com seu triste olhar líquido e verde – Você adivinhou que dia é hoje, para mim, antes mesmo de eu te contar qualquer coisa&#8230; Vamos assistir este – e ele escolheu o argentino <em>Un Buda</em>.</p>
<p>Nem para nos contorcermos de rir durante as cenas da mãe em visita ao centro de retiro, eu largara a mão de Theo, que havia tomado desde as primeiras cenas mostrando os dois irmãos ainda crianças, quando ele tranqüilamente deixara as lágrimas novamente escorrerem. Diferentemente do táxi ensolarado quando também tínhamos estado de mãos dadas, desta vez, ao invés de enxergar o antebraço poderoso, os pelos loiros penteados como um campo sob sol e vento, meu olhar fixava-se no fino traço ao longo do pulso, distinguindo-o mesmo na penumbra em que nos encontrávamos &#8212; ele estivera lá, antes, em tantas outras ocasiões, mesmo na primeira vez em que no jardim eu o encontrara e com avidez acompanhara a linha do seu braço apontando para o céu &#8212; mas que com os olhos turvos de desejo, insensível, bronco, eu nunca pudera reparar.</p>
<div id="attachment_440" class="wp-caption aligncenter" style="width: 470px"><a href="http://www.webislam.com/?idv=503" target="_blank"><img class="size-full wp-image-440" title="unbuda" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/unbuda.jpg?w=460&#038;h=256" alt="clique para assistit o filme completo gratuitamente" width="460" height="256" /></a><p class="wp-caption-text">clique para assistir o filme Un Buda completo gratuitamente</p></div>
<p>&#8211; Obrigado. Obrigado por estar aqui comigo.<br />
&#8211; Obrigado você, Obrigado por estar aqui comigo.</p>
<p>Assim tínhamos encerrado o nosso abraço, selando a dolorida confissão de Theo &#8212; foi a primeira coisa que recordei, ao acordar pela manhã, e depois  repassei o restante da noite, até nossa separação com a chegada dos amigos.</p>
<p>Era domingo, e prolonguei minha permanência na cama, observando a magnólia de Lissa que já perdia o viço mas não a destacada glória de estrela do dormitório. Em lugar do <em>zazen</em> matinal, simplesmente perambulei pelo apartamento, abrindo os janelões e desfrutando dos gêmeos e cachorro e bola e tamancos e helicópteros adormecidos, ou pelo menos silenciados. Café ao invés de chá, naquele domingo. Animou-me a descoberta do <em>mat </em>de Yoga abandonado há muitos dias, e ao invés do silêncio habitual ou de alguma coletânea de mantras, deu-me vontade adentrar tanto mais a playlist E.S.T. do Theo. Mesmo ouvindo-a pela terceira vez, a primeira faixa permanecia divina, <em>From Gagarin’s point of view</em>, e eu simplesmente fiquei junto ao computador, imóvel, embevecido. A segunda faixa também não era menos que divina – como era Divino o meu encanador &#8211;, uma versão com delicada orquestra do clássico <em>Round Midnight</em>, e na terceira faixa, explorando o território desconhecido e maravilhoso de <em>Viaticum</em>, finalmente percebi que Perry Blake encontrara o seu usurpador como trilha sonora dos meus dias. Graças a Theo.</p>
<p>Foi a concentração com a qual executei a série de Saudações ao Sol que me fez distinguir &#8212; um dos sons que eu ouvia não era parte das inacreditáveis habilidades musicais do E.S.T. Completei a série e, intrigado, fui caminhando pelo corredor em direção à porta principal do apartamento, e quando estive certo de que o toque do celular vinha mesmo do hall do elevador, sem nem checar pelo olho mágico abri a porta e o encontrei.</p>
<p>Lembro-me de um amigo meu que, cansado de São Paulo, decidiu ir morar num sítio, no meio do mato – ou assim achavam seus amigos urbanos, pois na verdade a propriedade dele estava cercada de fazendas de gado, plantações de eucalipto e café. Durante anos ele se dedicara a refazer a vegetação original, e agora sim morava em meio a uma pequena floresta em que transformara o que outrora haviam sido pastos degradados. Além de estudar as espécies nativas, ele privilegiara o plantio de árvores frutíferas e das que floresciam, de tal forma que o jardim bem cuidado cercando sua casa parecia espalhar-se pelas matas também. Os animais haviam correspondido, agradecidos, e ele vivia em meio a um santuário de seres silvestres, tucanos, macacos, siriemas. Lembrava-me que ele me contara de, muitas vezes, encontrar animais mortos em alguma parte de sua propriedade – veados, pacas, tatus, animais feridos por outros animais, muitos deles por cães, que ele decidira não ter, ou até mesmo por tiros &#8211;, os animais que escolhiam seu terreno para vir morrer em paz, muitas vezes a céu aberto, dentro da clareira aberta ao redor de sua casa&#8230; Animais menores, como coelhos, gambás e porcos-espinho, ele já os tinha encontrado à porta de  casa, aninhados sobre as boas-vindas do tapete de entrada, enrodilhados. Seu relato me emocionara e comovera, pois trata-se de um amigo que vem longamente dedicando-se a um caminho espiritual de simplicidade e contemplação, e seu sítio constitui para mim uma espécie de refúgio, quase um solo sagrado, com sua atmosfera de paz – parecia-me que não só eu o sinto assim, mas também todos aqueles animais que vinham buscar ali o derradeiro refúgio para seu último suspiro, a paz da passagem, o acolhimento delicado para o momento talvez de maior dor e medo – ou um tratamento e recuperação, como ocorria às vezes, se em tempo acorriam.</p>
<p>Não que ele fosse morrer &#8212; em plena manhã, as vestes negras amarfanhadas, Theo dormia esparramado e desfeito no chão de granito, a cabeça pousada no agasalho, sobre o meu tapete de entrada. Estranhei, e querendo acorda-lo ajoelhei-me junto dele, e tive de expirar longamente para não ser tomado pela náusea provocada em mim pela mistura de fumaça de cigarros, o cheiro intenso do álcool e o azedo do vômito seco, na mancha que identifiquei sobre sua camiseta, içada até quase a metade expondo seu ventre cinzelado, o umbigo como um vórtice macio para músculos agudos e pelos esparsos. Os cabelos desalinhados e grudados de suor, a pele gordurosa – e mesmo assim ele parecia lindo, entregue a um sono infantil, profundo e pacífico, que nem o toque insistente do celular lograva interromper. Mirei-o imóvel, esperando o tinido morrer, como se só depois disso eu pudesse tomar uma decisão sobre o que fazer com o deus adolescente arriado, fedorento e desgrenhado, ou decidir-me a não fazer nada. Fechar a porta, esquecer-me – em algum momento ele acordaria, e iria para casa. A única coisa que pensei foi por bem desligar a música soando lá dentro, que de repente estava sendo desperdiçada, tão milagrosa em situação tão grosseira.<br />
<a href="http://www.beautyanalysis.com/mba_facevariationsbysex_page.htm" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-443" title="ryandaharsh in black crop exclusion cyan" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/ryandaharsh-in-black-crop-exclusion-cyan.jpg?w=442&#038;h=456" alt="ryandaharsh in black crop exclusion cyan" width="442" height="456" /></a><br />
Foi como se ouvisse o telefone tocar, antes de soar de fato, e levantei-o do bocal ainda mudo &#8212; embora minha prática, como aprendida com os monges, normalmente fosse esperar tocar três vezes, concentrando-em em minha respiração &#8211;, para ouvir:</p>
<p>&#8211; Você estava do lado do telefone? Acho que nem chegou a tocar&#8230; – Verena queria confirmar que havíamos conversado ontem, e o quê havíamos falado – Hoje estou de ressaca&#8230; Você acredita que o Olaf estava me envenenando? – como jamais tomava remédios alopáticos, o calmante que o ex-marido estivera secretamente ministrando a ela era reputado veneno – Eu devia ter desconfiado! Estava me sentindo muito lesada&#8230; – ela tinha descoberto através da cunhada, que não tinha concordado quando Olaf pedira-lhe para continuar administrando o calmante – Coitado. Ele achou que assim me ajudava. Apagando-me&#8230; Ele nunca me conheceu. É essa a impressão que tenho agora. Nunca fez o esforço. Nunca quis – apenas ouvi, feliz, enquanto observava minha amiga de volta a seu modulo energético e bem disposto, sem os longos silêncios de ontem – Nós falamos de Deus? &#8212; ela queria repassar nossa conversa, pois apesar de lembrar-se da maior parte das próprias coisas que havia dito, a impressão que hoje tinha era de que eu estivera falando com ela desde o fundo do mar.<br />
&#8211; Deus? Não&#8230; – então dei-me conta &#8212; Mas nós falamos do Theo&#8230;<br />
&#8211; O seu Deus&#8230; – ouvi Verena sorrir – Agora me lembro. Convidei vocês para virem aqui, não foi? – olhando em direção ao corredor, disse a Verena que hoje não seria possível – Melhor, eu gostaria que vocês fossem para a praia comigo neste feriado, que tal?<br />
&#8211; Posso pensar sobre isso, Verena? E tenho de perguntar ao Theo&#8230; – desconversei, sem vontade nem certeza de que o faria, aos poucos acessando a forte contrariedade que me invadia.</p>
<p>&#8211; Ele ainda está dormindo?<br />
Percebi que o imaginava na minha cama, e decidi contar a ela brevemente sobre o rapaz, antes que imaginasse estarmos juntos além do quanto estávamos juntos de fato. E por fim contei sobre a situação atual, Theo estendido à porta da minha casa, arriado de bêbado.<br />
&#8211; Que lindo! – Verena enterneceu-se.<br />
&#8211; Lindo o quê? – não escondi a ironia.<br />
&#8211; Você não está bravo com ele, está? – Verena soava maternal.</p>
<p>Tive de ficar em silêncio e ponderar, observar meus sentimentos, antes de responder – É, um pouco estou sim – não esperava aquela situação no meu domingo, os compromissos marcados com Lissa e Aquiles, com os quais eu costumava ser pontual &#8212; Mas só um pouco. Acho que entendo essa molecagem – consegui sorrir, e percebi que estivera com as sombrancelhas contraídas &#8212;  Eu mesmo dormi diante da minha própria porta mais de uma vez, nos nossos tempos de faculdade&#8230; Lembro-me que quando ficava naquele estado, tinha sempre o mesmo pensamento confuso&#8230; o de que a porta tinha de abrir por si mesma&#8230; sem me lembrar de que eu tinha de usar a chave&#8230; Se ela abria para mim todos os dias, era só esperar, que alguma hora ela iria abrir de novo. Então, esperando, eu dormia sobre o meu próprio capacho&#8230; – ri das lembranças da minha juventude, de um Andante no qual não pensava há muito tempo.</p>
<p>&#8211; Só que o Theo não dormiu diante da própria porta. Ele veio dormir diante da sua&#8230; O que você acha disso?<br />
&#8211; Acho que ele pode ter se confundido – evadi-me, inclusive das minhas próprias expectativas.<br />
&#8211; Acha mesmo?! – Verena riu – Com vinte andares de apartamentos! Ele confundiu a casa dele justamente com a sua!</p>
<p>Ouvi novamente o celular tocando, e pedi para encerrar com Verena, antes que ela entrasse em suas interpretações que incluíam boas doses de karma e predestinação, garantindo-lhe que iria conversar com Theo sobre o feriado, quando ela achava que ia precisar de mais apoio, pois deveria receber a primeira visita de toda a turma da praia depois de, você já sabe&#8230; – Será que o Olaf deixou algum pouquinho de calmante? – Verena encerrou, rindo de si mesma.</p>
<p>Caminhei vagarosamente até a porta, a paz a cada passo, concentrando-me, esforçando-me &#8212; há paz a cada passo. Torcia que o celular parasse de tocar antes de eu chegar lá. Mas ele continuou, mesmo enquanto eu tentava tira-lo do bolso da frente da calça de Theo, que incomodado virou-se e esparramou-se ainda mais sobre o chão, dando-me livre acesso.</p>
<p>&#8211; <em>Eh, ciao</em>. Onde você estava? – foi o que entendi, em Italiano. Depois de hesitar mais um tempo, tendo identificado o nome de Fedora, e uma bonita foto dela &#8212; na verdade, deslumbrante &#8211;, decidira atender. Não queria envolver-me daquela forma, mas também não podia deixar o celular tocando a manhã inteira, imaginando-a do outro lado, tentando e tentando novamente. Fechar a porta e largar Theo ali, como havia a princípio cogitado, já não era uma possibilidade. Como o samurai sentindo-se irado não pode matar o oponente, minha própria ética da prática dizia que, encontrando-me sinceramente aborrecido, não me restava alternativa senão desvelar-me em acolher o rapaz. Em Inglês, identifiquei-me dizendo meu nome e ser vizinho do Theo, e por um instante ela fez silêncio antes de pedir para falar com o amigo &#8212; Ele não está exatamente em condições&#8230; – contei do estado em que o havia encontrado à minha porta, todo o tempo só preocupado em dividir minha contrariedade &#8212; Então ele me obedeceu! – Fedora riu, exuberante, segura, cheia de si. Contou-me que Theo havia enviado um vídeo do novo apartamento, e quando ela vira a escadaria, tinha feito ele prometer a ela que jamais tentaria subi-la se tivesse bebido demais –  Um amigo nosso morreu subindo as escadas bêbado&#8230; Quer, dizer, ele morreu caindo – ela riu, e sua risada pareceu-me imprópria, e acho que comuniquei essa energia de crítica a ela, que se calou, antes de voltar a dizer &#8212; Obrigado por acolhe-lo – por um instante, achei que Fedora não soubesse quem eu era, já que tinha me identificado somente como um vizinho, e troquei por amigo – Sim, eu sei quem você é. O Theo já me falou de você&#8230; Obrigado por cuidar dele. Posso te pedir para não deixa-lo sozinho? – Fedora riu, e na verdade não parecia se importar com o que eu julgava da risada dela – Estou parecendo a <em>maman</em> dele! Mas se você pudesse ficar com ele. Não só hoje, você me entende? – lembrei de sua expressão desafiadora e de seu olhar de catapulta na foto do porta-retrato na casa de Theo, e senti-me instado a obedecer um comando, mais do que a atender um pedido – Ele dá muita importância a você – soou condescendente, e eu me senti tolo, naquele enredo de filme adolescente; observei a raiva surgir, e tentei permanecer em silêncio, como já ocorrera durante a maior parte da ligação – Você pode pedir para ele me ligar, quando acordar? – tão certa ela estava de que eu a obedeceria também, e ela estava certa – <em>Grazie mille</em>&#8230;</p>
<p>Ponderei de novo a situação. Não pretendia passar o dia no hall do elevador. Tentei acordar Theo para que entrasse em casa, e depois de tê-lo chamado quase umas dez vezes, cada vez mais alto e menos delicado e mais impaciente e menos divertido, tive renovada ajuda do tinido do celular, que encostei ao ouvido dele. Theo por fim acordou e olhou-me – e tive certeza, sem reconhecer-me. Dei um comando um pouco ríspido &#8212; pois não imaginava lidar com um menino bêbado de outra forma &#8212; de que ele entrasse porta adentro, e enquanto observava-o arrastar-se só com o braços, calcando os cotovelos no piso, parecendo um soldado numa trincheira – apesar dessa demonstração tão clara não percebi a guerra e a violência dentro de mim mesmo &#8212; arrastando consigo o capacho que o fazia deslizar, atendi o Joshua, já explicando quem era e o que tinha acontecido, logo de saída um pouco melhor do que fizera com Fedora, e que Theo não estava em condições de falar.</p>
<p>&#8211; Valeu. Pelo menos agora eu sei onde ele tá. Tem um monte de gente preocupada – achei por bem avisa-lo que já havia conversado com Fedora – Mesmo? Ela já me ligou, e a tia também, um monte de vezes – Joshua parecia contrariado; talvez pretendesse também atravessar a manhã dormindo, como o primo, e ao invés tinha recebido e feito ligações por várias horas  &#8212; O cara com quem ele saiu teve de ligar para o meu amigo para saber o endereço do Theo, que tava malzão, nem podia falar direito – depois de uma certa rispidez e antipatia de início, mútuas devo dizer, o rapaz parecia disposto a falar comigo, embora eu mesmo nada dissesse, só tentando entender a história da noitada de Theo – O cara deixou o Theo aí e foi embora dormir – a isso, observei meu coração inchar, súbito sanguinolento, cheio de ciúmes &#8212; Tive de acordar todos os meus amigos até um saber quem era o cara com quem o Theo tinha saído da boate – Joshua bocejou, tão exuberante quanto fora antes a risada de Fedora – A tia deve ligar aí, ela estava preocupada&#8230; – imediatamente entendi que ele se referia à mãe de Theo, e novamente evadi-me, quase rispidamente mandando Joshua desincumbir-se dos assuntos familiares, até porque o celular está com pouca bateria e pode cair a qualquer momento – Tá bom&#8230; eu&#8230; ligo pra&#8230; ela – foram tantos os bocejos naquela última frase, com a qual Joshua desligou sem dizer mais nada.<br />
<a href="http://www.pbase.com/bmcmorrow/munichglyptotek&amp;page=3" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-442" title="Faun.Munichcloser contrast crayon" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/faun-munichcloser-contrast-crayon.jpg?w=392&#038;h=555" alt="Faun.Munichcloser contrast crayon" width="392" height="555" /></a><br />
&#8211; Era só o que me faltava! – exclamei. Esse menino não tem pai?! Agora sentia-me mal por ter mentido em relação ao celular, só por não desejar atender a mãe. Na verdade, sentia-me culpado, de várias maneiras – e começara a seguir essa nova pista do meu sofrimento, dada por Theo, para quem o meu problema não era o desejo, mas a culpa de senti-lo, e através da qual tentava me livrar dele. E sentia-me frustrado, já ciente de que teria de cancelar meu almoço com Lissa, o que naquele momento em especial geraria tanto desconforto entre nós&#8230; Desanimado, olhei Theo, que desabara após ter deslizado não mais de um metro, o que ainda deixava quase metade do seu corpo do lado de fora do apartamento.</p>
<p>Alcançou-me o estrondo de uma porta batendo, num andar acima. Foi o suficiente. Serviu-me de sino da plena consciência. Imobilizei-me. Fechei os olhos. Concentrei-me na minha respiração, que estava curta, ansiosa. <em>Inspirando. Expirando</em>. E a concentração tornou-a naturalmente mais profunda, mais calma. <em>Inspirando. Expirando</em>. Respirando com prazer, com prazer em ter atenção. <em>Inspirando. Expirando</em>. Observei a batida acelerada do meu coração, e acalmei-o junto com a respiração. Percebi que estava com calor, apesar do ar fresco que soprava pela janela da escadaria de serviço. Demasiada energia, esforço, confusão, raiva – muitas coisas queimavam em mim, naquele momento. A tudo observei, minhas próprias emoções e sentimentos, por um momento sem reagir a elas, sem me identificar, como se fossem as de um alienígena. Percebi meus ombros contraídos e relaxei-os; o cheiro de suor que não era o da Yoga, mas adivinha da contrariedade; meus pés um pouco levantados do chão, e espalmei-os, corrigindo minha postura torta – e com ela, a minha atitude errada. Ocorreu-me que estava com a atitude errada, se de fato e sinceramente pretendia acolher meu amigo. <em>Inspirando. Expirando</em>. Ainda observei meus pensamentos, esparsos, caóticos, numa melodia feia, que com a minha concentração na respiração foram diminuindo de volume e de freqüência, por fim quase silenciando. Era maravilhoso como funcionava essa técnica tão simples dada pelo Buda, como a aprendera do meu mestre – ou pelo menos como eu a compreendera e dela lançava mão. <em>Inspirando. Expirando</em>. Num instante, toda a balbúrdia se acalmava, quando eu não me identificava mais com ela. A fogueira enfraquecia, à medida que eu não mais a alimentava. E no espaço que se abriu, ao recesso das minha emoções, sensações, pensamentos, caindo como dominós em seqüência, retornando para o vazio de onde tinham vindo, naturalmente, assim que eu os liberava – nesse espaço, reencontrei o meu amor verdadeiro por Theo, e tive a idéia de estender uma colchonete alguns passos corredor adentro, e ajuda-lo a alcançar e deitar-se nele.</p>
<p>&#8211; Theo&#8230; – sussurrei bem junto ao seu ouvido, tocando-o muito de leve, com delicadeza, da maneira como eu mesmo gostava de ser despertado. Não mais ao adolescente bêbado com o qual eu estava contrariado, cujo cheiro um pouco me enojava, dirigi-me ao meu querido amigo, ao meu amor – Theo&#8230; – repeti, com doçura e um sorriso, imaginando que tentava acordar o bebê Buda nele, no lindo adolescente com nome de Deus&#8230; Tive certeza de que ele me responderia, quando senti que eu chamava docemente por Deus nele, que assim tentava despertar sua natura búdica – e foi o que aconteceu, claro. Theo abriu os olhos, os lindos olhos líquidos e verdes, piscando-os um pouco até focar-me, e desta vez reconheceu-me – pois afinal, desta vez era eu mesmo debruçado sobre ele, e não algum homem contrariado agindo com despeito para livrar-se quanto antes dum problema – através de um sorriso belo e entorpecido, infantil e sem defesa, que definitivamente me enterneceu e conquistou – Ali&#8230; – seu olhar, puro e interrogativo como o de um animal, seguiu o dedo com o qual indiquei a colchonete um pouco adiante – Vamos? Para você poder dormir&#8230; – era enfim a atitude certa, e apesar de mostrar-se cheio de um invencível torpor, arrastou-se até estar completamente sobre a colchonete, a cabeça no travesseiro, e de novo entregue ao sono.</p>
<p>Sentei-me ao lado de Theo, no corredor. Ouvia-o ressonar baixinho. Acariciei seus cabelos suados, sujos, emaranhados, menos belos &#8212;  e senti meu desejo dominador ceder lugar ao amor. Mesmo o cheiro azedo pareceu enfraquecer, pois era este o cheiro dele naquele momento, o cheiro do meu querido amigo que, se não me ajudava a deseja-lo, também não mais o tornava repulsivo &#8212; e justamente me ajudava a somente ama-lo. Então lembrei-me de Gustavo. E senti dor ao lembrar de Gustavo, embora ao mesmo tempo pudesse sorrir à lembrança dele. Porque não pensara nele antes? Se fosse Gustavo a aparecer-me à porta, bêbado, eu jamais teria sentido contrariedade em acolhe-lo, em cuida-lo. Por que não me lembrara dele antes, sobrepondo- o a Theo, despertando todo o meu infindo amor e compreensão, desenvolvido ao longo de todos os anos do nosso relacionamento, desde que ele nascera&#8230; Gustavo, de quem eu tinha cuidado inúmeras vezes, nas febrinhas, nas dores de barriga, no susto do braço quebrado, depois dos acessos de raiva e das brigas na escola, e aconselhado nas confusões emocionais e mentais da adolescência&#8230; Sentia tanto amor por meu afilhado – e no entanto, tentara não pensar tanto nele desde que soubera de sua morte, por sentir-me culpado de não tê-lo procurado naqueles meses desde que retornara do mosteiro, nem a ele ou a Verena, e de resto a uma multidão de gente que me importava menos, escondido como estava na concha protetora em que me isolara, tentando com dificuldade e sem nenhuma vontade readaptar-me à minha antiga rotina metropolitana, o tempo todo cogitando retornar o mais rápido possível ao mosteiro. Agora sentia a dor, e ressentia a minha própria injustiça, sabendo que nunca mais iria vê-lo, de fato – mas sentia o amor, também, o amor de toda uma vida que era tão maior do que a dor daquele momento.<br />
<a href="http://www.motherteresa.org/layout.html" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-441" title="Frankfurt Roberto Rocco cyan differnce" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/frankfurt-roberto-rocco-cyan-differnce.jpg?w=459&#038;h=383" alt="Frankfurt Roberto Rocco cyan differnce" width="459" height="383" /></a><br />
Com a mão sobre a cabeça de Theo, mantendo Gustavo em minha mente, e juntando aos dois no meu coração, invocando por clareza que me permitisse encontrar as palavras mais hábeis, liguei para Lissa.</p>
<p>&#8211; Bom dia&#8230; Como você acordou hoje? – e pus-me a conversar com minha amiga, tentando harmonizar-me com ela, sentir sua disposição do momento. Em grande parte, estar bem para Lissa significava não ter enxaquecas, e vi nisso uma chance.<br />
&#8211; Lembra-se de uma época em que você as tinha diariamente? – ainda não estava certo porque mencionara aquele assunto, mas ele simplesmente brotou – Você se refugiava lá em casa – referia-me a um outro apartamento –, eu trancava o quarto, deixava-o totalmente escuro para você, vedando a janela com cobertores e até o vão sob a porta, desligava o telefone, e ficava na sacada com uma bazuca para afugentar os helicópteros – tinha uma aversão antiga por esses aparelhos.<br />
&#8211; Você tem a minha gratidão eterna! – Lissa riu – A sua paciência com o meu estado de mau-humor era&#8230; heróica! Eu te dei um tapa uma vez, não dei?<br />
&#8211; Perdi um paquera nessa época, por conta de cancelar tantas vezes para ficar cuidando de você – e de repente ficou claro o meu raciocínio, buscando a empatia de Lissa – Espero não perder a minha amiga, hoje.<br />
&#8211; Por quê? Eu não estou com enxaqueca! – acendeu-se o sinal vermelho, lá do outro lado – O que você quer me dizer? – contei a ela sobre Theo, pela quarta vez naquela manhã, mas pela primeira senti que falava da situação como se fosse minha, como se o sofrimento do meu amigo fosse meu – Entendi – Lissa pareceu refletir &#8212; Você não precisa cuidar dele, você sabe? Ele tem família aqui no Brasil, não tem?<br />
&#8211; Tem. Mas se ele procurou por mim é porque quer um amigo, não a família – agora seguia o raciocínio de Verena, que há pouco tinha descartado &#8212; E o fato é que eu quero cuidar dele – meu olhar recaiu sobre os pulsos de Theo, que estavam unidos assim como as palmas das mãos, não longe dos meus joelhos, na posição em que ele dormia, sempre ressonando levemente. Não pude divisar os riscos sobre a pele, mas sabia que estavam lá, e voltei a sentir um arrepio só de pensar&#8230;<br />
&#8211; Ou seja, não vamos almoçar hoje, correto? – Lissa mostrava-se contrariada, como eu estivera antes – Tudo bem! – mas não estava, como transparecia em sua voz – Você não se sente invadido por esse menino?<br />
&#8211; Foi exatamente como eu me senti, hoje de manhã, quando abri a porta. Cogitei passar por cima dele e sair para almoçar com você.<br />
&#8211; E porque você não faz isso agora?<br />
Eu não tinha nenhuma boa resposta para isso – <em>Talvez esteja embriagado, mas aquele que deixaram só, prostrado no chão, é meu irmão</em>.</p>
<p>&#8211; Você soa como Madre Teresa.<br />
&#8211; Essa frase é dela. Eu acho.<br />
&#8211; Quando te conheci era Rimbaud e Cocteau que você tinha na ponta da língua – ela ironizou &#8212; Quem diria&#8230;<br />
&#8211; Quando você me conheceu, como o Theo eu também caia de beber. Acho que quero ficar cuidando dele como teria gostado de cuidar de mim mesmo.</p>
<p>&#8211; Aceito isso. E antes que você me ofereça, não gostaria de ir almoçar aí no seu apartamento, enquanto velamos o ilustre cadáver – Lissa riu, mais ácida do que o cheiro de Theo, e citou os nomes de três amigas dos nossos tempos de faculdade – As Irmãs Cajazeiras, lembra delas? Vou encontra-las, então. E você, desfrute do seu <em>babysitting</em>, se puder.</p>
<div id="attachment_439" class="wp-caption aligncenter" style="width: 198px"><a href="http://odddesuporte.blogspot.com/2009/10/theo-compartilhando-com-andante-est.html" target="_blank"><img class="size-full wp-image-439" title="08- Theo's playlists blue" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/08-theos-playlists-blue.jpg?w=188&#038;h=240" alt="acesse a seleção de jazz pelo E.S.T. feita pelo Theo" width="188" height="240" /></a><p class="wp-caption-text">acesse a seleção de jazz do E.S.T. feita pelo Theo</p></div>
<p>Preparei o almoço lentamente, e com calma eu o comi, em silêncio. Todos os vizinhos pareciam ter saído de casa. Depois voltei para o lado de Theo, que tinha se virado para a parede, fugindo da claridade intensa vinda dos janelões da sala. Acariciei seus cabelos de um loiro tornado baço, compactos no crânio, amassados contra o travesseiro. Era sempre emocionante velar o sono de uma pessoa, especialmente de uma criança, e naquele instante pensava em Theo como uma criança grande. Sentia-me grato pela entrega, pela confiança. Com um copo de chá, sentei-me no chão e não me levantei até terminar Todos os belos cavalos, que há alguns dias jazia abandonado &#8212; <em>Lembrou-se de Alejandra e da tristeza que vira pela primeira vez na curva de seus ombros e que pensara entender e da qual nada sabia já que era uma criança e sentia-se inteiramente estranho ao mundo embora ainda o amasse. Pensou que na beleza do mundo havia um segredo oculto. Pensou que o coração do mundo batia a um custo terrível e que a dor do mundo e sua beleza moviam-se numa relação de equidade divergente e que nesse déficit invertido o sangue das multidões podia em última análise ser cobrado pela visão de uma única flor</em> – era maravilhoso, uma escrita milagrosa, e confirmei ter encontrado em Cormac McCarthy o meu escritor preferido da atualidade, talvez mais do que Cees Nooteboom.</p>
<p>Um pouco inquieto como sempre ficava ao fim de um bom livro, de um bom concerto ou de uma boa transa, sentindo emoções contraditórias, satisfeito porém frustrado a um só tempo, fui em busca de outro copo de chá, o verde intenso com toques cítricos que neste domingo escolhera beber, e como não foi isto a preencher o vazio que agora sentia, e não me dispondo a explora-lo no oceano do <em>zafu</em>, à deriva cheguei ao escritório onde aguardava-me a <em>playlist </em>de Theo, no pause há umas boas horas. Os nomes das composições do E.S.T. eram musicais em si mesmas, como <em>Serenade for the Renegade</em> e <em>The Unstable Table &amp; the Infamous Fable</em> – mas foi em <em>Belive, Beleft, Below</em> que encontrei a minha paz, ao identificar na faixa, a única cantada em toda a seleção, o meu próprio momento&#8230; Aos poucos, ia fazendo da música uma outra espécie de meditação, ou pelo menos um apoio para identificar e aclarar minhas emoções e sentimentos que, ao buscarem expressão, eu tentava reconhecer. Já não ouvia músicas melancólicas para poder chorar ou perceber-me deprimido, nem precisava de música excitante para sentir-me expansivo ou extravasar uma energia com a qual não sabia lidar. <em>If we meet again&#8230; I´ll tell you how I feel&#8230; I´ll tell you from the start&#8230; I´ll tell you love is real</em>&#8230; Ouvia fora o que estava dentro – ou ouvia dentro o que estava fora, quase dava no mesmo. Claro, não havia dentro nem fora, a música tanto ao redor de mim quanto em mim, eu próprio música, a música na minha consciência, a música no ar, a música na minha respiração&#8230; <em>How everything we say&#8230; And everything we do&#8230; Has been preordained&#8230; To bring true love to you&#8230; Nothing else is pure&#8230; Nothing else is right&#8230; You will know for sure&#8230; Once you´ve seen the light</em> – cantei para mim mesmo a canção que poria no <em>repeat</em> e adentraria por muitos e muitos dos meus dias, A Balada da Iluminação, como eu a apelidei. <em>If we meet again… I´ll tell you how I feel… I´ll tell you love is real</em>… Graças a Theo.</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/10/25/trecho-xiii-%e2%80%93-nothing-is-real-love-is-real/"><img src="http://img.youtube.com/vi/sc2mEtmxwDw/2.jpg" alt="" /></a></span>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/438/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=438&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Trecho XII &#8211; How to disappear completely</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 11:51:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trecho XII]]></category>
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		<description><![CDATA[Eu? Eu sou um príncipe adormecido, cujo amor o acordou para um novo sono. Eu sou um mendigo do amor, de mochila rasgada, e que coloca o amor dentro dela. Schmuel Iossef Agnon Leia O diário dos dias extraordinários completo acessando o índice disponível no cabeçalho acima. Clique nas fotos e descubra novos links. Obrigado, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=393&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>Eu? Eu sou um príncipe adormecido,<br />
cujo amor o acordou para um novo sono.<br />
Eu sou um mendigo do amor, de mochila rasgada,<br />
e que coloca o amor dentro dela.</em><br />
Schmuel Iossef Agnon</p>
<p style="text-align:left;">
<p style="text-align:left;">Leia <strong>O diário dos dias extraordinários</strong> completo</p>
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<p>Obrigado, desfrute!</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/10/15/trecho-xii-how-to-disappear-completely/"><img src="http://img.youtube.com/vi/KByd366fKdc/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p>Talvez tenham se crumprimentado no térreo, Donita e Divino. Enquanto observava os números decrescerem, levando Donita de volta ao solo, o interfone tocou para avisar da chegada do encanador. Recebi-o alegremente, agradecido. Há pouco Lissa indagara como seria um Theo banguela e eu me lembrara de ter assistido a um vídeo com o Chet Baker nessa mesma condição, então não fiquei realmente surpreso que o encanador &#8212; apesar de não ser banguela &#8212; me lembrasse o músico que eu trouxera mais próximo do coração toda a minha vida – fez-me sorrir com carinho o reconhecimento de um certo cuidado com o topete e o queixo pequeno no maxilar amplo. Sabendo não tratar-se do Chet, e quando ele já se instalava no lavabo, depois de ter-lhe contado sobre a inundação, perguntei-lhe o nome, para poder oferecer a ele algo de beber.</p>
<p>&#8211; Divino – disse-me quase em dúvida, e talvez intimidado pelo sorriso que seu nome aflorou nos meus lábios, acrescentando bastante profissionalmente &#8212; Estou aqui para estar tentando ajudar o senhor da melhor forma possível.</p>
<p><em>Ichigo ichie</em>, pensei a caminho da cozinha. Cada momento, um encontro. E quando retornei com o copo de suco de uva que ele havia aceito, informou-me que o problema estava no reparo da válvula.</p>
<p>&#8211; E você pode reparar o reparo? – não pude evitar o trocadilho bobo, pois estava  feliz feito criança vendo meu problema solucionado pelo Chet <em>cover</em>.</p>
<p>&#8211; O senhor pode ficar tranqüilo que vou estar fazendo o meu melhor – ele soava muito sério, e eu percebia que se tratava de um esforço por inspirar-me confiança – O senhor teria um pano de chão para nós termos a garantia de que o senhor não vai ter o seu patrimônio danificado no puro acaso de alguma ferramenta escorregar? Não deveria no entanto acontecer porém&#8230;</p>
<p>Quem será que ensinou essa oratória a ele, pensei, enquanto buscava por um pano que não estivesse demasiado úmido, dos que Donita pendurara no varal. De volta com o pano e um copo de chá, deu-me vontade de conversar com o Divino, enquanto ele trabalhava tranqüilamente &#8212; embora aparentasse um pouco de tensão, fosse pelo fato de eu permanecer ali, como se estivesse inspecionando o seu trabalho, ou por ter logo de início perguntado há quanto tempo ele vinha trabalhando “naquele ramo”, como se duvidasse da sua experiência.</p>
<p>&#8211; Trabalho desde os quinze anos de idade. O senhor pode ficar tranqüilo que esse é um reparo simples que eu vou estar desempenhando com a máxima qualidade &#8212; o rapaz devia ter pouco mais de vinte anos, e sentia-me comovido não só com sua maneira rebuscada mas também tão errada de falar gerundiando, ambas no empenho por parecer profissional, mas sobretudo agradecido por sua presença no meu apartamento, e por estar resolvendo o meu problema. Num instante, eu já o enxergava como o <em>bodhisattva</em> dos canos, e ao perguntar sobre seu cotidiano trabalho ele foi me respondendo – e eu nunca conseguiria reproduzir seu vocabulário profissional virtuosístico &#8212; sobre as residências que visitava, as pessoas a quem encontrava, sempre com muita discrição, e apenas mais veementemente protestando sobre o trânsito e a dificuldade de estacionar que diariamente enfrentava, e a ansiedade e a pressa e a impaciência e o stress e o mau humor das pessoas com quem lidava, que afinal “apresentavam os problemas dos quais pretendia proporcionar a melhor solução”.</p>
<p>&#8211; Nem todos são calmos assim como o senhor. Nem tão gentis – disse-me, olhando na direção do copo de suco que eu colocara junto dele, sobre a pia, e do qual ele ainda não bebera.</p>
<p>&#8211; Você gosta do seu trabalho, Divino? – sorri ao pronunciar o nome dele, como se a melhor percepção de um poema pudesse advir do título mais adequado&#8230; <em>Ichigo ichie</em> – ao menos para mim, funcionava, e eu prestava atenção àquilo que naquele momento acontecia &#8212; que outro didático nome poderia ter o <em>bodhisattva</em> do conserto que vinha à minha casa? Olhava o rapaz de vinte e poucos anos e comovido podia enxergar o bebê que ele fora, crescendo sob os cuidados de tantas pessoas, família, médicos, professores, amigos; pensei que ele tinha precisado aprender a caminhar, a ler, a escrever, a falar, tanto caminho e esforço e empenho e estudo da parte daquele rapaz e de tantas pessoas envolvidas em sua vida até ele chegar em minha casa para poder resolver o meu problema, tendo investido tanto tempo e talento em tornar-se quem era, o <em>bodhisattva</em> Divino&#8230; Podia ver toda uma cadeia de amor fluindo até aquele momento, fosse na forma de estudo ou de alimento – <em>Ichigo ichie</em>.</p>
<p>&#8211; É um emprego bom, se é isso que o senhor pergunta – vi que ele nunca refletira sobre o assunto, e empolguei-me.<br />
&#8211; O seu trabalho é muito importante, Divino. O que seria de mim se você não tivesse vindo aqui, hoje? E em cada casa que visita, você leva seu conhecimento e soluciona um problema, dando paz a uma pessoa, uma família. O seu trabalho promove bem estar, Divino – por um instante, enxerguei-o como um oficiante diante do altar, e não como um encanador ajoelhado em frente ao vaso sanitário – Todo o seu estudo, a sua educação, o seu conhecimento&#8230; O seu trabalho é precioso. Obrigado, Divino – depois, ele iria contar-me que em muitos dias eu tinha sido o único cliente a perguntar pelo nome dele, e não por uma questão de segurança.</p>
<p>O rapaz olhou-me surpreso, e emocionado como eu mesmo estava. Como não estar agradecido? Em alguns poucos minutos ele resolvia o meu problema, que por mim mesmo jamais daria conta de resolver – mas o que para mim eram poucos minutos tinham custado anos de empenho e preparo ao rapaz. Em seguida, ele me confessou que com esse emprego tinha enfim podido fazer o próprio casamento, e agora “providenciava” para ser pai, a esposa grávida de quatro meses. <em>Cada pessoa é um universo</em>, lembrei-me novamente da minha frase tema da adolescência, que podia ser uma tradução particular de <em>Ichigo ichie </em>&#8211; e a cada momento e encontro era a possibilidade de universos tocarem-se, trocarem-se&#8230; E no lavabo reparado, estava lá o Divino, mergulhado meditativamente em seu copo de suco, e eu cá no meu copo de chá, retornando à minha respiração&#8230; Era o suficiente, para mim e para ele, e pensei em encerrar ou mudar de tônica oferecendo-lhe mais suco.</p>
<p>&#8211; Obrigado, está muito bom. Mas não posso beber muito pois só vou estar podendo ir ao banheiro na empresa – e como eu abrisse as mãos num gesto indicando que ele já se encontrava dentro de um, naquele exato momento, retrucou – Nós não estamos autorizados a estar utilizando o banheiro das residências dos clientes.</p>
<p>&#8211; Então hoje você vai quebrar a regra, Divino, com a minha autorização, e usufruir em primeira mão do reparo que você mesmo trocou! – e como fui saindo do lavabo e encostando a porta, vi-o encarar-me surpreso, quase deslumbrado, e então resolvi oferecer-lhe, ao invés de mais suco, o <em>oolong</em> que estivera tomando, explicando sua procedência.</p>
<p>&#8211; Vai estar sendo fabuloso, muito obrigado! – ou foi formidável que ele disse? Alguma palavra assim, incomum e inesperada para um chá, fazendo-me sorrir, mas que em minha mente e memória diluiu-se naquela horrível gerundiação.</p>
<p>Ichigo ichie. E este foi meu encontro com o Divino, que encerramos compartilhando chá e o chocolate que Donita espontaneamente comprara para mim. Cada momento, um encontro. Assim senti que honrara a visita do <em>cover</em> de Chet Baker, e não só ao cuidado com que penteava o topete mas a toda a sua história, estudo, esforço e empenho que possibilitava-o ajudar-me, naquele momento. Senti que havia praticado gratidão ao invés de simplesmente receber os seus serviços, e que assim havia me conectado a uma cadeia de amor da qual Divino era o elo que viera até mim – e nele o seu pai e sua mãe, seus avôs e avós, os irmãos que porventura tivesse, e os amigos, os mestres, os feirantes, os lixeiros, os bancários, todas as pessoas que tornavam a vida dele possível e a mantinham, com carinho, com amizade, com trabalho &#8212; e portanto a minha também. E, por fim, a esposa e o bebê divinos, que pelo carinho demonstrado em sua voz o faziam feliz, e permitiam-no trabalhar em paz e empenhado&#8230;</p>
<p>Como amar mais? Por um momento a pergunta adequada pareceu-me ser – como não amar completamente?</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/pakalil/778386101/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-427" title="ichigo ichie pakalil flickr hard light" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/ichigo-ichie-pakalil-flickr-hard-light.jpg?w=460&#038;h=368" alt="ichigo ichie pakalil flickr hard light" width="460" height="368" /></a></p>
<p>O tema das águas permaneceu, e com ele a presença de Divino, durante o banho que em seguida tomei. Pareceu-me milagroso o jorro de água – e de nuvens &#8212; que brotou de dentro da minha parede em meio ao céu, carregado onze andares acima da terra. Todos os divinos encanadores e pedreiros e todos os trabalhadores permitindo-me o banho – enquanto outras pessoas sequer tinham acesso a saneamento básico, entre elas encanadores e pedreiros. Tinha consciência das minhas condições privilegiadas, e refleti sobre aquele jorro de amor, de empenho, de esforço, de conhecimento, de memória, de engenhosidade tanto quanto de humanidade, e pensei em quantas histórias naquele jorro havia, quantas mães e pais e esposas e&#8230; elos numa abundante cadeia de generosidade que eu utilizava como?&#8230; e para quê, afinal?</p>
<p>Ainda no tema das águas, pareceu-me por bem transformar o meu banho milagroso em palavras amorosas, e depois de, quase com lágrimas de gratidão – e nuvens em minhas lágrimas &#8212; comer a salada que Donita deixara pré-preparada, liguei para Verena.</p>
<p>&#8211; Querida&#8230; – no mesmo instante, veio-me à memória a risada de Gustavo, e a voz dele ao telefone, e o fato de que eu nunca mais iria chamá-lo de querido&#8230; – Como você está?<br />
Verena permaneceu em silêncio por muito tempo, e só sabia que ela estava do outro lado porque a ouvia respirar. Permaneci em silêncio também.<br />
&#8211; O mais difícil é a memória&#8230;<br />
E de novo um longo silêncio, até que eu perguntei – Como assim?</p>
<p>&#8211; A memória do meu corpo. A memória dele no meu corpo. Da presença dele. Eu sei o horário de ele acordar. Nem preciso olhar no relógio. Eu sei quando ele se movimenta. Quando toda a casa vai se movimentar. Toda a minha atenção se movimenta, quando ele se movimenta. Às vezes ainda fico esperando ele acordar. Um cheiro de criança grande, que eu adoro. Os chinelos arrastando, quando não descalço. As portas dos armários e do banheiro batendo – silêncio, e um silêncio atento, expectante, como se ela tentasse ouvir &#8212; Ainda coloco a mesa para nós dois. Às vezes paro no meio do caminho, com duas xícaras na mão. E não são para mim e para o Olaf. O Olaf está aqui em casa. Mas as duas xícaras não incluem o Olaf. Se eu vejo o Olaf sentado lá, então eu pego três. Da primeira vez que fiz isso o Olaf me perguntou&#8230; Estamos esperando alguém? Eu parei diante dos três pratos sobre a mesa, e fiquei olhando. A memória dele em mim. Só quando comecei a chorar o Olaf entendeu&#8230; – um suspiro, mais como um gemido, silêncio &#8212; Não vou tomar banho porque sei que é o horário de ele chegar da faculdade. Ou do futebol. E eu sei que ele chega suado e cansado. Prefiro deixar o banheiro livre para ele. O do quarto dele está sem água quente. Prefiro espera-lo, para poder vê-lo. E ainda espero – silêncio, longo, longo; era como um ligação ruim à distância, em que às vezes perdia-se o contato, assim eu tinha dúvidas se Verena continuava ao telefone &#8212; Ontem à noite, mesmo. Eu fico esperando, e fiquei esperando, num estado meio letárgico. Como se eu estivesse anestesiada. Então uma dor horrível, que eu acho que não vou suportar, me desperta. Não sei se vem da cabeça ou do meu coração. Não é a lembrança. É só a dor da lembrança. É mais como se o meu coração explodisse. E sangue me inundasse por dentro, de todas as direções. E eu fosse explodir, também. Sinto-me quente e gelada ao mesmo tempo. E inundada. Mas inundada de uma coisa ruim, horrenda. Da qual eu não quero ser inundada. É&#8230; como se&#8230; debaixo da minha pele eu já fosse um cadáver, podre, nojento. Que eu não quero ser. Mas ele já&#8230; é&#8230; – silêncio, e a respiração de Verena tornou-se tão pesada e agitada que eu não podia ter dúvidas de que ela estava lá. Agoniou-me de tal forma que pensei imediatamente dizer que estava a caminho, quando ela prosseguiu – É tudo físico. Bem físico. Eu não sei evitar. Nem controlar. Nem me livrar. É como se fosse um aviso. Um despertador&#8230; Quem inventou essa palavra, hem? Desperta-dor&#8230; É isso mesmo. Para me avisar que ainda estou viva. Mas só eu. Desperta a dor. Uma sirene de dor. Ouve, acorda, vai, desperta para a dor&#8230; – a voz dela enfraqueceu &#8212; E então eu me lembro. É assim que eu me lembro. Ele não está. Ele não vem mais. Ele não vai acordar.</p>
<p>&#8211; O telefone toca. Na mesma hora é como se um radar funcionasse. Ele está em casa ou não? Não ele não está em casa&#8230; Não ele ainda não chegou. Tantas vezes disse isso pros amigos dele. Ou então&#8230; só um momento, vou ver se ele pode atender. E se ele não está, o radar funciona de outro jeito. Quando o telefone toca, tento adivinhar se será ele para avisar-me&#8230; A cada vez eu temo um pouco&#8230; será que está tudo bem? Agora não há mais nada a temer&#8230; Nem outra resposta a dar. Não ele não está em casa. Mas o radar continua a funcionar. Ele está aqui em casa? Ele já chegou? Será que é ele do outro lado da linha? Será que está tudo bem? – a voz de Verena quebrou – Eu ainda pedi para ele não sair aquela noite&#8230; Porque parecia que ia chover&#8230; Sabe o que ele respondeu? – e então Verena começou a chorar, como eu não a ouvira chorar jamais, não pela morte de nenhum familiar ou amigo, não quando da separação de Olaf – Ele disse&#8230; Ninguém nunca morreu de chuva, mãe!</p>
<p>&#8211; Verena&#8230; – e só o que pude fazer foi ficar ali, sentado diante do meu computador, sentindo-me estúpido diante das mensagens estúpidas baixe os melhores toques clique e fique sabendo já imperdível 12X R$ 39,oo frete grátis, e tive de desliga-lo, enojado. Surpreendi-me com a noite, a luz branca das nuvens. Tinha vontade eu mesmo de chorar, e acompanhar o choro de Verena, mas imaginei que só iria piorar para ela, então voltei-me à minha respiração, à dor que sentia no meu próprio peito, incomparavelmente pequena  diante da dor de minha amiga. Foi quando ouvi a voz de Olaf, o sotaque inconfundível e uma certa rispidez que os anos não haviam abrandado, não para a minha percepção, não em minha memória – nunca tínhamos nos tornado amigos &#8211;, e me identifiquei. Ele avisou-me que iria desligar porque a Verrrena não estava mais em condições de falar, e foi quando a ouvi erguer a voz, e o ruído do telefone sendo novamente trocado de mãos, ou talvez arrancado, como o barulho de um baque me fez supor &#8212; Pior do que não ter mais ele&#8230; É ter o Olaf de novo aqui em casa! – Verena sussurrou, mas se o ex-marido estava por perto provavelmente teria ouvido, e riu, retornando ao tom normal – Obrigado pelo desabafo. Ainda não tinha acontecido. Com ninguém. <em>É, só tinha de ser com você, havia de ser pra você</em>&#8230; – cantarolou e eu sorri, ao recordar-me que nas piores situações Verena sempre tinha me contagiado com sua vasta alegria e me inspirado uma capacidade de recuperação e de otimismo que eu nunca tivera, mas das quais desfrutara através de nossa amizade, e soube que não seria diferente com sua própria vida e dor pessoal – O Olaf está com ciúmes&#8230; – Verena voltara a sussurrar &#8212; Você precisa ver a cara dele, lá do outro lado da sala&#8230; Os anos passam e os anos não passam&#8230; Ele sempre teve ciúmes de você, e continua tendo&#8230; – e você, minha amiga, continua estimulando isso, eu não pude dizer – Dan, que palavras sábias você tem para mim? – Verena era uma das poucas pessoas, fora da minha família, que me chamava de Dan, diminutivo para Andante.</p>
<p><a href="http://www.kalinamagazine.com/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-451" title="KALINA3e" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/kalina3e.jpg?w=460&#038;h=295" alt="KALINA3e" width="460" height="295" /></a></p>
<p>&#8211; Eu?! Você é quem tem as palavras sábias, querida. E as atitudes sábias também. Sou seu aprendiz – era verdade, parecia-me que eu era disciplinado em cultivar diligentemente a paz que ela já tinha e da qual desfrutava, naturalmente &#8212; E como tal, lembro-me de uma coisa que você me disse ao final de um dos meus relacionamentos, já nem sei qual, pois foram tantos os finais, e talvez você tenha me dito isso mais de uma vez&#8230; Guardadas as proporções, pois um namoro é só um namoro, e tem um fim que não é um fim&#8230; Enfim, você me dizia&#8230; não fique triste porque algum dia acaba, fique feliz porque algum dia começou&#8230; Você pode ser feliz porque teve o quanto teve, porque afinal teve o quanto teve, você me perguntava, ao invés de nunca ter tido nada, ou no final é tão ruim que você preferia nunca ter tido?</p>
<p>&#8211; É&#8230; – ouvi Verena sorrir – é o tipo de coisa que eu sou capaz de dizer&#8230;</p>
<p>&#8211; Pois sabe que eu ouvi algo muito parecido de um monge, lá no mosteiro? Ele contou-me de uma mãe que, muito tranquilamente, e com muita sinceridade segundo ele, falou da morte da filha aos treze anos. Ela dizia estar grata por todo o tempo vivido junto à filha, e que aqueles anos a alimentavam ainda, e provavelmente para sempre. Ela estava sendo genuína, soava verdadeira, segundo o monge, meu amigo. Não estava somente procurando conformar-se, ele percebeu, ela havia de fato com o tempo chegado a um termo e uma aceitação, e a gratidão tinha sido o caminho. E dentro da prática da nossa tradição, ela conseguia olhar-se e reconhecer os traços da filha nela mesma, a presença da filha nela mesma, o quanto da vida da filha havia na vida dela, agora&#8230; Ela enxergava presença e continuação onde outros só enxergavam ausência e interrupção. Como a felicidade vivida ao lado da filha durante todos aqueles treze anos era uma parte importante da felicidade que ela continuava cultivando. Como a felicidade dela era a única continuação possível e conseqüente da felicidade compartilhada com a filha. E não a tristeza. Cultivar a tristeza agora seria desprezar a vida da filha, e a presença feliz da filha na vida dela – percebi-me um pouco empolgado, talvez desconsiderando Verena e sua sincera tristeza, o cabível luto, e fiz silêncio, buscando acalmar-me, voltando-me à minha respiração.</p>
<p>&#8211; Agora estou entendendo melhor o que o seu amigo disse&#8230;<br />
&#8211; O monge? – perguntei, já que ela parecia precisar de diálogo para continuar com sua própria linha de raciocínio, senão perdia-se, fechava-se e emudecia.<br />
&#8211; Não. O da igreja.<br />
Fiquei confuso por um momento. Monge, mosteiro, eu havia mencionado há pouco. Igreja&#8230; &#8212; O Theo?!<br />
&#8211; Não sei o nome dele. Aquele que foi com você, lindíssimo&#8230;.<br />
&#8211; O Theo. O que foi que ele disse? – percebi-me ansioso. Tudo o que viesse da direção dele já me interessava, inclusive o que não me dizia respeito.<br />
&#8211; Foi como se você tivesse trazido o anjo à missa – Verena suspirou e reuniu forças para continuar – Ainda me lembro direitinho, quando ele me abraçou e disse&#8230; Talvez seja um poema&#8230; As folhas parecem filhas da árvore. Mas quando elas caem, elas se tornam mães da árvore, alimentando-a. Assim as folhas não morrem nunca, pois passam a viver na árvore&#8230;. Foi alguma coisa assim que ele disse. Bem no meu ouvido, dentro daquele abraço maravilhoso&#8230; Então eu quis olhar de novo para ele&#8230; Tão lindo! Ele tem um olhar doce. E foi quando perguntei se ele conhecia o Gustavo – era a primeira vez que Verena pronunciava o nome do filho, em nossa conversa – E ele respondeu&#8230; Mas a maneira como ele respondeu&#8230; Olhando-me nos olhos&#8230; E ainda me segurando&#8230; me envolvendo&#8230; me protegendo&#8230; Ele abriu um buraco cósmico naquela fila&#8230; – sorri à expressão preferida da minha amiga – Na verdade, ele fechou. Pois quem abriu foi você&#8230; Ele respondeu&#8230; Estou conhecendo agora. Ele disse&#8230; – e a voz dela tremeu – Muito prazer, Gustavo&#8230; e então se debruçou e de novo me abraçou.</p>
<p>Silêncio, e nele pude dar conta da minha emoção. Não estava nem um pouco surpreso com as palavras de Theo, pois conhecia a origem e fonte delas, que eram o nosso mestre. Nem mesmo com o fato de ele ter tido a presença de espírito, e em parte a coragem, de menciona-las a alguém que ele não conhecia. A sabedoria. Não me surpreendia ele as ter dito de maneira tão adequada, sensível, delicada, à pessoa certa, a uma pessoa que poderia compreender e se beneficiar delas – como ele pudera julgar com tanta precisão, como intuir tão rápido &#8212; apesar da ocasião tão difícil&#8230; Quanto mais o conhecia mais o julgava especial e maravilhoso. E eu me sentia orgulhoso, como se Theo fosse obra minha&#8230; Não me sentia paternal, sentia-me&#8230; amoroso. Foi quando a campainha soou – na casa de Verena, que tentava combinar comigo um encontro depois da partida de Olaf, naquela mesma tarde.</p>
<p>&#8211; Devem ser meu irmão e minha cunhada, para irmos ao aeroporto&#8230; Bom, se você não pode vir porque vai encontrar o Theo&#8230; Esse rapaz tem mesmo nome de Deus?! Depois vou querer saber tudinho&#8230; Você trouxe ele da França com você? – por um instante, pareceu-me que Verena entrava noutro buraco cósmico, onde Gustavo ainda não morrera – Que tal você traze-lo aqui? Adoraria vê-lo de novo, e poder agradecer! Vocês podem? Querem?</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/10/15/trecho-xii-how-to-disappear-completely/"><img src="http://img.youtube.com/vi/nOuKdeZ2x-M/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p>O apartamento estava às escuras, e preferi mantê-lo, e assim também às minhas emoções, em volume baixo. Depois de ter lentamente comido mais da salada de Donita à luz de uma vela na cozinha, voltei ao escritório, decidido a ouvir as músicas que Theo havia gravado para mim, antes de reencontra-lo. À luz do Titanium redivivo, vi que uma das <em>playlists</em> no <em>pen drive</em> era das mínimas músicas eletrônicas que haviam tocado enquanto conversávamos e ele cozinhava. Escolhi a outra, marcada E.S.T., porque por um instante acreditei que podia ser uma trilha sonora, confundindo com O.S.T. Começava com uma versão ao vivo, sem o chiado de rádio na introdução, mas num instante, minha pele arrepiando-se como da primeira vez, depois da entrada em lamento do baixo profundo, pontilhado pela bateria num borbulho, reconheci o piano que em gotas adentrava e súbito aflorava num maravilhoso jorro – era a música do nosso nascente! Ainda não havia terminado de ouvir a trilha, eu ainda nadava, ou boiava, em algum lugar entre o Mediterrâneo e as estrelas, carregado pela corrente de piano, quando o telefone tocou.</p>
<p>&#8211; Você quer subir?<br />
Embora não tivesse pensado nos filmes que levaria, escolher três dentre os que possuía foi fácil, a começar por <em>A Vida é Iluminada</em>, e o fiz pensando em Theo, ou assim imaginei – em seguida pus-me porta afora, escadas acima, a paz a cada passo, com certa ansiedade, e muita alegria. Encontrava-me quase exultante, e por instantes senti como se não estivesse apenas subindo a escadaria do prédio, antes como se realizasse uma espécie de ascensão, a minha espécie de ascensão, a minha ascensão, em direção ao menino que tinha nome de Deus e morava no topo, à minha cabeça, na cobertura de onde eu morava&#8230; Parecia-me tão claro, tão perfeito, tão belo – como o próprio Theo.</p>
<p>Era um Theo diferente o que me aguardava, no entanto, no topo da escadaria, do outro lado da porta, na cobertura às escuras, no ar abafado da noite que continuava prenunciando chuva &#8212; ou assim eu continuava imaginando. Desinteressou-me a árvore plantada no bote, desistindo de deslizar em minha imaginação, definitivamente à deriva, quando ele me perguntou à luz azulada emanando da luminária em forma de cuia negra:</p>
<p>&#8211; Hoje não foi um bom dia de se viver, né? – havíamos parado no centro do salão, em meio a mais pilhas de livros e de caixas do que ontem havia, ou pelo menos foi essa a minha impressão na segunda visita ao espaço de Theo.<br />
&#8211; Por que não? – na minha disposição divinizada daquele momento, intensificada por estar na presença do deus adolescente, a pergunta não pôde me parecer mais díspar.<br />
&#8211; A sua casa não até inundou? – Theo inclinou a cabeça, lindamente confuso e surpreso.</p>
<p>Contei a Theo o estado em que me encontrara antes da inundação, devido a um copo de chá, e ao qual rapidamente retornara depois dela, e da visita do Divino.<br />
&#8211; Você me ensina a viver assim? – olhando-me surpreso e comovido, Theo tocou meu rosto numa carícia como uma súplica.<br />
&#8211; Assim como, Theo? – comecei a dar-me conta de que nos encontrávamos em distintos estados de espírito, mas ainda não percebera o quanto.</p>
<p>&#8211; Nesse estado de êxtase em que você vive&#8230; – e ele retirou a mão do meu rosto, antes que me arriscasse a tentar mantê-la lá, segurando-a com minha própria mão, ou então, se é que eu teria coragem, retribuindo a carícia no rosto dele.<br />
&#8211; Eu não vivo num estado de êxtase, Theo&#8230; – <em>eu não vivo num estado de êxtase, meu Deus</em>&#8230; Em minha mente, era como se duas conversas estivessem ocorrendo&#8230; Lembrei-me daquele livro, <em>Conversations with God</em>, que eu nunca tinha lido afinal&#8230; esperando pela surpresa de vive-lo, talvez?</p>
<p><a href="http://www.olafureliasson.net/works/the_weather_project.html" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-452" title="PD*3956234" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/weather-project-olafur-eliasson-tate-modern.jpg?w=460&#038;h=309" alt="PD*3956234" width="460" height="309" /></a></p>
<p>&#8211; Nesse estado de contentamento, então. Você parece sempre tranqüilo, com uma satisfação pelas coisas mais simples&#8230;<br />
&#8211; Não foi sempre assim, Theo. Isso é a prática. E você já me viu bem frustrado, com coisas muito pequenas, como o barulho dos gêmeos&#8230;<br />
&#8211; Mesmo assim. Para tudo você tem uma prática. Para cada situação você busca a atitude que te pacifica&#8230; Sobre cada coisa você põe esse olhar que te salva&#8230;<br />
&#8211; Eu repito, Theo. Não foi sempre assim. Não mesmo. Isso é a minha prática, hoje em dia.<br />
&#8211; E essa prática é o quê?<br />
&#8211; É o próprio modo como eu vivo. Inclui tudo. Está em todo lugar, em cada momento – apesar da minha sinceridade, senti-me pretensioso, e Theo mostrou-se frustrado.</p>
<p>Só vim a começar a perceber que naquela noite estávamos em lugares distintos, com a pergunta seguinte de Theo &#8212; Você já pensou em suicídio?<br />
&#8211; Por que, Theo?<br />
&#8211; Não sei&#8230; Aquela música de que você falou hoje.<br />
&#8211; A do Radiohead? – a canção para a qual ele havia dito <em>cool</em>?<br />
&#8211; É. É uma música sobre desespero. Sobre suicídio.<br />
&#8211; Nunca pensei nela assim, Theo – nunca havia pensado muito sobre aquela canção, satisfazendo-me com a linda melodia, a bela voz do Thom Yorke, e a confirmação de que mudar de vida já não era sem tempo &#8212; Não acho&#8230; Não concordo – notei a inquietude de Theo aumentando a cada instante, a cada palavra minha, e a cada palavra dele mesmo, também. Reconheci aquele seu olhar que eu havia chamado de A Tristeza do Mundo &#8212; Por que hoje foi um dia tão ruim para se viver?</p>
<p>&#8211; Você não tem idéia de que dia é hoje! – Theo deu um passo atrás, afastando-se de mim, e fez também um certo movimento com os braços que eu percebi mas não acompanhei, assim como o seu olhar, que eu não segui, voltado para baixo.<br />
&#8211; Hoje é véspera da lua cheia, Theo! – ainda não percebera para onde a conversa se encaminhava, onde Theo estava&#8230; Eu continuava encastelado em mim mesmo, em minha sensação de satisfação que eu tentava prolongar, ele tinha razão – Que dia é hoje, Theo, para você?</p>
<p>&#8211; É o aniversário do meu irmão.<br />
&#8211; O irmão de quem você já me falou? O da jabuticabeira? – sorri contente, aquela era agora uma memória querida para mim mesmo &#8212; A quem você ama tanto? Por que o dia do aniversário dele não seria menos do que maravilhoso? – lembrei-me que aquela tarde em casa fora a primeira vez que o vira chorar, e comecei a me dar conta de Theo, do Theo que estava diante de mim, e não da imagem dourada e quase mítica que tinha dele, e que procurava manter&#8230; eu não estava conseguindo alegra-lo, nem poderia &#8212; Ele não pôde vir ao Brasil?</p>
<p>&#8211; Ele morreu&#8230; &#8212; foi a maneira como ele disse. Senti um arrepio. Theo afastou-se mais um passo, eu percebi, e comecei a contar, agoniado &#8212; Como esse dia pode ser bom?</p>
<p>&#8211; Quando você soube, Theo? – entendi que ele tinha acabado de ter a notícia da morte do irmão, e só então ele percebeu minha confusão, o que pareceu desanima-lo mais ainda. Seus ombros vastos estavam encolhidos.<br />
&#8211; Faz dois anos que ele morreu. E desde então o aniversário dele é o pior dia&#8230; É tão injusto, eu estar vivo ainda, e ele não estar mais&#8230;<br />
&#8211; Por que seria injusto, Theo? – apressei-me em interrompe-lo. Angústia, era como se ele respirasse, engolisse e suasse angústia. E à minha pergunta, Theo mirou-me daquela maneira quando ponderava se devia falar ou não, expor-se ou não, abrir-se ou recolher-se, e fugir.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/davidepoggi/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-525" title="davidepoggiforearmhard" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/davidepoggiforearmhard.jpg?w=460&#038;h=494" alt="davidepoggiforearmhard" width="460" height="494" /></a></p>
<p>Ainda não tinha percebido o rumo já tomado por nossa conversa, ainda não havia percebido o lugar em que Theo se encontrava, ainda não havia percebido aquilo que ele me mostrava, até que finalmente acompanhei seu olhar&#8230; Como é difícil compreender o outro&#8230; Como é difícil sair de si mesmo e estar com o outro&#8230; No outro&#8230; Sem estar pensando&#8230; O que <em>eu</em> posso fazer? Como <em>eu</em> posso ajudar? Sem tanto eu, eu, eu, sem o eu! Olhei os antebraços de Theo, e como é a minha parte preferida num homem, e os dele eram lindos, os pelos loiros naturalmente penteados&#8230; A ironia estava em que primeiro entrei em contato com o meu desejo, uma pequena vertigem, o meu, o eu, e querendo fazer o dele meu, o ele, eu&#8230; E a lição, quando por fim, com um arrepio beirando a náusea, finalmente consegui enxergar o que Theo estava olhando, intrigado, ele mesmo em dúvida. Nunca tinha conhecido alguém que as tivesse. Nunca antes tinha visto cicatrizes assim, cruzando os pulsos, separando-os. Para sempre, ainda que tivessem sido recosturados. Era uma cicatriz horrível,  uma cicatriz tremenda, de uma escolha, de uma tentativa frustrada, de um erro, para sempre. E que Theo as tivesse doeu-me. Pois eu não queria que ele as tivesse. E ele as teria, para sempre. E eu não queria que ele as tivesse, nunca. Não queria que ele quisesse, que tivesse querido. Querido&#8230;</p>
<p>&#8211; Theo&#8230; – mas ele não me olhava, quando eu comecei a chorar, e quando tentei abraça-lo e envolve-lo. Mas ele era tão mais alto do que eu, tão maior do que eu, tão mais vasto, embora não fosse nem tão maior nem tão mais alto ou vasto, só mais alto e maior e mais vasto&#8230; Senti que não sabia envolve-lo, e que não sabia abraça-lo, que não tinha aprendido ainda, apesar do tanto, nos últimos dias&#8230; Senti também que ele hesitava, que ele ponderava, como se não estivesse certo de querer dar aqueles passos em minha direção, numa direção que seria nossa. Senti a hesitação dele, o que fez aflorar em mim a rejeição que na minha essência mora, com a qual não sei lidar, e na seqüência percebi minha vulnerabilidade, uma dor antiga, exausta, e a agressividade era a defesa seguinte&#8230; Tudo passava-se em segundos, e eu me observava e o observava como se estivesse assistindo dois atores, enquanto outra parte de mim aspirava por clareza mental, por presença plena e calma e aberta&#8230; Eu queria envolve-lo, mas uma parte de mim entendia que se o menino tinha sido tão machucado a ponto de querer machucar a si mesmo, então eu não podia adentrar sua arena para machuca-lo mais ainda, e compreendi que talvez fosse aquela a sua hesitação, que o afastara e tornara seu corpo um pouco rijo. Eu o puxava em direção a mim, e no entanto sentia que ele não vinha. Ele vai me machucar mais, ou ele vai me curar talvez? – foi o que li, foi o que ouvi. Meu desejo pode machucar, este que vê os antebraços lindos e não enxerga as cicatrizes&#8230; Quando as teria visto, se ele não mas tivesse mostrado? Quanto demorara para enxergar, mesmo ele mostrando-mas? Quase no início daquela conversa ele tinha virado os pulsos para mim, e eu não enxergara, eu não quisera enxergar, não olhara naquela direção para não excitar o meu desejo&#8230; Músculos, pelos, e súbito meu desejo pareceu-me uma loucura, ficou tão claro, quando me fazia perder a pessoa diante de mim, reduzindo-a a músculos, pelos&#8230; A vertigem duma ilusão. Meu desejo pode machucar mais, mas o amor pode talvez curar – como amar mais? como amar tudo? como amar por completo? como amar o bastante? como amar até o que não consigo amar? &#8212; e então, tomada a decisão, insisti e puxei-o com mais força junto a mim. Foi um pouco tacanho, uma luta velada, até que, tomada a sua decisão, assumindo o risco, ele começou a chorar também, e encolhendo rendeu-se ao meu abraço.</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/10/15/trecho-xii-how-to-disappear-completely/"><img src="http://img.youtube.com/vi/chE1_g3GAWw/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p style="text-align:center;"><strong>Leia  o  <a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/10/25/trecho-xiii-%e2%80%93-nothing-is-real-love-is-real/" target="_self">Trecho XIII &#8211; Nothing is real/ Love is real</a></strong></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/393/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=393&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Trecho XI &#8211; No surprises, please</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Oct 2009 10:47:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trecho XI]]></category>
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		<description><![CDATA[O transbordamento ou a vaporização das águas depende da estação. Se ela é redonda ou quadrada, depende do recipiente. Fluente na primavera, sólida no inverno, sua imensidade não pode ser medida, sua origem não pode ser encontrada. Thich Nhat Hanh Leia O diário dos dias extraordinários completo acessando o índice disponível no cabeçalho acima. Obrigado, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=365&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>O transbordamento ou a vaporização das águas depende da estação.<br />
Se ela é redonda ou quadrada, depende do recipiente.<br />
Fluente na primavera, sólida no inverno,<br />
sua imensidade não pode ser medida,<br />
sua origem não pode ser encontrada.</em></p>
<p style="text-align:right;">Thich Nhat Hanh</p>
<p style="text-align:center;">
<p style="text-align:left;">Leia <strong>O diário dos dias extraordinários</strong><em> completo</em></p>
<p style="text-align:left;"><em>acessando o <a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/indice/" target="_self">índice</a> disponível no cabeçalho acima.</em></p>
<p style="text-align:left;"><em>Obrigado, desfrute!<br />
</em></p>
<p><em><strong><br />
</strong></em></p>
<p><a href="http://www.anniegriffithsbelt.com/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-381" title="11--Annie-Griffiths-Belt-wa" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/11-annie-griffiths-belt-wa.jpg?w=460&#038;h=307" alt="11--Annie-Griffiths-Belt-wa" width="460" height="307" /></a></p>
<p>Foi o copo em minhas mãos, talvez. Um copo comprado na viagem a Bonaire, Caribe holandês, em companhia de minha família, uns vinte anos atrás. Um copo de cerâmica japonesa, comprada no Caribe holandês em uma loja de hindus, agora contendo o chá cultivado e colhido no Vietnã, embalado e despachado de Taiwan, o delicioso <em>oolong</em> que eu bebia onze andares dentro do céu&#8230; Foi como se tudo fosse novo e se tornasse inédito. O copo pareceu-me um milagre. O trabalho que continha, o estudo que manifestava, o conhecimento de gerações de artesãos que  representava&#8230; Aquela cerâmica continha pessoas e seus esforços, as famílias e suas histórias, a sucessão de gerações e a transmissão da memória&#8230; Brasil, Holanda, Japão, Índia, Vietnã, Taiwan&#8230; Desde os primeiros artefatos de barro do homem até aquele copo, eu percebia segurar em minha mão uma clara linha de sucessivos milagres e transportes, de aprendizado e habilidades, de destreza e diligência, de inteligência e determinação – havia tanta história pregressa àquele copo, tanta memória contida naquela cerâmica, agora em minhas mãos&#8230; E além de tantas mãos em minhas mãos havia o solo naquele copo, e o Sol naquele copo, e a chuva, e as nuvens e&#8230; Levantei o olhar dele e de novo aconteceu-me de olhar as paredes do meu apartamento como a um milagre. Por mais que eu tivesse estudado engenharia, arquitetura, cálculos, resistência de materiais, leis da física – mesmo assim, pareceu-me um milagre estar vivendo ali, pendurado a tantos metros do chão, em meio ao céu&#8230; <em>Vivendo no céu</em>, como dizia Theo, o deus adolescente&#8230; E não apenas me lembrava do que ele havia dito, compartilhando sua própria vivência em meu apartamento, que eu mesmo já tivera, outrora &#8212; à qual agora retornava&#8230;</p>
<p>Do corredor onde me encontrava olhei em direção à sala, através das janelas imensas, e vi claramente que estava dentro do céu. Flutuando em nuvens de concreto, muitos metros acima do solo. Lembrei-me de uma ocasião na minha infância, feriado passado em Campos do Jordão. Caminhava com minha família pelo Horto Florestal, quando a neblina descendeu sobre a paisagem. Meus pais ficaram preocupados por não podermos enxergar mais do que uns poucos passos à nossa frente, e quiseram retornar, pois rapidamente esfriara e a umidade do ar passava a se condensar e tornara-se uma envolvente garoa minúscula. Não tem mais nada pra ver aqui, disseram, indicando a paisagem sumida na neblina&#8230; Mas para mim era&#8230; como um milagre realizado! Senti como se estivesse flutuando! O céu descendera sobre a terra! Eu estava dentro das nuvens&#8230;. E então percebi&#8230; Foi uma sensação física muito forte, e especialmente para uma criança de  cinco ou seis anos&#8230; Dei-me conta de que somente as solas dos pés tocavam a terra. Apenas aquela partezinha de mim, na realidade, tocava a terra – o resto, a maioria do meu corpo, estava no ar&#8230; E com a nuvens assim baixas, de repente percebi que eu vivia no céu&#8230; Claro! Não havia um céu começando lá em cima. O céu, feito de ar, começava logo acima do solo, e era dentro dele que eu me mexia, caminhava – minimamente apoiado sobre a terra, ainda que firmemente apoiado sobre a terra, porém vivia, caminhava e me movimentava dentro do céu&#8230; O céu não ficava longe, não ficava lá no alto, lá no céu&#8230; O céu era aqui mesmo, começava e estava ao meu redor – eu, todo o tempo, todo o meu corpo, dentro do céu&#8230; Não pude dividir aquele momento com meus pais, pois na verdade não conseguiria expressa-lo com as palavras que sabia então – e nem com as que sei agora, ainda. Lembro-me de abrir os braços e movimenta-los, tranquilamente batendo-os no ar, como se assim eu pudesse voar&#8230; Lembro de ficar bem na ponta dos pés, e pensar – eu estou no céu! E assim fui ficando para trás, atrasando a procissão que pressurosa pretendia voltar à entrada do parque, e assim meus pais foram ficando aborrecidos comigo, e assim fui perdendo o céu&#8230; Na verdade, eles tinham receio de que meu irmãozinho, dormindo no carrinho que eles empurravam, se resfriasse com a súbita mudança de temperatura e umidade, e talvez também eu&#8230; Mal sabiam, e ainda não sabem, que eu estava no céu, que eu estou no céu.</p>
<p>A partir daquele dia, pude dispor de uma liberdade secreta e irrestrita em meus movimentos. Mesmo em lugares estreitos, em lugares lotados, movia-me em meio à multidão como se me movimentasse pelo céu. Passei a conviver com a secreta convicção de habitar o céu, de ser uma criatura dos ares. Depois iria aprender esse conceito de céu como paraíso, nas aulas de catecismo, e compreendi que não dividia com ninguém aquela noção de que o céu é aqui mesmo, o paraíso é aqui, e não em algum outro lugar, distante, inalcançável, possível só depois da morte,  se é que&#8230; Depois fui aprender que o ar era o elemento do espírito, o Éter, e tinha a sensação já instalada de que vivia no espírito, de que todas a coisas se alçavam, mantinham-se, almejavam, empinavam-se, saltavam, erigiam, pulavam, voavam, habitavam dentro do Espírito – e de volta ao meu apartamento, o menino que havia crescido amando os dias nublados e a neblina sentia-se finalmente habitando os céus&#8230; Pensei com gratidão em todas as pessoas que haviam construído aquele refúgio aéreo para mim, olhando as paredes do lar ao meu redor&#8230;</p>
<p>Toquei a parede mais próxima de mim com lágrimas nos olhos, sentindo nela a presença perpétua dos pedreiros, dos operários, dos engenheiros, dos calculistas, dos pintores e dos marceneiros, dos encanadores, e dos seus mestres, dos médicos, dos seus pais, das suas mães, dos irmãos e irmãs, dos agricultores – de todas as pessoas que haviam participado da construção daquela milagrosa torre erguendo-se firme dentro do céu, na qual presunçosamente eu agora habitava&#8230; Como não ajoelhar-me todos os dias perante um altar para estas pessoas que possibilitavam tornar bem real e palpável o meu viver no céu? Como não agradecer todos os dias a gerações de construtores, mas também de agricultores, artesãos, professores, que tornavam possível minha existência nesse momento, aqui e agora, pendurado no céu &#8212; em minha mão um copo de cerâmica japonesa comprado no Caribe holandês contendo o chá cultivado e colhido no Vietnã e despachado de Taiwan&#8230;</p>
<p>Foi nesse estado que Donita encontrou-me, retornada das compras.</p>
<p>&#8211; O senhor quer almoçar agora? – perguntou-me, quando encarei-a com os olhos e faces úmidos, e imagino o olhar transtornado que coloquei sobre ela, pois a enxerguei como um <em>bodhisattva</em> que há anos vinha cuidando do meu bem estar, e com profunda gratidão olhei para ela, que retornou um olhar um pouco assustado e desconfiado que eu bem conhecia, que às vezes era acompanhado de uma frase famosa – O senhor hoje tá especial – e com isso, dito de maneira carinhosa, ela queria dizer que eu estava diferente do normal, o que quer que meu estado normal fosse, ou dito de outra maneira, significava simplesmente que eu era esquisito. Ela nunca ultrapassara uma certa barreira de respeito comigo, apesar das décadas de convivência, e eu tinha a impressão de que ela acreditava que de vez em quando eu usava drogas – se nem mesmo maconha eu havia experimentado em toda a minha vida, nem uma única vez&#8230; Como poderia, alguém que percebeu viver no céu desde a infância, precisar de qualquer outra coisa para alçar vôo? Meu maior esforço, se é que eu o fazia, era pousar à terra.</p>
<p>&#8211; O senhor quer? – preferi prolongar o jejum provisório e cuidar da emoção que me dominava, deixando Donita terminar a limpeza do apartamento, que eu interrompera enviando-a ao mercado. Decidi levar a chaleira para o escritório e lá tentar acalmar-me. Percorrendo o corredor percebi que, vivendo assim miraculosamente empilhado, pisava na cabeça de dezenas de pessoas, sem no entanto pisoteá-las, e compartilhando com elas o céu, embora talvez nenhuma disso se apercebesse &#8212; a não ser Theo, em algum lugar acima de mim. Mas eu me encontrava tomado ou tocado, “especial” – e todas as coisas haviam se transfigurado. Das coisas mais simples, as quais usufruía sem muito notar, como os tacos de cumaru sob meus pés, ou a perobinha rosa dos rodapés, até as coisas de grife às quais me orgulhava de possuir, como a <em>chaise longue</em> do Niemeyer – todas pareciam recortar-se no ar, os contornos precisos e distintos, todas pareciam iluminar-se, preciosas, todas perfeitamente conscienciosas, todas incrivelmente orgulhosas, todas demonstrando o milagre do engenho humano, da transmissão da memória, da manifestação da vida&#8230; A princípio, pensei escutar a <em>playlist</em> presenteada por Theo para pacificar-me – mas o fato de que aquele pequenino <em>pen drive</em> em formato de pingüim friorento, que me fazia recordar e sorrir, pudesse conter música pareceu-me subitamente fabuloso, e fiquei a contemplá-lo pousado na palma de minha mão – até ouvir Donita chamar-me com um grito, premente e atordoado.</p>
<p><a href="http://www.facebook.com/video/video.php?v=1186780302934" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-368" title="11- nefes1_pina_baush_fot_bettina_stob" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/11-nefes1_pina_baush_fot_bettina_stob.jpg?w=448&#038;h=673" alt="11- nefes1_pina_baush_fot_bettina_stob" width="448" height="673" /></a></p>
<p>Talvez o chá contivesse alguma substância alucinógena que só depois de muitas doses se manifestasse no organismo – e quantos pacotes eu já havia bebido, nos últimos anos? Dezenas de bules, centenas de copos, xícaras, canecas – e agora eu estava a ver água jorrando da porta do lavabo escorrendo rápida e caudalosa numa corredeira pelo corredor, batendo contra a parede e refluindo, escoando para a sala.</p>
<p>&#8211; A descarga disparou! – gritou Donita, enquanto afobava-se sem saber bem o que fazer. Panos não iriam resolver, nem mesmo um balde. Observei o vórtice de água brotando do vaso sanitário, e pensei com ironia que, com um só fortuito golpe, estava finalmente desperdiçando toda a água que tão conscienciosamente procurara economizar ao longo dos meus anos de <em>cover</em> de ativista ecológico urbano&#8230; – Onde é o registro? – gritou Donita, com os pés mergulhados em água, no lavabo que se enchia rapidamente por ser pequeno e diante de tal vazão de água, ainda que a porta estivesse aberta.</p>
<p>Era tanta a distância do céu das coisas iluminadas em que me encontrara para agora aquela privada vertendo água meu coração aos pulos demorei quase um minuto para tomar alguma providência primeiro pensei em ligar para o zelador mas até ele chegar o desastre seria tão maior comecei a suar a sala de estar começando a inundar Donita erguendo os móveis de pés molhados que colocava em cima dos outros que tentava empurrar e uma confusão mental e agitação até que no meio disso tudo eu me lembrasse de me voltar à respiração acalmando-a e acalmando-me e não sei se fechei a porta para deixar de ver Donita apavorada ou o corredor como um regato ou os meus móveis assinados mergulhados como palafitas ou se foi para de fato estancar a corrida da água para fora do lavabo que então começou a encher e escalar as paredes e eu num flash lembrei-me de um vídeo do Radiohead e enquanto ria comecei a rodar as torneiras que na parede acima havia imaginando que uma delas interromperia o fluxo o que de fato aconteceu parou Donita eu gritei e esperei que o ralo desse vazão a quase toda a água que tinha tornado o lavabo uma piscininha infantil lembrando-me da verde instalada sob a jabuticabeira que Theo havia compartilhado comigo outro dia e da azul com golfinhos armada na frente da casa de praia de Verena para o bebezinho esbaldar-se de espirrar tanta água ao redor que às vezes Gustavo se afogava em sua própria agitação e interrompia surpreso piscando os olhinhos cuspindo a água para de novo recomeçar com as palmadas e as ondas para só então abrir a porta e sair e então foi tirar todos os baldes e bacias dos armários e como todos os panos de chão não bastaram mesmo os metros de linho para telas que eu nunca havia pintado e alguns cobertores mais velhos enquanto o coração acalmava mas a mente ainda dava piruetas de pés molhados encaminhei-me para o escritório pensando que outrora comprara quinhentos metros quadrados de presunçoso conforto que de um momento para outro podiam transformar-se em quinhentos metros quadrados de problemas e percalços quando a atendente do seguro residência perguntou-me se de fato era uma situação de emergência eu ri:</p>
<p>&#8211; Imagina que o corredor do seu apartamento virou um rio, indo desaguar na sua sala de estar, que rapidamente se enche como um lago&#8230; Consegue enxergar uma almofada de chão movendo-se como uma jangada, carregada pela enxurrada? Em desespero você se tranca dentro do lavabo, junto da privada que está vazando, e vê a água escalando acima dos seus calcanhares – ri de novo – Você sabe nadar, Valeria? – e a moça, que não sabia nadar, assegurou-me então que um profissional qualificado estaria na minha residência em até quatro horas – Diga para ele trazer uma bóia, ou quem sabe um escafandro, que até lá o meu apartamento já terá virado um mar, e talvez a água esteja escorrendo pelo parapeito abaixo numa fenomenal cascata que vai parar a avenida&#8230; então para entrar no prédio ele vai precisar trazer um guarda-chuva também&#8230; Você conhece o rapaz? Ele sabe nadar?</p>
<p>Ainda sem fôlego e suado, fiquei olhando o telefone sobre a mesa, tentando retomar o fio de percepção que fizera dele um ser iluminado e o milagre que me iluminava de volta, há menos de meia hora atrás&#8230; Foi quando ele tocou, como se acordasse e me respondesse, indagando:</p>
<p>&#8211; O que você tá fazendo?<br />
Fiquei em dúvida.<br />
&#8211; Estou sentado em estado de choque diante do telefone e da promessa de que um encanador virá aqui em casa em até quatro horas – eu ri – Sabe a música <em>No Surprises</em> do Radiohead&#8230; <em>Such a pretty house&#8230; and such a pretty garden&#8230; No alarms and no surprises&#8230; no alarms and no surprises&#8230; Please</em> – e como para a geração de Theo música significasse também imagem, mencionei o vídeo, que ele confirmou – Aquele em que o Thom Yorke continua cantando enquanto submerge? <em>Cool</em>!– era uma gíria que sempre me fazia sorrir, especialmente com a pronúncia francesa; e depois da breve menção da devida trilha sonora e visual, contei a ele a situação no meu apartamento.<br />
&#8211; Você tá falando sério?<br />
&#8211; Digamos que por não sei qual razão eu não estou conseguindo falar sério sobre uma situação que foi séria ou que talvez seja séria ainda mas que já passou o pior já passou ou já está feito&#8230; Sou grato a meus pais por terem me colocado na natação logo aos cinco anos de idade&#8230;.<br />
&#8211; Você precisa de ajuda?<br />
&#8211; Você tem algum talento para encanador?<br />
Theo riu.<br />
&#8211; Hoje a minha ajudante está aqui em casa, então fica mais fácil&#8230; E você, o que está fazendo?<br />
&#8211; Eu&#8230; – ouvi a voz de Theo espreguiçando-se junto com o corpo que ele alongava, e imaginei-o uma lânguida, vigorosa pantera esgueirando-se para fora da caverna – &#8230;estou acordando&#8230;</p>
<p>&#8211; Achei que você tivesse acordado mais cedo? A que horas você trouxe o <em>pen drive</em> aqui em casa? Obrigado por isso, Theo. E por tudo.<br />
&#8211; Obrigado você. É um presente, pode ficar com o pingüim&#8230; Quando você saiu eu ainda não estava querendo dormir então gravei as <em>playlists</em> e deixei com a Anita, que estava chegando para trabalhar&#8230; – Theo tinha boa memória para nomes, pois na verdade cultivava uma excepcional consideração por cada pessoa que conhecia, e parecia plenamente presente diante de cada uma, de tal forma que não esquecia o rosto nem o nome delas, eu ainda iria notar &#8212; Você já escutou?</p>
<p>&#8211; Não – eu ri, ouvindo a expectativa adolescente que na voz dele havia, ansioso por compartilhar comigo e saber a minha opinião – Até agora eu só consegui acordar, fazer chá e daí me dei conta de que estou vivendo no céu desde a minha infância, mas então o céu inundou&#8230;<br />
&#8211; Só um instante, só um instante, por favor – Theo atendeu uma outra chamada, podando minha tendência a fazer drama – Agora eu tenho de ir. Vou passar a tarde com a minha mãe. Amanhã ela vai para a fazenda, com minha tia, e fica lá até o feriado. Então, hoje é a última chance de passar com ela&#8230; Você gostaria de assistir um filme comigo, hoje à noite?<br />
&#8211; O que eu não gostaria fazer com você, Theo? – pensei mas não disse, e perguntei – O que você gostaria de assistir?<br />
&#8211; Prefiro que você escolha.<br />
&#8211; Faz tanto tempo que não vou ao cinema&#8230; Nem sei o que está passando. A que horas você quer ir? – comecei a abrir a internet no computador à minha frente.<br />
&#8211; Não pensei em cinema&#8230; Hoje prometi sair com o Joshua e os amigos dele. Mas nunca é antes da meia-noite, então podíamos assistir um filme aqui em casa, foi o que pensei&#8230; Você tem algum para trazer?</p>
<p>Combinamos que ele me ligaria quando estivesse livre.</p>
<p>&#8211; Você vai ficar bem? &#8212; perguntou com certa veemência, com uma preocupação e desvelo que eu não compreendi porque, primeiro não pretendia esperar isso dele, para não apanhar-me decepcionado em nossa amizade, e por outro lado ainda não me dera conta da importância que eu passara a ter para Theo, em parte obliterado por minha confusão emocional na qual havia uma grande dose de preconceito, culpa e medo de rejeição, e que bastavam para manter-me a uma prudente distância dele, turvando o nosso relacionamento, e em parte por minha falta de clareza mental no momento, e sempre, alimentando expectativas, desejos, avidez, carência. Respondi um pouco displicentemente a uma pergunta carregada de tão intensa sinceridade, de sincera intenção.<br />
&#8211; Eu estou bem, Theo. De verdade – suspirei, e por um instante fiquei em silêncio, voltando-me à minha respiração, ouvindo Theo respirar do outro lado da linha. Meu coração tinha se acalmado, mas minha mente continuava um pouco agitada, embora tivesse tomado todas as providências possíveis. Pensava que devia retornar e ajudar e orientar Donita com as palafitas em que se haviam transformado meu móveis pés palito &#8212; E ainda melhor depois de ter falado com você – ouvi-o sorrir, como eu pretendia – Como te disse, eu sei nadar – lembrei-me que ainda outro dia estivera nadando no Mediterrâneo, junto de Theo, e que o mais importante era aprender a nadar dentro da minha própria mente, evitando as correntezas, as enxurradas, como a que há pouco acontecera, e que tinha sido um bom teste para a calma que procurava cultivar, diligentemente, para a minha clareza mental, para minha capacidade de recuperação, de centramento. Se em parte estava contrariado por ter me perdido daquele estado maravilhoso imediatamente anterior à inundação, em que todas as coisas pareciam iluminadas, em que eu parecia a tudo olhar e enxergar em câmera lenta de alta definição, podia também observar, com ironia e bom humor, sem desespero,  a lição que me tinha sido passada, catapultando-me dum sublime estado para outro bem grosseiro, sem aviso nem escalas. &#8230; <em>No alarms and no surprises&#8230; Please</em>! E estava satisfeito ao ter me lembrado de, no meio da crise, retornar à minha respiração e invocar clareza, ao invés de continuar agindo atabalhoado.</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/10/05/trecho-xi-no-surprises-please/"><img src="http://img.youtube.com/vi/sgzeqwhNTDk/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p>&#8211; O seu prazo de validade está para vencer! – atendi Aquiles, com sua voz tonitruante – A última dose que recebi de você foi há muito tempo! Preciso de outra, urgente! – era sua maneira de convidar-me à sua casa, e assegurei que iria visita-lo no dia seguinte, à tarde – A Agnes me ligou essa manhã, disse que não consegue falar com você faz tempo&#8230; Acho que ela ainda liga no seu celular&#8230; Ela quer saber se você vai para a fazenda no próximo feriado – era a irmã de Aquiles, e a ambos eu havia herdado do meu primeiro namorado, uma história de amor e desunião familiar que gostaria de contar em outro trecho – E eu quero saber se você vai precisar do meu jipe, para poder prepara-lo&#8230;</p>
<p>Para comemorar os setenta anos de idade, Aquiles comprara um <em>off-road</em> luxuoso que ele chamava genericamente de “jipe”. Um erro estratégico, segundo seu médico oftalmologista, já que Aquiles tinha as duas vistas comprometidas, tendo passado por diversas cirurgias seguidas de catarata. Não posso mais sacudir por aí, Aquiles dizia, nem mesmo se eu quiser ir dançar&#8230; Ele tinha outro carro e motorista, mas o jipe, que eu desconfiava ter sido comprado de presente para um rapaz que tinha se revelado o mau caráter que todos já sabíamos ser, ficava estacionado e como Aquiles não queria vende-lo, procurava compartilha-lo com os amigos. Tendo me  desfeito do meu próprio carro, era sempre a primeira e preferencial opção de Aquiles para desencalhar o seu jipe.</p>
<p>&#8211; O que você pretende fazer no feriado, meu querido? Não que eu esteja me convidando, claro! Até porque imagino que você vá me contar sobre outro daqueles horrendos retiros de ficar sentado em silêncio numa almofada durante dez horas por dia&#8230; Imagine, eu calado! – Aquiles riu, e eu tive de afastar o telefone do ouvido, enquanto ria da sua risada – Entreter-me ouvindo grilinhos cricrilando e sapinhos coachando, sem poder ler nem um livrinho&#8230; Vou ficar em casa ouvindo minha musiquinha! – era assim que ele se referia genericamente à sua exaustiva coleção de óperas e sua épica biblioteca – Só gostaria de saber para antes poder preparar o carro – cuidar dos amigos era uma das ocupações prediletas de Aquiles, tanto mais agora que havia se aposentado da Secretaria de Obras.</p>
<p>Quase não falei, durante aquela ligação. Assim como estava perdendo a visão, sentia que Aquiles perdia também a capacidade de ouvir as pessoas, embora não tivesse de maneira alguma ficado surdo. Observei em mim um pouco de impaciência e aversão, brotando sempre que alguém me perguntava com antecedência dos meus planos. Não era só mais um hábito trazido do mosteiro &#8212; como acusava Lissa &#8212; onde, apesar de termos um planejamento anual, normalmente não pensávamos muito além do dia seguinte. Esta era uma maneira de viver para mim, parte da minha liberdade intrínseca, cultivada desde a adolescência, para desespero dos meus familiares. Pessoalmente, desgostava-me ter de antecipar os acontecimentos, agendar, planejar – embora, profissionalmente, eu tivesse obedecido a todas estas regras. Mas somente como a um exercício, sem nenhuma convicção. Percebia que, como não acreditava de fato nestas predições futurísticas &#8212; e absolutamente não em previsões meteorológicas ou astrológicas &#8211;, raramente ficava frustrado, e jamais surpreso, quando as coisas saiam diferente do planejado. Podia compreender que a maioria das pessoas precisasse viver assim, antecipando-se, prevendo, agendando, buscando segurança em relação a um futuro que só e mal podiam imaginar, ou seja, na minha visão tentando agendar e prever e ter segurança em relação somente à própria imaginação – e portanto podia compreender e perdoar a Aquiles o que para mim parecia ser pressa e pressão, mas ainda assim frustrei-o ao não saber dos rumos que pretendia tomar no feriado, que não seria senão dali a cinco dias, o que me parecia muito distante, totalmente imprevisível. Minha viagem pela Índia tinha me exposto à verdade bastante vivenciada de que a morte podia advir a qualquer instante. Eu não podia assegurar que estaria vivo até o próximo feriado, nem até o final do dia, e com a minha prática do mosteiro de não concentrar-me a não ser no momento presente, planificar minha vida pessoal parecia-me um exercício tão abstrato de brincar com a irrealidade que, a não ser fossem planos que demandassem muita logística e novidade, ou se estivesse muito apaixonado e precisasse planejar-me para poder incluir o outro, ou mesmo assim, preferia sempre deixar-me surpreender, e fazer minhas escolhas no momento da escolha de fato, consultando minha vontade e inclinação do momento – e nunca antes disso. Parecia-me uma maneira salutar de viver, mas que contrariava o <em>mainstream</em> das pessoas. E a impressão que dava, como naquele caso de Aquiles e Agnes, era que eu estava à espera de receber todo o escopo possível de convites para só então decidir-me, o que talvez parecesse indelicado e interesseiro – e estava ciente de que talvez fosse assim mesmo.</p>
<p>Às vezes, e só bem recentemente, refletido na atitude de alguns colegas de monastério, e na de muitos reiterados viajantes que encontrara em minhas andanças, percebera ter-me tornado escravo da minha noção de liberdade. Rabisquei, de um jorro :<br />
<em><br />
Peça à Escravidão<br />
que se renda à Liberdade<br />
e ela irá facilmente responder:<br />
Sim.</em></p>
<p><em>Peça então à Liberdade<br />
para sujeitar-se à Escravidão.<br />
Ela irá humildemente responder:<br />
Por amor.</em></p>
<p>Relendo, perguntei-me o que seria essa escravidão, ou tal liberdade – e o que seria, afinal, amor.</p>
<p>Talvez fosse esse amor, o que sentia. Pois de novo as coisas entraram em foco, naquele módulo de alta definição em câmera lenta. Num instante, dava-me conta das nuvens refletidas diferentemente pela superfície do copo de cerâmica e pela chaleira. Podia pensar que aquelas eram as nuvens que passavam lá do outro lado das portas  envidraçadas, do lado de fora da minha sacada, e que estivessem dentro do meu apartamento só como um reflexo na superfície polida dos objetos. Vi-as moverem-se sobre o telefone, a bandeja de prata onde repousava a correspondência, a luminária de metal, a moringa de porcelana – cada uma delas refletia a passagem das nuvens à sua maneira&#8230; Mas era mais do que isso! Cada uma delas continha e manifestava as nuvens que trazia em si. Cada uma daquelas coisas continha nuvem em si – era mais óbvio de perceber na água do chá e na cerâmica do copo, na porcelana da moringa, mas mesmo no telefone, na bandeja de prata ou no papel das correspondências, havia a chuva nos alimentos de cada pessoa responsável pela existência daqueles objetos, e chuva em todas as gerações anteriores&#8230; E as nuvens no telefone continham todas as nuvens de antes, pois uma nuvem agora não poderia existir sem todas as nuvens precedentes&#8230; Cada coisa que existia agora continha e continuava as coisas que haviam existido anteriormente&#8230; O telefone continha a nuvem,  a chaleira era uma continuação da cana-de-açúcar, o papel continha formiga, a bandeja de prata continha o bóia-fria e sua dura rotina, continha até o seu boné&#8230; Eram só nomes a diferencia-las entre si, pois todas manifestavam a mesma coisa em combinações diferentes, todas continham tudo o mais, em cada qual combinada a seu próprio modo, eu pensava – ou melhor, eu sentia, naquele estado em que todas as coisas apresentavam-se cuidadosamente a mim, detalhadamente a mim, em sua amplitude, em sua infinitude. Iluminadas, iluminando-me de volta! Cada coisa era infinita, ainda que um dia cessasse de existir, aparentemente finda.  <em>&#8216;Cause you&#8217;re free&#8230; And you&#8217;re alive&#8230; You&#8217;re free and you&#8217;re alive&#8230; You&#8217;re free </em>– Perry Blake ainda tocava na Rádio Mente e de algum lugar alcançava-me o <em>tii-tii-til-ti-til</em> e uma furadeira procurando perfurar a parede de algum apartamento abaixo e o coração tão próximo em meu peito que no entanto eu não conseguia ouvir naquele momento&#8230;  Então a nuvem tocou, claramente, o som repercutindo em todos os objetos próximos, o som a um só tempo dentro e fora de mim, a nuvem em mim&#8230; Quando trouxe o aparelho na direção do meu rosto, era como se estivesse assistindo a um filme, no qual eu mesmo tomava parte &#8212; os dedos tão destros, o braço no gesto tão vasto, tudo tão calmo, o plástico um pouco gorduroso e frio ao toque, o fio estendendo-se enquanto meu braço encolhia e aproximava-se, a pressão contra a orelha e o milagre de uma voz brotando de dentro do aparelho direto para dentro da minha mente&#8230; Tudo tão prosaico e tão complexo, tão misterioso, tão&#8230; milagroso! Era como voltar a ser um bebê, redescobrindo e re-experimentando cada coisa, cada evento e objeto, mas já sabendo seus nomes e suas funções, sem que isso fosse muito, ou mesmo bastante.</p>
<p><a href="http://www.unicef.org/wash/index_31731.html" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-367" title="11- child sea discoveries sepia" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/11-child-sea-discoveries-sepia.jpg?w=460&#038;h=276" alt="11- child sea discoveries sepia" width="460" height="276" /></a><br />
&#8211; O monge foi para a balada, ontem à noite? – Lissa ironizou – Donita contou que você deixou um bilhete dizendo ter ido dormir muito tarde&#8230; Acontece que te liguei a noite inteira e você não atendeu&#8230; Ou você estava muito ocupado para atender?</p>
<p>Passei a noite com Theo, era a verdade e pensei em espicaçar, mas minha prática não permitiu dize-lo, então fui direto e informei – Fui conhecer o apartamento do Theo, e ficamos conversando até o Sol nascer.<br />
&#8211; Conversando!?<br />
&#8211; Exatamente como nós estamos fazendo, Lissa. Falando, um com o outro. Só que ao vivo, e a cores – lembrei-me da manta colorida que eu vestira, e das toucas tibetanas com trancinhas; lembrei-me também do abdômen de Theo – Você não estava com o Basil ontem? – e súbito lembrei-me de que ele iria para Londres, e antes que ela me contrariasse perguntei educadamente – Ele já deu notícias? Chegou bem de viagem? – foi uma maneira de despistar, reconheço, deixando de lado minha noite e madrugada e manhã com Theo. Tomei outro gole do chá, ouvindo com cuidado tudo o que Lissa disse-me sobre o namorado, pois era verdade que eu bem pouco e raramente perguntava dele. Mas também ela mudou de assunto.</p>
<p>&#8211; Achei que pudéssemos colocar nossa conversa em dia, ontem, já que ultimamente você esteve meio&#8230; ausente – sem Basil, Lissa tinha muito tempo livre e ficava carente, e assim como com o jipe de Aquiles, eu era a primeira opção, o que muito me lisonjeava – E hoje, você vai encontrar o menino de novo?<br />
&#8211; Na verdade&#8230; – tive de rir – eu vou. Nós vamos ver um filme juntos – e apressei-me a esclarecer, antes que ela pensasse que Theo iria acabar com meu jejum de cinema – Vamos assistir um dvd na casa dele, hoje à noite. Mas agora estou tranqüilo, e vou ficar em casa, se você quiser vir me fazer uma visita&#8230; Tenho de ficar aqui esperando o encanador. Sabe, o Jacobsen e o Tenreiro quase se afogaram hoje – e contei a ela o acontecido.</p>
<p>&#8211; Por que você não ligou para o Seu Norberto? Ele mandaria alguém imediatamente. Você quer que eu ligue para ele, agora?<br />
&#8211; Obrigado! Ocorreu-me que eu tenho esse seguro residência há anos, e nunca o usei.<br />
&#8211; Então você quer que eu te faça companhia enquanto você espera pelo encanador?<br />
&#8211; Não. Posso perfeitamente espera-lo sozinho. Só que agora eu não posso sair de casa para encontrar você, então por isso te convido para vir aqui. Qual o problema, Lissa? – e eu acreditava saber a resposta, só queria ouvir dela mesma.<br />
&#8211; Acho estranha essa amizade de vocês dois, só isso.<br />
&#8211; É a diferença de idade ou o quê?<br />
&#8211; Tudo, eu acho. Vocês não combinam. Sinceramente, eu não consigo imaginar vocês varando uma madrugada até o amanhecer, conversando.<br />
&#8211; E transando, você consegue nos imaginar?<br />
&#8211; Menos ainda, nessa sua atual fase celibatária&#8230;</p>
<p>&#8211; Uma revista velha vai parar no lixo – reciclável, de preferência, para que tenha ainda uma outra chance &#8212; só quando ninguém mais quiser olhar para ela&#8230; Você está querendo me ofender, Lissa?<br />
&#8211; Não estou dizendo isso. Vejo muitas razões para esse menino estar no seu pé&#8230; Sempre vi, desde o início. Só não entendo as suas. Além do fato de ele ser muito lindo, nisso eu concordo, mas passar tanto tempo com ele&#8230;</p>
<p>&#8211; O jazz podia ser uma das razões. Tenho poucos amigos que amem jazz. O Theo colocou uma das músicas mais lindas que jamais ouvi, de um trio que eu não conhecia, para tocar no nascente que assistimos juntos. Tenho uns outros poucos com quem posso dividir meu amor pela literatura – recordei-me de Verena, a quem a imagem de Gustavo vinha agora imediatamente associada &#8212; E um só que cita Platão, o Aquiles.<br />
&#8211; E o seu menino já leu Platão?<br />
&#8211; O nome do menino é Theo, como você descobriu para mim – não deveria incomodar-me Lissa referir-se a ele como menino, pois eu mesmo pensara nele assim, de início, até para mantê-lo a uma prudente distância – E ele já leu Platão&#8230; Como eu, na faculdade, lembra? <em>Oh my beauty boy, reading Plato so divine</em>!– era a frase inicial de um conto do Scott Fitzgerald, lembrei-me mesmo do dia em que o havia lido, num trem pela Suíça, quando um rapaz muito bonito, cabelos negros cacheados e olhos azuis, havia subido numa pequenina estação e sentara não distante de mim, lendo Platão. Contei a Lissa sobre as pilhas de livros que no apartamento de Theo havia, espalhadas por toda parte – Mas o fato é que eu não tenho nenhum amigo com quem possa conversar sobre a prática. Ou melhor, nenhum outro amigo que também pratique. Nenhum. E isso é importante para mim. A beleza e a cultura dele importam-me menos do que o fato de compartilharmos o mesmo mestre, e uma certa sensibilidade e sinceridade e disposição para a prática. Ele me confirma, me estimula, me desafia – suspirei.</p>
<p>&#8211; Não vou acreditar que é por falta de opção que você está passando tanto tempo com ele! E se aparecesse uma praticante, como você diz, dedicadíssima, ainda mais do que o Theo, mas que fosse zarolha, tivesse mau hálito e uma verruga no nariz&#8230;  &#8212; Lissa riu – E se o Theo fosse banguela?</p>
<p>Pensei em contar de um vídeo que assistira recentemente, em que o Chet Baker cantava banguela, e mesmo assim eu permanecia apaixonado por ele, mas ao invés &#8212; Ok, você venceu &#8212; eu ri também, e emendei &#8212;  Toda nova amizade&#8230; – procurei a palavra, e a que encontrei era a mais corrente há dias na minha vida &#8212; &#8230;é um milagre. Sabe aquela magia, quando nasce uma amizade&#8230; Quando se quer saber tudo sobre a pessoa, e ao contrário de alguma paixão desde o início cheia de possessividade e expectativas, no começo duma amizade nada nos ofende, nada se rejeita, tudo se aceita e acolhe&#8230; Tem sido assim.</p>
<p>&#8211; Que bom! Fico feliz – soava sincera – Reconheço que estou com ciúmes. Mas fico feliz. Reconheço que jazz, Platão e zen é uma combinação difícil de se repetir&#8230; E tudo isso exatamente no mesmo CEP que você&#8230; Concordo, é um milagre! – ela riu de novo &#8212; Será que o Theo já comprometeu toda a sua agenda de amanhã? – combinávamos nosso almoço, quando o <em>bodhisattva</em> do meu bem estar apareceu à porta do escritório, perfumada e maquiada, pronta para ir embora, tendo enxugado todo o chão e decidido deixar alguns móveis fora de lugar, longe da área molhada, e outros empilhados, de pernas para o ar.</p>
<p>&#8211; Uma das almofadas que estava no chão não presta mais eu acho mas coloquei ela pra secar na varanda amanhã o senhor olha ela se não chover hoje – e ouvindo Donita dar-me notícias sobre as águas, escutei-a dar notícias das nuvens, e todas as coisas pareceram-me nuvens, conter nuvens ou continuar as nuvens, as palavras de Donita flutuando para fora de sua boca como nuvens, as nuvens que haviam chovido na horta comunitária de que ela participava, as nuvens que a alimentavam e à sua família e a dos operários que haviam erguido a torre de nuvens  de concreto que permitia o nosso encontro e o nosso diálogo&#8230; E embora nem todas as coisas fossem nuvens de fato, e nem mesmo de fato as nuvens fossem nuvens, embora as chamássemos e as considerássemos nuvens, podia brincar de encontrar nuvens em todas as coisas, e todas as coisas e eventos e pessoas e eu mesmo eram tão passageiras quanto as nuvens, fluidas, móveis, livres, misturadas, intersendo. <em>&#8216;Cause you&#8217;re free&#8230; And you&#8217;re alive</em>&#8230; Imagino o olhar que botei sobre Donita, que declarou:</p>
<p>&#8211; Hoje o senhor tá mesmo especial! – e é melhor eu ir embora quanto antes, ela não disse mas demonstrou.</p>
<p>Caminhei pelo apartamento atrás de Donita como se cruzasse o céu no rastro de um <em>bodhisattva</em>. E então percebi que todas as coisas podiam ser tanto nuvens quanto <em>bodhisattvas</em>&#8230; Podia pensar nelas como quisesse, chama-las como quisesse, inclusive pelos nomes convencionais&#8230; Todas suportando a nossa existência naquele momento, minha e de Donita e desta escrita e <em>deste computador e desta estória e desta leitura e deste leitor</em>&#8230; Todas as coisas contribuindo para que a vida exista, <em>neste momento</em>. O corredor parecia-me tão gracioso e amoroso, gentilmente conduzindo-nos quase com certeza à porta de madeira maciça que generosa nos aguardava ali, se pudéssemos continuar a viver até lá, passo após passo, a paz a cada passo&#8230; Concreto, ferro, matemática, madeira, vidro, arroz, feijão, taco a taco, metro a metro, todas as coisas eram elos numa abundante cadeia de generosidade que podíamos empregar para&#8230; para quê, afinal?</p>
<p>Donita olhou-me uma última vez, de soslaio e surpresa, não porque eu a tivesse abraçado e beijado à saída como fazia todas as vezes, mas porque pleno de gratidão eu abraçava o <em>bodhisattva</em> que ela era, e percebia-nos cercados de <em>bodhisattvas</em> por todos os lados, generosamente oferecendo-nos suporte para a vida que se manifestava naquele momento. Abracei-a em meio ao céu, flutuando sobre a cidade na plataforma de concreto que nos apoiava, e vi-a partir como a uma nuvem&#8230; <em>&#8216;Cause you&#8217;re free&#8230; And you&#8217;re alive&#8230; You&#8217;re free and you&#8217;re alive&#8230; You&#8217;re free</em>&#8230; &#8212; e então ocorreu-me a pergunta, que não era nova, e me seguia desde os tempos da primeira visita ao mosteiro, com renovada sinceridade porém – como ser grato, grato o bastante ou suficientemente grato, completamente grato, infinitamente grato, indistintamente grato? Amar&#8230; Então como eu posso amar mais? Como eu posso amar tudo? Como eu posso amar por completo? Como eu posso amar o bastante? Como eu posso amar até o que eu não consigo amar? E ocorreu-me, ali imóvel sob o umbral da porta, no limiar e meio do céu&#8230; a resposta&#8230; talvez&#8230; retirando o <em>eu</em>?!</p>
<p><a href="http://www.worldculturepictorial.com/blog/content/photo-green-reflections-photographer-reflected-seaweeds-green-fuel-plant-le-vigeant-southern" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-369" title="11- seaweed_reflectiongolden" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/10/11-seaweed_reflectiongolden.jpg?w=460&#038;h=341" alt="11- seaweed_reflectiongolden" width="460" height="341" /></a></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Leia o Trecho <a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/10/15/trecho-xii-how-to-disappear-completely/" target="_self">XII &#8211; How to disappear completely</a></strong></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/365/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=365&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Trecho X &#8211; Travelling</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Sep 2009 14:34:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trecho X]]></category>
		<category><![CDATA[As Cinco Lembranças]]></category>
		<category><![CDATA[água]]></category>
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		<category><![CDATA[Perry Blake]]></category>
		<category><![CDATA[Platão]]></category>
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		<category><![CDATA[Travelling]]></category>

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		<description><![CDATA[Vamos em frente, com um movimento tão enfadonho, tão sonolento que parece que nem prosseguimos, como se o tempo e não o espaço diminuísse entre nós e [...]. William Faulkner Leia O diário dos dias extraordinários completo: Trecho I – Just an ordinary day Trecho II – If I let you in, I’ll never let [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=352&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>Vamos em frente, com um movimento tão enfadonho,<br />
tão sonolento que parece que nem prosseguimos,<br />
como se o tempo e não o espaço diminuísse entre nós e</em> [...].</p>
<p style="text-align:right;">William Faulkner</p>
<p style="text-align:center;">Leia <strong>O diário dos dias extraordinários</strong><em> completo:</em></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-i/">Trecho I – Just an ordinary day</a></strong></em></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-ii/">Trecho II – If I let you in, I’ll never let you out</a></strong></em></p>
<p><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/07/25/trecho-iii-%e2%80%93-tea-for-two/" target="_blank"><strong><em>Trecho III – Tea for two</em></strong></a></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-iv/">Trecho IV – Last flowers</a></strong></em></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/08/05/trecho-v-als-das-kind-kind-war/" target="_blank">Trecho V &#8211; Als das Kind Kind war</a><br />
</strong></em></p>
<p><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-vi/" target="_self"><strong><em>Trecho VI &#8211; Where do you start?</em></strong></a></p>
<p><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-vii/" target="_self"><em><strong>Trecho VII &#8211; Will you sink, will you swim?</strong></em></a></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/09/05/trecho-vii-in-the-upper-room/" target="_self">Trecho VIII &#8211; In the Upper Room</a></strong></em></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-ix/" target="_self">Trecho IX &#8211; From Gagarin&#8217;s point of view</a></strong></em></p>
<p><em><strong><br />
</strong></em></p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/09/25/trecho-x-travelling/"><img src="http://img.youtube.com/vi/1Cffgw_KRIU/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p>O  sol ia alto quando acordei, e o dia abafado prenunciava chuva, ou assim imaginei. Ergui o <em>blackout</em> para ofuscar-me, e de um tranco e em definitivo acordar. Depois do banheiro, e de ter quase esvaziado a moringa d’água, voltei à cama, dobrei o travesseiro e sentei-me sobre ele como um <em>zafu</em>, voltando-me na direção da cabeceira e da parede, decidido a meditar antes de qualquer outra coisa. Viver sem meditar era como não viver, viver distraidamente, viver incidentalmente – e isso eu não podia mais suportar, pois era como a cada dia me acidentar, ao invés de viver. E ter atravessado a manhã dormindo era como ter perdido alguma coisa; invadiu-me um senso de urgência para com a prática, tornado ainda mais agudo quando tomei o papelzinho plastificado que mantinha na PK91, minha improvisada mesa de cabeceira da qual a magnólia de Lissa observava-me, entre ameaçadora e impassível, e como fazia todas as manhãs, li <em>As Cinco Lembranças</em>:</p>
<p><em>Eu tenho a natureza do envelhecer.<br />
Não há meio de escapar do envelhecimento.</em></p>
<p><em>Eu tenho a natureza do adoecer.<br />
Não há meio de escapar da doença.</em></p>
<p><em>Eu tenho a natureza do morrer.<br />
Não há meio de escapar da morte.</em></p>
<p><em>Todas as coisas que me são queridas e que amo têm a natureza da mudança.<br />
Não há meio de evitar de separar-me delas.</em></p>
<p><em>Herdo o resultado das minhas ações, palavras e pensamentos.<br />
Minhas ações formam o terreno no qual eu me mantenho de pé.</em></p>
<p>Pensei em Gustavo ido, baleado, surpreso morrendo, pensei em Verena, atônita ao receber a notícia, morto, sofrendo. Velório, a vida, a companhia e a cumplicidade entre eles, cessando. Abandonei essas imagens, e deixei as palavras penetrarem mais fundo em mim, assim como a terra recebendo a chuva. <em>Inspirando, eu sei que estou inspirando; expirando, eu sei que estou expirando</em>. E à medida que foram decantando, a voz interna com a qual eu me identificava, na qual volteavam meus pensamentos, silenciando, absorvida num vórtice de espaço, voltei-me à minha respiração. <em>Inspirando, consciente da minha inspiração do começo ao fim; expirando, consciente da minha expiração do começo ao fim</em>. Ouvi o telefone tocar, e alguns segundos depois minha mente viajava para longe do meu corpo, cogitando quem seria, se Theo, se Lissa, se&#8230; Pensamento, identifiquei, e convidei-os todos a se retirar, voltando-me à minha respiração, reunindo mente e corpo. <em>Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. </em>Um som levemente familiar e incômodo, e senti meu coração inchar, prenunciando alguma emoção forte. Sai da cama e do quarto, tomei o elevador da mente e subi para o apartamento acima &#8212; antes mesmo de aclarar a emoção incômoda que o ruído despertava em mim, identifiquei os tamancos da avó dos gêmeos, que costumava ficar hospedada no quarto acima. Rodinhas rolando? Imaginei a mala em movimento, o baque surdo ao parar. Má notícia para mim, a chegada dela. Os tamanquinhos vão ficar passeando na minha cabeça&#8230; Por quanto tempo? Como um fantasma agourento, vi-me no canto de um quarto de hóspedes no qual nunca havia estado, ressentido observando com raiva os meninos aos pulos, sem conseguir participar da alegria deles com a vinda da avó. A presença do cachorro eu criei a partir das patinhas. Algazarra, e ao meu sofrimento e indignação sobrepôs-se a idéia de que na companhia de Theo os gêmeos poderiam sempre se tornar estrelas. Na cobertura, Castor e Pólux só me ameaçavam na forma de helicópteros, se&#8230; Só depois de muito tempo sendo seduzido por minha voz interna, pela sereia dos meus pensamentos, identifiquei minha viagem. Pensamento. Sorri para mim mesmo, e para a imaginada multidão. Tamancos, avó, os gêmeos, o cachorro, a mala, as rodinhas, um quarto, a cobertura, Theo, Castor e Pólux, helicópteros&#8230;  Gentilmente, convidei-os todos a se retirar, a sumirem no vórtice de espaço que a concentração criava. <em>Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando. Inspirando, expirando.</em> E ao final, a conclusão foi a mesma dos outros dias &#8212; <em>Minha mente é um caos, meu coração um tumulto, e minha vida um turbilhão</em>.</p>
<p><a href="http://www.theoi.com/Ouranios/Dioskouroi.html" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-353" title="10- ghost green room" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/09/09-ghost-green-room.jpg?w=395&#038;h=500" alt="10- ghost green room" width="395" height="500" /></a></p>
<p>Ao chegar em casa naquela manhã, tinha escrito um bilhete de bom dia para Donita,  pedindo a ela que atendesse o telefone e anotasse os recados. Enquanto dizia-me que Lissa, Verena e Aquiles haviam ligado, entregou-me um pacotinho.</p>
<p>&#8211; Foi um moço muito lindo como um ator de filme quem trouxe mas ele não quis dizer o nome só ficou sorrindo assim pra mim – será que ele acordou mais cedo do que eu, pensei, envergonhado, e no mesmo instante abri para descobrir o <em>pen drive </em>em formato de um  pingüim usando cachecol. Será que ele está querendo dizer que eu sou friorento? Enquanto ainda sorria para a lembrança da noite anterior, na verdade daquela madrugada e manhã, Donita disparou num discurso doido que eu demorei a decifrar, como se fosse uma figura fora de foco, um som cheio de chiados – o filho adolescente tinha engravidado uma moça uma mais velha mas ninguém sabia ela só dizia que tava grávida mas não sabia a moça era comprometida noiva de um outro mais velho que trabalhava em outra cidade iam casar então ele precisava trabalhar e do dinheiro para construir então eles nunca se viam e era mentira que o filho dela tinha engravidado a moça que era sem vergonha e não prestava e era descrente então só por isso tinha seduzido um menino mais novo para folgar quando o namorado estava longe mas agora o pai dela quer matar ele então era tudo mentira mas o meu filho acreditou era a primeira a deixar ele pegar e ontem ele roubou uma moto e se jogou contra um poste mas só arrebentou a moto então não aconteceu nada com ele mas ele tentou um menino na idade dele não pensa em morrer e então a gente tem de pagar a moto e agora a polícia&#8230;</p>
<p>Talvez fosse a fome, talvez fosse o contraste com o lugar de onde eu vinha &#8212; uma ilha de silêncio e contemplação, que eu tinha criado com a meditação –, senti-me atordoado com o discurso de Donita, no qual precisei prestar muita atenção, para entender, como se ela falasse o húngaro de seus ancestrais misturado ao cearense de seu marido. Certo de que não praticava meditação buscando algum alívio ou um relaxamento &#8212; pois para isso havia massagem e sauna &#8211;, e sim para estar mais íntegro e melhor disposto no mundo, ouvindo as pessoas, compreendendo-as, e tratando de ajuda-las o mais que pudesse, ainda que fosse só ouvindo, como naquele momento, sem impaciência nem julgamento, acolhendo, com amor, com espaço, com calma, com sinceridade – o que me ocorreu foi como na noite anterior com Theo, sua beleza em alta definição explodindo diante e dentro de mim, mas desta vez era o sofrimento de Donita, sua voz aguda e a respiração curta, a raiva e a falta de entendimento, os olhos esbugalhados, a maneira como ela cuspia quando falava muito rápido, quando estava nervosa, os respingos ansiosos em mim, e pensar que ela vinha alimentando aquele discurso em sua própria mente e coração há muitos dias, o discurso que agora me atordoava, atordoando-a há muitos dias, incessantemente&#8230;</p>
<p>Debrucei-me e abracei-a, na primeira pausa que fez. Ela estava quase aos prantos, e deixei que meu abraço libertasse as lágrimas. Durante algum tempo, surpresa ela se rendeu, e  exausta soluçou, vazou, verteu, ela se esqueceu e só se aliviou, mas talvez quando se esvaziou notou que era meu o peito que molhava, e afastou-se um pouco envergonhada, era ela quem estava agora atordoada, e ofereceu-me café-da-manhã. Compreendi que ainda não era momento para palavras, menos ainda para conselhos, nem para oferecer qualquer outra ajuda, muito menos dinheiro, e que já era bem passada a hora do almoço.</p>
<p>&#8211; A geladeira tá muito vazia tem quase nada não o senhor não quer que eu faça compra de mercado? – Dona Anita me chamava de senhor há quase vinte anos, quando Lissa e eu havíamos alugado nosso primeiro escritório, e ela era uma das faxineiras do condomínio; quando tivera de sair do emprego para cuidar da filha que tinha sido envenenada e tornara-se epilética, eu oferecera a ela trabalhar na minha casa, que naquele tempo era um pequeno apartamento de solteiro – O senhor não tá de dieta tá? desde que voltou desse mosteiro que quase não come mais a geladeira tá só esvaziando desde que a Dona Lissa abasteceu ela antes do senhor chegar desse lugar&#8230; – rapidamente elaborei uma lista, na qual inclui muitas coisas que daria para minha amiga e ajudante levar para sua casa, e enviei-a nessa missão. Quando a vi sair, olhando-me satisfeita de soslaio, como se perscrutasse de onde tinha saído aquele abraço, quando ela se foi eu retornei à minha respiração, enquanto lá embaixo uma moto, dessas pavorosas e possantes que tinha som de trator, passava espavorida pela rua.</p>
<p>Mr. Shuffle, ó Mr. Shuffle, o que é que guardas para mim? E da minha cotidiana <em>playlist </em>do Perry Blake, como um oráculo pescou <em>Travelling</em> e contou-me: <em>It&#8217;s been so long since I&#8217;ve seen your face… Since I&#8217;ve seen the one that I loved… Because I&#8217;ve been trying for what seems like a lifetime… I&#8217;ve been rolling through the years alone… And I&#8217;ve been travelling so long I’m getting tired… I&#8217;ve been travelling too long my love… It would be so good holding you again… Holding you again for a while…There are no words to tell it as it was… Tell it as it was for a time </em>– era das baladas mais doloridas do PB, mas ele próprio devia perceber isso e então nos rendia a todos oferecendo com doçura &#8212; <em>It&#8217;s alright it&#8217;s alright it&#8217;s alright it&#8217;s alright it&#8217;s alright it&#8217;s alright</em> &#8212; para terminar com um pequeno lamento sussurrado no qual eu não pude deixar de lembrar de Theo, em quem inequivocamente tinha pensado desde o início da canção, desde o início do dia (<em>Because I&#8217;ve been trying for what seems like a lifetime… I&#8217;ve been rolling through the years alone</em>…) e sua epifania sobre nascimento e morte a cada momento&#8230; <em>It&#8217;s only moments… ain&#8217;t that what you said?…Well, ain&#8217;t that what you said? my love</em>… Se pudesse de novo confessar-me a ele, eu diria, <em>I’m getting tired my love… And all that wasted time, I just waited for a smile&#8230; All my wasted time, and all I needed was a smile</em>&#8230; – e pus a canção para tocar novamente. <em>There are no songs that tell it as it is…Tell it as it is as it was…</em></p>
<p>Daí lembrei-me do texto que Theo havia mencionado de madrugada, e fui atrás do meu exemplar do <em>Banquete</em> da coleção Clássicos de Bolso, e folheei-o até que encontrei Sócrates dizendo: <em>Meu caro Alcebíades! Parece-me que no fundo não és um leviano, se pelo menos é verdade o que dizes de mim e se de fato está em meu poder tornar-te melhor. Neste caso, estás a ver em mim uma inimitável beleza, que supera de muito a beleza de teu corpo. Ora, se depois desta descoberta procuras entrar em relação comigo para trocares beleza por beleza, mostras que tens a intenção de ganhar mais do que eu, pois demonstras que desejas adquirir o que é verdadeiramente belo, em vez do que é belo segundo a opinião do vulgo, trocando assim ferro por ouro</em>. Meu caro Alcebíades! Outrora eu me vira na posição do belo e jovem admirador ateniense, mas agora via-me comparado a Sócrates, não bem pela sabedoria, eu pensava, mas pela idade&#8230; Sorri ao pensar em Theo, trazendo Platão à nossa conversa. Eu mesmo fora um adolescente cheio de citações, e podia perdoa-las em meu jovem amigo – ou melhor dizendo, devia aceita-las nele, para enfim aceitar a mim mesmo&#8230; Aos poucos ia compreendendo que estar em paz com Theo e sua precoce exuberância curricular era a mesma coisa que estar em paz comigo e meu próprio improvável currículo na adolescência. Abandonei o livro aberto sobre a mesa do escritório prometendo voltar a ele, e aos meus caminhos adolescentes, quando lembrei-me – ou senti &#8212; que ainda não havia comido nada, nem bebido outra coisa que não água da moringa.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/84265607@N00/sets/72157600169074145/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-354" title="10 - green ripples tina_manthorpe flickr overlay" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/09/10-green-ripples-tina_manthorpe-flickr-overlay.jpg?w=459&#038;h=459" alt="10 - green ripples tina_manthorpe flickr overlay" width="459" height="459" /></a></p>
<p>Tendo percebido minha própria perturbação e agitação, decidi entregar-me ao ritual de preparar chá. Ao contrário do que dissera Theo, eu não era um <em>proper tea master</em>. Mas minhas visitas ao mosteiro haviam mudado um pouco a maneira como eu me dedicava ao chá – anteriormente, colocava água na chaleira, a chaleira sobre o fogo, e enquanto esquentava eu ia embora fazer outras coisas. Muitas vezes, tão absorvido por essas coisas outras, esquecia-me de que pretendera tomar chá e&#8230; no mínimo, a água evaporara completamente. E se as folhas do chá já estivessem dentro d&#8217;água, elas se queimavam, e grudavam no fundo da chaleira, algumas vezes até inutilizando-a. Se eu voltasse – correndo, ao subitamente recordar-me &#8211;ainda em tempo de encontrar alguma água no fundo da chaleira, o chá já tinha amargado, tendo fervido além do ponto, e a chaleira não se podia tocar, de tão quente. De uma delas, o cabo de plástico derretera. Fora assim, ao longo de todos aqueles anos. Como tomo chá quase que diariamente, então esse desastre da desatenção repetiu-se muitas, muitas vezes.</p>
<p>Agora preparo o chá não simplesmente para bebê-lo, mas também por prepara-lo. Coloco água na chaleira, a chaleira sobre o fogo – e desde o início procuro fazer cada gesto com plena consciência, o que significa não somente a consciência do próprio gesto – que sempre me maravilha, estes dedos fechando-se ao redor do cabo da chaleira e sustentando-a, enquanto os outros giram e abrem a torneira da pia&#8230; Meus dedos e suas habilidades parecem-me milagrosos, e sinto-me presenteado, sorteado, abençoado&#8230; E também a água, brotando da torneira&#8230; Sorrio ao pensar como seria se tivesse de buscar água num balde toda vez que desejasse beber chá, e quanto chá beberia se tivesse de ser assim&#8230; Teríamos um poço artesiano em nosso prédio, e eu teria somente de me esforçar por onze andares, <em>abajo y arriba</em>, ou teria de caminhar até o lago do Ibirapuera, onde provavelmente teria de entrar numa fila para encher meu balde de uma água nada limpa, talvez disputando espaço com donas de casa lavando roupas às margens&#8230; É só uma fantasia que me faz sorrir, mas torna-me instantânea e imensamente grato pelo fato tão corriqueiro de ter agua potável brotando da minha torneira, onze andares dentro do céu&#8230; Penso em todas as pessoas que cuidam para que essa agua esteja disponível e tenha qualidade, e agradeço por seu trabalho, por seu empenho, por seu interesse, por seu estudo&#8230; Encher a chaleira de agua demora bem menos tempo do que escrever todas estas linhas sobre minha gratidão à agua, é verdade, mas ainda assim tudo isso passava-se em minha mente e coração, diante da pia e da torneira&#8230; E mesmo quando ao fogão aperto um simples botão, e de maneira para mim inexplicável o milagre do fogo brota&#8230; Então penso como seria se tivesse de catar lenha todos os dias para preparar o meu chá, e quanto de chá eu beberia, se tivesse de ser assim&#8230; Via-me grato pelo gás encanado, pelo trabalho dessas pessoas que o forneciam a mim, por seu conhecimento, por seu empenho até mesmo de enfrentarem os constantes congestionamentos da cidade para ir para o trabalho&#8230; Não, eu não estou divagando. Essas ideias simplesmente ocorrem, e eu as observo assim como observo a gratidão que elas constroem em mim. Permaneço diante do fogão. Não, eu não estou tomando conta da chaleira. Eu estou presente. Diante da chaleira, que vai aquecendo &#8212; <em>eu respiro, e ao inspirar estou consciente da minha inspiração, ao expirar estou consciente da minha expiração. Ao inspirar, estou aqui e agora – e você onde está? Ao expirar, eu cheguei. Você também</em>? Então, entre outras coisas, posso sentir o calor escalando as paredes da chaleira, o que pode ser tão confortante num dia frio&#8230; Outras vezes, eu sinto a água fervendo, eu sinto – e ouço &#8212; como ela esquenta, como surgem as bolhinhas&#8230; A cada vez, simplesmente presente, há tanta coisa presente comigo. Como se houvesse graus de plena consciência, desvelando-se, ampliando-se. O sabiá cantando. A buzina dos carros na rua de trás. O grito de crianças, que não são os gêmeos, a cozinha acima de mim silenciosa, minha contrariedade adormecida&#8230; Uma coceira no pescoço, a imagem do bonito filho ruivo de olhos verdes de Donita que eu só conhecia por foto, uma moto despedaçada&#8230; Sim, talvez eu esteja divagando, e são estes pensamentos desnecessários, contrariando a minha prática de concentrar-me na respiração&#8230; Quando enfim percebo-me pensando com gratidão no inventor do fogão. Minha prática, afinal, é a da gratidão. Vejo-me grato a quem abriu uma empresa de produzir fogões, que em conjunto com o pessoal do fornecimento do gás estava esquentando a água do meu chá&#8230; E sinto gratidão também para com as pessoas que trabalharam para montar o fogão&#8230; E para com aquelas que produziram as suas peças&#8230; E para quem o transportou, para quem o vendeu a mim, para quem abriu uma loja para vender aquele aparelho milagroso que estava esquentando a água para mim&#8230; Lembro que todas essas pessoas tiveram pai e mãe, que cuidaram delas para que elas pudessem esquentar a água do meu chá&#8230; E lembro-me que todas essas pessoas maravilhosas e mais seus pais e mães foram alimentados por outras pessoas maravilhosas que plantaram vegetais, que os levaram às feiras&#8230; E que essas pessoas tinham tido professores, mestres, amigos, que cuidaram delas para que eu pudesse esquentar a água para o meu chá. Minha gratidão a todos esses seres é, já, sem fim&#8230; E desses mestres, professores e amigos, cuidaram outras maravilhosas pessoas, e todas tiveram seus pais e mães&#8230; que consumiram alimentos, generosamente doados pela Natureza, pelo sol, pela chuva, os minerais do solo, as formigas adubando-o e areando-o, e os cuidados dos agricultores&#8230; Penso no generoso arroz com feijão que estava na composição do meu fogão ou da chaleira, nos pêssegos e bananas comidas que se transformavam no fornecimento de agua e gás encanados&#8230; E o vapor do chá escapando da chaleira, o contido chiado suave, realçam a consciência dos meus sentidos, grato por estes ouvidos, <em>por estes olhos</em>&#8230; E cada detalhe do preparar o chá, de simplesmente ferver a agua do chá, torna-se um milagre, um evento digno da minha atenção, da minha intensa participação&#8230; <em>É energético estar assim presente, é nutritivo e fortalecedor estar assim concentrado</em>, e percebo que vivendo dessa maneira o tempo não escoa sem sentido, eu não passo pela vida desapercebido da própria vida, distraído com meus próprios pensamentos, perdido em meus labirintos mentais. A cada atividade que faço assim, num arremedo de plena consciência, ao menos na tentativa de cultiva-la, sinto-me mais pleno e energizado, ao invés de mais cansado. Enfim, sentia-me feliz com as coisas mais prosaicas &#8212; simplesmente e milagrosamente fervendo a agua para o chá.</p>
<p><a href="http://www.flickr.com/photos/sylvainboitel/2517593305/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-355" title="10 - flickr sylvain boitel tea Malasya1 overlay" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/09/10-flickr-sylvain-boitel-tea-malasya1-overlay.jpg?w=460&#038;h=307" alt="10 - flickr sylvain boitel tea Malasya1 overlay" width="460" height="307" /></a></p>
<p>Sorriu-me o <em>té Darjeeling bianco prodotto e confezionato da Ambootia Tea Gardens</em> dado por Theo, mas foi um delicioso <em>oolong</em> cultivado organicamente no Vietnã e embalado em Taiwan, dado de presente a mim por um monge à minha partida do mosteiro, que me seduziu (o chá, não o monge) no armário de chás que mantinha na cozinha, lotado de variedades de diversas procedências. Observei as folhas, que dentro do pacote habitavam em bolotas, desdobrando-se sob a cascata de agua quente, e o aroma um pouco cítrico ou acido imediatamente desprendendo-se e novamente realçando a minha consciência dos sentidos.</p>
<p>Como é que este chá maravilhoso veio parar dentro do meu copo de cerâmica? Como viajaram estas nuvens, o solo, as pessoas e sua alegria, seu trabalho árduo, os estudos dedicados, as madrugadas frias, os poentes &#8212; este chá, que agora se torna um, comigo, em mim, e eu nele.</p>
<p>Bebendo chá. Bebendo chuva. Bebendo as nuvens do planeta. Bebendo colinas verdes entre as quais passeiam meus irmãos monásticos. Bebendo as flores dos jardins. Bebendo borboletas, caracóis, minerais, formigas. Bebendo o sol. Bebendo trilhões de anos. Bebendo trabalho, estudo, família, amigos, professores, médicos, motoristas. Bebendo sabedoria, memória, sobrevivência. Bebendo toda a história da humanidade. Bebendo cuidado, carinho, amor, amizade. Bebendo pessoas que conheço ou só imagino. Bebendo os buracos negros do universo. Bebendo tudo o que aconteceu e acontecerá, e deixou de acontecer, até que enfim acontecesse &#8212; <em>este momento.</em></p>
<p>Bebendo chá, já não há como separar a minha vida da dele &#8212; nem quero &#8211;, ou das pessoas que o plantaram e colheram, e cuidam do planeta há milênios, do sol brilhando desde sempre, sem interromper um único momento, e a carreira de formigas adubando o solo, as ventanias aqui, a poeira das galáxias, desertos e orvalho lá &#8212; <em>não há como separar-me do meu avô, do seu avô, dos avós de todos nós.</em></p>
<p>Bebendo chá &#8212; mais do que sacio a minha sede, eu me inundo de gratidão.</p>
<p>Bebendo chá. É tão maravilhoso poder simplesmente beber chá, poder beber chá simplesmente.</p>
<p><a href="http://anotherteablog.blogspot.com/search/label/Oolong" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-356" title="74047571" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/09/10-green_tea-overlay.jpg?w=440&#038;h=392" alt="74047571" width="440" height="392" /></a></p>
<p style="text-align:center;">
<p style="text-align:center;">Leia o <a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/10/05/trecho-xi-no-surprises-please/" target="_self"><strong>Trecho XI &#8211; No surprises, please</strong></a></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/352/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=352&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Trecho IX &#8211; From Gagarin&#8217;s point of view</title>
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		<comments>http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/09/15/trecho-viii-from-gagarins-point-of-view/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 15 Sep 2009 16:27:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trecho IX]]></category>
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		<description><![CDATA[E se desejar uma frase para ler durante a madrugada ou no meio da noite, que sirva tanto para os momentos de prazer quanto para os de sofrimento, escreva nas paredes de sua casa, com letras que o sol possa dourar e a lua pratear, a frase: “tudo que acontece ao outro, acontece também comigo”. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=242&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>E se desejar uma frase para ler durante a madrugada ou no meio da noite,<br />
que sirva tanto para os momentos de prazer quanto para os de sofrimento,<br />
escreva nas paredes de sua casa,<br />
com letras que o sol possa dourar e a lua pratear, a frase:<br />
“tudo que acontece ao outro, acontece também comigo”.</em></p>
<p style="text-align:right;">Oscar Wilde</p>
<p style="text-align:center;">Leia <strong>O diário dos dias extraordinários</strong><em> completo:</em></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-i/">Trecho I – Just an ordinary day</a></strong></em></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-ii/">Trecho II – If I let you in, I’ll never let you out</a></strong></em></p>
<p><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/07/25/trecho-iii-%e2%80%93-tea-for-two/" target="_blank"><strong><em>Trecho III – Tea for two</em></strong></a></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-iv/">Trecho IV – Last flowers</a></strong></em></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/08/05/trecho-v-als-das-kind-kind-war/" target="_blank">Trecho V &#8211; Als das Kind Kind war</a><br />
</strong></em></p>
<p><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-vi/" target="_self"><strong><em>Trecho VI &#8211; Where do you start?</em></strong></a></p>
<p><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/category/trecho-vii/" target="_self"><em><strong>Trecho VII &#8211; Will you sink, will you swim?</strong></em></a></p>
<p><em><strong><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/09/05/trecho-vii-in-the-upper-room/" target="_self">Trecho VIII &#8211; In the Upper Room</a><br />
</strong></em></p>
<p><em><strong><br />
</strong></em></p>
<p><em><strong><br />
</strong></em></p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/09/15/trecho-viii-from-gagarins-point-of-view/"><img src="http://img.youtube.com/vi/_v9ezWwgs7I/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p>&#8211; Theo&#8230; – ele virou o rosto na minha direção, mas não abriu os olhos, como se me desse ainda uma outra chance – Theo&#8230; – eu insisti, e quando os abriu, verdes e belos, meu coração começou enfim a sangrar – No dia em que nos conhecemos você disse uma coisa que me impressionou muito&#8230; Logo no início da nossa conversa&#8230; Que as pessoas nunca usufruem em paz da beleza. Simplesmente não a enxergam, ou quando enxergam, destroem-na com seu desejo – senti a garganta fechada, mas não foi um gole de chá, descendo dolorido, a resolver a angústia – Sem me conhecer ainda, você estava falando de mim&#8230; Pois essa é a tragédia da minha vida – sorri, e dei de ombros – &#8230;e essa agora é a minha tendência a fazer drama – levei a mão à testa, buscando concentrar-me e com clareza identificar cada pensamento, cada estado emocional – <em>e está acontecendo nesse momento</em>&#8230; <em>Aqui, e com você</em>, estou desejando e estou destruindo&#8230; – dei um passo atrás, mentalmente, criando coragem – Essa poltrona&#8230; eu a desfruto, mas eu também a julgo e classifico, boa, confortável, bela, excelente e já me excito, quero conhecer o nome dela, quem foi o <em>designer</em>&#8230; Quero ter uma igual. E é exatamente quando eu a perco, quando a torno um mero objeto de consumo&#8230; É só um exemplo. Você viu minha casa. Tudo tem de ser assinado. É pretensioso&#8230; É tanto esforço&#8230; Tão cansativo, morar com uma multidão de <em>designers</em>, arquitetos, artistas, desconhecidos. Mas eu sempre vivi assim, consumindo aparências, com avidez. Melhor dizendo, consumido pelas aparências. Com as pessoas também&#8230; Não sou como um amigo meu, que costuma dizer que até se for perguntar as horas ele escolhe a pessoa mais bonita, mesmo que ela não esteja de relógio&#8230; Mas eu também&#8230; Homens e mulheres, desejei pela beleza, pelo aspecto estético, fazendo subir ao pódio ou eliminando da fila. Quando criança, lembro de um tio meu que dizia: desconfie das pessoas feias. Acho que essa frase me impressionou menos do que se encaixou numa maneira de pensar que eu já tinha. Uma sede, um desejo de beleza. Acho que não houve nenhum dia da minha vida, da minha vida adulta pelo menos, e pelo menos até bem recentemente, nenhum dia em que eu não pratiquei esse desejo&#8230; – olhei a comida com estranheza, tendo perdido o apetite &#8212; Olha que tesão&#8230; Que gato&#8230; Que linda&#8230; Fiz isso mesmo, agora há pouco, com a sua namorada, a Fedora. Julguei-a, classifiquei-a, despi-a de uma história para vesti-la pelo avesso, na aparência. Como se eu esvaziasse um recipiente, vertendo fora o que é vital, para ficar com o invólucro. É muito triste. Sei que muita gente vive assim, muitas almejam viver assim, de aparência. E é muito triste. Como um abajur que nunca dá luz, porque só se preocupa com seu aspecto exterior, e nem sabe que foi feito para dar luz, que pode acender. A maior parte das pessoas vive de remendar a cúpula e reformar o pé do abajur, sem jamais se dar conta do interruptor, do fio, da lâmpada, e&#8230; de onde vem a energia&#8230; As pessoas perdem a humanidade, tornam-se objetos, sem mais interesse que não uma coxa ou um peito&#8230; Um objeto de <em>design</em>&#8230; Mas um objeto sem outra função que não a de ser exposto-consumido-descartado. E se agem assim, é porque alguém as estimula, alguém dá valor ao aspecto exterior delas, alguém as consome &#8212; senti-me exausto, e envergonhado &#8212; Eu. E um monte de gente, eu sei, mas agora preciso falar de mim&#8230; Sempre consumi e descartei as pessoas, Theo, desfilei-as como a um grande prêmio, um adorno, medalhas no meu currículo&#8230; Sempre foi assim, mas agora sinto-me triste, porque&#8230; – olhei para Theo, que me mirava tranqüilo, interessado, reclinado na poltrona – &#8230;continua a ser assim. Agora mesmo. Olho você. Sua beleza quase me dói. Julgo você. O homem mais lindo que já encontrei. Desejo você, essa é a dor&#8230; Dos pelos loiros e das veias salientes dos teus antebraços às tuas coxas fortes desenhadas nessa calça de algodão, o bico do teu mamilo que às vezes observo crescer contra a camisa&#8230; – vi Theo baixar os olhos, esfregando a testa e as sombrancelhas com uma das mãos, e soube que o dano estava feito, quando a mão dele cobriu o rosto inteiro, escondendo a beleza que eu profanava, ou protegendo sua inocência, ao dar-se conta do tipo de olhar que eu vinha lançando sobre ele  – E assim perco você&#8230; Eu sei. Desprezo o que há de mais lindo em busca do grosseiro &#8212; tivera seu afeto sincero, a companhia dedicada, e querer mais e possuir punha tudo a perder &#8212; Ainda há pouco pensei que ser assim, tão bonito quanto você é, seria razão suficiente para não querer ir à balada. Lembro-me dos meus dias de balada – a festa no prédio vizinho chegava ao auge, a música, o vozerio, os gritos e as gargalhadas, todas as formas de histeria sendo celebradas e vazando pelas janelas, o apartamento como um recorte horizontal de desperdício de luz  &#8212; A não ser que fosse uma das festas do <em>Fashion Week</em>, cheia de lindos, de modelos&#8230; Quando em outra ocasião, numa boate, entra um homem ou uma mulher com beleza acima do comum&#8230; Assim como você&#8230; Tudo passa a gravitar em torno dele ou dela. Os mais afoitos em sua grosseria se aproximam, os mais tímidos se assustam e se afastam. Você já deve ter passado por isso&#8230;? Medo ou cobiça, como você disse. Os gregos antigos diziam que quando os deuses amam um mortal eles dão elegância, como uma benção, e quando odeiam eles dão a beleza física, como uma&#8230; – finalmente Theo encarou-me, como se eu tivesse ultrapassado todos os limites, e a tempo dei-me conta de que estava para pronunciar a palavra maldição – &#8230;questão, um desafio. Para quem a tem, para quem não a tem. Para quem a teme, para quem a deseja&#8230; É como você disse&#8230; E é assim comigo. <em>Pensamos el mayor pero vivimos el detalle</em>&#8230; Queremos amar, e só conseguimos desejar possuir. Não, estou falando de todo mundo, quando preciso falar de mim&#8230; Quero amar, e só me vejo desejando possuir, ainda&#8230; e voltando à boate, se a pessoa tiver beleza verdadeira, vai sentir-se incomodada por atrair e por afastar, sem que participe a vontade dela, simplesmente a partir daquilo que ela aparenta, e não por aquilo que é&#8230; Theo&#8230; As melhores horas dos últimos dias eu passei com você. O seu olhar, o seu sorriso, o jeito como você inclina a cabeça, ou ergue os ombros, quando diz “tá bom”, quando rodopia&#8230; tudo, em você, foi para mim poesia. As tuas palavras, as tuas histórias, teu aperto de mão, tua companhia&#8230; A tua tranqüilidade, a tua empolgação, o teu choro, a tua alegria&#8230; Tudo intenso, tudo sincero, tudo puro – percebi que minha voz começava a tremer, em parte de emoção, mas também porque esfriara muito – E o teu abraço&#8230; Tem sido o olho do furacão, para mim, nestes últimos dias. Onde eu encontro refúgio, onde tudo parece estar certo quando está tão errado. Encontro silêncio contra o teu peito, e nele ouço o meu próprio coração – fechei os olhos, para não mais encara-lo, buscando um pouco esconder minha culpa. Devia ser bem tarde, pois a festa passara do auge – Encontro paz, contra teu peito&#8230; mas preciso dizer que prendo a respiração, mesmo, para evitar de sentir o teu cheiro – minha voz estava trêmula, e sentia meu corpo também começar a tremer – Desejo e paz. Faz dias que venho sentido isso, na sua presença. Desde o primeiro momento, e estou em luta. Sentindo culpa. Sentindo que estou te perdendo, traindo tua verdadeira beleza&#8230; E me traindo também.  Você já teve esse dilema? Adorar uma pessoa, ter tudo de bom com ela, e no entanto querer o que não se pode ter, juntos? E acabar com uma amizade por conta disso? Isso eu não gostaria que acontecesse entre nós, nunca. O que eu compartilho com você, não divido com mais ninguém, aqui no Brasil. É precioso, para mim. Mas às vezes levanta-se o meu desejo, e não sei se você o percebe, e como ele pode nos atrapalhar e apartar&#8230; Não sei, talvez eu esteja perdendo nossa amizade por conta da minha sinceridade. Mas se ela for continuar, eu precisava esclarecer o que sinto. Sinto-me bem, sinto-me aliviado, apesar de também estar sentindo medo&#8230; Obrigado por me ouvir&#8230; Acho que estou com frio.</p>
<p><a href="http://www.ryandaharsh.com/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-322" title="08--Ryan-as-Theo-PB" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/09/08-ryan-as-theo-pb.jpg?w=460&#038;h=598" alt="08--Ryan-as-Theo-PB" width="460" height="598" /></a></p>
<p>Theo ergueu-se, calmamente, e expirou longamente, imóvel, à minha frente .<br />
&#8211; Vou buscar um cobertor.<br />
&#8211; Está ficando tarde. Acho que eu já vou.<br />
&#8211; Então não tenho o direito de réplica? Eu volto rápido – disse, definitivo. E então surpreendeu-me ao tirar a camisa, e passa-la para mim – Veste isso, por enquanto. Está quente. E tem meu cheiro.</p>
<p>Ficou um instante parado à minha frente, de peito nu, os braços um pouco abertos numa atitude de quem nada tinha a esconder, não para exibir a própria beleza, mas antes para através dela acalmar-me, e depois vi-o afastar-se, pensativamente, com o bule de chá na mão. Costas poderosas, linha da cintura e das nádegas que a calça baixa deixava entrever&#8230; De repente, saiu correndo, gritando <em>tá gelado</em>!, sumindo dentro do apartamento. Em poucos segundos saiu de lá novamente, e ainda sem ter se vestido correu até mim, entregando-me um cobertor &#8212; mamilos pontudos e um pouco alongados como se fossem bocas, o abdômen ripado e trilhado pelo caminho de pelos loiros descendo do umbigo até  a virilha,  os pelos pubianos que a calça usada à moda baixa dos adolescentes revelava brotando da cueca, e o maravilhoso milagre grego dos músculos bem definidos acompanhando a crista ilíaca &#8212; e depois voltou para dentro, aos saltos, batendo os pés de encontro um ao outro em pleno ar. Quando pensava que poderia chorar, peguei-me rindo da coreografia do meu jovem amigo, que de novo me dava provas de ser mais corajoso e sincero do que eu, sem medo de expor-se &#8212; ao ridículo se fosse para gerar risadas, ou ao próprio corpo, desarmando sua beleza, como uma oferenda de paz.</p>
<p>Vesti a camisa de Theo, que era um ou dois números maior do que o meu, e senti seu cheiro e calor. Lembrei-me de Lissa, que dizia: você já reparou que onde há gente jovem, especialmente adolescentes, o ar é sempre mais quente, deve ser pelos hormônios em ebulição&#8230; Ao contrário deles, além da camisa quente do meu deus adolescente, precisei enrolar-me também no cobertor, de tecido rústico tingido de vermelho e laranja, as cores um pouco desbotadas típicas dos pigmentos naturais. Tive a sensação de que tinha sido comprado de gente das montanhas, talvez do Nepal  – porque me sentia pendurado sobre o topo da metrópole – ou das estepes frias, talvez da Mongólia – porque queria tanto ir para lá &#8211;,  fantasiando sobre aquele agasalho um pouco bruto, feito para abrigar, envolver e acolher, sem a sensação de conforto fácil dos sintéticos. Senti-me grato, pela gentileza de Theo, pelo trabalho dos tecelãos, dos cardadores, dos criadores de rebanho, por todas as virtudes da humanidade, por gerações de trabalho e esforço, pela sobrevivência da tradição e do conhecimento através dos milênios, permitindo agora proteger-me da friagem. Observei que as nuvens haviam se dissipado, e com exceção de uma ou outra gargalhada ou grito, a música e a festa silenciaram.</p>
<p><a href="http://www.richard-seaman.com/PhotoGalleries/index.html#TheTravelBug" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-321" title="08- BruneiStormhard warm light" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/09/08-bruneistormhard-light1.jpg?w=460&#038;h=345" alt="08- BruneiStormhard warm light" width="460" height="345" /></a></p>
<p>Despertou-me daquele sonho bom &#8212; irmanado na cadência de carroças, cavalos, teares e tendas das populações nômades &#8212; o retorno de Theo. Vestia uma malha leve e uma manta nos ombros,  trazia duas toucas tricotadas no Tibet,  o bule de chá fumegando, e uma caixa de chocolate <em>Valrhona</em>, que era o meu preferido. Aconchegamo-nos com os copos quentes, a massa espessa e amarga em combinações sofisticadas com frutas e castanhas, uma fonte de calor em cada coisa e todas, sobretudo a nossa companhia, passada a ameaça de tempestade. Rimo-nos desde debaixo de nossas toucas coloridas, baixadas sobre a testa, e que eu ainda amarrei sob o queixo como uma barbicha, Theo com  trancinhas escorrendo coloridas, dois gnomos num jardim suspenso. Não pretendia, e quando percebi tinha já começado a falar, para compartilhar mais, momentaneamente apaziguado por não ter sido rechaçado nem agredido pelo meu novo amigo, que afinal era um desconhecido, e por ainda ter o receio de ser rejeitado, e querer aproveitar o que podia ser a última chance de ser completamente sincero e verdadeiro com ele, e comigo mesmo:</p>
<p>&#8211; Eu falei sobre o meu desejo, mas não era sobre ele que eu queria falar &#8212; minha boca amarga do chocolate e azeda do damasco, o coração inquieto &#8212; Era sobre a injustiça do meu desejo. Não sei se isso ficou claro. O meu desejo me faz agir de maneira injusta. Torna-me grosseiro diante de qualquer coisa, mesmo a mais pura. Eu agora, diante de você – e lembrei-me de Lissa dizendo-me uma linha parecida, que ela se sentia suja enquanto eu parecia tão puro, e então percebi meu próprio pensamento, o preconceito que ela tinha comigo era o preconceito que eu tinha para com ele e, finalmente, para comigo mesmo – Eu desconsidero você, Theo. É isso. Não é o desejo, o problema. É o dar importância ou atenção exagerada ao meu julgamento estético. Eu te acho lindo. Abençoado com uma beleza esplêndida.  Julgando-te a partir disso, ficando só nisso, acho impensável você sofrer&#8230; Passo a te tratar como um anjo. Uma criatura perfeita, um privilegiado vivendo uma vida onde tudo são bênçãos e presentes – Theo baixou o olhar e sorriu tristemente – Eu sei. É essa a injustiça. Não é desejar-te, tornando-te um objeto. É tentar sair disso idealizando-te, tornando-te puro, imaculado, inacessível. Com uma e outra coisa eu te perco, te rejeito, te afasto de mim. Ou às vezes torno-me agressivo, para afastar você de mim, para afastar-me de você, só porque não sei lidar com o meu desejo, só porque ele pode te ferir, só porque ele pode botar tudo a perder. Eu te rejeito, e me rejeito. É isso. É não enxergar-te de verdade, o que me dói. Desejar-te puto ou fazer-te santo, mas sem pessoa nenhuma na embalagem, sem ser algum preenchendo &#8212; só imagem, só ideal, a partir de um julgamento estético que eu faço. O peito gostoso, ou então o coração de cristal – os dois combinam com um ideal de beleza que eu tenho, mas não o coração que sangra, que afinal e como o de todo mundo, sangra. Às vezes me vi pensando, como é que esse menino tão perfeito, talentoso, pode sofrer? Para quê, querer meditar? Para quê fechar estes olhos verdes tão lindos, senão para sonhar? – Theo balançava a cabeça levemente, confirmando, os ombros arriados, os longos braços pendendo, as mãos quase tocando a grama &#8212; Isso me dói. Isso me incomoda. O que quer que eu faça, é uma desmedida, um exagero, e sempre, eu perco você, Theo&#8230; o que você é, não o que você parece&#8230; e a partir do que você aparenta, aquilo que eu julgo ser você&#8230; Eu te esvazio&#8230; Isso é horrível. Para o bem ou para o mal, eu te esvazio. Essa é a injustiça. Parece difícil de entender? Acho que estou decepcionado comigo mesmo, por estar fazendo isso de novo, por estar perdendo você para uma imagem fantasiosa e pobre em minha cabeça, seja ela do gostoso ou do anjo. Gostaria tanto que, com você, o extremamente belo viesse a ser profundamente verdadeiro. Por isso estou sendo sincero com você. Só a verdade vai me redimir. A aparência sempre me danou, a vida inteira. Se você puder me entender. E ajudar. Se você quiser.</p>
<p>Depois de algum silêncio, estendi a mão na direção do meu amigo, dando a entender que ele podia falar, se quisesse &#8212; fazer uma reverência para encerrar minha fala, como era o código do mosteiro, pareceu-me excessivo. Observei Theo erguer-se da posição para a qual tinha escorrido, e de novo abrir peito, ombros, erguer o queixo, o olhar.</p>
<p>&#8211; Obrigado. Nunca tinha me sentido tão&#8230; – massacrado, insultado, eu estava pronto para ouvir &#8212; reconhecido. Acho que ninguém nunca prestou tanta atenção em mim, com tanta dedicação. Tantos detalhes percebidos, e em tão poucos dias. Você é um virtuose, e agradeço a sua atenção. E coloca com tanta delicadeza, por mais cru que seja&#8230; Você me deu o <em>insight</em>&#8230; Pode alguém dar um <em>insight </em>para outra pessoa? Você me ajudou a compreender a maneira como uma multidão de gente se relaciona comigo, no aeroporto ou na cama, entre os íntimos e os desconhecidos, os amigos ou os transeuntes da minha vida&#8230; Ninguém nunca tinha me presenteado com seu olhar, com uma visão tão clara de seu olhar voltada sobre mim, da maneira como me enxerga&#8230; E isso abre para mim&#8230; O porquê das pessoas se afastarem antes mesmo de eu tentar uma aproximação, ou de me invadirem antes de eu querer qualquer proximidade. É verdade, eu disse algo assim quando conversamos pela primeira vez, mas era um pensamento em elaboração, um sentimento que ainda não estava claro. Você talvez discorde de mim, mas no Brasil as pessoas são mais veladas, ou menos francas, e as atitudes menos claras. Apesar do Sol, o Brasil não é um país claro; apesar da luz, tudo aqui é velado, obscuro. Falta franqueza, falta clareza, falta transparência. Talvez seja só uma sensação, a de que sou menos lúcido aqui. Obrigado, de verdade. Com a sua&#8230; luz&#8230; eu posso fazer as pazes com esse país. E de mais de uma maneira porque, como você disse, também não tenho outro amigo assim, no Brasil. Aqui, além do Josh, nunca fiz amigos – e agora, você. Mas um amigo como você eu não tenho&#8230; neste mundo – Theo fechou os olhos e inspirou, como se partisse para outro mundo, sua Pasárgada pessoal onde fosse amigo do rei &#8212; Para mim também as melhores horas dos últimos dias foram com você – fez uma pausa, organizando os pensamentos &#8212; Tenho que te responder&#8230; Não sinto desejo por você – senti enrubescer-me &#8212; É mais do que isso. Não sei se é amor, mas está bem próximo disso – e me dei conta de que eu não falara em amor com ele, só em desejo &#8211;, dentro da experiência que de amor eu tenho. Inclui admiração, respeito, interesse. Fique à vontade com os meus mamilos e músculos e pelos&#8230; Você não achou nenhum cabelo dentro do <em>couscous</em>, achou? Porque  se tivesse encontrado, continuaria achando-os atraentes? Estou me lembrando de que ouvi alguém comparar nossa alma a um espelho. Quando a parte que reflete está virada para baixo, vemos o chão, vemos a matéria, tudo o que é denso, vemos a sombra. Quando a parte que reflete está voltada para cima, vemos o céu, vemos o espírito, o que é sutil, vemos a luz&#8230; Em vez de alma, os budistas diriam que assim é a mente&#8230; E ao pensar que nós somos esse espelho&#8230; Refletindo ora luz, ora sombras&#8230; Um amor sublime, um amor carnal&#8230; É bom pensar que temos a escolha de manejar esse espelho&#8230; O importante é termos no mínino uma alternância – a maior parte das pessoas não tem, como você disse, e o espelho fica continuamente voltado para baixo, para o chão&#8230; Meus olhos são como são. Se são belos, isso é a sua experiência deles. Você os vê, nesse momento, eu não – encarou-me, e pela primeira vez em todos aqueles dias bebi do olhar dele sem sentir culpa – O que você faz deles na verdade te pertence, não a mim. Então desfrute do que você puder criar. Beleza ou feiura é o teu julgamento, constituindo o teu mundo, não o meu.</p>
<p><a href="http://http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-325" title="08- Anton Antipov eyes pin light" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/09/08-anton-antipov-eyes-pin-light.jpg?w=460&#038;h=170" alt="08- Anton Antipov eyes pin light" width="460" height="170" /></a></p>
<p>&#8211;Sabe o que eu acho? – Theo riu – Se você me quer para amado&#8230; e eu te penso mestre&#8230; nunca vamos nos encontrar. Porque o amante necessita encontrar o amado; mestre e discípulo precisam se encontrar. Não sei citar de cor, mas Sócrates diz a um de seus <em>guapos</em> admiradores atenienses alguma coisa como: você está querendo trocar ferro por ouro, se enxerga em mim uma beleza que é superior à do teu corpo, se quer trocar comigo beleza por beleza, sabendo que uma é verdadeiramente bela, enquanto a outra só é vulgarmente bela&#8230; Você está querendo tirar vantagem de mim, diz Sócrates. Esse é o nosso caso, pois eu estou aqui tirando partido da beleza da sua alma e da sua prática&#8230; &#8212; foi minha vez de sorrir melancolicamente, incapaz de reconhecer essa beleza que ele dizia enxergar em mim &#8212; Isso está no <em>Banquete</em>, não está? Lembrei-me disso quando você falou sobre a verdade. Sócrates deixa claro que a única coisa que interessa é a verdade. Mesmo no amor. Palavras belas, palavras artísticas, palavras bem compostas, nada interessa tanto quanto a verdade, mesmo que seja crua, que seja miserável, ou dolorida. Como você fez, agora. O que você acabou de compartilhar é tão profundamente a sua verdade, que se torna uma verdade para mim também, embora a minha seja e venha à minha maneira. É quando compartilhamos um <em>insight</em>. De novo, obrigado.</p>
<p>&#8211; Você já leu Platão? – interrompi, incomodado. Recordei-me que ele havia mencionado o Mito da Caverna, mas poderia ser de só ter ouvido falar.<br />
&#8211; Claro.<br />
&#8211; E você já leu <em>Harry Porter</em>?<br />
&#8211; Não – Theo riu por um instante, e depois encarou-me, tornado sério – Esse é outro ponto da imagem que você tem de mim. E que me incomoda muito mais do que você me achar bonito e ficar de olho nas minhas coxas – fiquei sem graça, como era a intenção dele – Como foi que você disse, naquele dia? Que eu era muito jovem para precisar de um mestre espiritual&#8230; Agora há pouco você disse que eu era muito bonito para precisar meditar&#8230; – Theo desafiou-me, com o queixo e o olhar – Isso é estúpido, você sabe? É preconceituoso – e então refez a pergunta de horas atrás – De verdade, por que você não crê em mim? Você acha que eu sou muito criança, não acha?</p>
<p>&#8211; Não é isso. Mas não é&#8230; normal&#8230; alguém na sua idade não ir para a balada para ficar tomando chá&#8230; e falar de Platão&#8230; e citar William Blake.<br />
&#8211; Preconceito. E você – retrucou Theo &#8212; com que idade leu Platão?<br />
&#8211; Não sei&#8230; Eu estava na faculdade, foi presente de uma amiga, Clássicos de Bolso&#8230; Entre os 17 e os 22 anos, é o melhor que posso dizer.<br />
&#8211; Você acha que eu tenho menos de 17 anos!?! – Theo espantou-se.<br />
&#8211; Que idade você tem, Theo?<br />
&#8211; Fiz 19, agora em Março – desfeito o mistério, aliviado pensei que não mais corria o risco de ser preso, pronunciando desavisado um discurso que poderia vir a ser pedófilo. Theo prosseguiu &#8212; Sou muito jovem. Esse é seu real problema comigo. Quando você começou mencionando nossa primeira conversa, pensei que fosse tocar nisso, justamente&#8230; Essa conversa de beleza, de desejo&#8230; No que me toca, tá tudo bem para mim. Não me agride, não me ofende. Pelo contrário, vindo de você, é um elogio, e eu me sinto valorizado, com a sua atenção. Ficou claro para mim que é alguma questão de culpa interna, não tem nada a ver comigo. Você concorda? – Theo parecia agora estar decepcionado com o narrador.</p>
<p>&#8211; Não é isso. É só que ter interesse por meditação na sua idade&#8230; Li Platão bem jovem, é verdade, e agora me parece bem adequado para um certo tipo de inquietude que se tem nessa idade – olhando o pouco espaço físico que nos separava, não mais de meio metro, desde que nos debruçáramos pra fora das poltronas e na direção um do outro, para conversar mais baixo na noite subitamente silenciosa, dava-me conta dos quase exatos vinte anos que nos separavam &#8212; mas naquela época nem sonhava meditar&#8230; No máximo fui aprender <em>Tai Chi</em> e <em>Yoga</em>&#8230;</p>
<p>&#8211; Tá vendo? Você percebe? – sentia a respiração doce e quente de Theo alcançar-me, quando ele se exaltava – Acontece que não tem idade nenhuma! Tem só a vida, e a vida de cada um. E cada um sabe onde dói, e quanto, e como pretende sair do sofrimento, ou não&#8230; Talvez, quando você tinha a minha idade, te doesse menos do que dói a mim. É isso, é assim. Não tem idade. Esquece a minha, esquece a sua. <em>Tem esse momento, agora, em que nos encontramos, em que estamos aqui</em>&#8230; – ele estendeu as mãos na minha direção – Me dá as tuas&#8230; Fecha os olhos&#8230; <em>Sente&#8230; Agora&#8230; O planeta. Onde nós estamos</em>&#8230; Gente morrendo. E nascendo.  Aos montes, nesse exato momento&#8230; Gente que morre em todas as idades, velhos, jovens ou crianças, até bebês nascem mortos&#8230; O prédio debaixo de nós, os prédios ao nosso redor&#8230; Sente o gramado debaixo de nós. Tem centenas de insetos aqui, milhares, milhões de seres só nesse pedaço de jardim. Ou no teu intestino, as bactérias pelo teu corpo&#8230; Pessoas, animais e outros seres&#8230; vegetais, muitos mais, trilhões, zilhões deles&#8230; Nesse momento. Grandes ou pequenos, visíveis ou invisíveis&#8230; nascendo, morrendo&#8230; Sente&#8230; Por toda parte, por todo lado, acima, abaixo, dentro e fora&#8230; Morte, morte, morte, morte, morte, morte, nascimento, nascimento, nascimento, nascimento, nascimento, mortenascimento, nascimentomorte&#8230; Não dá nem para tocar a idéia do que está acontecendo, a cada momento, pois são muitos zilhões de mortes e nascimentos, a cada momento&#8230; Sente só&#8230; é impressionante, ter essa consciência&#8230; e então não há nada, não há ninguém, tem só esse momento, o seu, o meu, com uma sutil e tênue diferença entre vida e morte&#8230; que, no final, é a mesma coisa, um momento&#8230; minha vida agora, e a minha morte a qualquer momento&#8230; Momento, momento, momento, momento&#8230; Só agora percebo que esta palavra é composta de <em>mo-</em>rte e nasci<em>-mento</em>&#8230; Agora, você e eu, aqui, vivos, de mãos dadas, respirando o mesmo ar&#8230; Celebrando a vida&#8230; Sente&#8230; É uma explosão contínua, uma pulsação que nunca baixa, e da qual por um período participamos, para então retornar a esse silêncio que também é pulsação&#8230; A vida e a morte irmanadas, a todo momento, eu e você agora&#8230;</p>
<p><a href="http://www.caspardavidfriedrich.org/the-complete-works.html" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-274" title="08- Sunset_by_Caspar_David_Friedrich" src="http://osdiasextraordinarios.files.wordpress.com/2009/09/08-sunset_by_caspar_david_friedrich.jpg?w=460&#038;h=369" alt="08- Sunset_by_Caspar_David_Friedrich" width="460" height="369" /></a></p>
<p>Fiquei em silêncio, celebrando os nossos corações pulsando unidos nas palmas de nossas mãos, e nossas respirações em circuito, inspirando o ar que Theo expirava, e que ele inspirava quando eu expirava&#8230; Ao nosso redor havia um silêncio pleno, profundo, no qual morte e vida continuavam indivisíveis a existirem em cada segundo, e na verdade não havia nem como aprisionar a idéia de um único segundo, pois aquela alternância de vida e morte punha em marcha todos os segundos por todo o universo, vida e morte tão rápido, morte e vida tão simultâneas que nada diferenciava os segundos, nada os aprisionava, nada os detinha, nada os retinha, nenhuma idéia, nenhum conceito, nenhum momento de nascimento e morte, pois todos sem exceção faziam a vida&#8230; Ficamos em silêncio, de olhos fechados, mãos unidas, silêncio dentro, silêncio fora, e não me lembro como adormeci, mas quando acordei Theo tinha encostado a poltrona dele na minha, de forma a dar apoio à minha cabeça contra seu ombro. Um carinho leve de sua mão em minha nuca despertou-me, quando ele disse:</p>
<p>&#8211; <em>Doucement&#8230; Tout doucement</em>&#8230; O Sol já vai nascer&#8230;</p>
<p>Aproximamo-nos da mureta da frente. Eu ia um pouco zonzo, amparado por Theo. Desde o mosteiro que não assistia a um nascer do Sol, e há muitos, muitos anos, que não o fazia em São Paulo. Era coisa comum de acontecer, na minha juventude – quando tinha a idade do meu amigo. O ar estava gelado, tropecei uma vez no cobertor, ainda com sono e surpreso. As nuvens tinham sumido, o encanto do gramado estrelado esmorecia. A meu lado, Theo sacou o <em>ipod</em>, e refreei uma careta quando ele disse que queria ouvir uma música junto comigo. Preferiria o quase silêncio. Dividimos o mesmo fone de ouvido, minha orelha esquerda e a orelha direita dele &#8212; nas outras, pássaros cantavam e uns poucos carros rumorejavam, e para ficarmos mais próximos com aquele fio pendurado entre nós, Theo passou o  braço por cima do meu ombro. Ele esperou até o Sol despontar para apertar o <em>play</em>, e ao vir junto com a marcação de uma bateria um incômodo chiado como se fosse de rádio,  já me arrependi de ter concordado em ter trilha sonora &#8212; mas em seguida me surpreendi, com um sopro de piano, dos mais belos que já ouvi em minha vida. Estremeci. O baixo adentrou numa grave, profunda explosão, sublinhando o jorro do piano fluindo dos meus ouvidos direto para o coração. Música milagrosa, sublime e celeste, evoluindo lenta e misteriosa, subindo alto, tendo mergulhado fundo &#8212;  como a própria trajetória do sol, ascendendo à nossa frente. Observei meu lindo amigo, que tinha lágrimas nos olhos, fixos no nascente, e que chorou lento, chorou doce &#8212; ele chorou delicado. Passei um braço às suas costas, estreitando-nos, até sua cabeça pender sobre a minha &#8212; depois descobriria ter sido aquela a música e E.S.T. o conjunto preferidos de Angelo, o irmão de Theo, que como eu adorava jazz. Era a oferta mais generosa, íntima e bela que ele poderia me ter feito, ao compartilhar a herança do irmão adorado comigo, mas naquela manhã pensei que o mais precioso fora ele dizer-me, num sussurro em seguida à música:</p>
<p>&#8211; Se quiser me amar, se você puder&#8230; Você é bem-vindo. E desde já, é retribuído.</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/09/15/trecho-viii-from-gagarins-point-of-view/"><img src="http://img.youtube.com/vi/hYM9uP7neRE/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p>(compartilho com você a nossa trilha sonora; recomendo ouvir com fones de ouvido, ao nascente, na companhia do seu Deus)</p>
<p style="text-align:center;">Leia o <a href="http://osdiasextraordinarios.wordpress.com/2009/09/25/trecho-x-travelling/" target="_self"><em><strong>Trecho X &#8211; Travelling</strong></em></a></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/osdiasextraordinarios.wordpress.com/242/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=osdiasextraordinarios.wordpress.com&amp;blog=8438808&amp;post=242&amp;subd=osdiasextraordinarios&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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